sábado, 14 de abril de 2018

A verdadeira essência dos "velhos do Restelo" a bordo da carreira 15E

Poderia ser um dia como tantos outros na carreira 15E, com um vai e vem constante de carros de um lado para outro, turistas que se atropelam para entrar e sair, mesmo quando há uma porta para entrada e uma para saída, no autocarro que costuma estar afecto ao reforço da carreira, mas lá haveria de chegar aquela parte próxima do almoço em que na Paragem de Belém com destino à Praça da Figueira, haveria de estar alguém para tornar diferente ou igual a tantas outras, a manhã deste sábado. A fila de autocarros e eléctricos prolongava-se alguns metros e na minha frente seguia o 729 que por sua vez circulava atrás do eléctrico articulado que estava prestes a chegar à paragem para largar e receber passageiros. Eu estava sentado ao volante aguardando a minha vez para poder abrir portas e ver os turistas entrarem como verdadeiros "Obvikwelos" em busca de um lugar sentado.

E quando estamos a menos de 4 metros na paragem, o suficiente para estar já encostado à ilha das paragens mesmo em frente aos Pasteis de Belém, eis que dispara o alarme da emergência como se de um tiro de partida se tratasse numa qualquer corrida dos jogos olímpicos. Mas é falso alarme. Apenas actos de turistas que julgam que o botão de emergência, mesmo que coberto de uma borracha transparente e com necessidade de alguma pressão para ser accionado, é o botão mágico da abertura da porta para poderem entrar. Mas esse apenas eu tenho acesso. Indico-lhes que a paragem é mais à frente.

Quando chega a minha vez de receber passageiros já são poucos os que restam porque entretanto seguiram viagem no eléctrico que estava na frente do 729. Restaram alguns habitantes locais provenientes desse mesmo 729, que embora chateados saúdam-me e sentam-se. Mas bastou arrancar para começarem os desabafos, e diga-se nada simpáticos para com o colega do 729... «Estes velhos que já deviam estar na reforma... Pedi-lhe para abrir a porta para apanhar o eléctrico e disse que não podia, vejam só», exclamava algo exaltado um senhor alto, magro de barbas cumpridas e óculos de sol. De imediato ganhou adeptos no banco da frente. «Esquecem-se - mas não são todos! - que se não fôssemos nós a viajar nem tinham dinheiro para lhes pagar o ordenado...» dizia com toda clareza a senhora da frente.   

Esquecem-se estes passageiros das regras e que para serem respeitados têm de se dar ao respeito, contudo, de imediato a conversa e os desabafos seguiram outros rumos. O senhor das barbas, prosseguia com a palavra... «o ser humano é o ser mais ruim ao cimo da terra. Não vê estes bandidos a matarem inocentes?! É o início da 3ª. Guerra Mundial. Esse Trampa que é translocado e ainda o apoiam...» e a plateia não aplaudia mas concordava. «Nunca vi isto como está agora, anda tudo à balda, é mães a matar filhas é pais a fazerem relações sexuais com as filhas, isto tá tudo perdido», rematava a senhora da fila oposta.

Mais uma paragem e mais um tema de conversa, mas sempre com o senhor das barbas como actor principal. «Ó minha senhora, eu já vivi muito, eu quero é ter dinheiro para comer, o resto que se lixe. Se pudesse ajudava muita gente, aliás até já ajudei bastante por isso é que não tenho nada», exclamava em tom alto para que não restassem dúvidas. «Agora dizer que não podia abrir a porta? Isto no tempo dos ingleses é que andava na linha...», voltava atrás na conversa, mas com mais adeptos noutros temas.

