terça-feira, 22 de outubro de 2019

De Belém para o Mundo, com muitas dúvidas existenciais...

Por vezes dou comigo, ainda que passados tantos anos, a pensar se, os turistas não percebem mesmo nada de transportes ou se querem fazer de nós uns parvos no canto da Europa plantados. Assisto diariamente a situações e comportamentos que, nunca em alguma parte eu teria, por muitas dificuldades que tivesse quer de orientação quer pela língua nativa. Sabemos igualmente que temos de dar um ligeiro desconto no que à informação diz respeito, porque conhecendo o que se faz lá por fora, ainda temos muito de rectificar, contudo não é desculpa. 

Sobretudo quando nos esforçamos para de uma forma simpática lhes explicar como funcionam e como têm, de se deslocar para atingir o seu destino, nomeadamente na língua deles ou em grande parte na língua inglesa, o que poucos tentariam se fossemos nós lá por fora. Mas o português tem este hábito de saber receber e de querer ser simpático para com quem nos visita, mas o problema é quando os turistas nos esgotam os créditos que temos de paciência. 

Não consigo assim entender o porquê de não terem em conta o destino na bandeira do veículo, pois olham apenas para o número. Já por diversas vezes visitei países estrangeiros e neste campo, todos funcionam quase da mesma forma, ou seja, um número e vários destinos, salvo as carreiras circulares.

Não consigo igualmente entender o porquê de quando dizemos, "terminal" ou "final stop", permanecerem sentados e por vezes a rirem-se de nós, como que se estivessem na esperança que tudo não passava de uma pequena brincadeira do tripulante que decidiu desligar o motor do autocarro e dizer que era o fim da viagem.

Não consigo também entender o porquê de quererem comprar um bilhete a bordo (2€ no autocarro, 3€ no eléctrico) que na ideia deles, daria para toda a sua estadia em Lisboa, como que se os transportes públicos estivessem em saldos. 

Mas nos últimos dias, custa-me ainda mais o turista que entra, pergunta se passo pela Torre de Belém, ao qual digo que sim, sendo que tem de sair na segunda paragem.  E ele segue até Algés como que se todas as paragens efectuadas fossem apenas para entrar ar porque estava muito calor no interior do autocarro. Ou quando me apercebo que são mais idosos e chegados ao Largo da Princesa, aviso que é a paragem para a Torre de Belém, e ficam na dúvida a olhar para o motorista, ainda a perguntar se tenho a certeza. Mas querem fazer mesmo de nós, uns malucos?

Ora malucos, só podem ser mesmo aqueles que no sentido para Belém, entram no Largo da Princesa e após explicarmos que em Belém tem de mudar para um eléctrico, que continua a viagem para o centro, devido às obras (tudo isto na língua deles), chegam a Belém, saem do autocarro e em vez de irem para a paragem do eléctrico, conforme indicada, ficam na paragem do autocarro e mais grave... voltam a entrar no autocarro onde vieram e regressam para o Largo da Princesa, ainda que tenham já passado por duas paragens, sem perceberem que estão a fazer o mesmo trajecto no sentido oposto... 

Portanto tem sido assim estes últimos dias, numa carreira 15E perto de si, com muita pergunta e muito turismo afoito pelas ruas de Belém... e com muitas dúvidas existenciais. Para quem não tem dúvidas, ficam os votos de uma boa viagem a bordo dos veículos da CCFL.


terça-feira, 8 de outubro de 2019

[Off Topic]: SpongeTram evocando os 20 anos do SpongeBob

Foto de Tânia Santos
Surgiram em Lisboa em 1901 e longe estariam por essa altura de pensar, que a sua importância não se restringia apenas naquela época, nem tão pouco pensavam na procura que viriam a ter passado mais de um século. Os eléctricos em Lisboa, tornaram-se uma verdadeira atracção turística aliada a um meio de transporte acarinhado por grande parte dos portugueses, nomeadamente pelos lisboetas no que ao eléctrico da Carris diz respeito. 

Ao longo do ano é procurado por habitantes locais, dos mais novos aos mais velhos. É procurado por turistas que chegam de todas as partes do mundo e que não querem partir sem viajar a bordo da casinha amarela que é também ela um postal vivo da cidade. Tiram-se fotografias, selfies, fazem-se vídeos e acima de tudo percorre-se a cidade através dos carris sinuosos da nossa cidade das sete colinas. Não admira portanto que eles sejam também procurado pelas marcas que pretendem chegar a todo o público.

Marcas essas que chegam a ter lugar cativo como por exemplo o eléctrico da Coca-Cola, há alguns anos afecto ao veículo 502 ou o Leite Vigor associado ao 544, entre outros. Agora é a vez da Nickelodeon usar o eléctrico como meio de comunicação, para celebrar os 20 anos de existência do SpongeBob SquarePants que surgiu nos ecrãs no dia 17 de julho de 1999 e tem reinado como a série de animação infantil televisiva número um dos últimos 17 anos. 

