segunda-feira, 24 de julho de 2017

Uma semana atípica para quem circula habitualmente sobre carris...




Foto de Rafael Santos.

Chegou o verão e com ele veio uma novidade na carreira 28E. Longe dos planos para as carreiras de bairro até porque Campo de Ourique é uma zona bem servida de transportes, a Carris decidiu colocar um reforço com recurso a mini-bus na tão procurada carreira 28E no trajecto compreendido entre os Prazeres e o Largo Camões, no sentido de servir os clientes nacionais que se deslocam no seu quotidiano para o trabalho ou para as lides do dia-a-dia.


Foto de Rafael Santos.Cada vez mais impossibilitados de entrar nos sempre cheios eléctricos, os locais viram com agrado, mas também com alguma surpresa o aparecimento deste autocarro, ainda que, com muito pouca divulgação, facto que terá levado à pouca procura nos primeiros dias. Ainda assim, os comentários foram bastante positivos por parte de quem os utilizou. A grande procura regista-se mais após as 17h00 no sentido L.Camões - Prazeres, mas deverá ter tendência a ser alargada, com o passa a palavra dos passageiros. Com viagens de 15 em 15 minutos, algo quase impossível de se cumprir os dois autocarros ali andam a subir e a descer a par com os eléctricos sempre apinhados de turistas. A par com este reforço, surgiram também dois autocarros articulados na carreira 15E, porque a capacidade de resposta para tanta procura também estava aquém das expectativas. 
Foto de Rafael Santos.

No entanto, não posso deixar de registar que muita gente continua a preferir o eléctrico, por ser um meio de transporte "mais confortável e fresco", segundo as palavras de uma passageira do 28E. A semana foi portanto um misto entre o modo eléctrico e autocarro, que tornou certamente uma quebra da rotina habitual. Entretanto também quem voltou às ruas de Lisboa foi o eléctrico de turismo decorado com os tapetes de Arraiolos, após um período em que teve de ser alvo de uma reparação técnica. Assim quem nos visita pode novamente ter contacto com um dos artesanatos mais típicos do país enquanto viaja pelas colinas de Lisboa.




Semana esta que acabou ontem com a realização em Lisboa do World Bike Tour, com um trajecto compreendido entre Belém e a Praça do Comércio, que causou alguns cortes de trânsito e alguma confusão entre os passageiros locais e os que nos visitam. A carreira 15E viu-se obrigada a uma limitação no seu trajecto durante o evento, tendo realizado viagens entre Santo Amaro e Algés, com grande parte dos passageiros a reclamarem com os guarda-freios sempre que se chegava ao Centro de Congressos e se anunciava fim de viagem. 

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Um eléctrico chamado "Arraiolos"...

Podia ser um eléctrico chamado desejo, mas este é diferente e já é conhecido como o eléctrico de Arraiolos. Ora se o eléctrico não vai ao Alentejo, vem o Alentejo ao eléctrico de Lisboa. A ideia surgiu há cerca de dois anos, quando numa das minhas várias deslocações à simpática vila de Arraiolos, desafiei a artesã Maria Hortense Canelas a decorar um eléctrico em Lisboa, até porque já tínhamos na altura, dois forrados a cortiça. Nessa mesma altura Hortense tinha vindo do Vaticano onde tinha entregue um tapete ao Papa Francisco. 

Sempre pronta a novos desafios, Hortense de imediato me deu luz verde para tratar dos contactos e de se avançar com o projecto, mas não era assim tão fácil, até que só um ano depois tive resposta. Mas como quem espera sempre alcança, assim que me questionaram por parte da Carristur se a ideia se mantinha de pé, a resposta foi obviamente que sim. Sobretudo porque este projecto seria fundamental no apoio aos artesãos que há tantos anos lutam pela certificação desta arte secular que é, a confecção dos tapetes de Arraiolos. 

Do mail, passámos à primeira reunião, onde dei a conhecer as partes e daí partimos para a apresentação de um projecto estudado e elaborado por forma a ser apresentado à administração. Peguei na máquina fotográfica, fui fotografar o eléctrico e estudar os locais onde poderiam ser aplicados os tapetes, sempre com o conhecimento e experiência da Hortense envolvidos no diálogo porque para Hortense não há impossíveis. Depois seguiu-se a fotografia aos tapetes. Juntei as peças e foi feita uma maqueta. O Turismo do Alentejo associa-se a esta ideia e apresenta-se então à Carristur um projecto final, que de imediato foi do agrado de todos. 