Provavelmente o senhor das barbas até está aqui :) 
Uns entravam, outros saiam, uns abandonavam a conversa e outros juntavam-se ao mesmo tempo que outros limitavam-se a ouvir como era o meu caso. «Este homem que está aqui foi profissional de futebol pelo Belenenses, Braga e Porto, fui 16 vezes internacional e já tive muito dinheiro comigo, por isso agora quero é ter o essencial para sobreviver. Formei os meus filhos e comprei-lhes casa, eles é que são a minha família. Irmãos e etc... queriam era andar a passear com as mulas. Agora admite-se um rapaz no continente tirar 2 carcaças para comer e o segurança ir atrás dele e chamar a polícia? Disse: não chama nada, eu pago as carcaças ao rapaz.» Contava ao mesmo tempo que dizia «até me estou a arrepiar, porque faço de coração, não é por gabarolice».

A certa altura chega-se à conclusão que o futebol actual «está um nojo, por isso é que eu não vejo. Só tenho orgulho no Ronaldo ser português e por ser o mais humilde dessa gente toda. Querem-lhe é estragar a carreira com as gajas a quem ele não passa cartão e que dizem que foram para a cama com ele...», dizia convicto, ao ponto de tornar longa a viagem e  acerta altura o monólogo, que já só ia sendo interrompido pela senhora da frente dizendo «o senhor está revoltado, tenha calma que até lhe faz mal».

A certa altura já desorientado com o debate e com a mistura de temas, sai no Cais do Sodré com um pé e entra com outro porque «nem é aqui e já estou a sair...», até que à entrada da Rua da Prata pergunta-me se não efectuo paragem ali. Digo-lhe que não porque é a carreira 15E. «Obrigado jovem, isto é que é cordialidade, perguntar e responder como deve ser, agora pedir para abrir a porta e dizer que não pode, quando estava junto ao passeio?!», desabafava uma vez mais sobre a situação que lhe havia transtornado a manhã.

O debate chegava no entanto ao fim com o fim da viagem na Praça da Figueira, numa viagem onde se falou da Carris e da sua história, da 2.ª guerra mundial, do Trump, da possível 3ª guerra mundial, do futebol do Ronaldo e do tempo do senhor das barbas que com 70 anos afirmava a cada frase já ter vivido muito por este mundo fora. E assim foi a volta ao mundo na carreira 15E com vivências, desabafos e revolta daquele a que se pode realmente apelidar de verdadeiro "velho do Restelo" dado o seu palmarés. 




quarta-feira, 11 de abril de 2018

[Foto-Reportagem]: As primeiras 24 imagens do 24E em modo formação

Suspensa a 28 de Agosto de 1995, a linha entre o Cais do Sodré e Campolide que tinha sido reconstruída quase na sua totalidade, viu-se obrigada a ser interrompida devido a obras da construção do parque de estacionamento de Campolide, estando previsto o restabelecimento da linha no Verão de 2001. Contudo a gestão camarária mudou nas eleições seguintes e desde então o seu regresso nesta versão final da carreira 24 entre o Cais do Sodré e Campolide, (que outrora chegou a passar pela Praça do Chile, Alto de São João, Santa Apolónia até chegar à R.Alfândega) passou para segundo plano.

Desde então o seu regresso, sempre defendido pelas populações de Campolide e por entusiastas deste meio de transporte, foram bandeiras eleitorais com constantes promessas. Promessas essas que agora Fernando Medina decidiu tornar realidade, com a passagem da gestão da Carris para a Câmara Municipal de Lisboa. E hoje o eléctrico 574 foi o primeiro a regressar aos carris neste troço que agora será restabelecido, numa fase inicial entre o Largo Camões e Campolide, estando previsto para mais tarde o regresso do 24 à sua última versão com partida no Cais do Sodré rumo a Campolide.

