terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Eléctrico de Natal já espalha alegria pelas ruas de Lisboa

Lisboa inaugurou as iluminações de Natal no primeiro dia de Dezembro, que vieram trazer mais cor e alegria às ruas da capital. No parque Eduardo VII foi instalada uma mega feira de Natal onde não falta a roda gigante. As tendas dos circos montadas nos locais habituais, já recebem centenas de crianças e famílias para os espectáculos de acrobacias e animais, mas o Natal em Lisboa só fica completo com a chegada do Eléctrico de Natal, que começou esta segunda-feira a circular pelos carris de Lisboa. Uma vez mais a Carris e a Carristur juntam-se para dar um colorido diferente entre a Praça do Comércio e Belém, espalhando igualmente sorrisos e muita alegria. 

Se durante a semana, as viagens estão reservadas para as escolas, já aos fins-de-semana e feriados, viaja nele quem quer ser guiado pelas ruas de Lisboa pelo Pai Natal guarda-freio, que por estes dias troca as renas pelos eléctricos do tipo 700, que durante o ano realizam serviço no circuito Tram Tour.

Recorde-se que esta é uma iniciativa que dura já há 38 anos. Decorado com grinaldas e azevinhos, o Eléctrico de Natal com os seus tons verdes, característicos dos últimos dois anos, realiza viagens com partidas da Praça do Comércio entre as 9h30 e as 17h15. A viagem conduzida pelo Pai Natal dura cerca de 1h20 e passa pela Praça da Figueira, Cais do Sodré, Av.24 de Julho, Calvário, Santo Amaro (onde está instalado o Museu da Carris) e Belém onde inverte a marcha rumo ao ponto de partida.

Os bilhetes são válidos para uma viagem e têm um custo de 6€ para adultos, e 3 para as crianças. A YellowBus criou ainda um bilhete de família com um custo de 15€ para 2 adultos e 2 crianças e os clientes da companhia turística têm um bilhete disponível por 4€. Por cada bilhete vendido 3€ serão doados à Quercus para ajudar na reflorestação das áreas atingidas pelos incêndios.

As viagens não têm paragens ao longo do trajecto e realizam-se nos dias 9 e 10 de Dezembro e prolongam-se depois entre 16 e 31 de Dezembro, com excepção para o dia de Natal (25 de Dezembro). As partidas realizam-se ás 9h30 / 10h15 / 11h00 / 11h45 / 12h30 / 13h15 / 15h00 / 15h45 / 16h30 e 17h15. Mais informações em www.yellowbustours.com  

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Até sempre amigo Pedro Rolo Duarte

Resultado de imagem para pedro rolo duarteÉ com profundo pesar que Rafael Santos, autor de Diário do Tripulante tem conhecimento da morte do jornalista e radialista Pedro Rolo Duarte.  "A notícia foi confirmada ao Observador por fonte daquele hospital, onde o jornalista foi internado esta quarta-feira, na unidade de cuidados paliativos. Antes de ter sido internado no Hospital da Luz, esteve no Hospital Beatriz Ângelo, de Loures.

Pedro Rolo Duarte, filho dos jornalistas António Rolo Duarte e Maria João Duarte, morreu com 53 anos. Deixa um filho, de 21 anos. Fonte próxima da família adiantou ao Observador que o jornalista morreu de cancro", escreve o site Observador.

O jornalista tinha actualmente o programa na Antena 1 "Hotel Babilónia" e antes assinava a rubrica "Janela Indiscreta" também na Antena 1, onde a certa altura deu ênfase ao blogue Diário do Tripulante. A convite do autor do Diário do Tripulante, Pedro Rolo Duarte escreveu o prefácio do livro editado em 2012 pela então extinta Fonte da Palavra. 