Seguiram-se meses de trabalho. As bordadeiras pegaram na agulha para começar a bordar o que seria o forro do tecto, baseado numa réplica do tapete oferecido ao Papa, enquanto que o desenhador tratava do desenho exterior. O carpinteiro ia preparado as madeiras onde iam ser aplicados os tapetes e a certa altura já havia cortinas e tapetes para os bancos. Ponto por ponto, os tapetes foram ganhando forma e dando um colorido diferente ao eléctrico 744 afecto ao serviço Tram Tour. Horas e horas de trabalho de todas as partes envolvidas, que deram lugar ao resultado verificado esta manhã no Largo da Graça, onde foi inaugurado.

Com a presença da Direcção da Carris e Carristur, do Turismo do Alentejo, da Presidente de Junta de São Vicente e da artesã Hortense, o Eléctrico foi o centro das atenções com quem todos quiseram tirar uma fotografia ou uma selfie. Enaltecido todo o trabalho e importância deste projecto como incentivo à certificação do Tapete de Arraiolos, enquanto as bordadeiras iam bordando tapetes para dar a conhecer aos presentes a técnica desta arte, lá partimos viagem até ao Largo Camões. 

Um dia inesquecível para mim que depois de todo o envolvimento neste projecto, me foi dada a oportunidade de ser eu a conduzi-lo na estreia, transportando assim os convidados naquele que é agora o eléctrico mais charmoso de Lisboa. Após o evento o eléctrico iniciou serviço de turismo, causando surpresa e admiração por parte dos turistas presentes em Lisboa e que tiveram a honra de poder viajar ao longo do trajecto verde da YellowBus. 

Não podia portanto deixar de agradecer à Hortense e à Carristur por terem levado a bom porto esta ideia que um dia tive em Arraiolos, vila que sugiro uma visita e que a partir de hoje terá também um eléctrico sempre presente na sua memória. Convido-vos agora a verem um video que produzi, e que mostra todo o trabalho de montagem deste projecto Electric'rug. Boas viagens!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Histórias pelas colinas de Lisboa à boleia do eléctrico no GEO

Foi com grande entusiasmo e satisfação que a convite do GEO - Gabinete de Estudos Olisiponenses, estive neste final de tarde de quarta-feira no Palácio Beau Séjour em Benfica no âmbito do III Ciclo de Conferências dedicado a "Temas Olisiponenses". O convite surgiu devido às histórias e aventuras que aqui tenho vindo a partilhar ao longo dos anos e mais recentemente devido à publicação de livros e postais que visam manter vivo este interesse e valorização pelo Eléctrico de Lisboa.

Numa sala com frescos bonitos e repleta de habitantes de Benfica e não só, lá se deu início a mais uma palestra, desta feita dedicada ao transporte mais antigo da capital. Mas antes os visitantes e eu mesmo fomos surpreendidos com uma exposição dedicada aos eléctricos, onde estavam mapas, livros e objectos de um coleccionador que também tive o prazer de conhecer já no decorrer da palestra. 

Com início marcado para as 18h30, e depois de um tempo de desconto previsto para as chegadas de última hora, lá demos início à troca de ideias e de conhecimentos. Tinha preparado para este evento a projecção de um power point com um dos temas que mais constrangimentos tem vindo a causar aos eléctricos - as interrupções, com o objectivo de sensibilizar os presentes mas também dar a conhecer os problemas inerentes a um simples carro mal estacionado.

As reclamações, as situações que ocorrem durante e pós-interrupção e os procedimentos a efectuar nestas situações. Contei também algumas das situações mais cómicas vividas ao longo destes 10 anos de Carris, e respondi a algumas perguntas que iam surgindo de quem assistia. Entre entusiastas e anónimos, esta conferência valeu sobretudo pelo esclarecimento e pelo dar a conhecer situações que o público em geral e o passageiro desconhece. 