Ainda sem data oficial para a inauguração, e segundo o "Diário do Tripulante" conseguiu apurar, tudo aponta para que possa ocorrer a 24 de Abril de 2018, mas até lá há alguns ajustes a serem feitos na rede aérea e decorrerão as formações de tripulantes que se iniciaram nesta tarde de quarta-feira, depois da manhã ter sido reservada aos formadores, entre os quais estavam ainda antigos guarda-freios que chegaram a trabalhar na carreira 24 antes do seu encerramento. Um dia inesquecível e histórico, com o regresso do amarelo ao Largo do Rato, Rua das Amoreiras e Campolide, para surpresa e alegria dos transeuntes, moradores e comerciantes. 

O Diário do Tripulante, não querendo deixar passar a oportunidade de assinalar este regresso, apresenta agora 24 imagens do 24E ainda em modo formação...

Depois do circuito turístico em 2015, agora a vez do serviço público voltar a estes carris
Todos gostam do Eléctrico: Moradores, comerciantes e turistas pararam para ver o eléctrico


No primeiro dia o convívio entre todos os utentes da via foi pacífico

O antigo terminal do Tram Tour dá agora lugar à carreira 24E

No primeiro dia de formação de tripulantes na Rua da Escola Politécnica

O 24E em formação no Largo de São Mamede

Ir às Amoreiras de Eléctrico vai voltar a estar na gíria...

Do Largo do Rato já se avista novamente o eléctrico amarelo

O 574 a entrar no Largo do Rato

O regresso do eléctrico 24 provou que valeu a pena não se desistir...

Os primeiros tripulantes em formação com o auxílio da Polícia Municipal

O 574 a cruzar a Av. Engenheiro Duarte Pacheco com o espaço da antiga estação da Carris ocupado agora pelas Amoreiras

Com destino ao Largo Camões em modo formação, entrando na Rua das Amoreiras

Cruzando o arco das Amoreiras, o eléctrico amarelo da Carris

A vizinhança veio à janela ver o eléctrico passar...

De volta ao Largo do Rato...

Uma imagem que até ao momento só era possível com recurso aos arquivos


Entrando na Rua da Escola Politécnica

Curvando a esquina da Pastelaria 1800 no Largo do Rato

Avisos para o regresso da circulação dos eléctricos nestas artérias

Ajustes nas localizações de paragens

Ao final da tarde com a equipa satisfeita com as primeiras impressões



terça-feira, 10 de abril de 2018

Quando inesperadamente África está tão perto, como o 24 está perto de regressar...



Mais uma volta mais uma viagem... mais uma semana e com muita chuva à mistura. E no meio de tanta confusão há sempre alguém que pergunta se do outro lado do rio é África, se o eléctrico vai para Algés, quando acabam por descer em Santo Amaro, ou se já não há eléctricos só porque aparece um autocarro com "15E P.Figueira" na bandeira de destino. Há de tudo e para todos os gostos. E depois há também aqueles momentos em que se chega ao terminal, todos os passageiros saem, faz-se a vistoria para ver se nada ficou esquecido e se regressa ao posto de condução. 

Resultado de imagem para telemovel a tocar
Assim foi hoje a meio da manhã quando em Algés, após a revista ao autocarro me desloquei ao posto de condução e fechei a folha da viagem ali terminada. Nada tinha ficado esquecido, ou melhor...

A certa altura coloco a moldura horária já com a folha fechada e pronta para nova viagem e eis que, ouço no meio do silêncio do autocarro, só interrompido pelo som da chuva lá fora, sons vindos de África...


Não seria esta possivelmente a banda mas o som e o ritmo estava próximo, através de um toque de telemóvel que afinal tinha ficado esquecido, embora não o tenha visto. Levantei-me e fui em busca do som... vinha do meio do autocarro, ali entalado entre a cadeira e o painel lateral do autocarro, porque provavelmente caiu do bolso da sua proprietária. Tocava mas estava já na hora de partir. Esperei chegar ao terminal seguinte e caso tocasse atendia, mas a pessoa procurava-o insistentemente ao longo da viagem.

