terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Quando viajas num eléctrico na companhia da senhora Galinha...

Mais uma viagem, mais uma volta, as crianças não pagam mas... andam e o mesmo se passa com as galinhas e engana-se se pensa que estou a falar naquelas passageiras que entram a falar umas com as outras ou ao telemóvel que transformam o autocarro ou o eléctrico num verdadeiro galinheiro. Se nos tempos que fui motorista na estação da Musgueira via um pouco de tudo a entrar pelo autocarro quer fosse em dia de feira das Galinheiras ou do Relógio, o certo é que nos eléctricos nunca tinha visto o transporte de galinhas. 

Há quem tente entrar com os cães, que não é permitido, há quem tente levar o gato de estimação refundido no casaco porque «não faz mal a ninguém» e há quem simplesmente leve no saco uma galinha e engana-se também se pensa que estou a falar de um sábado qualquer quando a maioria das pessoas vão ás compras para a semana ao talho da Graça ou ao Mercado de Algés. 

As imagens falam por si e referem-se a uma viagem desta segunda-feira na carreira 15E com destino à Praça da Figueira com direito a vista para a rua não à janela porque daria muito nas vistas mas pelo olha atento da galinha, as vistas do lado de lá do vidro da porta era algo fora do comum para quem habitualmente está na capoeira ou no campo. Desta vez a sorte desta galinha foi não ter entrado a fiscalização porque não sei como seria o desfecho não tendo título de transporte válido. 

Na verdade esta galinha transportou-se de forma mais silenciosa e asseada que muitos passageiros e não deixou de causar alguma curiosidade a quem neste eléctrico se transportava. As fotos são da autoria do tripulante Dário Silva que gentilmente partilhou com o Diário do Tripulante. 

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Desvio: «E agora como é que vou para a Graça?»...

"Devido a abatimento de via, fica interdita ao trânsito a Rua das Escolas Gerais nos dois sentidos até à próxima quarta-feira, 24 de Janeiro", lia-se nos avisos cujo as previsões eram mais animadoras, contudo a abertura do buraco para detecção do problema leva a que as previsões se prolonguem no calendário e que mais 3 semanas pelo menos, sejam necessárias para substituição do colector e criação de caixa de visita. Assim sendo o constrangimento na carreira 28E vai-se prolongar, o que tem causado alguma insatisfação por parte dos seus passageiros. 

Ainda assim convém alertar os passageiros que tais alterações na circulação, assim como os transbordos efectuados não dependem e nem tão pouco são decisões dos guarda-freios ou motoristas. Hoje mais um dia e mais um rol de queixas e muitas até com alguma razão, confesso. Contudo nem sempre o passageiro sabe reclamar e acaba por perder a razão. Obviamente que há sempre quem compreenda o nosso lado e apenas queira uma ajuda na alternativa para chegar o mais de pressa a casa ou ao trabalho. 

«Então mas agora não há eléctricos para a Graça?», foi logo a primeira pergunta da tarde já num tom algo elevado mal entrou no autocarro. Informei que não devido a um abatimento na via e a resposta da passageira foi imediata... «Há sempre uma desculpa para tudo», fim de diálogo. 

Uma paragem mais à frente e estamos já na Rua Vítor Cordon com outra passageira que acaba de pedir para parar. «Desculpe lá, mas já é o segundo autocarro que passa para as Portas do Sol, mas não passa na Graça?», e lá repito a "cassete" dizendo que devido a um abatimento de via é impossível. A jovem aceita e diz que prossegue na mesma porque sempre fica mais perto do seu destino. E assim prossegue a viagem com um constante rol de perguntas e respostas no mesmo sentido. 

Volta de regresso ao Largo do Camões e vários turistas na paragem aguardando ansiosamente por um 28 eléctrico que tarda em não aparecer e que de facto não aparecerá tão de pressa. Apercebo-me da situação e digo que não há eléctrico naquela paragem e que o melhor será seguirem comigo até ao Camões e lá prosseguir viagem de eléctrico. Mas firmes das suas decisões muitos agradecem e dizem que preferem esperar pelo eléctrico... (lá tempo não lhes deve faltar).

