sexta-feira, 8 de junho de 2018

"Sugestão do Tripulante": A 88ª Feira do Livro de Lisboa à boleia do 24E

Até 10 de Junho «há mais vida no Parque» e tudo porque ali decorre a 88ª Edição da Feira do Livro de Lisboa. Este ano e à semelhança do que tem vindo a acontecer todos os anos, sugiro uma visita à feira do livro mas à boleia do Eléctrico. É certo que eles ainda não chegam ao Marquês de Pombal, mas porque não, juntar o útil ao agradável e aproveitar também para conhecer o regressado 24E? 

A viagem pode começar no Largo do Camões, prosseguindo pelo Príncipe Real, Rato até chegar às Amoreiras onde sugiro que desça o estribo do eléctrico e caminhe em direcção ao Marquês de Pombal que fica apenas a 7 minutos a pé da paragem do 24E. Conforme vai descendo a Rua Joaquim António de Aguiar, vai tendo contacto com os pavilhões e quiosques assim como todo um ambiente único e característico desta feira que atrai sempre milhares de leitores.

E este ano a feira está maior, mais pavilhões, mais espaços para as crianças e de refeição e até um pavilhão para doar os livros que já não quer. Há lançamentos, sessões de autógrafos, música, animação e até uma estação de rádio no recinto. Há de tudo  e para todos os gostos, e como é hábito os livros, esses têm sempre um preço de feira e mais convidativo.

A sós ou com a família, programe um dia diferente pela feira do livro que este ano tem também diversos livros onde o eléctrico marca presença na capa, como um chamariz perfeito, sobretudo se tivermos em conta que até livros de culinária trazem já o eléctrico na capa. Este ano o "Diário do Tripulante" destaca então alguns dos livros que se encontram na feira cujo a temática é Lisboa, Transportes, Viagens ou simplesmente porque um "amarelo" está na capa. Embarque então nas novidades e sugestões que seleccionamos para esta 88ª. Edição da Feira do Livro de Lisboa e boas leituras.

No stand A12 as edições dos CTT apresentam o livro "Transportes Públicos Urbanos em Portugal" e um pouco mais acima do lado esquerdo vai poder encontrar um livro de Marina Tavares Dias "História do Eléctrico da Carris". Na zona da Porto Editora os guias de viagem surgem em destaque e como não poderia deixar de ser sugiro os guias para visita a Praga, se bem que o melhor não está na feira. "Lisboa e Praga de Eléctrico" pode ser adquirido aqui via blogue por se tratar de uma edição de autor. 

Mas voltando à feira e aos livros que por lá pode encontrar, "28 - Crónica de um percurso" está também num dos stands da editora Livros do Horizonte. Depois a maior das surpresas está numa das novidades deste ano de 2018 na zona do grupo Leya, um livro de capa grossa com um eléctrico de Lisboa, chama a atenção, mas vai também chamar-lhe o apetite porque o livro é sobre a gastronomia de Lisboa, no stand Casa das Letras.

Tiago Rebelo apresenta na capa do seu livro "O Homem que sonhava ser Hitler", o eléctrico 28E a entrar nas Portas do Sol porque o romance desenrola-se nas ruas da Graça, e está disponível no stand da ASA. No espaço dos pequenos editores vai poder encontrar livros sobre os autocarros ingleses a preços pouco amigos para as carteiras mais leves, mas que enriquecerão certamente a sua biblioteca.  Mas muito mais há para ler neste certame que este ano não tem tido ajuda do São Pedro, mas que estará ainda disponível até ao dia de Santo António. 

Se gosta de postais, "Os Eléctricos de Lisboa - Livro de Postais" é uma excelente sugestão, mas que por se tratar de uma edição de autor também não está presente na Feira do Livro, mas pode ser adquirido aqui no blogue, ou não fosse igualmente uma edição "Diário do Tripulante".