O que estava previsto demorar 1h00, prolongou-se por muito mais tempo e quando olhámos para o relógio já eram quase 21h00 e a sala ainda estava composta, porque os eléctricos continuam a ser um tema importante para os lisboetas, porque a conversa estava animada e interessante. No fim houve quem dissesse que a partir de hoje ia ter mais cuidado ao estacionar próximo das linhas dos eléctricos e ouve quem ficasse surpreendido com o que um guarda-freio tem de fazer ao longo de um dia de trabalho. Muitos desconheciam que o eléctrico tinha areia e outros quiseram saber para quando estava previsto afinal, o regresso do eléctrico 24.

Houve de tudo e para todos os gostos e no final houve ainda tempo para um pequeno brinde com vinho do Porto para despedida de um final de tarde muito simpático, onde as conversas fluem numa abrir e fechar de olhos. É sempre assim quando fazemos ou falamos do que gostamos. Quanto ao eléctrico 24 não pude dar resposta concreta até porque não sei. Deixo esses detalhes para as entidades oficiais, até porque estive ali a título e convite pessoal. A Carris teve conhecimento através do GEO e através do meu inspector, mas não estiveram presentes e como tal não foi possível ter uma resposta oficial sobre o 24.

Foi um final de tarde e uma folga bastante bem passada, e não posso terminar sem deixar de agradecer publicamente o convite que me foi endereçado e a hospitalidade com que me receberam. Foi um prazer ter participado nesta iniciativa do Gabinete de Estudos Olisiponenses da Câmara Municipal de Lisboa. 

Fotos gentilmente cedidas por João Lima

domingo, 11 de junho de 2017

Quando as novas tecnologias passam para a linguagem do quotidiano...

Chegou o auge das festas de Lisboa. Santo António comemora-se já na noite de amanhã, mas as festas já começaram no início do mês, trazendo para as ruas centenas de pessoas. Mas a semana até começou longe da confusão, em pleno sossego da carreira 18E onde já não era escalado há algum tempo. E que diferenças encontrei... Comecei por estranhar as saudações dos passageiros coisa rara nos tempos que correm, e depois estranhei sobretudo as alterações pós-obras na calçada da Ajuda. Mas não deixei de estranhar a quantidade de turistas que já começam a procurar o 18E, talvez para fugir às enchentes do 28E ou para conhecer outras zonas da cidade. E estranhei sobretudo porque o eléctrico andou quase sempre bem composto e porque o tempo para as viagens começou a ser mais apertado, talvez por causa dos constrangimentos causados pelas obras do Calvário, que fazem jus ao nome.

E porque de regressos se inicia este post, não posso deixar de lado o regresso também ele à 12E. Já com as sardinhas na grelha e o pão no cesto, o eléctrico rasga as ruelas da Mouraria cobertas de fumo e cheiro a grelhados. Os turistas deliram e juntam-se à festa. Lisboa está na rua e confusão não falta nos bairros históricos da cidade onde se comemoram os santos populares. A zona do Castelo continua a ser a mais caótica e perdemos imenso tempo entre São Tomé e as Portas do Sol. Mas como depois da tempestade vem a bonança, nada como acabar a semana na 15E com o sossego de trabalhar numa cabine onde nos livramos daqueles amassos habituais da 28E. 


Ok, temos o bater na porta para trocar dinheiro ou para comprar o bilhete, ou até mesmo para perguntar se vamos para Belém, mas esta semana descobri uma nova forma de se comunicar. Na Praça da Figueira uma rapariga pretendia saber se eu ia para Algés, apesar de na bandeira já ter o destino "15E BELÉM", e como não havia vidro para abrir, e como não estava a entender o que a rapariga pretendia, ela à boa maneira portuguesa, desenrascou-se e pegou no telemóvel, entrou no facebook e escreveu no seu mural com fundo colorido a questão "Vai para Algés?" , disse-lhe que não e ela agradeceu com um like! Chegam assim as comunicações digitais ao quotidiano dos nossos passageiros. 



sábado, 3 de junho de 2017

Turismo com fartura e fartura de arraiais no mês das festas de Lisboa

Mais um verão e mais umas festas da cidade, onde o caos se instala porque Lisboa continua a ser divulgada lá fora, mas pouco se faz cá dentro para termos melhor capacidade de resposta para enchentes como as que verificamos diariamente quer no trânsito quer no número de turistas nos nossos eléctricos. A semana tem sido portanto de loucos e bastante cansativa. Comecei a semana com reclamações pelo facto das agências de turismo agora terem ganho o hábito de ir com um autocarro descarregar grupos de turistas ao terminal dos Prazeres visto que no Martim Moniz as filas são sempre enormes, mas o certo é que pouco podemos fazer quando estes grupos ali se deslocam e entram com cartões "viva viagem" pré-carregados. 