Mais uma volta e mais uma viagem. Uma senhora diz que tem uma consulta no posto médico da Graça «e agora como é que vou para a Graça?», e lá lhe explico que ou descia pelo chiado até ao Martim Moniz e apanha lá o 28, ou segue comigo e desce nas Portas do Sol, seguindo a pé pela Calçada da Graça. De imediato responde «isso é que era bom ir a pé. Vou de táxi que mal me posso mexer das minhas pernas...», pois faça então como achar melhor. 

A certa altura já tenho a cabeça cansada de tanta pergunta e resposta e de tanta reclamação porque a maioria das paragens não têm avisos, como é o caso da paragem do metro na Baixa-Chiado onde dezenas de pessoas sobem as escadas e aguardam logo ali pelo eléctrico. Informo sempre à passagem que podem seguir comigo até à próxima paragem porque ali não passam eléctricos e lá surgem os "Porquês?...", "Está a brincar....", "Mas já não passam?", etc... 

Ao longo do serviço são dezenas de viagens e em todas há um episódio semelhante, há quem pergunte se estamos no Zimbabué para se demorar tanto a tapar um buraco e há também quem questione o porquê de não seguir para a Graça, se o autocarro de turismo também segue. Perguntas para as quais não posso encontrar resposta porque ora terá de ser a Câmara a responder, ora terá de ser a Carris, facto que nem sempre o passageiro compreende, porque depois de tanto entra e sai de eléctrico e autocarro, somos nós quem ali estamos a dar a cara. Assim foi mais um dia desgastante no transbordo do 28E.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Quando um buraco se abre na via te estraga o dia...

Com a semana prestes a chegar ao fim, quis a escala que estivesse às ordens nesta madrugada de quinta-feira. A incerteza do que vamos fazer neste serviço conhecido na gíria por "plantão", leva a que rezemos a todos os santos para que ninguém falte. Contudo, quando a manhã já chega a meio eis que um eléctrico na 15E decide avariar e a sua recolha obriga a saída de dois eléctricos pequenos para colmatar a falha do grande. Lá tenho de avançar para o reforço.

Uma hora depois a manutenção, consegue solucionar o problema e o articulado pode sair novamente para a rua, o que fez com que regressasse à estação ainda que por pouco tempo, e porquê? Porque há aqueles dias em que as ocorrências parecem estar reservadas para o dia em que estás às ordens! Um buraco na Rua das Escolas Gerais obriga a interrupção da circulação dos eléctricos no sentido Prazeres, o que faz com que o serviço entre o Martim Moniz e o Largo das Portas do Sol fosse substituído por autocarros da tipologia mini, conhecidos por "Sprinters".

Lá fui destacado para fazer a circulação Martim Moniz - Graça - Alfama - Sé - Martim Moniz, enquanto que os eléctricos subiam via carreira 12E e no sentido oposto faziam o trajecto normal. Ora o que também já é normal é os passageiros na maioria das vezes entrarem no autocarro sem ver o destino e a carreira e hoje não foi excepção. E depois...

Bem depois é aquela situação muito semelhante à que temos quando o despertador toca, nos desligamos e quando acordamos realmente já passa da hora e damos um pulo e dizemos "Bolas já devia ter saído da cama há mais tempo..." Ora nem mais. O autocarro era da 28E e o destino era Martim Moniz, mas a passagem pela Voz do Operário e após a última paragem conjunta com o 734, a reacção era quase sempre a mesma mal o autocarro passava o cruzamento rumo às ruas estreitas de Alfama. 

"Mas para onde é que o senhor vai?" questionava uma mulher após se levantar muito rapidamente ainda que segura ao banco. "Então mas isto não vai para Santa Apolónia?" questionava noutra viagem um senhor. E assim foi em todas as viagens que realizei. Entre as várias respostas que fui dando, houve uma senhora que descontente após lhe dizer que ia para o Martim Moniz, me disse que eu devia dizer que ia para o M.Moniz e não para Santa Apolónia. Expliquei-lhe que na frente do autocarro o indicador de destino diz o número e o destino precisamente. 