A Feira do livro de Lisboa realiza-se no Parque Eduardo VII em Lisboa, virada para o Marquês Pombal, mas se vem da zona mais a norte tem o 713 e o 742. Já do lado sul da feira, a rotunda do Marquês Pombal é ponto de encontro de várias carreiras e entre elas estão as, 702, 711, 712, 720, 723, 727, 736, 738, 744, 746, 748, 783 e claro está a poucos metros de distância o eléctrico 24E (Amoreiras) e os seus horários e percursos podem ser consultados no site da Carris em www.carris.pt

Desejo portanto boas leituras que podem ser feitas em casa, no metro, na escola, no trabalho ou a bordo dos veículos da CCFL. 

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Percurso do 28E finalmente restabelecido: "Habemus 28E em Alfama!"

Suspensa entre o Largo da Graça e o Largo das Portas do Sol, desde 19 de Janeiro de 2018 devido ao rebentamento de uma conduta nas Escolas Gerais, a carreira de eléctrico mais procurada do mundo - o 28E, voltou hoje à sua normalidade, concluídas que estão as obras naquela artéria histórica da cidade de Lisboa. A manhã foi portanto de festa para os moradores que batiam palmas e acenavam ao regresso do 28E às ruas de Alfama. Na primeira viagem que fiz com destino aos Prazeres, mesmo a meio do estreito da Rua das Escolas Gerais, duas idosas nem queriam acreditar. Ao verem o eléctrico deu para perceber pelos lábios o desabafo: «Até que enfim!» ao mesmo tempo que me faziam sinal a perguntar se também já havia para a Graça. Disse-lhes que sim e o sorriso dizia tudo!

Apenas a chuva miudinha estava a atrapalhar esta manhã com a linha a ficar muito escorregadia, mas como se costuma dizer referente aos casamentos, digamos que este regresso do 28E a estas ruas é também um casamento perfeito e por isso mesmo, poder-se-á dizer que "regresso molhado, regresso abençoado". Cinquenta minutos depois da primeira partida lá cheguei aos Prazeres sem grandes percalços mas com muita areia gasta pelo caminho porque a aderência aos carris assim obrigava. Os turistas mais madrugadores, encantados com o trajecto não dispensavam qualquer motivo para fotografar, até mesmo o virar da bandeira do destino que passava então a ter a inscrição "M.Moniz", local de onde tinham partido.

No regresso ao centro, desço com todo o cuidado a Rua Domingos Sequeira que mais parece a Amazónia numa manhã primaveril com chuva como a de hoje, com a copa das árvores a invadirem o terreno do eléctrico, o que tem impossibilitado o uso do sistema de contacto com a rede aérea utilizado pelo 25E - o Pantógrafo. A causa é o facto das ramagens estarem demasiado próximas da rede aérea onde correm os 600V de corrente contínua que dão vida aos amerelos da carris, que são autênticos postais vivos da cidade de Lisboa. E tudo porque o corte de árvores passou a ser uma competência das Juntas de Freguesia e neste caso a Freguesia da Estrela, que embora já tenha conhecimento há mais de uma semana da situação, continua por proceder ao corte das mesmas. Esperemos que não venha a causar nenhum acidente ou constrangimento na circulação dos eléctricos. 

Mas voltando ao 28E e às ruas de Alfama, já depois de subir a colina de Santa Catarina e mergulhar no Chiado e Baixa, a primeira passagem trouxe a experiência de utilizar o traçado novo colocado em São Tomé, que passa agora a ter uma via dupla ao contrário do que acontecia até então, onde o eléctrico com destino ao Marim Moniz tinha de aguardar que uma alma caridosa lhe desse passagem, não porque não tivesse prioridade ao circular sobre carris, mas porque cada vez mais o automobilista na cidade de Lisboa, pensa única e exclusivamente no seu próprio umbigo. Assim perde-se na história do percurso e seu simbolismo, mas ganha-se em velocidade comercial, apesar da zona não ser propícia a grandes velocidades. 

