domingo, 7 de maio de 2017

E vão 10... a conduzir lisboetas e estrangeiros pelas colinas de Lisboa


Foto de Rafael Santos.E vão 10! Em 2007, neste mesmo dia 7 de Maio, começava uma nova etapa na minha carreira profissional. Depois de crescer no bairro de Alfama no meio do vai e vem constante dos eléctricos que cruzavam as Escolas Gerais, e de ter escolhido o jornalismo televisivo como formação profissional após o ensino secundário, quis o destino que fosse aos comandos dos eléctricos que viria a passar grande parte do meu dia-a-dia. Interessado desde cedo pelos transportes públicos, nomeadamente os da Carris porque eram os que me levavam e traziam da escola, a entrada da Carris viria a mostrar-me o outro lado da empresa, passando assim a ver como funcionavam as coisas do lado de dentro e passava também eu a representar essa marca centenária.
Em 2012, durante a formação de Eléctricos Articulados com o
formador Cardoso e com o colega Gaspar...


Inscrevi-me como Guarda-freio depois da passagem pela televisão e de 6 anos no comércio têxtil, mas as vagas existentes eram apenas para motoristas. A falta de trabalho na televisão e o querer mudar de rumo fez com que não ficasse na paragem à espera da próxima chamada e entrei a bordo de uma nova aventura pelas ruas de Lisboa. Concluída a formação, apresentei-me na Estação da Musgueira onde permaneci durante 3 anos efectuando serviço em todas as carreiras afectas nessa estação de recolha e de Cabo Ruivo. Passados os 3 anos surge então a oportunidade de me transferir para a Estação de Santo Amaro, passando assim a desempenhar as funções de Guarda-Freio. 

Os anos passaram e já vão 10... 10 anos ao serviço da Companhia Carris de Ferro de Lisboa, com um percurso interessante, na medida em que esta nova aventura levou também à criação deste blogue, onde tenho vindo a partilhar convosco, histórias e situações do dia-a-dia de quem conduz milhares de passageiros por dia. Depois também de forma inesperada surge a oportunidade de editar um livro com as melhores histórias aqui relatadas. E foram muitas. Juntei assim a paixão pela condução do transporte público, ao da escrita.

Na carreira 15E de autocarro devido à
prova do etapa do Rally de Portugal
Mais recentemente a publicação de um novo livro numa edição de autor, permitiu-me juntar igualmente duas paixões: Lisboa e Praga vistas através do fascínio que uma viagem de eléctrico nos proporciona. Digamos portanto que esta opção de entrada na Carris acabou por ser uma boa opção na altura, no entanto muitos espinhos foram surgindo neste percurso, porque nem sempre é fácil lidar com o público cada vez mais exigente e conduzir um transporte numa cidade onde há cada vez menos respeito pelo transporte público. Depois a conjuntura do país nos últimos anos não foi a melhor e o sector dos transportes foi dos mais penalizados. Passei a conturbada fase das Greves, cortes, supressão de carreiras e redução do pessoal tripulante, que originou um desgaste a quem dava a cara pela empresa, mas não atirei a toalha ao chão e apesar de mais complicado, permaneci na esperança de um novo rumo. 

Não nego que ao longo de 10 anos, não tenha ponderado sair e procurar uma nova carreira lá fora, mas com algum esforço e empenho, optei por ficar e manter-me a representar as cores da Carris, sempre com o mesmo brio profissional que impus desde o primeiro dia, apesar de ter dias melhores que outros, como todos nós tempos, mas afinal de contas até a Carris já teve dias melhores e piores. O ciclo da vida é assim mesmo e resta-nos tentar fazer melhor amanhã e dar o nosso melhor a cada dia. Espero assim, que a situação actual da empresa melhore, e que se volte a apostar no modo eléctrico como tantas vezes se promete em campanhas eleitorais. 

Quanto ao futuro, que venham mais 10... 20... Os que sejam, mas acima de tudo com saúde, força e paciência para enfrentar o dia-a-dia aos comandos dos eléctricos (e por vezes autocarros) pelos carris de Lisboa, sabendo desde já que 2017 será sem dúvida um ano marcante.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Chegou a época (do passo) do Caracol!