No prefácio que escreveu deu-lhe o título "As três vitórias" e nesse texto lia-se:

As três vitórias


“Um blog que conta várias histórias e episódios do dia-a-dia de quem anda ao volante de um autocarro no coração da cidade de Lisboa, os amarelos da Carris” – no dia em que, no âmbito da minha crónica diária na rádio sobre a blogoesfera e as redes sociais, “tropecei” no blog de Rafael Santos, não pude deixar de sorrir.
Não era apenas a originalidade da ideia, era a sua singularidade: a imagem tradicional que temos dos motoristas de autocarros coaduna-se pouco com o romantismo que associamos à escrita num blog. Escreve-se num blog por gosto, por vontade de partilhar ideias, e presume-se sempre um pendor intelectual no acto. Mais: ainda que possa haver em cada um nós um potencial observador do quotidiano, o ar alheado – ou concentrado na condução... – de um motorista de transportes públicos, seria talvez dos últimos a que pudéssemos atribuir o estatuto de cronista ou repórter do dia a dia...
Ou seja, tudo nesta ideia fazia abater preconceitos – e essa foi a primeira vitória do “Diário do Tripulante”.
Ao contrário do que sucede com muitos blogues desta natureza, o de Rafael Santos não sucumbiu às “primeiras chuvadas”. Em anos e anos que levo deste trabalho diário de “seguir” a rede das redes, noto que a esmagadora maioria dos blogues morre sem apelo nem agravo ao fim de poucos meses, passado o entusiasmo inicial do “binquedo novo”. O Diário do Tripulante leva anos no activo – e sempre activo -, e essa é uma segunda vitória.
A terceira é, naturalmente, saltar do âmbito da Internet para a eternidade do papel impresso. “Quando entrei na Carris, contava Rafael no blog, tal como tantos outros, de imediato me disseram que iria ter muitas histórias para contar e é verdade. (...) Por vezes chego a casa e acabo por comentar este ou aquele episódio e logo me dizem...«A tua vida parece um filme». Mas não é a minha vida, mas sim a vida de um motorista da Carris”.
Na verdade, quando dizemos que uma história dava um filme – ou dava um livro... -, estamos apenas a sublinhar o carácter marcante do episódio, a possibilidade de passar para lá da “espuma dos dias” efémeros e rápidos. Ao chegar à “plataforma papel”, o “Diário do Tripulante” ganha esse estatuto e alcança a sua terceira vitória.
Se outros motivos não houvesse, esta tripla bem conseguida por Rafael Santos é motivo de orgulho para o autor. Para mim, humildemente, é apenas a confirmação de algo que há quase quatro anos percebi: ter o espírito aberto é o melhor caminho para sermos permanentemente surpreendidos. Este inesperado motorista da Carris, afinal blogger, foi uma boa surpresa.
Agora de volta em novo veiculo. Com mais rodas, mais paragens, mais viagens...

Pedro Rolo Duarte
Fevereiro 2012"

À família de Pedro Rolo Duarte, o autor Rafael Santos envia as mais sentidas condolências pela perda do seu ente querido

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A TimeOut Lisboa foi ao "Marques", numa edição onde dá a conhecer algumas alcunhas dos eléctricos

Depois de uma semana ausente dos carris para um merecido descanso, amanhã é dia de voltar ao trabalho, mas antes há ainda tempo para me actualizar sobre o que acontece na cidade, o que me escapava ou o que já conhecia através de mais um número da revista TimeOut Lisboa, que esta semana é "FEITA POR SI". Exactamente isso. A redacção entregou as chaves da cidade aos leitores e pediu sugestões sobre restaurantes, lojas, projectos e visitas. Segredos e novidades que eles próprios desconheciam, ou talvez não.

Como leitor regular desta publicação lisboeta, não podia deixar de aceitar o desafio de abrir as portas com as chaves que me deram e dar-lhes a conhecer o restaurante "O Marques", mesmo sabendo que isto poderia trazer alguns contras. Pois se o espaço já costuma ter fila à espera de uma mesa para refeição, agora com a publicação da sugestão, o certo é que possa vir a fazer concorrência com a paragem do 28E no Martim Moniz. 