A passagem pela subida para São Vicente quase que se parecia a uma bancada num estádio de futebol quando se festeja um golo. Sentadas sobre uma travessa de madeira apoiada nos gradeamentos do passeio, como sempre se fez naquele bairro, 3 moradoras levantam os dois braços. Não gritam "golooo", mas gritam "Aleluia!! 28 voltou!", porque foram mais de 4 meses privados ou condicionados ao uso do transporte público. Recorde-se que para a Graça apenas havia o 734 em São Vicente. Agora é altura para se festejar o Santo António e desfrutar deste regresso que traz igualmente algum (pouco) descanso mental aos tripulantes desta carreira que sofreram fortemente com estas alterações causadas pelas obras. É tempo de respirar e ganhar fôlego porque depois das festas mais obras estão para vir na zona da Sé e o 28E poderá sofrer novamente alterações.

Já a chegar à paragem de São Vicente uma inglesa solta um "Oh my goodd!" e levanta-se na minha direcção e pergunta o porquê de tantas reacções à passagem do eléctrico. Expliquei que se devia a uma ausência do eléctrico há cerca de 4 meses e a senhora lá entendeu e terminou dizendo "Fantastic!"

Portanto termino assim de forma fantástica este fantástico regresso ao 28E e do 28E às ruas de Alfama, por sinal o bairro que me viu crescer, onde passei grandes momentos da minha infância que recordo a cada passagem.  


sexta-feira, 18 de maio de 2018

Uma salada russa de perguntas no quotidiano dos carris de Lisboa...

"Bom dia moço... esse é o cárrês qui vai no Além?", começava assim mais um dia ao volante do autocarro que substituiu o meu eléctrico esta manhã ao longo do trajecto da carreira 15E, devido a uma avaria. A pergunta vinha de alguém do outro lado do Atlântico e não entendendo a questão, pedi que repetisse. "Esse cárrês vai no Além. Nossa no Belém? Disculpa." E lá consegui entender que a ideia era saber se era aquele carris que ia para Belém. Tudo poderia ser anormal ou não estivéssemos nos em plena Praça do Comércio onde nos últimos meses os dialectos têm sido dos mais variados do mundo e acima de tudo da Europa até porque fomos também a capital da eurovisão. "You allez aux mónaster San Jerónimo?" é a pergunta que surge do lado de fora, de quem já está  com um pé dentro, pronto a ganhar impulso rumo a mais uma viagem num transporte público que aparenta ser diferente de toda a parte do mundo.

O validador tem as setas e os desenhos dos cartões indicando o local onde devem validar, mas a maioria acha que nós somos uns totós e que na verdade deve ser no visor que devem validar os cartões. Depois questionam "porque no passa?"... Porque será?

Mais uma chegada a Belém, paragem terminal. Informo que terminou a viagem e peço que saiam. Restam 2 turistas sentados a olharem com um ar assustado, mas ao mesmo tempo, de quem são os únicos que estão bem. Informo que acabou e peço que saiam. "But were is Belém Tower?" É um pouco mais à frente explico em inglês e digo-lhes que deviam ter entrado no 15E com destino a Algés mas eles insistem... "But the bus say in front Belém" ora pois claro e diz muito bem, embora baixinho.

Inicia-se mais uma viagem e em frente aos pasteis entram 3 sexagenárias oriundas da Rússia ou país vizinho. Tento sempre ajudar estes povos que nos visitam e que expressam alguma dificuldade no inglês. Pedem-me três bilhetes para "go tramvaj castielo". Queriam 3 bilhetes até à paragem onde pudessem apanhar um eléctrico para o castelo. Como responder inglês provavelmente seria chinês para elas, digo-lhes que sim podiam ir comigo e eram 5 euros e 55 cêntimos. Elas olham umas para as outras como quem não tinha entendido o «five and fifty five cents». Como o checo é semelhante, e como tenho aprendido ao longo dos últimos anos, digo-lhes «pět a padesát pět» e elas respondem alegremente com um toque dourado no sorriso, "ah aaa, spacibaaa", ao mesmo tempo que me entregam 10 euros. Faço-lhes o troco e digo que podem ir até ao fim da viagem. E lá se sentaram.