E eis que estamos em Maio! O primeiro mês sem "r" e como manda a tradição abre-se assim oficialmente a época do caracol. Do liso ao riscado, do mais graúdo ao mais miúdo, sempre acompanhado de uma "loira" ou de uma "cola", num pratinho ou numa travessa, é à vontade do freguês. Mas nem só na mesa se serve o caracol... 

Não seria de todo má ideia colocar os típicos letreiros com a inscrição "Há Caracóis" em toda a extensão dos carris entre o Largo da Madalena e a Rua de São Tomé, porque de facto ali naquela zona histórica de Lisboa só se anda mesmo a passo de caracol. Como diz a letra de Luis Fonsi, é "pasito a pasito, suave suavecito..." para se subir ou descer aquele troço cada vez mais saturado de carros, tuk-tuks, autocarros, táxis, eléctricos, ligeiros, etc... Chegamos a demorar 20 minutos para fazer um caminho que normalmente se faz em 4 minutos porque tudo afunila em São Tomé no estreito que estava apenas preparado para a época das carroças e quando passava um eléctrico a cada 20 minutos. 

Mas mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e são cada vez mais os carros a circularem numa zona que devia estar restrita a moradores e transportes públicos. A ausência de semáforos e a falta de respeito leva a que diversas vezes o trânsito pare até que tenha de chegar a polícia para resolver. O problema é que nem sempre a polícia está por perto - mas devia -  e quando assim é, digamos que é o salve-se quem puder e lá vamos nós viajando a passo de caracol, com os automobilistas a colocarem a cabeça de fora a ver o que se passa, parecendo os corninhos dos caracóis quando estão ao sol. Depois lá se anda mais 2 metros e lá se pára novamente e é isto a tarde toda.

A viagem do 28 atrasa-se à semelhança do 12 e as paragens vão enchendo, ao ponto de quando chegamos à paragem, já serem os próprios eléctricos que empatam porque demoram imenso tempo na paragem porque a venda de bilhetes é mais demorada porque os passageiros são mais e depois tudo é uma bola de neve porque se o eléctrico não anda depois os que vão no sentido contrário também não passam e pronto, estamos novamente num beco sem saída. 

Mas até quando é que a Câmara Municipal de Lisboa, a Carris, a Junta de Freguesia, ou quem quer que seja, decide resolver o problema que se vive diariamente naquela artéria histórica da cidade? Até quando é que aquela "selva" onde os traços contínuos são para os tuk-tuks como são as fitas coloridas para a árvore de Natal, ou seja, para decorar? Até quando é que quem está a trabalhar é poupado de tanto martírio? Até quando é que os autocarros de turismo continuam a ir para a Sé onde não têm condições para tomar ou largar passageiros? Até quando é que a polícia municipal vai assistindo a isto tudo de braços cruzados? 

Sim porque o verão está à porta e se em Maio é a "açorda" que se vê então os próximos meses prometem ser uma verdadeira caldeirada onde os tripulantes voltam constantemente a sair fora de horas, porque simplesmente e cada vez mais cada um que anda na estrada, pensa única e exclusivamente no seu umbigo. Até quando vamos continuar a prestar um serviço nestas condições onde chegamos ao fim do serviço completamente exaustos? 

Até quando??

quarta-feira, 19 de abril de 2017

28E: De volta às ruas que me viram crescer...

Eram 7h00 quando dava entrada nesta manhã de Quarta-feira, na estação de Santo Amaro. O meu serviço iniciava às 7h20 e marcava o meu regresso à carreira 28E depois de cinco meses afastado devido a uma limitação física temporária, causada pelo acidente de Novembro passado. Debelada a lesão, lá regressei com algum entusiasmo confesso ou não fosse esta a minha carreira preferida. Foram 5 meses mas pareceram muitos mais. Limitado à carreira 15E, nomeadamente ao eléctrico articulado onde viajamos fechados numa cabine, foi portanto algo estranha a diferença sentida ou então era apenas por estar uma bonita manhã em Lisboa que todos diziam "Bom dia"...

