sábado, 18 de setembro de 2021

PARABÉNS CARRIS: Há 149 anos a fazer parte do dia-a-dia dos lisboetas.

A Carris celebra neste 18 de Setembro de 2021 o seu 149 º. Aniversário. Fundada no Brasil, a 18 de Setembro de 1872, desde então muito mudou. Se inicialmente os serviços de transportes começaram por carros puxados por animais, os "americanos", vieram mais tarde os eléctricos a 31 de Agosto de 1901 e seguiram-se depois os autocarros nos anos 40 adquiridos para serviço à Exposição Mundial que se realizou em Belém. A empresa foi crescendo, e acompanhando o crescimento surgiram novas estações e foi-se ao longo dos anos apostando na renovação da frota, que possibilitou em 2006 à obtenção da certificação. 

Ate 2011 a Carris continuou a sua aposta na melhoria do seu serviço, quer com a renovação de quadros humanos quer com a renovação da frota de autocarros. Contudo, nos últimos anos com a passagem da gestão da empresa para a autarquia, a aposta virou-se para as energias renováveis, com a chegada dos novos autocarros a gás e com um regresso da aposta nos eléctricos, como foi o caso da reabertura da carreira 24E há quatro anos e a chegada dos novos autocarros eléctricos para a carreia 706. 

Em 2020, ainda que a pandemia tenha colocado uma pausa no mundo, a Carris não parou e continuou na aposta da renovação da sua frota, com a chegada de mais autocarros, a continuação da criação das carreiras de bairro e já neste ano de 2021, a chegada de mini-autocarros eléctricos que já estão em testes, ao serviço do público nas carreiras 98D, 734 e 28E.

Para o próximo ano continuará a aposta na renovação da frota e do pessoal tripulante, com a empresa a procurar responder à procura que deverá crescer com a entrada em funcionamento da Carris Metropolitana, avizinham-se portanto anos de grandes mudanças no sector dos transportes e certamente que a Carris à semelhança do que tem acontecido ao longo da sua história, procura acompanhar essa evolução.

Este ano, à semelhança dos dois anos anteriores, não há lugar a comemoração, ainda assim a Carris oferece entradas no museu da Carris durante este sábado dia 18 de Setembro e pelas 12h00 do mesmo dia tem lugar um concerto da banda da Carris no espaço museológico.

Parabéns Carris! 149 Anos a servir a população de Lisboa. Obrigado por viajar na nossa companhia. Boas viagens...

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

E assim vão embrulhados como o tempo estes dias no sobe e desce de Lisboa


E mais um dia rola sobre carris. Aos comandos de um eléctrico tradicional de Lisboa equipado com dois motores škoda, percorro as ruas de Lisboa entre o Martim Moniz e os Prazeres, naquela que é a carreira mais procurada pelos turistas.

Dou comigo a pensar como a entrega de uma simples nota de euros pode revelar tanto da pessoa e da sua personalidade. Este pós-pandemia tem revelado uma enorme diferença de comportamentos por parte dos turistas. Se muitos tentam entrar "nos pingos da chuva" entre validações terceiras outros há que trazem a nota bem dobradinha.


Não sei se é uma questão de poupança de espaço na carteira se é para dar trabalho e criar algum suspance - sim porque já desembrulhei uma que vinha por metade - para ver se 5 euros são mesmo 5 euros ou 2,50 euros.

A vontade de dar o bilhete do mesmo modo é quase instantânea mas como profissionais que somos, não o fazemos. Seguimos mais umas paragens e mais uma nota. Esta vem em modo vela de barco. Só falta entregarem uma e forma de "quantos queres" ou em origami.

E assim vai de forma embrulhado - como o tempo - o dia a dia nos amarelos da carris. Boas viagens. 

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Há 120 anos a movimentar Lisboa de forma eléctrica

Fundada em 1872 no Brasil, a Carris – Companhia de Carris de Ferro de Lisboa, trouxe para a capital portuguesa no ano seguinte, o transporte «americano» com carros puxados por animais, que vieram assim substituir as carroças até então muito utilizadas. A primeira linha foi entre a Estação da linha Férrea Norte e Leste (Stª. Apolónia) e o então extremo Oeste do Aterro da Boa Vista (Santos).