Depois no meio de tanto estrangeiro lá surge assim de repente vindo lá de trás e já na paragem do corpo santo um rapaz que se dirige a mim chateado e diz "ó chefe isto é todos os dias o mesmo. Boa tarde desculpe. Mas os autocarros de turismo param isto tudo e nós que vamos trabalhar temos de esperar..." Apenas ouvi e nem respondi, porque o trânsito estava parado apenas porque o semáforo que dá acesso à Praça do Comércio tarda sempre em dar luz verde. 

E assim foi decorrendo o dia que terminou com uma recolha a Santo Amaro neste dia Internacional dos Museus, onde o 535 fez as honras da casa ao transportar os visitantes entre o núcleo 1 e 2. Não resisti a colocar uns pontos e conduzir o veículo que outrora transportou milhares de passageiros pelas ruas de Lisboa. E assim vai o quotidiano pelos carris de Lisboa.

terça-feira, 8 de maio de 2018

[Off Topic]: Desfile anual do Carro Eléctrico no Porto aconteceu no passado sábado

Como tem acontecido nos anos anteriores, a STCP reservou o primeiro sábado de Maio para colocar na rua o espólio do seu museu de Massarelos, naquele que é conhecido pelo desfile anual do carro eléctrico. Assim no passado dia 5 foram centenas de pessoas que se deslocaram a Massarelos, ao Infante e à Foz percorrendo todo o eixo ribeirinho a bordo dos veículos que fazem parte da história do Porto. Além das vivências que permitiu aos portuenses, esta iniciativa contou uma vez mais com animação ao longo do trajecto, tendo inclusive este ano um especial destaque para o 100º aniversário da conclusão da linha para São Pedro da Cova, essencial na época para a ligação entre aquela localidade de tradição mineira e as redes ferroviárias da cidade e do país.

Com o ingresso a custar 5.00€ era permitida a entrada a bordo de todos os veículos que faziam parte do desfile, sendo a entrada no museu gratuita ao longo da tarde com animação e divulgação de artesanato no seu interior. Foram muitos os turistas, entusiastas e portuenses que decidiram marcar uma vez mais presença e encher os eléctricos, provando que a história pode sempre fazer parte do presente, quando há vontade para que assim seja.

E como cá por Lisboa há muito que não se fazem estas iniciativas, o Diário do Tripulante, viajou uma vez mais até à cidade do Porto para assistir e participar neste desfile onde a família dos eléctricos se junta para partilhar histórias, emoções e até situações do dia-a-dia a bordo do veículos que circulam sobre carris.

Aqui fica uma pequena amostra do desfile deste ano, como sugestão para que aqui na capital também se aproveite o turismo para este tipo de iniciativas que atraem sempre centenas de pessoas para o transporte público.

sábado, 14 de abril de 2018

A verdadeira essência dos "velhos do Restelo" a bordo da carreira 15E

Poderia ser um dia como tantos outros na carreira 15E, com um vai e vem constante de carros de um lado para outro, turistas que se atropelam para entrar e sair, mesmo quando há uma porta para entrada e uma para saída, no autocarro que costuma estar afecto ao reforço da carreira, mas lá haveria de chegar aquela parte próxima do almoço em que na Paragem de Belém com destino à Praça da Figueira, haveria de estar alguém para tornar diferente ou igual a tantas outras, a manhã deste sábado. A fila de autocarros e eléctricos prolongava-se alguns metros e na minha frente seguia o 729 que por sua vez circulava atrás do eléctrico articulado que estava prestes a chegar à paragem para largar e receber passageiros. Eu estava sentado ao volante aguardando a minha vez para poder abrir portas e ver os turistas entrarem como verdadeiros "Obvikwelos" em busca de um lugar sentado.