De Santo Amaro ao Martim Moniz foi um pulo e de repente já tinha cerca de 25 pessoas prontas para subir o estribo do 28E neste dia de regresso às aulas. Muitos estudantes a caminho do Largo da Graça e alguns turistas que procuram cedo, descobrir Lisboa de eléctrico porque provavelmente já tinham visto na véspera as longas filas pela tarde. Ao longo da viagem que parecia a primeira quando comecei a desempenhar funções de guarda-freio na empresa, fui descobrindo algumas novidades. Uma loja nova, uma obra acabada, um Largo da Graça totalmente diferente e um regresso ao bairro que me viu crescer...

Da Graça a Alfama é só descer a Voz do Operário e deixar rolar pelos carris as rodas que ainda cedo chiam ao curvar a rua onde tantas vezes joguei à bola, ou nas Escolas Gerais onde passava tardes junto do sinaleiro da Carris à espera que chegasse o eléctrico para vira a raquete. Mais uma paragem e mais uma cara conhecida. «Olha o Rafael...Então os pais estão bons? Está tudo bem lá por casa?» e de seguida logo outra passageira solta um desabafo «Pensei que lhe tinha saído o euromilhões...» pois antes fosse. 

As viagens prosseguiram sem grandes percalços e interrupções e o regresso ao famoso 28E não poderia ter corrido melhor, tirando o pormenor apenas de à 3ª paragem já estar quase sem trocos porque hoje todos pareciam ter combinado entrar com uma nota de 20€ para pagar um bilhete..

Mas 28E sem peripécias não é 28E e não podia deixar de aparecer a turista que no Largo da Graça já depois de ter passado a paragem do Castelo me pergunta pelo dito. Digo-lhe que já passámos e que tinha de sair e apanhar no sentido contrário o eléctrico e descer na quarta paragem. A mesma diz "ok, ok" e senta-se. Chegados ao Martim Moniz informo que é o terminal. E elas riem-se e perguntam "então mas onde é o Castelo?" e depois de também eu sorrir, lá lhes disse que era la no topo, apontando para as muralhas visíveis do Martim Moniz... Agora é voltar a apanhar novamente ali à frente porque esta viagem terminou mas outra está para recomeçar, e assim é a rotina diária pelos carris de Lisboa...


quinta-feira, 6 de abril de 2017

De volta ao carro da Estrela quatro meses depois...

Quatro meses passaram desde a última vez que tinha conduzido um eléctrico remodelado, mais conhecido como o tradicional eléctrico lisboeta. E desde então nunca mais tinha conduzido, porque há precisamente quatro meses, no decorrer de uma viagem no eléctrico 28E, fui abalroado por um pesado de mercadorias que desgovernado embateu no meu eléctrico, deixando-o pronto para uns valentes meses no estaleiro e levou-me para o hospital com uma fractura num dedo. A fractura curou-se com recurso a uma tala, mas a tala acabou por provocar uma lesão no nervo radial, que me levou à baixa e posteriormente a um regresso com incapacidade temporária que me limitou à condução dos eléctricos articulados na linha 15E.

Foram quatro meses, que pareciam anos, mas a última consulta médica as noticias eram mais animadoras e podia voltar progressivamente à condução dos tradicionais eléctricos, com o objectivo de ver se na próxima consulta não há retrocessos e posso voltar a 100%. Assim foi. Hoje regressei às "casinhas" amarelas na carreira 25E, a tal pela qual nunca morri de amores, mas e não é que adorei?

O aviso sonoro das paragens, deram lugar à saudação de alguns passageiros. A indicação de que o bilhete é comprado na máquina, deu lugar à venda pessoal do bilhete. O poder da condução voltou porque o eléctrico remodelado depende e exige mais de nós. Mas voltaram também as interrupções e hoje foi apenas uma mas durou mais de uma hora. 

Encontrei uma Lisboa diferente, porque há muito que não ia para aqueles lados do 25E. Mas há coisas que não mudam. O cheiro da laca dos cabelos aperaltados que se preparam para uma tarde de passeio no eléctrico da Lapa, ou a velha expressão «Pode-me dar aqui um jeitinho?» e, ou era por há muito não ter um contacto para além do vidro da cabine ou hoje dado o sol que se fazia sentir, os passageiros estavam todos muito simpáticos. 