Agora ao amarelo do eléctrico, juntam-se uns olhos e umas bochechas que com o formato arredondado do eléctrico formam um sorriso quase por instinto.

Assim, o eléctrico 551 Assinala o aniversário da famosa esponja, tão amarela como os eléctricos da capital, e se uma viagem de eléctrico já é por si só uma animação, agora torna-se ainda mais divertida. Na sua página no YouTube, o Nickelodeon mostra-nos como foi o lançamento desta campanha...


domingo, 22 de setembro de 2019

A História saiu à rua!

Lisboa parou neste Domingo, para ver a história passar e recuar no tempo. O museu da Carris que assinala o seu 20º. Aniversário associou-se aos 147 anos da Carris e promoveu o desfile de Clássicos do Museu, onde eléctricos e autocarros de outros tempos voltaram a deslizar sobre os carris de Lisboa e a cruzar as estradas da capital. Ao tradicional desfile de eléctricos que o ano passado foi um sucesso, juntaram-se os autocarros 301 e 1001, um verde e outro laranja. As memórias de quem noutro tempo neles se transportava veio de imediato à conversa entre os visitantes e passageiros deste desfile que contou com duas partidas, uma pela manhã e outra já da parte da tarde. 

Esta foi também a primeira oportunidade que enquanto tripulante da Carris, tive de participar neste evento onde levamos para fora de portas um pouco da história, divertindo-me ao conduzir as relíquias que compõem o espólio do museu, e sobretudo divertindo quem neles se transporta ou com quem com eles se cruzam. Inúmeros sorrisos, acenos, fotografias e conversas trocadas num dia recheado de momentos que mais tarde serão certamente recordados. 

Dos mais pequenos aos mais graúdos, foi um passar de testemunho deste gosto pelos transportes como aconteceu noutros tempos em que os pais de hoje eram os filhos de então. São gerações que viajam a bordo e que bonito é ver todos juntos a comentar e partilhar de algo que pelo menos por um dia é de ambos. Entre os passageiros encontrei quem durante 35 anos vestiu a farda da Carris na estação das Amoreiras (então extinta) e que com tanto orgulho e gosto contou de sorriso no rosto inúmeras histórias. 

Calhou-me tripular o número 1, que é o ex-437 que habitualmente faz a ligação entre o núcleo 1 e 2 do museu, um carro de 1901 que em 1965 foi restaurado e adaptado ao serviço de turismo, apresentando assim essa roupagem engalanada para quem na altura visitava Lisboa a bordo do eléctrico de turismo da Carris. 

Hoje tive então a honra de fazer parte da equipa e por isso as fotos deixei-as para os entusiastas que apareceram em peso neste desfile, e por isso apenas serão estas as fotos que posso partilhar. Agradecer por fim o carinho demonstrado e pedir desculpas por nem sempre dar a atenção merecida a todos os que me procuram na altura onde a concentração exige alguma atenção nos carris. Espero que todos tenham gostado do desfile. Um abraço do tripulante que termina desejando-vos uma boa viagem a bordo dos veículos da CCFL. 

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Parabéns Carris: 147 anos a mexer com Lisboa

A Carris completa hoje mais um ano de vida. São já 147 anos desde o dia em que foi fundada no Brasil, a 18 de Setembro de 1872. Desde então muito mudou. Se inicialmente os serviços de transportes começaram por carros puxados por animais, os "americanos"; vieram mais tarde os eléctricos a 31 de Agosto de 1901 e seguiram-se depois os autocarros nos anos 40 adquiridos para serviço à Exposição Mundial que se realizou em Belém. Ao longo dos anos, construíram-se novas estações, e apostou-se fortemente na renovação da frota o que fez com que a Carris tivesse obtido a certificação em 2006. 

Até ao ano de 2011 a Carris vinha então, continuando a apostar na melhoria do serviço, com a vinda de novos autocarros, mas esquecendo um pouco a aposta nos eléctricos. Contudo, a empresa passou nos últimos anos por vários processos de reestruturação e actualmente a gestão da Carris está a cargo da Câmara Municipal de Lisboa, que tem vindo a apostar no modo eléctrico, e reflexo disso, foi o regresso do 24E há 2 anos atrás, linha esta que estava há 23 anos suspensa. Nos planos próximos estão o prolongamento da 24E ao Cais do Sodré, mas antes ainda o 15E deve chegar à Cruz Quebrada.

No último ano a Carris colocou em serviço novos autocarros movidos a Gás Natural, ajudando assim à melhoria do ambiente da cidade e lançou o concurso público internacional para a compra de novos eléctricos articulados para a carreira 15E. E se já andam pela cidade os autocarros a "todo o gás", também os autocarros eléctricos entrarão ao serviço até ao final do ano, reforçando assim a oferta e a frota de autocarros. Este ano marca também a chegada de novos tripulantes, dando um ar mais jovem a uma empresa que não pode esquecer nunca o seu passado quando se completam 147 anos repletos de história. 