E quando estamos a menos de 4 metros na paragem, o suficiente para estar já encostado à ilha das paragens mesmo em frente aos Pasteis de Belém, eis que dispara o alarme da emergência como se de um tiro de partida se tratasse numa qualquer corrida dos jogos olímpicos. Mas é falso alarme. Apenas actos de turistas que julgam que o botão de emergência, mesmo que coberto de uma borracha transparente e com necessidade de alguma pressão para ser accionado, é o botão mágico da abertura da porta para poderem entrar. Mas esse apenas eu tenho acesso. Indico-lhes que a paragem é mais à frente.

Quando chega a minha vez de receber passageiros já são poucos os que restam porque entretanto seguiram viagem no eléctrico que estava na frente do 729. Restaram alguns habitantes locais provenientes desse mesmo 729, que embora chateados saúdam-me e sentam-se. Mas bastou arrancar para começarem os desabafos, e diga-se nada simpáticos para com o colega do 729... «Estes velhos que já deviam estar na reforma... Pedi-lhe para abrir a porta para apanhar o eléctrico e disse que não podia, vejam só», exclamava algo exaltado um senhor alto, magro de barbas cumpridas e óculos de sol. De imediato ganhou adeptos no banco da frente. «Esquecem-se - mas não são todos! - que se não fôssemos nós a viajar nem tinham dinheiro para lhes pagar o ordenado...» dizia com toda clareza a senhora da frente.   

Esquecem-se estes passageiros das regras e que para serem respeitados têm de se dar ao respeito, contudo, de imediato a conversa e os desabafos seguiram outros rumos. O senhor das barbas, prosseguia com a palavra... «o ser humano é o ser mais ruim ao cimo da terra. Não vê estes bandidos a matarem inocentes?! É o início da 3ª. Guerra Mundial. Esse Trampa que é translocado e ainda o apoiam...» e a plateia não aplaudia mas concordava. «Nunca vi isto como está agora, anda tudo à balda, é mães a matar filhas é pais a fazerem relações sexuais com as filhas, isto tá tudo perdido», rematava a senhora da fila oposta.

Mais uma paragem e mais um tema de conversa, mas sempre com o senhor das barbas como actor principal. «Ó minha senhora, eu já vivi muito, eu quero é ter dinheiro para comer, o resto que se lixe. Se pudesse ajudava muita gente, aliás até já ajudei bastante por isso é que não tenho nada», exclamava em tom alto para que não restassem dúvidas. «Agora dizer que não podia abrir a porta? Isto no tempo dos ingleses é que andava na linha...», voltava atrás na conversa, mas com mais adeptos noutros temas.

Provavelmente o senhor das barbas até está aqui :) 
Uns entravam, outros saiam, uns abandonavam a conversa e outros juntavam-se ao mesmo tempo que outros limitavam-se a ouvir como era o meu caso. «Este homem que está aqui foi profissional de futebol pelo Belenenses, Braga e Porto, fui 16 vezes internacional e já tive muito dinheiro comigo, por isso agora quero é ter o essencial para sobreviver. Formei os meus filhos e comprei-lhes casa, eles é que são a minha família. Irmãos e etc... queriam era andar a passear com as mulas. Agora admite-se um rapaz no continente tirar 2 carcaças para comer e o segurança ir atrás dele e chamar a polícia? Disse: não chama nada, eu pago as carcaças ao rapaz.» Contava ao mesmo tempo que dizia «até me estou a arrepiar, porque faço de coração, não é por gabarolice».

A certa altura chega-se à conclusão que o futebol actual «está um nojo, por isso é que eu não vejo. Só tenho orgulho no Ronaldo ser português e por ser o mais humilde dessa gente toda. Querem-lhe é estragar a carreira com as gajas a quem ele não passa cartão e que dizem que foram para a cama com ele...», dizia convicto, ao ponto de tornar longa a viagem e  acerta altura o monólogo, que já só ia sendo interrompido pela senhora da frente dizendo «o senhor está revoltado, tenha calma que até lhe faz mal».