De Algés ao Cais do Sodré, os ritmos africanos estiveram bem presentes animando aquela viagem. E porque foi no Cais do Sodré que uma passageira entra e questiona: "Bom dia senhor motorista, não encontraram aqui nenhum telemóvel?", questionei depois eu como era o telemóvel e o mesmo foi descrito. Disse-lhe que o tinha encontrado mas que não tinha atendido por estar a conduzir...

"Mas podias atender...!" 

Disse-lhe que não, porque estava ao volante. Mas cansada de esperar pelo regresso do autocarro vindo de Algés, desabafa "mas como então ia saber onde estava se não atendias?"  E lá lhe expliquei que caso não voltasse a tocar quando estivesse parado, ou caso não o procurassem, seria entregue na estação de recolha e a proprietária teria de contactar a Carris no sentido de saber se tinha sido encontrado. Esclarecida a senhora agradeceu e acrescentou "mas que sorte o senhor ter encontrado..." e lá foi descansada e a dar a conhecer aos seus contactos que o mesmo já estava e novo em seu poder...

E tudo isto depois de uma noite emocionante e histórica nos carris de Lisboa, com o regresso da Zorra Z-1 ao troço Príncipe Real - Campolide, com vista à preparação dos carris para o regresso da carreira 24E, isto 23 anos depois de ter sido suspensa. 


Boas viagens a bordo dos veículos da CCFL. 

[n.d.r.: O clip de música foi escolhido aleatóriamente por semelhança ao rítmo ouvido no autocarro inesperadamente]

segunda-feira, 2 de abril de 2018

[Off Topic]: Do entusiasmo de uma paixão ao concretizar de um sonho...

Terminada que está mais uma semana nos amarelos da Carris, com mais uma enchente registada na Páscoa, sempre muito procurada por nuestros hermanos, hoje deixo as vivências do quotidiano de parte e trago-vos um olhar sobre uma paixão que nasceu cedo, como a minha. A paixão pelos eléctricos. Já aqui vos trouxe uma sugestão de visita ao restaurante "O Marques" (atrás do Teatro D.Maria II, no Rossio), mas hoje trago-vos um pouco do que está para lá do balcão. O Paulo Marques começou a admirar os eléctricos no caminho para a escola e mais tarde para o trabalho, mas foi só em 1996 que adquiriu o seu primeiro eléctrico, aquele que depois de restaurado viria a circular fora do seu habitat, ou seja, rolando sobre os carris de Sintra.

Conhecido no meio dos entusiastas pelo Paulo Marques "dos eléctricos", não é o único apaixonado por este tradicional e antigo meio de transporte, mas talvez o mais fervoroso, levando a que os seus próprios sonhos se tornem realidade. E tal voltaria a acontecer em 2001 quando adquire um salão que dois anos mais tarde o colocaria em funcionamento e conforme na década de 60. Seguiu-se depois o "caixote" que antecedeu um novo "salão" de quatro motores, seguindo-se em 2006 um "700" e por aí fora até aos dias de hoje que conta já com cerca de 10 viaturas que outrora foram pertença da Carris. 

Mas nesta viagem pela história dos veículos que fizeram parte do quotidiano da Carris não vai apenas o Paulo. A ele juntou-se outro grande entusiasta que tem conduzido em conjunto este sonho. Pedro Mendes é um outro sonhador que tem tentado tornar real o que para muitos é mesmo um sonho. A força e determinação de ambos tem levado a aquisições recentes, como foi o caso do autocarro 123 que chegou às mãos destes entusiastas em 2016. No ano passado resgataram o 780 com vista também à sua preservação e restauro e já este ano trouxeram de volta a solo português um dos últimos nove salões a funcionarem nas ruas de Lisboa antes de ter sido abatido em 1996. O 361 está assim de volta!