Os alfacinhas acotovelavam-se para ver aqueles «32 carros elegantes, sólidos, de boa construção», que prometiam alívios a muitos pés e rapidez nas deslocações. E se o sucesso foi enorme, logo no primeiro domingo de serviço, com 6000 passageiros transportados em 7 carros, maior seria o sucesso dos eléctricos que vieram substituir «os americanos» a 31 de Agosto de 1901.

No princípio foi o susto, mas depressa os lisboetas acalmaram. Renderam-se aos encantos práticos dos amarelos que entraram assim na história da cidade, que viria a crescer em redor das novas linhas de eléctricos.

Dia e noite, os operários trabalharam nas ruas da cidade, abrindo valas, desviando canalizações e instalando carris, abrindo assim caminho a uma nova era do transporte público em Lisboa, com a chegada dos eléctricos que já tinham chegado às instalações da Carris em Junho. Ao todo eram 80 carros abertos, com uma lotação de 36 passageiros sentados e 5 de pé, e de 75 carros fechados, que levavam 24 passageiros sentados e 14 de pé.

“Os guarda-freios, de fato azul-escuro, calças com lista vermelha e galões dourados no boné de pala direita, e os condutores aperaltados com uniforme idêntico, mas com listas douradas nas calças e galões prateados no chapéu, estavam prontos para levarem os eléctricos no seu primeiro passeio oficial. Às 6 da manhã do dia 31 de Agosto de 1901 foi inaugurado o serviço de eléctricos, na linha entre o Cais do Sodré e Algés. Ao longo do caminho, juntou-se gente para admirar os carros, comentar as modernices do letreiro luminoso que indicava o destino do veículo, o fender, designado como salva-vidas na versão portuguesa, encurvado na dianteira do eléctrico como protecção contra atropelamentos, a campainha estridente que avisava os distraídos para se afastarem do meio da rua.”, lê-se no livro «Aventuras sobre Carris».

Rapidamente foram esquecidos os americanos e os medos respeitantes aos choques eléctricos que dizia-se que estes iam causar, mas ainda assim havia quem “aconselhasse a formação de uma Associação dos Fluminados dos Carros Eléctricos, não fosse o Diabo tecê-las...”

Mas a frota da Carris foi crescendo à semelhança das carreiras e com o passar dos anos já ninguém dispensava os eléctricos que em 1910 tinham já uma extensão de 114 Kms. Vinte anos mais tarde foram atingidos os 147 Kms, mas actualmente são aproximadamente 54 Kms divididos pelas 6 carreiras actuais. Muitos foram os modelos que compuseram a frota ao longo dos anos e muitos foram também as alcunhas que os eléctricos foram tendo. Do «São luís» aos «Caixotes», não esquecendo o «Afonso Costa» ou os «Almaranjas», eles foram os antecessores dos actuais «Remodelados» e «Articulados» que efectuam o serviço público regular de passageiros 120 anos depois da inauguração da tracção eléctrica em Lisboa. Depois de anos a "lutarem" pela sobrevivência, os eléctricos seguem agora o caminho da expansão quer da frota com o anúncio de novos eléctricos articulados a chegarem nos próximos anos, quer da rede com a expansão a Santa Apolónia e o anunciado regresso à Cruz Quebrada. 

E se na época poucos foram os que ficaram indiferentes ao aparecimento dos eléctricos, hoje ainda muitos são os que dão preferência  a este transporte típico da cidade de Lisboa, mesmo que haja carreiras de autocarros sobrepostas nos percursos dos carris. Hoje como há 120 anos, os eléctricos fazem parte do quotidiano da capital portuguesa e é o delírio para muitos dos turistas que nos visitam. A importância desta data, não podia deixar de ser referida neste “Diário do Tripulante” que hoje apresenta algumas imagens sobre os nossos eléctricos.

domingo, 11 de julho de 2021

Onda de calor atravessa Portugal: Quando o AC só funciona em andamento...