Mas ela insistia em dizer que nunca tinha visto um 28E com autocarro. Ora, mas há sempre uma primeira vez. E já imaginaram a quantidade de vezes que tinha de repetir a mesma coisa a todos os passageiros que entravam? E com tanta conversa acaba sempre por não sair e quando deu por ela estava novamente no Martim Moniz. E de quem é a culpa? A culpa é do motorista mas também do buraco que decidiu mudar a vida de muita gente que utiliza o 28E e pelos vistos o 734 :) 

E tudo isto no dia em que assinalo 8 anos de Guarda-freio, após a minha transferência da Estação da Musgueira para Santo Amaro.

Boas viagens

sábado, 30 de dezembro de 2017

O Diário do Tripulante deseja-lhe um Feliz Ano 2018

A poucas horas do final de mais um ano, é altura de balanços, mas também de enchentes. 2017 despede-se da forma como esteve quase todo o ano no que aos eléctricos diz respeito. Cheio. 

Cheio de turistas que nos desgastaram ao longo de 365 dias porque ficou uma vez mais provado que é realmente necessário aumentar a oferta para a procura que tem vindo a crescer dia após dia. Para 2018 gostaria que tivéssemos mais eléctricos, menos carteiristas, mais fiscalização, mais corredores BUS, menos recolhas atrasadas, menos faltas de rendição, mais saúde, alegria, e paz. 

Mas 2017 fica também marcado por algumas datas marcantes, nomeadamente projectos nos quais estive envolvido, como foi o caso da Inauguração do Eléctrico de Arraiolos da YellowBus Tours, uma ideia minha levada a cabo pela Fábrica de Tapetes Hortense em parceria com a Carristur. Ano também marcado pelas comemorações dos 145 anos da Carris, celebrado com a passagem da gestão da empresa para a Câmara Municipal de Lisboa.

Este ano que agora termina fica também marcado por menos publicações aqui no blogue e mais participações nas redes sociais, nomeadamente no Facebook, mostrando assim que os tempos mudam e temos de acompanhar as tendências. Ainda assim, conto em 2018 dar continuidade a este espaço tão acarinhado pelos estimados passageiros e leitores, que têm acompanhado esta viagem desde 2008. A par com o Diário do Tripulante, conto em 2018 dar continuidade aos restantes projectos da minha autoria, como são os casos dos livros de postais e do livro/guia "Lisboa e Praga de Eléctrico" que entrará em 2018 com a 3.ª edição, estando prevista uma exposição fotográfica comemorativa da 3.ª edição, dedicada aos eléctricos de Praga, que a seu tempo será divulgada. 

Quero assim terminar desejando a todos os leitores e seguidores, a todos os colegas, amigos, familiares um óptimo 2018 e que seja repleto de boas viagens a bordo dos veículos da CCFL. 

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Uma viagem "reservada" à reclamação com boa disposição.

Os nossos passageiros por vezes dirigem-se a nós num tom mais agressivo e por outras num tom mais simpático, e tudo depende do estado de espírito, do tempo de espera, dos problemas que viveram no trabalho ou em casa, porque vêem no tripulante da Carris um bom muro de lamentações, seja para o bem, seja para o mal. E se enquanto motorista vivenciei muitos casos deste tipo, sobretudo de pessoas solitárias que encontravam em quem estava ao volante, uma voz amiga, nos eléctricos dada a proximidade entre tripulante e passageiro, estas situações acabam por ser ainda mais frequentes.

Mas claro que as reclamações não ficam de parte e para isso raramente entram num tom simpático. Muitos entram já a reclamar sem uma saudação dar, ora porque tiveram muito tempo à espera, ora porque os eléctricos passam cheios e não param ou até porque passam vazios, sem parar claro está.