A última viagem terá sido do Arco Cego para Santo Amaro, antes de rumar a Inglaterra onde esteve desde 1998, no Black Country Living Museum. Viajou para solo britânico com um objectivo de doar peças a outro "familiar" mas tal não veio a acontecer e passados 20 anos está agora de volta ao país onde terá sido mais feliz. A cobertura que o protegeu durante todos estes anos, permite vê-lo quase como saiu de serviço, de onde se destaca ainda a pintura publicitária feita à mão, como era prática corrente na empresa. 

Mas se pensa o leitor que apenas dois entusiastas são capazes de conduzir este sonho de voltar a devolver à população o passado dos transportes públicos em Lisboa, engana-se porque ao Paulo Marques e ao Pedro Mendes, juntam-se também os entusiastas Pedro Costa, o Pedro Barreto e o Gonçalo Cunha e Silva. Depois alguns amigos, ajudam a fechar esta engrenagem quer na descoberta de factos históricos e documentais, quer na ajuda com vista ao restauro. Eu próprio já tive o prazer de contribuir com mão de obra e sempre o farei assim que a minha disponibilidade o permitir, porque é uma excelente forma de recarregar baterias após o stress semanal, mas também porque junto destes amigos aprendo sempre imenso sobre o passado da empresa que me orgulho de representar. 

Este grupo de amigos são a prova viva de que quando acreditamos num sonho, devemos lutar por ele.  

sábado, 31 de março de 2018

40 euros... o preço da seriedade e da desolação num transporte público perto de si

"Mira... Mira... vamos à lo Monasterio de los Jerónimos!?"... Podia ser mais um tema daqueles calientes desta Páscoa em Lisboa, como todas as outras, mas deixemos de parte por agora a visita de nuestros hermanos que já aqui foi falada este ano, mantendo assim a tradição habitual nesta quadra. Hoje as viagens da 15E foram em tudo diferentes das de ontem, com excepção da lotação, porque essa esteve idêntica ou ainda pior que ontem. Viagem cheia para Belém, viagem cheia para o centro. 

Contudo a certa altura do final da manhã quando muitos já se preparavam para procurar um local para almoçar no meio de tanta gente para tão poucos restaurantes, outros haviam que o procuravam fazer longe da área de Belém. Na paragem do Mosteiro dos Jerónimos e com destino a Algés, entre os poucos passageiros que entraram, quando comparando com os que saíram, entrou um rapaz com os seus 14 a 16 anos que educadamente cumprimentou-me e validou o seu título de transporte, tendo-se sentado de seguida. Ao que parece terá deixado cair duas notas de 20 euros quando retirou o passe do bolso, não tendo reparado, tal como eu não reparei. 

A marcha foi retomada e na paragem do Centro Cultural de Belém entra um casal já com os seus 60 anos. A mulher na frente o marido atrás, ficam num certo impasse que confesso estranhei dado o carro ali já estar praticamente vazio. Ela diz-me «desculpe, que estava distraída...» e valida o titulo de transporte, ao mesmo tempo que se baixa e apanha algo do chão, que pensei ter caído ao retirar o passe da mala. Num instante lhe passou a distracção e sugere ao marido «vamos sentar lá atrás António...»

Como não me tinha apercebido de nada anteriormente, prossegui viagem e mal arranco da paragem o rapaz terá visto a senhora baixar-se e pegar nas duas notas e terá levado as mãos ao bolso tendo reparado que já não as tinha e que seriam as dele. Educadamente tal como tinha entrado, dirige-se a mim e questiona, «senhor, desculpe mas... aquela senhora que apanhou as duas notas de 20 euros entregou-lhe a si?» 

Estranhei a questão, mas associei de imediato ao facto dela se ter baixado para apanhar algo quando entrou. Disse-lhe que não, e que tão pouco não tinha reparado que estavam duas notas no chão. Sugeri ao rapaz que questionasse a senhora. O mesmo assim o fez, mas a senhora respondeu-lhe lá no fundo que não. Que as notas tinham caído quando tirou o passe da mala. Indignado o rapaz não insistiu, mas perguntou aos restantes passageiros se tinham visto a situação. Os dois passageiros que estavam a meio do carro, disseram também não ter reparado nas notas, mas que repararam que a senhora ao entrar se baixou para apanhar algo, mesmo que não tivessem visto nada cair naquele instante. 