O Instituto Português do Mar e Atmosfera alertou para a subida das temperaturas no fim-de-semana e não falhou. Uma onda de calor atravessa Portugal e os termómetros passaram rapidamente os 40 graus já no sábado, dia em que iniciei mais uma semana de trabalho pelas 15h30, altura em que rendi o colega na 28E procedente de Prazeres. O eléctrico vinha vazio e comentei com os botões do meu pólo também ele quente... "Bem isto hoje com o calor devem ir para a praia ou ficar em casa..." Mas tudo não passou de um pensamento.

Rendição efectuada, uma senhora pede para entrar porque estava "muito calor na paragem que não se aguenta estar ao sol..." dizia-me num português arranhado de francês. Arranco em direcção ao Martim Moniz, com apenas aquela senhora que havia entrado e sentado num dos muitos bancos disponíveis, todos eles à janela. O carro seguia com todas as janelas abertas até que parados no semáforo, ali mesmo em frente ao estaleiro das obras que darão lugar à futura estação do Metro da Estrela, a senhora em questão, sentada no penúltimo lugar do lado esquerdo do eléctrico questiona: "Senhorre, não pode ligarre o ar condiccionado? Está muito calorre!"

Expliquei-lhe que o Ar Condicionado já estava ligado no máximo! (As janelas estavam todas abertas), mas percebi que ela não estava a brincar quando responde "mas como está no máximo que não se sente nada! Deve serre por ter as janelas abertas!". Disse-lhe que se tratava de uma tecnologia de ponta, em que só sentia o fresco em andamento... Pois afinal tratava-se de um eléctrico antigo e não de um autocarro. Ela sorriu e disse, que "mesmo assim pensava que tivesse arre condicionado. É que não se aguenta mesmo..."

E lá foi até ao Martim Moniz, de onde queria voltar para a Estrela, dando a entender que estava em pleno passeio, e não por obrigação como foi o meu caso que ali tive de andar até ás 23h10, hora essa a que os ponteiros ainda apresentavam 28 graus! Um dia verdadeiramente quente e sufocante, que antecede a um domingo, também ele com temperaturas altas. Haja muita água para hidratar e uma sombra para refrescar.

Boas Viagens a bordo dos veículos da CCFL! 

quinta-feira, 3 de junho de 2021

A nova normalidade a desconfinar pelas ruas de Lisboa.

A pandemia não passou. Lisboa à semelhança de todas as outras cidades do país vai desconfinando segundo os planos traçados no governo com base nos especialistas. Mas a cidade que se fechou em casa durante largos meses onde apenas algumas actividades não pararam, como foi o caso dos transportes públicos, está agora a voltar a uma nova normalidade.

Já se sabe que este ano, uma vez mais, não haverá marchas populares nem arraiais de santo António, mas sabe-se também que as pessoas estão carentes de convívios e de festa. Não admira portanto que esta nova normalidade seja como o próprio nome diz, nova. As pessoas que se diziam iam ser melhores parecem voltar mais agressivas e prontas para destabilizar. Os transportes andam novamente repletos de passageiros entre os quais turistas.

Voltamos a ouvir múltiplas línguas a bordo do eléctrico e voltamos a ver manobras de quem quer usar o transporte sem o pagar. Contudo este novo regresso traz ainda mais jogadas e fintas como que de uma disputa a meio campo de um jogo de futebol se tratasse. Italianos e franceses estão para já no top daqueles que arranjam mil e uma desculpa quando confrontados com o título de transporte. Ou porque julgam ser grátis, ou porque dizem ter validado, ou porque simplesmente tentam passar pelos pingos da chuva.

Depois há também a impaciência daqueles que vêem o seu transporte diário novamente a ser invadido por turistas que querem fazer deste o seu transporte privado. E nas ruas a atenção requer um cuidado redobrado. Os copos de plástico que habitualmente acompanhavam os transeuntes pelas ruas do bairro alto e baixa deram agora lugar às garrafas quer sejam de 33cl de cerveja ou de 750 ml de vinho. As doses aumentaram e o desnorte também. Lisboa está longe de ser o que era antes da pandemia, mas já esteve bem mais longe de o voltar a ser. Os horários já foram restabelecidos nos transportes respondendo assim à procura, mas pelas 22h45 por exemplo, a passagem pelo bairro alto pode ser comparado à passagem do cabo das tormentas. O limite entre a estrada e o passeio deixa de existir e só a presença policial em força evita paragens mais demoradas.