Mas não podia ficar indiferente ao repto lançado e deixar de dar a conhecer um espaço onde vou comer sempre que tenho pausa para os lados do Martim Moniz ou Praça da Figueira, porque além do acolhimento que é sempre fantástico, aqui come-se realmente bem. Não descurando a decoração do espaço alusiva aos eléctricos, até porque o Paulo Marques é o mais conhecido entusiasta coleccionador de eléctricos. Sim coleccionador de eléctricos e não são em miniatura. Aqueles que outrora transportaram milhares de turistas por Lisboa e que foram sendo vendidos e desmantelados nos anos 90, vão agora sendo recuperados e restaurados num armazém do próprio. 

Por isso não se admire se ao visitar o restaurante para uma refeição, seja brindado numa das televisões com imagens dos eléctricos de Lisboa nos anos 50, 60, 70, etc. a circularem sobre os carris que estão agora desactivados ou que até já foram retirados.  Mas nem só de comida fala este número, aliás a TimeOut Lisboa é bastante generalista, mas não quero terminar este texto sem referir igualmente um artigo publicado na página 13 sobre as alcunhas dos eléctricos lisboetas na rubrica "O Pátio das Antigas", com o título «Vamos Apanhar o eléctrico?»

Respondo afirmativamente mas só amanhã que hoje é para se gozar o último dia destas mini-férias. Resta-me então desejar-vos boas viagens a bordo dos veículos da CCFL.   

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Quando o regresso à Ajuda faz jus ao nome do destino

Passou o mês da celebração dos 145 anos da Carris e estamos já em Outubro com um Outono pouco comum, com temperaturas altas que ainda não convidam à bela da castanha assada, apesar dos fumos dos assadores andarem já pelas ruas de Lisboa. O calor tem marcado presença e talvez por isso o turismo continue em altas. As ruas repletas, os eléctricos cheios, os cruzeiros a reservarem bastantes eléctricos e até os Reis da Holanda andaram por cá. Lisboa está mesmo na moda e como tal é urgente a aposta nos eléctricos porque eles são cada vez mais o postal vivo da cidade que qualquer turista quer ver, viajar e mais tarde recordar. 

Tiram-se fotografias, fazem-se vídeos mas acima de tudo viaja-se e não interessa para onde até que a certa altura numa manhã da carreira 18E já depois de entrar no eléctrico e validar o título de transporte uma passageira questiona se passo na Junqueira. Digo-lhe que não e indignada questiona-me: "Então?" E de seguida esclareço... «Então, não passa. No Calvário vira para a Ajuda.» Confusa a passageira não sabe se há-de sentar-se ou sair e pergunta, "então mas que eléctrico é este?" e digo-lhe que é o 18E. Prontamente me responde que "não entendo como é que vai para a Ajuda e não passa na Junqueira..." e senta-se.

Na paragem seguinte um senhor pergunta-me se passo na Infante Santo. Digo-lhe que sim e minutos depois sai em Santos. Continuo ao fim destes anos todos de guarda-freio, sem entender o porquê de serem aqueles passageiros que diariamente viajam na Av. 24 de Julho, questionarem sobre onde passa, sabendo que naquela avenida só há a linha entre Alcântara e o Cais do Sodré que obrigatoriamente nos leva a passar na Infante Santo.

Mas o regresso ao 18E não fica por aqui. Um corte da chapa da frente a Santo Amaro, origina reclamações no Cais do Sodré quando um senhor, chateado com a vida, digo eu, entra dizendo-me de forma bastante exaltada e num tom de voz elevado que "É sempre a mesma porcaria. Tanta propaganda com a Câmara e não vejo melhoras nenhumas. O zé povinho paga o passe e vocês aparecem quando querem...", como se isto fosse literalmente assim. Primeiro porque não cabe a quem conduz gerir os horários das carreiras nem decidir os destinos e depois porque a passagem da gestão para a Câmara de Lisboa não permite que as mudanças se sintam como da noite para o dia. 


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A casa onde trabalho faz hoje 145 anos



A casa onde trabalho está de Parabéns! A Carris comemora esta segunda-feira 145 anos de vida desde que foi fundada em 18 de Setembro de 1872 no Rio de Janeiro. A Companhia Carris de Ferro de Lisboa, introduziu na cidade o então moderno sistema de transporte, composto por carris instalados na via pública por onde circulavam carruagens puxadas por animais – os chamados «americanos», que tornaram mais cómodas as viagens até então realizadas noutras carruagens que não evitavam o mau estado das vias por onde passavam. E um ano depois era então inaugurada a primeira linha de carros «americanos», entre Santos e Santa Apolónia.