Na paragem seguinte o casal saiu. Perguntei ao rapaz se tinha então conseguido reaver os 40 euros que tinha deixado cair. O mesmo responde-me quase com a lágrima no canto do olho que «não. Disse-me que eram dela e que tinham caído da mala. Agora não sei como fazer... era o dinheiro para ir buscar o meu almoço e o dos meus pais...» O rapaz, agradece-me a ajuda (que não foi nenhuma porque não me apercebi de nada) e pede-me desculpa ter-me questionado ao mesmo tempo acrescenta que «é uma pena as pessoas não serem honestas» e sai cabisbaixo sem saber o que fazer ou justificar no regresso a casa e sem almoço...

Confesso, que não consegui deixar de pensar na situação o resto do dia, porque  certamente que os 40 euros não tornaram aquele casal milionários, e causou certamente um grande problema para o rapaz que além de ficar sem o almoço, ficou também sem os 40 euros e provavelmente sem saber o que dizer aos pais. O ar desolado dele deixou-me perplexo, assim como a naturalidade com que a pessoa que apanhou o dinheiro dizer que era dela sem ser, mesmo que achado não é roubado, aqui via-se perfeitamente que o dinheiro era do rapaz pela forma como desesperadamente os procurou reaver, mas sempre da forma mais educada possível.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Quando te perguntam se passas em Belém, mas na verdade querem sair no Cais do Sodré....

"Perdon, vás a belém?" é a pergunta mais recorrente dos últimos dias, ou não estivéssemos nós na Páscoa. Mas pior que isto são mesmo aqueles turistas americanos que no seu inglês enrolado perguntam pela "Belém Tower" e quando dizemos que "is the next stop", sentam-se como se fossem demorar uma eternidade a chegar, até que se chega à próxima paragem e todos saem menos eles. Penso na altura que mudaram de ideias, mas rapidamente chego à conclusão que julgavam estar a pagar um transporte público como se fosse privado ou personalizado. Já a chegar a Algés levantam-se e perguntam se era ali a torre de Belém, digo-lhes que já passou, e espantados justificam-se... «But you say is the next». Pois disse e disse bem, só que isso já foram há três paragens atrás e não vos posso pegar ao colo e levá-los à torre de Belém...

O marido sai, ela senta-se a porta fecha-se e eis que se separam. Ela grita pelo marido e o marido do lado de fora, braceja para o autocarro. Imobilizo o autocarro e abro a porta. Ele entra e pergunta se queria levar a mulher dele. Digo que não e que provavelmente ele é que se queria ver livre dela ao ter saído e tê-la deixado lá dentro. Ambos respiram de alívio e depois lá sorriem e acabam por sair os dois. 

A viagem chega entretanto ao fim. Estamos em Algés e o tempo dispensado na viagem anterior em algumas paragens, obrigava a uma partida de imediato, nesta chapa de reforço à carreira 15E. Ao curvar para a chegada à segunda paragem, avisto o eléctrico com os intermitentes ligados e um smart todo partido. Encontros imediatos que no imediato causaram o caos naquela artéria. Calhou-me então a fava mesmo que estejamos na Páscoa e o bolo rei seja bolo de Natal. Fiquei a fazer transbordo entre Algés e Belém até resolução do acidente, porque o smart vinha com tanta pressa que acabou em vagar. 

Depois aquela máxima dos passageiros habituais que são sempre aqueles que mais confusão causam quando vêm um autocarro a substituir um eléctrico. «Então mas uma pessoa espera o eléctrico e aparece um autocarro?!» Explica-se que dado o acidente efectuo transbordo em Belém, mas como cada um pensa no seu próprio umbigo, de imediato me respondem que «não fazemos outra vida a não ser entrar e sair dos carros...» Na verdade eles já estavam servidos, não queriam saber dos próximos, e isto porque estando o acidente a aguardar as autoridades, os eléctricos não podiam passar de Belém para Algés. 