Ora nestas situações que me irritam sempre porque o português não sabe reclamar, começo sempre por responder com um "boa tarde" ou um "boa noite" vincado para que percebam que não somos nenhuns bonecos que ali estamos. E muitos perguntam "diga?" ao que volto a responder, "primeiro boa tarde...". Mas há umas semanas atrás retive uma reclamação, no meio de tantas que diariamente fazem, umas com nexo, outras sem nexo. 

A certa altura numa viagem da carreira 28E, uma senhora entra e de forma cordial, cumprimenta-me e valida o seu título de transporte. Mas reparei logo que a vontade que trazia para comunicar era muito superior à que tinha para esperar pelo transporte público. E confirmei isso depois de ela me dizer, «sabe, já ali estava à espera do carro há uns 25 minutos...», ao que lhe respondi na altura que tal atraso se devia à falta de civismo de um senhor que tinha ido ao supermercado e tinha parqueado mal o carro, impedindo a passagem do eléctrico. 

A senhora aceitou a justificação, mas acrescentou «pois também é sempre o mesmo problema, mas sabe, chateia-me nestes 25 minutos terem passado quatro eléctricos reservados...» 

«Talvez fossem alugueres...», afirmei eu ao que ela me responde ironicamente mas sempre de forma muito cordial. «Não sei se eram alugueres. Sei que adorava morar naquele bairro que tem pelo nome de Reservado. Vejo imensas vezes carros a passarem com esse destino e melhor ainda é que vão sempre vazios ou com pouca gente.» Sorri e disse-lhe que se existisse esse bairro, transportes não faltariam por esse ponto de vista, entrando assim também na ironia com que ela me abordava. E ela prosseguia ao ritmo que o eléctrico avançava pela Calçada do Combro rumo à Bica. «Sabe é que esse bairro ainda por cima tem carreiras por todo o lado porque não é só aqui no 28E, no Cais do Sodré vejo imensos a passarem lá para o Reservado...» dizia sorrindo.

Num instante e sem estarmos a viajar "Reservado" chegámos ao Chiado onde saiu, desejando bom serviço e boas viagens. E eu prossegui a viagem até ao Martim Moniz, a pensar como de forma irónica e simpática se pode apresentar o descontentamento ou reclamação para com o serviço prestado. Esta reclamação ficou-me na memória e certamente que numa próxima viagem que a encontrar a vou reconhecer até porque ainda na subida um jovem sentado nos primeiros bancos do eléctrico perguntou à senhora se não se queria ali sentar, ao que ela respondeu: «Agradeço jovem, mas esses lugares são reservados para idosos, grávidas ou passageiros com crianças de colo» 

Afinal de contas esta viagem estava reservada a vir aqui parar ao blogue nestes últimos dias de 2017. Boas viagens a bordo dos veículos da CCFL e Boas Festas. Não se esqueçam dos horários deste natal...






terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Eléctrico de Natal já espalha alegria pelas ruas de Lisboa

Lisboa inaugurou as iluminações de Natal no primeiro dia de Dezembro, que vieram trazer mais cor e alegria às ruas da capital. No parque Eduardo VII foi instalada uma mega feira de Natal onde não falta a roda gigante. As tendas dos circos montadas nos locais habituais, já recebem centenas de crianças e famílias para os espectáculos de acrobacias e animais, mas o Natal em Lisboa só fica completo com a chegada do Eléctrico de Natal, que começou esta segunda-feira a circular pelos carris de Lisboa. Uma vez mais a Carris e a Carristur juntam-se para dar um colorido diferente entre a Praça do Comércio e Belém, espalhando igualmente sorrisos e muita alegria. 

Se durante a semana, as viagens estão reservadas para as escolas, já aos fins-de-semana e feriados, viaja nele quem quer ser guiado pelas ruas de Lisboa pelo Pai Natal guarda-freio, que por estes dias troca as renas pelos eléctricos do tipo 700, que durante o ano realizam serviço no circuito Tram Tour.