A máscara essa continua a ser obrigatória e não apenas para a entrada no transporte. Na verdade são também cada vez mais os passageiros e sobretudo estrangeiros que entram. Com Máscara e após validarem o título ou adquirirem a tarifa de bordo retiram a máscara para os queixos ou para o bolso, como que se de uma imunidade fosse adquirida após aquele gesto. Muitos acatam a ordem de colocar, outros não gostam e há até quem insista em não colocar, sendo então convidados a sair.

Haja paciência e muita calma nessa hora em que ligamos pontos porque a carris está cá para todos. Boas viagens a bordo dos veículos da CCFL. 

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Carris assina contrato com a CAF para aquisição de 15 eléctricos articulados, numa estratégia que Medina diz ser "a preparação para o próximo Século"

A Carris assinou esta manhã um contrato com a CAF para a aquisição de 15 eléctricos articulados, nas instalações da companhia em Santo Amaro. No âmbito deste processo de reestruturação da empresa e renovação da frota, Fernando Medina, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, aproveitou a cerimónia, para lançar igualmente, um concurso público para a contratação de mais 30 autocarros eléctricos e aquisição de 16 pontos de abastecimento duplo. 

Com um investimento total de 60 milhões de Euros, o presidente da câmara de Lisboa reforçou o papel que a autarquia teve ao longo dos últimos quatro anos, quando o estado passou para as mãos da autarquia a gestão da transportadora. 

O presidente da Carris, reforçou a importância destes investimentos na descarbonização e recordou que recentemente foi assinalado o primeiro ano de operação dos autocarros eléctricos na empresa, ao serviço na carreira 706. Tiago Farias lembrou também que este investimento tendo como parceiro o plano estratégico da autarquia, volta a apostar no modo eléctrico, sendo que esta compra vem aumentar a oferta do material circulante em mais do dobro do existente. Os novos eléctricos terão 28.5 metros e capacidade para 221 passageiros.

Já o presidente da autarquia, Fernando Medina evidenciou o facto de em tempos mais difíceis a Câmara ter assegurado através da Carris, a espinha dorsal do sistema de mobilidade da cidade, durante a pandemia, agradecendo a todos os colaboradores o empenho e profissionalismo com que sempre desempenharam as suas funções. Fernando Medina não quis deixar de lembrar os tempos em que a Carris estava à beira da privatização, sabendo-se que dificilmente seriam alcançados os resultados que hoje são conhecidos, com uma empresa a rejuvenescer e a não criar dívida, reforçando que ao contrario do que se dizia, não serão os contribuintes de todo o país a pagar as dívidas da empresa, porque cabe à autarquia assegurar as custas do serviço público.

O presidente da edilidade local lembrou que este é um dia histórico para a Carris e para a autarquia, até porque, segundo Medina, o próximo plano estratégico a entregar à empresa, «a Carris ficará responsável pela operação do LIOS, isto é, do metro de superfície que ligará a linha de Alcântara a Oeiras, Miraflores, Linda-a-velha, e descendo novamente à marginal, com uma ligação directa à nova linha vermelha do metropolitano em Alcântara, ligando igualmente à actual linha do 15E», projecto este que obrigará a nova aquisição de material circulante, tendo o autarca desafiado de imediato as empresas a concorrerem com as melhores propostas. 

Por fim, Fernando Medina direccionou uma palavra aos trabalhadores da Carris, dizendo que «talvez a razão mais decisiva pela qual a Carris hoje é uma empresa municipal de sucesso e referência, resultou pelo facto de , desde a primeira hora, mesmo nos momentos mais difíceis, os trabalhadores terem dito "nós confiamos na Câmara de Lisboa para ser nosso accionista", e quem nos dá essa confiança não merece menos do que aquilo que estamos a fazer, ou seja, construir uma carris para o próximo século».

Recorde-se que o primeiro eléctrico deverá chegar em 2023, sendo que os 14 restantes chegarão nos nove meses seguintes à chegada do primeiro.  