Já na segunda parte do serviço as coisas não foram muito diferentes, mas se normalmente as perguntas costumam ser na maioria dos turistas, desta feita houve perguntas daquelas para as quais por vezes não encontro resposta, sobretudo porque parece que a determinada altura nos estão a testar. No Largo da Princesa, uma passageira entra e pergunta «Passa em Belém?» digo-lhe que sim. Senta-se e o autocarro num instante enche-se. Informo a central através da consola de gestão que estou "completo". Ora se nas paragens seguintes não há ninguém para sair, não há lugar para ninguém para entrar. 

Apenas no Altinho solicitam paragem. A porta de trás abre-se mas ninguém sai. O mesmo acontece na paragem seguinte. Até que no Calvário lá houve saídas e entradas. A viagem acabou por ser mais rápida e num instante chegamos ao Cais do Sodré. Fim de viagem e tudo abandona (com algum custo) o autocarro até que a senhora que havia perguntado por Belém se dirige a mim e exclama: "Olhe não parou em Belém!"

Explico-lhe que ninguém solicitou paragem, logo não havendo lugares para entradas, não efectuei paragem. Apenas parei no Altinho que foi onde solicitaram. "Desculpe, mas eu perguntei se passava em Belém e disse-me que sim". Então mas e passámos em Belém e até deu conta, «até porque acabou de me dizer que nem parei....» Mas a senhora em causa queria mais conversa e diz "pois eu na verdade queria vir para o Cais do Sodré, mas era para sair em Belém para apanhar o comboio", e lá saiu seguindo o seu destino, deixando-me a pensar se queria vir para o Cais do Sodré porque ia sair em Belém!?! É caso para se dizer, como dizem nuestros hermanos... no te entiendo!

E assim vai decorrendo esta semana da Páscoa pelas ruas de Lisboa...

quinta-feira, 22 de março de 2018

De volta à 15E e com vícios que se criam nos passageiros que se julgam os DDT da Carris...

A Páscoa está à porta e não seria necessário um calendário para se dar conta disso mesmo. Basta viajar de eléctrico numa das 5 carreiras existentes para se perceber que a invasão espanhola habitual desta temporada está de volta. Em Belém os autocarros de matrícula espanhola ocupam quase todo o espaço disponível e os eléctricos andam cheios de uma ponta a outra, mesmo com reforços disponibilizados pela Carris nesta época de maior procura. 

O português quase que não se ouve entre a Praça da Figueira e Algés, numa viagem que ao longo do rio nos vai proporcionando uma vista simpática sobre a Ponte 25 de Abril até mergulharmos no bairro de Alcântara com o tão procurado LX Factory, que fica a paredes meias com o Village Underground, instalado no Museu da Carris, também ele um espaço mediático, mas acima de tudo carismático, na cidade de Lisboa, porque ali estão expostos parte dos veículos e documentos que ajudaram a atingir até então, os 145 anos de existência da Carris. 

Com a semana a meio e já com o Sol a dar algum descanso depois de madrugadas repletas de chuva, acabo de chegar a Algés depois de mais uma viagem em que na penúltima paragem, uma das passageiras habituais da 15E, havia entrado rumo ao terminal. Perante a presença de alguns turistas que também por estes dias chegam ao terminal de Algés mesmo que esse não fosse o destino desejado, informo pelo intercomunicador interno que a viagem terminou e que todos devem abandonar o eléctrico. Todos abandonam menos a dita passageira, uma senhora alta, magra, com a sua permanente composta e arranjada, com um casaco comprido e de carteira na mão, típico daquelas senhoras finas de Algés. 