As reclamações sucedem-se também no que aos tempos de espera diz respeito e agora a frase da moda preferida pelos nossos passageiros é que «isto mudou para a Câmara mas está igual ou pior ainda...», mas o certo é que as alterações não se fazem assim num abrir e fechar de olhos e o certo é que anda tudo saturado. Clientes e Tripulantes, que se deparam com uma cidade que permanece com muitas obras onde há cada vez mais passeio e cada vez menos estrada. Está bonita a cidade mas pouco prática, até para o transporte público. Mas deixemos a análise deste tema para o fim de todas as obras.

Agora o que interessa é que já cheira a sardinha assada e manjerico. O Santo António está à porta e nas ruas estão já os arraiais que trazem sempre centenas de pessoas para as ruas dos bairros mais pitorescos de Lisboa onde passam por exemplo, os eléctricos 12, 25 e 28. E se no Corpo Santo, a festa dos comes e bebes faz-se sem grande mossa, o mesmo já não se passa em São Tomé, onde trânsito, peões e barraquinhas se juntam para serem causa de inúmeros atrasos nas carreiras que ali passam. É portanto urgente a presença da Polícia Municipal naquele troço histórico de Lisboa, que não tem capacidade para tanta gente, a fim de ser colocada ordem no trânsito para que não estejamos ali parados aos 15 e 20 minutos.

Junho é por norma mês de festas e romarias na capital e o Diário do Tripulante associa-se às festas e no âmbito das palestras do Gabinete de Estudos Olisiponenses, aceitou o convite para estar no próximo dia 21 Junho pelas 18H30 em Benfica a contar algumas das "histórias pelas colinas de Lisboa à boleia do eléctrico", onde será focado um tema que causa inúmeros constrangimentos à circulação dos eléctricos nesta cidade, como forma de alertar e consciencializar a população de Lisboa.

E como não há festas sem surpresas, também este mês a Carristur inaugurou o novo serviço de Aerobus, com alterações nas rotas existentes, passando agora a serem circulares. Ainda durante este mês uma novidade chegará às ruas de Lisboa por intermédio da YellowBus Tours, por isso fiquem atentos que Lisboa fervilha de festa e turismo.


domingo, 7 de maio de 2017

E vão 10... a conduzir lisboetas e estrangeiros pelas colinas de Lisboa


Foto de Rafael Santos.E vão 10! Em 2007, neste mesmo dia 7 de Maio, começava uma nova etapa na minha carreira profissional. Depois de crescer no bairro de Alfama no meio do vai e vem constante dos eléctricos que cruzavam as Escolas Gerais, e de ter escolhido o jornalismo televisivo como formação profissional após o ensino secundário, quis o destino que fosse aos comandos dos eléctricos que viria a passar grande parte do meu dia-a-dia. Interessado desde cedo pelos transportes públicos, nomeadamente os da Carris porque eram os que me levavam e traziam da escola, a entrada da Carris viria a mostrar-me o outro lado da empresa, passando assim a ver como funcionavam as coisas do lado de dentro e passava também eu a representar essa marca centenária.
Em 2012, durante a formação de Eléctricos Articulados com o
formador Cardoso e com o colega Gaspar...


Inscrevi-me como Guarda-freio depois da passagem pela televisão e de 6 anos no comércio têxtil, mas as vagas existentes eram apenas para motoristas. A falta de trabalho na televisão e o querer mudar de rumo fez com que não ficasse na paragem à espera da próxima chamada e entrei a bordo de uma nova aventura pelas ruas de Lisboa. Concluída a formação, apresentei-me na Estação da Musgueira onde permaneci durante 3 anos efectuando serviço em todas as carreiras afectas nessa estação de recolha e de Cabo Ruivo. Passados os 3 anos surge então a oportunidade de me transferir para a Estação de Santo Amaro, passando assim a desempenhar as funções de Guarda-Freio. 