Fotos: Carris.pt e printscreens do directo da cerimónia desta manhã

sábado, 27 de março de 2021

A volta ao Mundo no 28E numa sexta-feira de desconfinamento


Habitualmente procurado por turistas, o eléctrico 28E é agora usado sobretudo pelos locais que acabaram por reconquistar o espaço, que outrora foi ocupado por quem nos visitava. A pandemia da Covid-19 é a grande responsável pela mudança deste paradigma. Se muitos procuravam o 734 como recurso para não viajarem em modo sardinha em lata no eléctrico, agora apanham o que chegar primeiro à paragem. Mas a ausência de turismo, ou dito por outra forma, a quebra de turistas em massa como se verificava constantemente a bordo do 28E, não invalida que se continue a fazer uma viagem à volta do mundo entre o sobe e desce constante desta carreira que é certamente a mais conhecida do mundo. 

Com início no Martim Moniz e vista para o Castelo que lá no alto testemunhou durante anos as longas filas para o eléctrico, em plena freguesia de Santa Maria Maior, o 28E parte agora com alguns bancos ainda vazios e muito poucos ou quase nenhuns passageiros de pé, salvo a excepção para as primeiras horas do dia, ou para as horas ditas de ponta. As filas para o 28E dão agora lugar a filas para a refeição daqueles que passam por dificuldades financeiras ou que não têm um abrigo para pernoitar. As paragens repletas de gente enganam quem pense que esperam por um transporte da carris. 

Chega a hora de iniciar viagem e de deixarmos Santa Maria Maior, para começar-mos a subir a rua da Palma em direcção a Arroios, aquela que é provavelmente a freguesia mais multi-cultural da capital. Da China ao Japão, do Nepal ao Bangladesh, do Paquistão à Índia. Mas há mais, da Rússia à Ucrânia, das Filipinas à Argentina. Há de tudo e para todos gostos. Porta sim, porta não, há uma loja aberta, ou temporariamente encerrada, devido às restrições do Estado de Emergência. Aberta está sempre a porta do eléctrico para transportar estas comunidades que trabalham e habitam, seja na própria freguesia ou nas vizinhas. O 28E é assim um transporte de eleição para aqueles que além da obrigatória máscara, entram de turbante, de vestidos traçados e cumpridos, de toucas ou lenços. Não admira portanto que o cheiro a especiarias se transporte de vez em quando entre um sobe e desce constante entre curvas no 28E.

Mas o 28E serve também de transporte a quem procura entregar comida, sim há um ou dois trabalhadores independentes da Glovo e Uber Eats que usam o eléctrico como meio de transporte para satisfazer os pedidos dos seus clientes, que esperam de forma electrizante por satisfazer a gula. Deixamos a freguesia de Arroios rumo à de São Vicente, mas não sem antes subirmos a colina lado a lado com a Penha de França, onde o eléctrico que desce a Rua Angelina Vidal está na Penha de França e o que sobe está em Arroios.

Entramos na zona mais frequentada da carreira por estes tempos. A Graça, onde Covid parece ser palavra desconhecida. O comércio local e os supermercados acumulam filas na porta que se encolhem por instantes para o eléctrico prosseguir a sua marcha rumo a Alfama. Avistam-se alguns turistas para espanto de alguns locais e para alegria dos proprietários dos alojamentos locais. Com o chegar da noite o eléctrico vai perdendo a sua multiplicidade de nacionalidades e vão-se vendo os rostos comuns do dia-a-dia por estas horas. São aquelas pessoas que acabam a sua jornada laboral e procuram o 28E para o desejado regresso a casa. 

Rostos conhecidos do dia-a-dia onde se trocam uns dedos de conversa de cortesia. Num instantes mergulhamos na freguesia da Misericórdia que outrora por estas horas da noite já estaria com as ruas repletas de gente para uma noitada no Bairro Alto. Para já, o aglomerado - embora nada comparado com o de outros tempos - é na porta da Manteigaria onde estão sempre 4 ou 6 pessoas à espera dos pasteis de nata, por enquanto ao postigo, a troco da simpatia de quem do outro lado nos recebe sempre com um sorriso. 