A certa altura já desorientado com o debate e com a mistura de temas, sai no Cais do Sodré com um pé e entra com outro porque «nem é aqui e já estou a sair...», até que à entrada da Rua da Prata pergunta-me se não efectuo paragem ali. Digo-lhe que não porque é a carreira 15E. «Obrigado jovem, isto é que é cordialidade, perguntar e responder como deve ser, agora pedir para abrir a porta e dizer que não pode, quando estava junto ao passeio?!», desabafava uma vez mais sobre a situação que lhe havia transtornado a manhã.

O debate chegava no entanto ao fim com o fim da viagem na Praça da Figueira, numa viagem onde se falou da Carris e da sua história, da 2.ª guerra mundial, do Trump, da possível 3ª guerra mundial, do futebol do Ronaldo e do tempo do senhor das barbas que com 70 anos afirmava a cada frase já ter vivido muito por este mundo fora. E assim foi a volta ao mundo na carreira 15E com vivências, desabafos e revolta daquele a que se pode realmente apelidar de verdadeiro "velho do Restelo" dado o seu palmarés. 




quarta-feira, 11 de abril de 2018

[Foto-Reportagem]: As primeiras 24 imagens do 24E em modo formação

Suspensa a 28 de Agosto de 1995, a linha entre o Cais do Sodré e Campolide que tinha sido reconstruída quase na sua totalidade, viu-se obrigada a ser interrompida devido a obras da construção do parque de estacionamento de Campolide, estando previsto o restabelecimento da linha no Verão de 2001. Contudo a gestão camarária mudou nas eleições seguintes e desde então o seu regresso nesta versão final da carreira 24 entre o Cais do Sodré e Campolide, (que outrora chegou a passar pela Praça do Chile, Alto de São João, Santa Apolónia até chegar à R.Alfândega) passou para segundo plano.

Desde então o seu regresso, sempre defendido pelas populações de Campolide e por entusiastas deste meio de transporte, foram bandeiras eleitorais com constantes promessas. Promessas essas que agora Fernando Medina decidiu tornar realidade, com a passagem da gestão da Carris para a Câmara Municipal de Lisboa. E hoje o eléctrico 574 foi o primeiro a regressar aos carris neste troço que agora será restabelecido, numa fase inicial entre o Largo Camões e Campolide, estando previsto para mais tarde o regresso do 24 à sua última versão com partida no Cais do Sodré rumo a Campolide.

Ainda sem data oficial para a inauguração, e segundo o "Diário do Tripulante" conseguiu apurar, tudo aponta para que possa ocorrer a 24 de Abril de 2018, mas até lá há alguns ajustes a serem feitos na rede aérea e decorrerão as formações de tripulantes que se iniciaram nesta tarde de quarta-feira, depois da manhã ter sido reservada aos formadores, entre os quais estavam ainda antigos guarda-freios que chegaram a trabalhar na carreira 24 antes do seu encerramento. Um dia inesquecível e histórico, com o regresso do amarelo ao Largo do Rato, Rua das Amoreiras e Campolide, para surpresa e alegria dos transeuntes, moradores e comerciantes. 

O Diário do Tripulante, não querendo deixar passar a oportunidade de assinalar este regresso, apresenta agora 24 imagens do 24E ainda em modo formação...

Depois do circuito turístico em 2015, agora a vez do serviço público voltar a estes carris
Todos gostam do Eléctrico: Moradores, comerciantes e turistas pararam para ver o eléctrico


No primeiro dia o convívio entre todos os utentes da via foi pacífico

O antigo terminal do Tram Tour dá agora lugar à carreira 24E

No primeiro dia de formação de tripulantes na Rua da Escola Politécnica

O 24E em formação no Largo de São Mamede

Ir às Amoreiras de Eléctrico vai voltar a estar na gíria...