Os anos passaram e já vão 10... 10 anos ao serviço da Companhia Carris de Ferro de Lisboa, com um percurso interessante, na medida em que esta nova aventura levou também à criação deste blogue, onde tenho vindo a partilhar convosco, histórias e situações do dia-a-dia de quem conduz milhares de passageiros por dia. Depois também de forma inesperada surge a oportunidade de editar um livro com as melhores histórias aqui relatadas. E foram muitas. Juntei assim a paixão pela condução do transporte público, ao da escrita.

Na carreira 15E de autocarro devido à
prova do etapa do Rally de Portugal
Mais recentemente a publicação de um novo livro numa edição de autor, permitiu-me juntar igualmente duas paixões: Lisboa e Praga vistas através do fascínio que uma viagem de eléctrico nos proporciona. Digamos portanto que esta opção de entrada na Carris acabou por ser uma boa opção na altura, no entanto muitos espinhos foram surgindo neste percurso, porque nem sempre é fácil lidar com o público cada vez mais exigente e conduzir um transporte numa cidade onde há cada vez menos respeito pelo transporte público. Depois a conjuntura do país nos últimos anos não foi a melhor e o sector dos transportes foi dos mais penalizados. Passei a conturbada fase das Greves, cortes, supressão de carreiras e redução do pessoal tripulante, que originou um desgaste a quem dava a cara pela empresa, mas não atirei a toalha ao chão e apesar de mais complicado, permaneci na esperança de um novo rumo. 

Não nego que ao longo de 10 anos, não tenha ponderado sair e procurar uma nova carreira lá fora, mas com algum esforço e empenho, optei por ficar e manter-me a representar as cores da Carris, sempre com o mesmo brio profissional que impus desde o primeiro dia, apesar de ter dias melhores que outros, como todos nós tempos, mas afinal de contas até a Carris já teve dias melhores e piores. O ciclo da vida é assim mesmo e resta-nos tentar fazer melhor amanhã e dar o nosso melhor a cada dia. Espero assim, que a situação actual da empresa melhore, e que se volte a apostar no modo eléctrico como tantas vezes se promete em campanhas eleitorais. 

Quanto ao futuro, que venham mais 10... 20... Os que sejam, mas acima de tudo com saúde, força e paciência para enfrentar o dia-a-dia aos comandos dos eléctricos (e por vezes autocarros) pelos carris de Lisboa, sabendo desde já que 2017 será sem dúvida um ano marcante.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Chegou a época (do passo) do Caracol!

E eis que estamos em Maio! O primeiro mês sem "r" e como manda a tradição abre-se assim oficialmente a época do caracol. Do liso ao riscado, do mais graúdo ao mais miúdo, sempre acompanhado de uma "loira" ou de uma "cola", num pratinho ou numa travessa, é à vontade do freguês. Mas nem só na mesa se serve o caracol... 

Não seria de todo má ideia colocar os típicos letreiros com a inscrição "Há Caracóis" em toda a extensão dos carris entre o Largo da Madalena e a Rua de São Tomé, porque de facto ali naquela zona histórica de Lisboa só se anda mesmo a passo de caracol. Como diz a letra de Luis Fonsi, é "pasito a pasito, suave suavecito..." para se subir ou descer aquele troço cada vez mais saturado de carros, tuk-tuks, autocarros, táxis, eléctricos, ligeiros, etc... Chegamos a demorar 20 minutos para fazer um caminho que normalmente se faz em 4 minutos porque tudo afunila em São Tomé no estreito que estava apenas preparado para a época das carroças e quando passava um eléctrico a cada 20 minutos. 

Mas mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e são cada vez mais os carros a circularem numa zona que devia estar restrita a moradores e transportes públicos. A ausência de semáforos e a falta de respeito leva a que diversas vezes o trânsito pare até que tenha de chegar a polícia para resolver. O problema é que nem sempre a polícia está por perto - mas devia -  e quando assim é, digamos que é o salve-se quem puder e lá vamos nós viajando a passo de caracol, com os automobilistas a colocarem a cabeça de fora a ver o que se passa, parecendo os corninhos dos caracóis quando estão ao sol. Depois lá se anda mais 2 metros e lá se pára novamente e é isto a tarde toda.

A viagem do 28 atrasa-se à semelhança do 12 e as paragens vão enchendo, ao ponto de quando chegamos à paragem, já serem os próprios eléctricos que empatam porque demoram imenso tempo na paragem porque a venda de bilhetes é mais demorada porque os passageiros são mais e depois tudo é uma bola de neve porque se o eléctrico não anda depois os que vão no sentido contrário também não passam e pronto, estamos novamente num beco sem saída. 