A viagem prossegue já com a noite a espalhar a sua magia e com a freguesia da Estrela no encalço. As luzes dos interiores das habitações começam a colorir as ruas por onde passam o eléctrico, e através das janelas vemos algo que por vezes nos passava ao lado. Famílias reunidas ao jantar, pessoas a trabalhar na secretária, a praticarem exercício físico, ou simplesmente a ler um livro ou a meditarem. A viagem à volta do mundo está prestes a acabar com a nossa chegada a Campo de Ourique, mesmo à porta do cemitério dos Prazeres, onde reina o sossego quebrado pelo som dos pássaros e de mais um eléctrico que acaba de chegar. 

São 21h55 e está na hora da última partida do 28E. É altura de voltar ao Martim Moniz onde daí partirei para Santo Amaro, onde dou por finalizado mais um dia. Espero que tenham tido uma boa viagem a bordo da nossa companhia. 

Lisboa, 27 de Março de 2021   

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Uma viagem por esta nova e estranha forma de vida a bordo do 28E

E de repente estamos quase há um ano a viver lado a lado com o invisível. Aquele vírus
 que nos pôs em sentido e que nos mudou hábitos e rotinas. Quando atravessamos a terceira vaga da Covid-19 em Portugal, há no entanto ainda quem não tenha entendido o valor real dos números que nos chegam diariamente pelas televisões, pelos jornais ou pela rádio. Sabemos igualmente que nos custa a todos estar privados da liberdade, de podermos sair para onde queremos e às horas que queremos. Sabemos no entanto que se respeitarmos as regras impostas os números tendem a baixar e a aliviar o SNS, mas há sempre quem teime em contrariar os factos. Fazem-se comparações com outros países, fazem-se suposições, analogias, tudo e mais alguma coisa para contornar o que nos pedem, seja de que forma for.

O Natal adivinhava-se desastroso após o aliviar das medidas e comprovou-se. Mais uma vez os profissionais de saúde a serem sub-carregados, muitos sem férias há algum tempo, a trabalharem mais horas e alguns, até longe da família para que outros pudessem estar mais próximos, como que se não houvesse amanhã. E depois foi o que se viu, para muitos não houve mesmo o tal amanhã.

Na óptica de quem conduz um transporte público, esta pandemia dá para ter noção do que realmente o povo é capaz. Se são os maiores a bater palmas às janelas, são também os maiores a quebrar regras. Assisto diariamente a passeios, ditos "higiénicos" que levam passageiros a viajar de uma ponta a outra da carreira e a voltarem ao ponto de partida, e em alguns casos a repetirem várias vezes por dia. Há claro está, aqueles que têm de recorrer ao transporte público para ir às compras e por isso mesmo é que nós estamos a funcionar. Para servir essa população, mas também aquela que não pode parar, nos considerados serviços essenciais. 

O nosso serviço é também ele essencial, contudo, não estamos enquanto profissionais dos transportes inseridos no lote de prioritários para a vacina da Covid-19 porque não temos um contacto directo com a doença, dizem. Mas deixo essa questão para os entendidos. 

A chegada do novo ano, trouxe-me também ao fim de quase 14 anos, os serviços fixos. Permitem-me ter uma noção mais precisa dos movimentos da carreira porque passei a passar sempre à mesma hora em determinado local com determinado destino. Cruzam-se diariamente comigo as mesmas caras, as mesmas rotinas, mas rotinas essas também elas fora do comum. A paragem do Martim Moniz onde outrora estava repleta de turistas, está agora repleta dos sem abrigo, ou de famílias carenciadas que ali aguardam a chegada da carrinha com a refeição solidária.

A ciclovia da Almirante Reis, mais parece uma pista de atletismo, com a quantidade de pessoas que ali faz a sua corrida diária ou uma simples caminhada, tentando abstrair de tudo o que está à sua volta, praticando um pouco de exercício físico para renovar o ar e a mente. Subo à Graça sem sobressalto, mas com loja após loja de grade corrida, visão esta interrompida por um ou outro restaurante em take-away, os tais que só podem servir comida e não bebidas, mesmo que possa estar em frente uma loja com máquinas automáticas a vender as ditas bebidas...