O serviço decorreu sem grandes percalços e a mão respondeu bem, apesar de notar algum cansaço muscular, o que é perfeitamente normal para quem esteve mais de 3 meses apenas nos articulados. Agora é esperar que a recuperação atinja os 100% e para lá vamos sem pressas, porque o que interessa é ficar bem para poder como hoje fazer aquilo que realmente gosto, conduzir pessoas pelas colinas de uma Lisboa cada vez mais moderna e cosmopolita.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Era bom que fossem 8 horas de brincadeira, mas estamos lá para trabalhar e não para brincar

"Toc toc toc" ouve-se o bater no vidro na porta da cabine do eléctrico articulado já uns metros depois de ter arrancado da paragem do Calvário com sentido a Algés, na carreira 15E, durante esta tarde. Olho de esguelha pelo retrovisor, para não desviar o olhar totalmente da estrada, dado estar a passar o cruzamento com a Rua Leão de Oliveira. Do lado de lá do vidro está uma mulher de óculos escuros que me diz «Olhe então as portas não abriram?» Digo-lhe que abriram e que entraram e saíram pessoas...

Mas a passageira insistia dizendo que «não me diga que abriram porque não abriram...» Digo-lhe ao mesmo tempo que vou avançando lentamente que provavelmente escolheu a porta bloqueada e de imediato me responde «Está a brincar comigo só pode!» E esclareço, que não, não estou, antes estivesse! E diz-me ela com toda a determinação «Então abra-me a porta para sair...» e lá lhe respondi, que abria na próxima paragem em Santo Amaro porque não havia condições de segurança para abrir de imediato...

Revoltada, pega no telemóvel e fotografa as costas da cabine onde está inscrito o número do eléctrico, num sinal notório de quem quer dizer por outras palavras "então vou reclamar"... A bordo viajava um colega e ao que parece insistia com ele que eu não tinha aberto a porta. Então e não é que ela disse ao colega que tinha carregado no botão precisamente da porta que estava bloqueada e que tinha um autocolante vermelho com letras brancas a dizer "BLOQUEADA!"

Ora como isto não é de agora e certamente não vai ser a última, recordo uma vez mais que as portas não são abertas pelo condutor. Nós apenas damos ordem de abertura do anel de segurança e ordem de fecho do mesmo, depois o abrir e fechar das portas é com os passageiros através de um botão e de umas células na parte inferior da porta que detecta os movimentos...

sexta-feira, 3 de março de 2017

Quando algo corre mal #aculpaédoguardafreio neste quotidiano citadino cada vez mais desgastante...

Cada vez mais as pessoas reclamam apenas porque sim, apenas porque não têm em casa com quem desabafar ou simplesmente porque saem do emprego revoltados e reclamam com o motorista, reclamam com o guarda-freio. E engana-se aquele(a) leitor(a) que julga ser um descanso trabalhar no eléctrico articulado. É de facto mais sossegado que os tradicionais eléctricos onde os passageiros viajam "enlatados" em cima do tripulante, numa viagem alucinante pelas ruas de Lisboa, causando por vezes uma experiência única, no entanto cada vez mais as pessoas comportam-se de uma forma, para a qual não consigo encontrar adjectivação.

O bater na porta da cabine torna-se uma constante. Ora porque metem o cartão multibanco nas ranhuras das notas, ora porque as portas fecham-se e eles acham que somos nós que as fechamos de propósito, ou simplesmente porque querem saber se o eléctrico vai para Belém quando na frente tem um destino grande e visível com a palavra "BELÉM". Há de tudo e para todos os gostos. Até há os que batem à porta para saberem a que horas arranca o eléctrico, quando na paragem onde dizem ter estado tanto tempo à espera, tem os horários afixados porque estão no terminal.