Depois dos Americanos vieram os eléctricos a 31 de Agosto de 1901 e seguiram-se depois os autocarros nos anos 40 adquiridos para serviço à Exposição Mundial que se realizou em Belém. Ao longo dos anos, construíram-se novas estações, e apostou-se fortemente na renovação da frota o que fez com que a Carris tivesse obtido a certificação em 2006. Até ao ano de 2011 a Carris vinha então, continuando a apostar na melhoria do serviço, com a vinda de novos autocarros, mas esquecendo um pouco a aposta nos eléctricos. Na verdade foram eles o ponto de partida da Carris e são neles que a maioria das cidades europeias aposta. Não posso deixar no entanto  de referir, que actualmente a gestão da Carris está a cargo da Câmara Municipal de Lisboa, que já anunciou publicamente querer apostar novamente no eléctrico e nos planos próximos estão o prolongamento da 15E a Santa Apolónia e o sempre prometido regresso do eléctrico 24, contudo e até então, não tem passado disso mesmo, promessas. Aguardemos agora pelos próximos capítulos.


Com a crise instalada em Portugal nos últimos anos, quase sanada, hoje a Carris volta aos poucos a enfrentar os desafios que o presente o futuro proporcionam. Começaram a chegar já novos tripulantes e em breve chegarão os novos autocarros. Quanto aos eléctricos, nada se sabe, mas já se ouvem rumores que poderão ser feitos investimentos nesse sentido. O que se sabe é que é vontade de Fernando Medina, actual presidente da Câmara e candidato à próxima legislatura, investir na renovação da Carris levando a que a empresa volte a ser imagem de marca de uma cidade que tem também ela crescido e que volte a ser a Carris que todos nós nos habituamos a conhecer e a viver. 


A todos os trabalhadores da Carris, o Diário do Tripulante, cujo autor leva já quase 11 anos destes 145, dá os parabéns porque são eles o motor desta marca que comemora hoje mais um ano de vida e talvez por isso a imagem corporativa dos 145 anos tenha sido desenhada com recurso ao nome de todos os seus colaboradores. Parabéns Carris! Juntos movemos Lisboa.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Eléctrico nocturno para o médio oriente...

Quarta-feira, 06 de Setembro de 2017, são 20h57 e preparo-me para iniciar a segunda parte do meu serviço, na carreira 15E que viria a terminar pelas 01h27. Saio da estação com destino a Algés pela Rua da Junqueira já deserta porque na minha frente seguem dois autocarros e um eléctrico articulado que provavelmente vai recolher de Algés para Santo Amaro. Chego a Algés na hora prevista e para a partida rumo à Praça da Figueira ainda faltam 6 minutos. Giro a manivela que permite rodar a bandeira e pelo espelho procuro o meu próximo destino. Avanço com o eléctrico até à paragem e abro a porta da frente, dando assim, início a a mais uma viagem.

«Boa noite senhor guarda-freio», diz-me uma senhora que de imediato valida o seu título de transporte e se senta no primeiro lugar individual do lado direito do eléctrico. Chega a hora da partida sem mais passageiros. Prossigo viagem até à paragem seguinte onde já se encontrava mais passageiros à espera do eléctrico. Uns com ar cansado outros com ar mais fresco. Aqui ninguém saudou à entrada. 

A viagem e a noite seguem calmamente rasgando as ruas por onde estão os carris que permitem a certa altura cruzar com os eléctricos que vão no sentido contrário. São rasgos de luz pela escuridão de Pedrouços. "Plim!", ouve-se no interior. Alguém quer sair no Largo da Princesa e a luz indicadora de "PARAR" a piscar no corredor não engana. Pouco mais a acrescentar numa viagem rumo ao centro de Lisboa, sempre com o olhar atento da Lua hoje especialmente brilhante.