A chegada à Graça parece uma chegada a outro planeta. Ali não há confinamento que resista. Talvez por ser o centro nevrálgico de uma quantidade de bairros envolventes onde há muito, o comércio local se virou para o turismo, que agora também não há como noutros tempos, e por ter uma população idosa, que acarretam sempre alguma teimosia. Chego a ver a mesma cara mais de 3 vezes por dia com sacos de compras, na primeira vez vão ao pão, na segunda vão ao talho e na terceira vão ao supermercado. Podiam fazer tudo numa viagem? Sim, mas não era a mesma coisa. Na verdade não fomos criados nem educados para estar fechados em casa. Precisamos da rua, do contacto, de tudo e de nada.

Da Graça a Alfama avista-se o Tejo e a margem sul, uma visão que nos transporta quase para outro lado do mundo, até voltarmos a "cair" na real quando cruzamos o casario do bairro histórico, com casas fechadas, outrora abertas de luzes acesas e repletas de turistas. Lojas fechadas que não dão luz às ruas porque até os candeeiros, esses também parecem ter sido esquecidos. Estão apagados. Por instantes é o eléctrico que vai dando alguma cor e som ao espaço envolvente. A "Ti Natércia", não tem grupos de pessoas à porta à espera de mesa para sentar. A porta está fechada. Não há o cheiro a canela e maça dos folhados acabados de sair da fábrica da "Copenhagen". O Café "O Eléctrico" está também de portas fechadas sem aquele cumprimento sempre sorridente da Sandra ou da Gina que me conhecem desde a minha infância, que foi também ela passada por estas ruas de Alfama. 

As Portas do Sol sem aquele movimento frenético de tuk-tuks que tantas vezes nos queixámos, sem aqueles turistas afoites à procura do castelo que tantas vezes nos cansaram com tanta pergunta. O Eléctrico prossegue com um ou dois passageiros e em muitos casos vazios com o entardecer da hora. O "Farol de Santa Luzia" convida ao Take-away com as suas iguarias, mas não há quem passe. Mergulhamos na Baixa que não parece a Baixa e subimos ao Chiado. Cruzo-me com os camiões do lixo ou com os seguranças do metro. Chego ao Camões e um silêncio paira no ar. A praça está vazia. não há copos no chão, não há pessoas, passa um táxi e o sinal acende o verde. 

A noite caminha a passos largos e o aproximar da hora do jantar faz aumentar o fluxo de estafetas ora de bicicleta ora de motos. Uber Eats, Glovo, Bolt Eats, e afins. Aparecem de todas as direcções e vão para todas as direcções, não importando se é proibido voltar à esquerda ou à direita. O que importa é ir e entregar a comida o mais rapidamente possível para que possa cair outra entrega de seguida. São uma autêntica praga nestas horas que parecem sair dos ninhos sem regras. perdi já a conta à quantidade de acidentes que evitei os ultimos dias com estes estafetas. Estamos então no terminal de mais uma viagem e é hora de voltar ao ponto inicial. Virar bandeiras, preencher a folha de viagens aguardar uns minutos e dar início a mais um trajecto por uma Lisboa covid'eserta.

Num instante chego ao Martim Moniz, proveniente dos Prazeres. Desta feita nada por contar, não transportei ninguém. Não vi caras, não tive um "boa noite", um "obrigado" ou um "até amanha", como se tornou normal nesta nova realidade que é a do serviço fixo. 

Chega a hora da recolha, com o dever de missão cumprida. Amanhã será outro dia, envolto de esperança num mundo melhor, num regresso à vida que conhecemos antes de 2019, onde queremos voltar a ver turistas, onde queremos voltar a ter aquela Lisboa cansativa e transpirante, porque cansativa já se torna esta nova vida em que somos obrigados a andar com uma máscara na cara tentado proteger do tal vírus que não vimos mas que sabemos que nos dá luta e que não, não é uma simples gripezinha. Protejam-se e fiquem em casa! #Ajudenosanãoparar e boas viagens a bordo dos veículos da CCFL.

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