Torna-se portanto cada vez mais desgastante trabalhar num transporte público numa cidade como Lisboa, onde os imprevistos causados pelo trânsito levam por vezes a interrupções e encurtamentos, que não estão de todo ao nosso alcance a sua solução. Depois há as reclamações, ora porque o eléctrico não avisa as paragens, ora porque as portas estão constantemente bloqueadas ou até porque o ar condicionado não funciona e gostamos de fazer sofrer os passageiros com saunas, quando nós que vamos fechados na cabine e sem vidros para abrir, levando com o sol de frente somos os mais prejudicados. 

Foto de Francisco Miguel Sardinha.Estas são portanto situações que no dia-a-dia tornam-se já um "habitué" no 15E, mas quando surge um imprevisto daqueles que causa grandes transtornos, como foi o caso deste final de tarde, onde na Praça da Figueira, devido ao vento forte um andaime esteve em risco de colapsar, há que terminar a viagem a meio, quando chega a informação da central comando de tráfego. «Interrupção na P.Figueira. Terminar viagem no C.Sodré. Obrigado», lia-se na consola. Até aqui tudo bem. O pior é quando temos de informar um eléctrico articulado com mais de 200 passageiros sobre a situação e o micro de comunicação interna não funciona. 

O abrir da porta da cabine é quase como uma entrada para o corredor da morte onde estão mais de 200 pessoas que desejam chegar rapidamente a casa, ao hotel ou ao trabalho, e quando dizemos que a viagem tem de terminar ali começa uma sinfonia de reclamações em português, inglês, francês, espanhol, italiano, etc... Há os que entendem e abandonam o carro (tipo 5% da lotação) e depois há os que querem saber o porquê de ser sempre a mesma coisa misturados com os estrangeiros que não entendem português e para os quais temos de ajudar encaminhando para outras carreiras. Pelo meio, há insultos, há provocações, há ameaças, há tudo e mais alguma coisa para atrasar ainda mais a saída do eléctrico daquela paragem, quando um microfone a funcionar resolve a questão em 1 minuto, porque informamos no geral que a viagem tem de terminar e têm de abandonar o veículo.

E hoje não foi excepção. Avisei que a viagem terminava ali e uma das poucas pessoas que tinha lido o destino "CAIS DO SODRÉ", veio questionar-me o porquê. Explico-lhe que havia um andaime a cair na Praça da Figueira e logo começa a questionar-me e com ar de gozo «e de manhã foi o quê? tivemos de vir num 15E autocarro...» Pois de manhã não sei. De manhã apenas sei que caí da cama mal ouvi o despertador tocar avisando-me que estava à porta mais um dia como o de hoje. E já ter tido um autocarro 15E terá tido muita sorte porque muitas das vezes nem um autocarro é possível lá colocar. 

As pessoas reclamam cada vez mais com quem nada pode fazer e sabem cada vez menos apresentar uma reclamação, ao ponto de esgotarem a paciência a quem tem de muitas vezes respirar e contar até 10 para que não percamos também nós a razão, porque somos nós quem damos a cara pela empresa, mesmo quando estamos cansados de reportar avarias como as dos microfones, ar condicionado e portas....

Esquecem-se as mesmas pessoas que também nós por vezes e não tão poucas como isso, somos prejudicados porque acabamos por recolher muito depois da nossa hora, deixando por vezes a refeição junto da família para outra altura porque já não vamos chegar a tempo e temos de comer uma sandes ou uma sopa num café enquanto aguardamos a resolução de uma interrupção. Mas que interessa isso a essa gente? Nada, pois até dizem que pagaram o passe... por isso chego à conclusão que #aculpaédomotorista e #aculpaédoguardafreio.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Ontem foi um dia aéreo na 15E

Costuma-se dizer que um mal nunca vem só, e o certo é que o dia de ontem na 15E foi de bradar aos céus, porque a rede aérea decidiu fazer das suas, coisa rara, mas que por vezes acontece. Comecei o serviço no Calvário com 55 minutos de atraso porque o meu eléctrico tinha ficado condicionado na circulação na zona do Corpo Santo porque uma das aranhas da rede aérea terá prendido num pantógrafo. A prontidão do carro do fio ajudou a que o tempo de espera não fosse superior. Contudo não o suficiente para calar as pessoas que ao verem-me no Calvário, me questionavam o porquê de esperarem tanto tempo. 