Abro a cabine para fazer a vistoria ao veículo e de imediato me questiona se pode ficar lá sentada dentro. Digo-lhe que não, até porque teria de me ausentar para visitar o W.C., mas a senhora logo havia de arranjar uma desculpa. "Mas depois não dá tempo de eu chegar á paragem..." E lá lhe disse que dava mais que tempo, porque ainda faltariam 6 minutos para a partida. Não muito convencida com a minha resposta, voltou a argumentar, justificando que "o seu colega fecha a cabine e deixa-me cá ficar...", e já a sairmos do eléctrico lá lhe expliquei que «de facto eu não sou o meu colega, e não posso fechar o veículo com passageiros lá dentro... Tenho de ir fazer algo que ninguém pode fazer por mim». A senhora compreendeu e disse "então vá lá vá lá que eu vou andando para a paragem".

Mas o dia de hoje não podia acabar sem aquela velha da questão das bandeiras, ou indicadores de destino se assim preferir o leitor. Viagem com destino ao Cais do Sodré e depois de todos saírem há sempre um que fica sentado, como sendo o "DDT", isso mesmo. O Dono Disto Tudo. Informo que a viagem terminou e de imediato grita "mas dizia lá Praça da Figueira!" Explico que tem lá escrito Cais do Sodré e logo me diz mas dizia Praça da Figueira. Informo que não é mais sincero que eu e que não tinha interesse nenhum em ter um destino e acabar noutro por minha vontade, até porque todos já tinham saído e apenas ele estava a arranjar um problema que não havia, a não ser o de ter visto mal o destino. Saiu a barafustar e a insultar e eu lá prossegui para nova viagem para Belém.

E assim vão as viagens neste regresso ao 15E, quando a Páscoa e os espanhóis também estão eles de regresso...

sexta-feira, 2 de março de 2018

"Praga de Eléctrico", um convite à viagem, pelo autor de Diário do Tripulante

A partir de hoje, dia 2 e até ao próximo dia 17 de Março, estará patente uma exposição fotográfica sobre os eléctricos de Praga, no âmbito do projecto "Lisboa e Praga de Eléctrico", do autor deste blogue. "Praga de Eléctrico", é o título da exposição que conta com o apoio da Livraria Palavra de Viajante, da empresa de transporte de Praga, Dopravní Podník hl. mesta Prahy e da Embaixada da República Checa em Portugal. 

Esta exposição de fotografia além de assinalar o lançamento da 3.ª edição do livro "Lisboa e Praga de Eléctrico", pretende igualmente dar a conhecer um pouco do transporte público numa cidade que está constantemente repleta de turistas, conhecida igualmente como cidade das cem torres, e no ano em que a República Checa celebra os 100 anos da fundação do estado independente da Checoslováquia.

É portanto um convite à descoberta da cidade checa, através de um meio de transporte característico e que certamente grande parte dos visitantes o utiliza. Recorde-se que este projecto de Rafael Santos, é um trabalho fotográfico inspirado nas fotografias de René Kubasek que em 2001 fotografou Praga e Lisboa aos olhos dos guarda-freios. Assim esta edição de autor cujo a 1.ª edição foi publicada em 2015, pretende agora mostrar que passados mais de 11 anos muito mudou em ambas as cidades mas a importância dos eléctricos, permanece inalterada. 

Assim, a exposição pode ser visitada na Rua de São Bento, 34 em Lisboa e para lá chegar nada melhor que uma viagem no eléctrico 28E que o deixará à porta da Palavra de Viajante, onde poderá igualmente adquirir o livro que está escrito em três línguas. Português, Checo e Inglês e que conta com dois mapas desdobráveis das duas cidades. Incluído está igualmente um guia com o que não deve perder nas duas capitais, à boleia das sugestões dos guarda-freios quer de Lisboa, quer de Praga.

Suba o estribo e embarque nesta viagem de Lisboa ao coração da Europa.

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