Mas até quando é que a Câmara Municipal de Lisboa, a Carris, a Junta de Freguesia, ou quem quer que seja, decide resolver o problema que se vive diariamente naquela artéria histórica da cidade? Até quando é que aquela "selva" onde os traços contínuos são para os tuk-tuks como são as fitas coloridas para a árvore de Natal, ou seja, para decorar? Até quando é que quem está a trabalhar é poupado de tanto martírio? Até quando é que os autocarros de turismo continuam a ir para a Sé onde não têm condições para tomar ou largar passageiros? Até quando é que a polícia municipal vai assistindo a isto tudo de braços cruzados? 

Sim porque o verão está à porta e se em Maio é a "açorda" que se vê então os próximos meses prometem ser uma verdadeira caldeirada onde os tripulantes voltam constantemente a sair fora de horas, porque simplesmente e cada vez mais cada um que anda na estrada, pensa única e exclusivamente no seu umbigo. Até quando vamos continuar a prestar um serviço nestas condições onde chegamos ao fim do serviço completamente exaustos? 

Até quando??

quarta-feira, 19 de abril de 2017

28E: De volta às ruas que me viram crescer...

Eram 7h00 quando dava entrada nesta manhã de Quarta-feira, na estação de Santo Amaro. O meu serviço iniciava às 7h20 e marcava o meu regresso à carreira 28E depois de cinco meses afastado devido a uma limitação física temporária, causada pelo acidente de Novembro passado. Debelada a lesão, lá regressei com algum entusiasmo confesso ou não fosse esta a minha carreira preferida. Foram 5 meses mas pareceram muitos mais. Limitado à carreira 15E, nomeadamente ao eléctrico articulado onde viajamos fechados numa cabine, foi portanto algo estranha a diferença sentida ou então era apenas por estar uma bonita manhã em Lisboa que todos diziam "Bom dia"...

De Santo Amaro ao Martim Moniz foi um pulo e de repente já tinha cerca de 25 pessoas prontas para subir o estribo do 28E neste dia de regresso às aulas. Muitos estudantes a caminho do Largo da Graça e alguns turistas que procuram cedo, descobrir Lisboa de eléctrico porque provavelmente já tinham visto na véspera as longas filas pela tarde. Ao longo da viagem que parecia a primeira quando comecei a desempenhar funções de guarda-freio na empresa, fui descobrindo algumas novidades. Uma loja nova, uma obra acabada, um Largo da Graça totalmente diferente e um regresso ao bairro que me viu crescer...

Da Graça a Alfama é só descer a Voz do Operário e deixar rolar pelos carris as rodas que ainda cedo chiam ao curvar a rua onde tantas vezes joguei à bola, ou nas Escolas Gerais onde passava tardes junto do sinaleiro da Carris à espera que chegasse o eléctrico para vira a raquete. Mais uma paragem e mais uma cara conhecida. «Olha o Rafael...Então os pais estão bons? Está tudo bem lá por casa?» e de seguida logo outra passageira solta um desabafo «Pensei que lhe tinha saído o euromilhões...» pois antes fosse. 

As viagens prosseguiram sem grandes percalços e interrupções e o regresso ao famoso 28E não poderia ter corrido melhor, tirando o pormenor apenas de à 3ª paragem já estar quase sem trocos porque hoje todos pareciam ter combinado entrar com uma nota de 20€ para pagar um bilhete..

Mas 28E sem peripécias não é 28E e não podia deixar de aparecer a turista que no Largo da Graça já depois de ter passado a paragem do Castelo me pergunta pelo dito. Digo-lhe que já passámos e que tinha de sair e apanhar no sentido contrário o eléctrico e descer na quarta paragem. A mesma diz "ok, ok" e senta-se. Chegados ao Martim Moniz informo que é o terminal. E elas riem-se e perguntam "então mas onde é o Castelo?" e depois de também eu sorrir, lá lhes disse que era la no topo, apontando para as muralhas visíveis do Martim Moniz... Agora é voltar a apanhar novamente ali à frente porque esta viagem terminou mas outra está para recomeçar, e assim é a rotina diária pelos carris de Lisboa...


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