Recorde-se que esta é uma iniciativa que dura já há 38 anos. Decorado com grinaldas e azevinhos, o Eléctrico de Natal com os seus tons verdes, característicos dos últimos dois anos, realiza viagens com partidas da Praça do Comércio entre as 9h30 e as 17h15. A viagem conduzida pelo Pai Natal dura cerca de 1h20 e passa pela Praça da Figueira, Cais do Sodré, Av.24 de Julho, Calvário, Santo Amaro (onde está instalado o Museu da Carris) e Belém onde inverte a marcha rumo ao ponto de partida.

Os bilhetes são válidos para uma viagem e têm um custo de 6€ para adultos, e 3 para as crianças. A YellowBus criou ainda um bilhete de família com um custo de 15€ para 2 adultos e 2 crianças e os clientes da companhia turística têm um bilhete disponível por 4€. Por cada bilhete vendido 3€ serão doados à Quercus para ajudar na reflorestação das áreas atingidas pelos incêndios.

As viagens não têm paragens ao longo do trajecto e realizam-se nos dias 9 e 10 de Dezembro e prolongam-se depois entre 16 e 31 de Dezembro, com excepção para o dia de Natal (25 de Dezembro). As partidas realizam-se ás 9h30 / 10h15 / 11h00 / 11h45 / 12h30 / 13h15 / 15h00 / 15h45 / 16h30 e 17h15. Mais informações em www.yellowbustours.com  

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Até sempre amigo Pedro Rolo Duarte

Resultado de imagem para pedro rolo duarteÉ com profundo pesar que Rafael Santos, autor de Diário do Tripulante tem conhecimento da morte do jornalista e radialista Pedro Rolo Duarte.  "A notícia foi confirmada ao Observador por fonte daquele hospital, onde o jornalista foi internado esta quarta-feira, na unidade de cuidados paliativos. Antes de ter sido internado no Hospital da Luz, esteve no Hospital Beatriz Ângelo, de Loures.

Pedro Rolo Duarte, filho dos jornalistas António Rolo Duarte e Maria João Duarte, morreu com 53 anos. Deixa um filho, de 21 anos. Fonte próxima da família adiantou ao Observador que o jornalista morreu de cancro", escreve o site Observador.

O jornalista tinha actualmente o programa na Antena 1 "Hotel Babilónia" e antes assinava a rubrica "Janela Indiscreta" também na Antena 1, onde a certa altura deu ênfase ao blogue Diário do Tripulante. A convite do autor do Diário do Tripulante, Pedro Rolo Duarte escreveu o prefácio do livro editado em 2012 pela então extinta Fonte da Palavra. 

No prefácio que escreveu deu-lhe o título "As três vitórias" e nesse texto lia-se:

As três vitórias


“Um blog que conta várias histórias e episódios do dia-a-dia de quem anda ao volante de um autocarro no coração da cidade de Lisboa, os amarelos da Carris” – no dia em que, no âmbito da minha crónica diária na rádio sobre a blogoesfera e as redes sociais, “tropecei” no blog de Rafael Santos, não pude deixar de sorrir.
Não era apenas a originalidade da ideia, era a sua singularidade: a imagem tradicional que temos dos motoristas de autocarros coaduna-se pouco com o romantismo que associamos à escrita num blog. Escreve-se num blog por gosto, por vontade de partilhar ideias, e presume-se sempre um pendor intelectual no acto. Mais: ainda que possa haver em cada um nós um potencial observador do quotidiano, o ar alheado – ou concentrado na condução... – de um motorista de transportes públicos, seria talvez dos últimos a que pudéssemos atribuir o estatuto de cronista ou repórter do dia a dia...
Ou seja, tudo nesta ideia fazia abater preconceitos – e essa foi a primeira vitória do “Diário do Tripulante”.
Ao contrário do que sucede com muitos blogues desta natureza, o de Rafael Santos não sucumbiu às “primeiras chuvadas”. Em anos e anos que levo deste trabalho diário de “seguir” a rede das redes, noto que a esmagadora maioria dos blogues morre sem apelo nem agravo ao fim de poucos meses, passado o entusiasmo inicial do “binquedo novo”. O Diário do Tripulante leva anos no activo – e sempre activo -, e essa é uma segunda vitória.
A terceira é, naturalmente, saltar do âmbito da Internet para a eternidade do papel impresso. “Quando entrei na Carris, contava Rafael no blog, tal como tantos outros, de imediato me disseram que iria ter muitas histórias para contar e é verdade. (...) Por vezes chego a casa e acabo por comentar este ou aquele episódio e logo me dizem...«A tua vida parece um filme». Mas não é a minha vida, mas sim a vida de um motorista da Carris”.
Na verdade, quando dizemos que uma história dava um filme – ou dava um livro... -, estamos apenas a sublinhar o carácter marcante do episódio, a possibilidade de passar para lá da “espuma dos dias” efémeros e rápidos. Ao chegar à “plataforma papel”, o “Diário do Tripulante” ganha esse estatuto e alcança a sua terceira vitória.
Se outros motivos não houvesse, esta tripla bem conseguida por Rafael Santos é motivo de orgulho para o autor. Para mim, humildemente, é apenas a confirmação de algo que há quase quatro anos percebi: ter o espírito aberto é o melhor caminho para sermos permanentemente surpreendidos. Este inesperado motorista da Carris, afinal blogger, foi uma boa surpresa.
Agora de volta em novo veiculo. Com mais rodas, mais paragens, mais viagens...