Do Largo do Rato já se avista novamente o eléctrico amarelo

O 574 a entrar no Largo do Rato

O regresso do eléctrico 24 provou que valeu a pena não se desistir...

Os primeiros tripulantes em formação com o auxílio da Polícia Municipal

O 574 a cruzar a Av. Engenheiro Duarte Pacheco com o espaço da antiga estação da Carris ocupado agora pelas Amoreiras

Com destino ao Largo Camões em modo formação, entrando na Rua das Amoreiras

Cruzando o arco das Amoreiras, o eléctrico amarelo da Carris

A vizinhança veio à janela ver o eléctrico passar...

De volta ao Largo do Rato...

Uma imagem que até ao momento só era possível com recurso aos arquivos


Entrando na Rua da Escola Politécnica

Curvando a esquina da Pastelaria 1800 no Largo do Rato

Avisos para o regresso da circulação dos eléctricos nestas artérias

Ajustes nas localizações de paragens

Ao final da tarde com a equipa satisfeita com as primeiras impressões



terça-feira, 10 de abril de 2018

Quando inesperadamente África está tão perto, como o 24 está perto de regressar...



Mais uma volta mais uma viagem... mais uma semana e com muita chuva à mistura. E no meio de tanta confusão há sempre alguém que pergunta se do outro lado do rio é África, se o eléctrico vai para Algés, quando acabam por descer em Santo Amaro, ou se já não há eléctricos só porque aparece um autocarro com "15E P.Figueira" na bandeira de destino. Há de tudo e para todos os gostos. E depois há também aqueles momentos em que se chega ao terminal, todos os passageiros saem, faz-se a vistoria para ver se nada ficou esquecido e se regressa ao posto de condução. 

Resultado de imagem para telemovel a tocar
Assim foi hoje a meio da manhã quando em Algés, após a revista ao autocarro me desloquei ao posto de condução e fechei a folha da viagem ali terminada. Nada tinha ficado esquecido, ou melhor...

A certa altura coloco a moldura horária já com a folha fechada e pronta para nova viagem e eis que, ouço no meio do silêncio do autocarro, só interrompido pelo som da chuva lá fora, sons vindos de África...


Não seria esta possivelmente a banda mas o som e o ritmo estava próximo, através de um toque de telemóvel que afinal tinha ficado esquecido, embora não o tenha visto. Levantei-me e fui em busca do som... vinha do meio do autocarro, ali entalado entre a cadeira e o painel lateral do autocarro, porque provavelmente caiu do bolso da sua proprietária. Tocava mas estava já na hora de partir. Esperei chegar ao terminal seguinte e caso tocasse atendia, mas a pessoa procurava-o insistentemente ao longo da viagem.

De Algés ao Cais do Sodré, os ritmos africanos estiveram bem presentes animando aquela viagem. E porque foi no Cais do Sodré que uma passageira entra e questiona: "Bom dia senhor motorista, não encontraram aqui nenhum telemóvel?", questionei depois eu como era o telemóvel e o mesmo foi descrito. Disse-lhe que o tinha encontrado mas que não tinha atendido por estar a conduzir...

"Mas podias atender...!" 

Disse-lhe que não, porque estava ao volante. Mas cansada de esperar pelo regresso do autocarro vindo de Algés, desabafa "mas como então ia saber onde estava se não atendias?"  E lá lhe expliquei que caso não voltasse a tocar quando estivesse parado, ou caso não o procurassem, seria entregue na estação de recolha e a proprietária teria de contactar a Carris no sentido de saber se tinha sido encontrado. Esclarecida a senhora agradeceu e acrescentou "mas que sorte o senhor ter encontrado..." e lá foi descansada e a dar a conhecer aos seus contactos que o mesmo já estava e novo em seu poder...

E tudo isto depois de uma noite emocionante e histórica nos carris de Lisboa, com o regresso da Zorra Z-1 ao troço Príncipe Real - Campolide, com vista à preparação dos carris para o regresso da carreira 24E, isto 23 anos depois de ter sido suspensa. 