Chegamos à Praça da Figueira, com esplanadas cheias de turistas à porta de um hotel. Trocam-se gargalhadas, bebem-se uns copos, conversa-se e degusta-se boa comida portuguesa. Faço a revista ao eléctrico para ver se nada ficou esquecido, e preparo nova viagem rumo a Algés. A paragem está composta e se encontro um português lá no meio, poderei mesmo dizer que é um achado. Há passageiros oriundos de toda a parte. Com a hora de fecho dos restaurantes indianos, nepaleses, o eléctrico vai-se enchendo com uma multiculturalidade bastante diversa. 

Cheira a fritos, chamuças ou até a sushi nesta viagem. Não se entende nada daqueles idiomas, mas curiosamente são os que mais saudaram com um "Boa noite" ou com sotaque enrolado oriundo da língua, "boa noite chefe!" De repente a viagem para Algés parece ter como destino o Médio Oriente. Os poucos portugueses que viajam com eles, vão entretidos com o olhar sobre as janelas por onde vamos passando, ou a ouvirem música. No meio do eléctrico cheio, só consigo ver pelo espelho um ramo de rosas lá no alto. 

Seguro na pega para não cair com o balançar do eléctrico, o indiano que leva o ramo de rosas, espera certamente ter uma boa venda na noite que se inicia. Afinal de contas quem não se lembra do famoso "Ké Frô?" Sai na Infante Santo e sobe em grande ritmo as escadas que dão acesso ao outro lado da linha do comboio.  

A noite vai avançando e para muitos é o regresso a casa, mas para tantos outros aquelas viagens são o ponto de partida para mais uma noite de trabalho. Cozinheiros, padeiros, seguranças, motoristas, operadores de telemarketing, mulheres de limpeza, entre tantas outras profissões, todos partilham do mesmo desejo. Que a viagem seja rápida, tão rápida quanto eu desejo que chegue ao fim o serviço. 

São já 01h07. Está na hora da recolha e afinal até passou rápido. Amanhã é outro dia. Boas viagens a bordo dos veículos da Carris. 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Gravidez pode dar prioridade mas não livre trânsito...

Dia de Feira da Ladra promete sempre muita confusão na 28E, mas ao contrário do que se esperava a manhã até foi tranquila neste meu início de mais uma semana de trabalho. Carro cheio para os Prazeres, carro cheio para o Martim Moniz, e pelo meio apenas o desabafo de quem tinha visto na véspera todo o seu ouro desaparecer sem saber como. «Eu devia estar parvo não sei. Veja só que estava na paragem à espera do carro eléctrico, quando pára um tipo ali na Graça e me tira a pulseira e o fio na profunda das calmas e eu não me apercebi de nada senhor guarda-freio... É uma cambada que aí anda e a polícia não faz nada...», dizia quase a chorar o idoso em jeito de desabafo. 

«Ando sempre a avisar os outros para terem cuidado e no fim quem foi roubado fui eu. É a vida!» acrescentou já quando se preparava para sair no Largo da Graça para ir comprar o pão. A viagem prosseguiu rumo ao Martim Moniz, com turistas afoitos em busca do Miradouro da Graça que já estava para trás. Saíram em Sapadores e disse-lhes que tinham de andar para trás até ao largo. Duvido que tenham entendido. Pois seguiram em frente o Largo dos Sapadores. 

Depois de chegado ao Martim Moniz, fui rendido e dirigi-me para a Praça da Figueira onde iria iniciar a segunda parte do meu serviço na carreira 12E. A caminho do Castelo pela subida da Mouraria, cruzam-se vizinhos. Trocam-se lamurias porque «a idade já vai pesando», dizem. «Deixe-me sair ai na próxima paragem que já chega de voltinhas por hoje. Vou fazer o Almoço», diz-me uma cliente habitual da 12E, daquelas que parece ter lugar cativo à janela. 