A dada altura ainda não sabia do que se passava, e dizia isso mesmo a quem me perguntava, contudo o passar dos minutos e a ausência de movimentação de eléctricos na zona, levou-me a deduzir que houvesse algo anormal. Contactei a expedição e informaram-me que havia o referido problema no Corpo Santo, que entretanto estava prestes a ser resolvido. Alguns dos passageiros na paragem ao verem-me ao telefone questionaram-me novamente e lá lhes disse que havia uma interrupção. Começaram de imediato a reclamar comigo, dizendo que se ali tem painéis informativos não custava colocar lá a informação até porque o tempo de espera mantinha-se nos 3 a 4 minutos.

Remeti-os para a Carris uns metros à frente a fim de apresentarem a sua reclamação, visto que nada podia fazer, pois também eu aguardava o eléctrico. Chegou pouco depois e lá rendi a colega. Mas só andei uns 700 metros porque entretanto mais à frente na Rua da Junqueira, um esticador da rede aérea terá rebentado, o que fez com que os cabos baixassem e não pudéssemos circular com a garantia que o pantógrafo não fosse lá ficar preso e aumentar assim o estrago.  

Novamente parados e novamente à espera do carro do fio, que nem teve tempo de entrar na estação. Veio directamente do Corpo Santo para a Junqueira e em menos de 30 minutos conseguiram restabelecer a circulação. Não posso portanto uma vez mais, deixar passar em branco o trabalho por vezes invisível destes trabalhadores que são mais visíveis de noite, mas que são imprescindíveis para a circulação dos eléctricos. Com a circulação restabelecida, foi vez da Central Comando de Tráfego ter a missão de reordenar os carros pela ordem correcta para que se conseguisse cumprir os horários dentro dos possíveis e prossegui para Algés. O dia acabou por decorrer dentro da normalidade até se dar um acidente entre terceiros já junto ao Hospital Egas Moniz que voltou a interromper a linha 15E e 18E porque os condutores não se entenderam. Mais de 1h00 a circular entre Santo Amaro e Praça da Figueira. 

Hoje esperamos que o dia decorra de forma mais tranquila e sem percalços de maior. A todos os passageiros os votos de uma boa viagem a bordo dos veículos da CCFL

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Regresso com interrupções após longa interrupção...

E chega ao fim a primeira semana após o meu regresso ao trabalho, depois de um longo período de ausência devido ao acidente que sofri em Novembro passado na carreira 28E, quando um veículo pesado de mercadorias, sem travões veio embater na frente do meu eléctrico na Calçada do Combro, apesar de na altura a CMTV ter vindo dizer que tinha sido eu a embater na carrinha. Estragos materiais à parte fiquei com um dedo fracturado que me deixou de baixa durante cerca de dois meses, porque a recuperação foi retardada por um problema causado pela tala, ferindo-me o Nervo Radial. Uma das razões pelas quais este blogue tem andado um pouco sem conteúdo novo. 

No entanto, após algumas sessões de fisioterapia, pude regressar ao activo ainda que restrito, pelo facto de ter ainda algumas limitações com a mão direita. Regressei portanto à condução dos eléctricos articulados, pelo facto destes serem conduzidos apenas com a mão esquerda e neles vou ficando até à próxima consulta. Mas limitações à parte, o regresso trouxe algumas novidades até porque há muito não me deslocava para a zona em obras no Cais do Sodré. Novidades que também surgiram em Algés com mudança das marcas rodoviárias que dão agora prioridade aos eléctricos.

Mas se ontem parei uma hora devido a um acidente entre um ligeiro e um outro pertencente ao Corpo Diplomático, já hoje a conversa foi outra apesar do tempo de interrupção ter sido semelhante. A meio da tarde quando me dirigia para Belém, deparei-me com um automóvel ligeiro mal estacionado na Rua da Junqueira. E não só estava mal estacionado como tinha deixado a direcção virada para a esquerda, o que fazia com que ao passar raspasse no pneu, podendo originar o seu rebentamento. Parei. Abri as portas e verifiquei do lado de fora, não fosse eu estar com o azimute desafinado após tanto tempo de ausência. Mas de imediato me apercebi que não passava sem raspar, portanto o melhor seria mesmo dar conta da ocorrência à central e solicitar o reboque. 