Boas viagens a bordo dos veículos da CCFL. 

[n.d.r.: O clip de música foi escolhido aleatóriamente por semelhança ao rítmo ouvido no autocarro inesperadamente]

segunda-feira, 2 de abril de 2018

[Off Topic]: Do entusiasmo de uma paixão ao concretizar de um sonho...

Terminada que está mais uma semana nos amarelos da Carris, com mais uma enchente registada na Páscoa, sempre muito procurada por nuestros hermanos, hoje deixo as vivências do quotidiano de parte e trago-vos um olhar sobre uma paixão que nasceu cedo, como a minha. A paixão pelos eléctricos. Já aqui vos trouxe uma sugestão de visita ao restaurante "O Marques" (atrás do Teatro D.Maria II, no Rossio), mas hoje trago-vos um pouco do que está para lá do balcão. O Paulo Marques começou a admirar os eléctricos no caminho para a escola e mais tarde para o trabalho, mas foi só em 1996 que adquiriu o seu primeiro eléctrico, aquele que depois de restaurado viria a circular fora do seu habitat, ou seja, rolando sobre os carris de Sintra.

Conhecido no meio dos entusiastas pelo Paulo Marques "dos eléctricos", não é o único apaixonado por este tradicional e antigo meio de transporte, mas talvez o mais fervoroso, levando a que os seus próprios sonhos se tornem realidade. E tal voltaria a acontecer em 2001 quando adquire um salão que dois anos mais tarde o colocaria em funcionamento e conforme na década de 60. Seguiu-se depois o "caixote" que antecedeu um novo "salão" de quatro motores, seguindo-se em 2006 um "700" e por aí fora até aos dias de hoje que conta já com cerca de 10 viaturas que outrora foram pertença da Carris. 

Mas nesta viagem pela história dos veículos que fizeram parte do quotidiano da Carris não vai apenas o Paulo. A ele juntou-se outro grande entusiasta que tem conduzido em conjunto este sonho. Pedro Mendes é um outro sonhador que tem tentado tornar real o que para muitos é mesmo um sonho. A força e determinação de ambos tem levado a aquisições recentes, como foi o caso do autocarro 123 que chegou às mãos destes entusiastas em 2016. No ano passado resgataram o 780 com vista também à sua preservação e restauro e já este ano trouxeram de volta a solo português um dos últimos nove salões a funcionarem nas ruas de Lisboa antes de ter sido abatido em 1996. O 361 está assim de volta!

A última viagem terá sido do Arco Cego para Santo Amaro, antes de rumar a Inglaterra onde esteve desde 1998, no Black Country Living Museum. Viajou para solo britânico com um objectivo de doar peças a outro "familiar" mas tal não veio a acontecer e passados 20 anos está agora de volta ao país onde terá sido mais feliz. A cobertura que o protegeu durante todos estes anos, permite vê-lo quase como saiu de serviço, de onde se destaca ainda a pintura publicitária feita à mão, como era prática corrente na empresa. 

Mas se pensa o leitor que apenas dois entusiastas são capazes de conduzir este sonho de voltar a devolver à população o passado dos transportes públicos em Lisboa, engana-se porque ao Paulo Marques e ao Pedro Mendes, juntam-se também os entusiastas Pedro Costa, o Pedro Barreto e o Gonçalo Cunha e Silva. Depois alguns amigos, ajudam a fechar esta engrenagem quer na descoberta de factos históricos e documentais, quer na ajuda com vista ao restauro. Eu próprio já tive o prazer de contribuir com mão de obra e sempre o farei assim que a minha disponibilidade o permitir, porque é uma excelente forma de recarregar baterias após o stress semanal, mas também porque junto destes amigos aprendo sempre imenso sobre o passado da empresa que me orgulho de representar. 

Este grupo de amigos são a prova viva de que quando acreditamos num sonho, devemos lutar por ele.  

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