Pedro Rolo Duarte
Fevereiro 2012"

À família de Pedro Rolo Duarte, o autor Rafael Santos envia as mais sentidas condolências pela perda do seu ente querido

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A TimeOut Lisboa foi ao "Marques", numa edição onde dá a conhecer algumas alcunhas dos eléctricos

Depois de uma semana ausente dos carris para um merecido descanso, amanhã é dia de voltar ao trabalho, mas antes há ainda tempo para me actualizar sobre o que acontece na cidade, o que me escapava ou o que já conhecia através de mais um número da revista TimeOut Lisboa, que esta semana é "FEITA POR SI". Exactamente isso. A redacção entregou as chaves da cidade aos leitores e pediu sugestões sobre restaurantes, lojas, projectos e visitas. Segredos e novidades que eles próprios desconheciam, ou talvez não.

Como leitor regular desta publicação lisboeta, não podia deixar de aceitar o desafio de abrir as portas com as chaves que me deram e dar-lhes a conhecer o restaurante "O Marques", mesmo sabendo que isto poderia trazer alguns contras. Pois se o espaço já costuma ter fila à espera de uma mesa para refeição, agora com a publicação da sugestão, o certo é que possa vir a fazer concorrência com a paragem do 28E no Martim Moniz. 

Mas não podia ficar indiferente ao repto lançado e deixar de dar a conhecer um espaço onde vou comer sempre que tenho pausa para os lados do Martim Moniz ou Praça da Figueira, porque além do acolhimento que é sempre fantástico, aqui come-se realmente bem. Não descurando a decoração do espaço alusiva aos eléctricos, até porque o Paulo Marques é o mais conhecido entusiasta coleccionador de eléctricos. Sim coleccionador de eléctricos e não são em miniatura. Aqueles que outrora transportaram milhares de turistas por Lisboa e que foram sendo vendidos e desmantelados nos anos 90, vão agora sendo recuperados e restaurados num armazém do próprio. 

Por isso não se admire se ao visitar o restaurante para uma refeição, seja brindado numa das televisões com imagens dos eléctricos de Lisboa nos anos 50, 60, 70, etc. a circularem sobre os carris que estão agora desactivados ou que até já foram retirados.  Mas nem só de comida fala este número, aliás a TimeOut Lisboa é bastante generalista, mas não quero terminar este texto sem referir igualmente um artigo publicado na página 13 sobre as alcunhas dos eléctricos lisboetas na rubrica "O Pátio das Antigas", com o título «Vamos Apanhar o eléctrico?»

Respondo afirmativamente mas só amanhã que hoje é para se gozar o último dia destas mini-férias. Resta-me então desejar-vos boas viagens a bordo dos veículos da CCFL.   

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