No interior do eléctrico viajavam dois agentes da PSP que também avisaram a respectiva central. E do lado de fora haviam muitos "peritos" nas razias de eléctricos numa cidade perto de si. «Olhe que já passaram dois. Você não passa porque é mau»...

Pois sou. Péssimo!

A cada minuto que passava juntavam-se mais especialistas em azimutes, tiravam medidas, outros tiravam fotos até que um me pergunta porque não fechava o retrovisor. Digo-lhe que não é por causa do espelho mas sim do pneu e ele lá me diz «ahhhh tem razão, peço desculpa» Mas por trás lá estava a senhora «mas já passaram dois....» senhora essa que nem seguia no eléctrico. Já não podia ouvir ninguém. até que chegam mais dois agentes e tentam coordenar o trânsito para não complicar mais a situação. Vem um eléctrico em sentido contrário e pára, a colega que o conduzia informa o agente à civil que ela já lá tinha passado... 

O agente vem ter comigo e diz: «Olhe a sua colega diz que passou à rasca mas passou...» Digo ao agente que então o melhor seria ela largar o eléctrico dela e vir passar com o meu, porque eu não ia assumir tal responsabilidade. O agente compreende e diz «tem razão, depois se rebenta o pneu é você o pai da criança...» E por ali continuei a encher o saco de bocas de que somos todos uns malandros, bla bla bla... até que chega também um colega da fiscalização também com a mesma conversa de que os outros já tinham passado...

Chega entretanto um carro da Carris com um inspector que se vem inteirar da situação, após o terem parado o carro como se de um filme de acção se tratasse. Vitrificam as dificuldades, mas pressionados pelas bocas dos transeuntes e pelos telefonemas da tal colega que tinha passado, dizem para tentar passar. Ora como chefe é chefe, lá tentei passar, agora com a ajuda de um olho mais clínico que todos os que ali estavam. Mas a chegada a meio do articulado, fez com que os braços de imediato se levantassem dizendo "Pára, pára!  Não passa!"

Afinal, o guarda-freio até tinha razão. Bolas! Afinal o guarda-freio não estava a agir de má fé... Até estava a ser profissional e a cumprir com as directrizes da empresa - Evitar o toque e parar antes de bater. O reboque, esse tardava em aparecer, mas apareceu e antes do proprietário do carro, e lá teve o seu destino até ao parque da Polícia Municipal, onde poderá ser levantado após pagamento da coima e do reboque. O eléctrico prosseguiu então depois rumo a Algés ainda que atrasado, porque tinha passageiros com mobilidade reduzida dentro do carro.

A tarde continuava depois mais calma apesar dos atrasos e sem interrupções, até que na última viagem antes da recolha, deparo-me com um acidente em Alcântara, envolvendo um táxi e uma mota. Informo a central da situação e que havia feridos, provavelmente ia demorar. Restou-nos aguardar. Restabelecida a circulação já não deu tempo de prosseguir para Algés, porque já estava na hora do fim do meu serviço e assim terminei a viagem em Santo Amaro, terminando também assim a semana de trabalho. Seguem-se agora as folgas para recuperar as energias gastas num dia como o de hoje, onde temos de ter um poder de encaixe enorme, para não perder-mos a razão.

Faz este ano 10 anos que entrei na Carris e posso ter muitos defeitos como todos temos, porque ninguém é perfeito, mas se há coisa que não faço nem nunca fiz é simular interrupções. Sou pago para conduzir pessoas e é essa minha função, mas se vejo que algo me impossibilita de o fazer em perfeitas condições de segurança prefiro parar até porque não ganho à viagem e se depender de mim, não vão dizer que o eléctrico está danificado porque raspei aqui e ali porque passava à rasquinha mas passava. Lamento mas comigo não. 

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