A tarde passava, com viagens de 20 minutos a decorrerem dentro da normalidade até que antes de iniciar a última viagem do meu serviço teria de aparecer algo para me fazer perder algum tempo. A fila na paragem era grande e enquanto cobrava os bilhetes a um casal de espanhóis, atrás surge vinda do Rossio uma jovem apressada... «Estou grávida ok?! Deixe-me passar, veja lá!», dizia em tom pouco simpático para uma francesa que estava pronta para subir o estribo. Contei até 10 para não me meter naquela troca nada amistosa de palavras entre ambas, até que observo a jovem passar em direcção ao banco da janela a meio do corredor, como passam os carros com identificador na Via Verde da portagem, na auto-estrada. Nem um "boa tarde", nem um "obrigado" e aquilo começou a ferver cá dentro, até porque o volume daquela barriga era algo estranho para uma gravidez. 

Viro-me para trás e peço-lhe delicadamente que valide o título de transporte. Ela olha-me de cima a baixo e diz-me «valido já, senhor!», esperando que entretanto vendesse mais alguns bilhetes para me apanhar distraído. Mas eis que ela se dirige ao validador, o mesmo acende a luz vermelha e senta-se. Observo tudo pelo espelho retrovisor. E começo a ver sair de um saco, vários pares de calças, aos quais se juntam um que sai debaixo do vestido. Descontraída começa a dobrar as calças, par por par. Peço-lhe novamente que valide um título de transporte válido porque "gravidez" além de não ser doença, também não é livre trânsito nos transportes. Sim ainda há quem confunda prioridade com gratuitidade. 

Chateada grita comigo que «já passei e não me vou levantar novamente para passar». Digo-lhe que deu luz vermelha e que para se transportar tem de dar verde ou adquirir um bilhete. Mas insiste: «Não me vou levantar outra vez que venho cansada! Já o conheço à anos e nunca implica e hoje tá a implicar?» ... e juro-vos, nunca vi tal personagem desde que trabalho na Carris, mas tudo bem. Ela insiste em dizer que não sai do eléctrico e eu insisto em dizer-lhe que não lhe estou a pedir para sair. Apenas para validar ou comprar um bilhete, porque isto da paciência, também tem limites. Ela entretanto levanta-se e diz-me já menos exaltada, que o melhor é mesmo sair e ir no próximo. Pede-me desculpa mas que não tinha o cartão carregado. Eu explico-lhe que a forma como entrou não foi correcta e que apenas me limito a fazer o meu trabalho, despede-se com um «tá-se bem chefe!» 

E lá sai com a barriga mais leve e o saco mais composto, porque afinal de contas a gravidez era outra. Já dizia o outro... "E esta hein?!"


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Vamos dar as boas vindas a Setembro com o regresso às aulas

Chegou a hora do câmbio. Os nossos "avec's" regressam aos países onde procuraram ser felizes e os nossos turistas regressam do lá fora cá dentro. Bem quanto aos estrangeiros, esses estão sempre num vai e vem constante que já nem se dá conta. Lisboa fervilha com o turismo, mas agora com a chegada de Setembro, começará também a fervilhar novamente com as filas de trânsito. O pára-arranca constante provocado também pelo regresso às aulas porque longe vão os tempos em que apenas o transporte público era o transporte ao alcance de muitos. Hoje os carros particulares abundam nas portas das escolas. «É só um minuto para deixar o menino na escola...», depois mais um minuto ali, outro mais à frente e lá se chega ao terminal com um bom atraso. 

Setembro é sempre assim, e com ele costumam vir também as primeiras chuvas apesar do tempo andar também ele já todo trocado. Afinal de contas tudo parece estar em constante mudança e mudanças são sempre prometidas em tempo de campanha eleitoral para as Autárquicas. É já em Outubro, por isso Setembro será também um mês de reflexões, e de conclusões das obras ainda em curso numa azáfama constante entre máquinas e trânsito para mostrar trabalho feito. Lisboa está mais bonita, mas promete-se sempre mais e nessas promessas estão sempre os eléctricos. 

Assim foi sempre que me lembro, por isso chegou a hora de deixar para trás as boas memórias das férias, e cair na realidade de um regresso nunca desejado. Dêem as boas vindas a Setembro e boas viagens nos veículos da CCFL, na esperança que mais e melhores transportes passem da promessa à realidade numa cidade cada vez mais turística e bonita como Lisboa, onde também os lisboetas precisam de melhor mobilidade. 

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