E por falar em história, é já no próximo dia 22 de Setembro ás 11h30 e 14h30 que a história sai para as ruas, com o desfile de clássicos do Museu da Carris, que decorre entre Santo Amaro e a Praça da Figueira com viagem de regresso, no desfile que conta com seis eléctricos e dois autocarros, que desta forma assinalam igualmente os 20 anos do Museu da Carris. 


Parabéns Carris!

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Setembro é mês de regressos e de comemorações

Acabaram-se as férias e está também prestes a acabar a primeira semana de trabalho após essa interrupção que sabe sempre a pouco. Com um regresso marcado pelo transbordo na carreira 15E devido a obras em Belém, hoje foi dia de voltar ao 28E sempre ele muito concorrido com o turismo que chega por ar, mar e terra. Com os termómetros a registarem temperaturas acima dos 30 graus, há mesmo assim, aqueles que gostam de viajar tipo sardinha em lata entre suores e cheiros que acabam por inundar o interior do eléctrico, o que nem sempre é agradável para quem é mais sensível aos cheiros, como é o meu caso. 

No entanto a cidade parece regressar de férias a meio gás e o mais certo é que a partir de segunda-feira tudo volta à normalidade em pleno. Quem também já voltou de férias, foi o eléctrico 18E. Setembro marca também o regresso das comemorações do aniversário da Carris que se celebra a 18 de Setembro. Este ano as comemorações dos 147 anos da Companhia Carris de Ferro de Lisboa, contam também com o aniversário do Museu da Carris que comemora 20 anos de vida. 

Assim, no próximo dia 22 de Setembro, a Carris coloca nas ruas de Lisboa um pouco da sua história, com o desfile de clássicos do museu, num trajecto entre Santo Amaro e a Praça da Figueira com ida e volta e partidas às 11h30 e 14h30. Não perca portanto, a oportunidade de participar neste desfile, fazendo uma autêntica viagem no tempo. Mais informações no site do museu da carris.

Boas viagens e boas recordações! 

terça-feira, 13 de agosto de 2019

E eis que finalmente... chegaram as férias!

As últimas semanas pareceram quase um século. É assim sempre que se aproximam as tão desejadas férias. E mais desejadas este ano devido ao cansaço acumulado pelo trabalho no meio do trânsito cada vez mais caótico e sem regras da capital, por muito esforço que se faça em prol da mobilidade. A última semana - aquela que agora termina - foi das piores, muito por culpa do transbordo da 15E, ou melhor, dos passageiros que apesar de toda a informação disponibilizada, gostam sempre de questionar e até pedir justificações ao motorista, como se fosse ele o principal elemento da decisão destes constrangimentos que obrigam a alterações na rede. 

Assim, a juntar-se às trotinetes, às bicicletas, aos tvde's e sei lá mais o quê, tivemos então a alteração na 15E ao qual adicionamos uns "avec's" , tornando assim a receita perfeita para correr para fora desta cidade. E por falar em correr e numas semanas que pareceram um século, a foto escolhida para assinalar as tão desejadas férias é precisamente uma foto do jornal "O Século" que retrata o guarda-freio a correr do eléctrico para fora. 

É precisamente isso que acabo de fazer, hoje não do eléctrico, mas do autocarro e com grande satisfação, porque reconheço que estava já no meu limite, porque o ano foi exigente. Chegaram assim, finalmente as férias e como tal este Blogue entra também ele num período de descanso, regressando à rede para mais viagens e aventuras em Setembro, o mês em que a Carris irá celebrar os seus 147 anos de vida. Resta-me então uma vez mais agradecer a todos os que continuam a seguir nesta viagem e desejar umas boas férias, se for o caso, ou um bom regresso ao trabalho e boas viagens a bordo dos veículos da CCFL

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Diário do Tripulante... "No AR" à boleia da Rádio Observador

Esta tarde troquei as manivelas do eléctrico pelos microfones da Rádio Observador. O convite surgiu para uma pequena conversa em fim de tarde sobre o que tem trazido de novo o Diário do Tripulante, como surgiu e todos os projectos editoriais envolventes. Recebido por uma equipa simpática, dei entrada nos estúdios a tempo de acompanhar a síntese de notícias das 19h30 e viajar um pouco pela magia da rádio. 

As conversas são como as cerejas e correm a uma velocidade que nem damos pelo tempo passar, sobretudo quando falamos do que gostamos e quando partilhamos vivências. E assim foi esta tarde. Falei sobre a criação do blogue, o meu passado profissional e a paixão pelo Benfica muito por ter sido um dos fundadores da maior comunidade de adeptos online, o serbenfiquista.com . Mas houve ainda tempo para explicar de forma suscita como é a condução do eléctrico, respondendo à curiosidade de quem dá voz a esta rádio.

Se não ouviu em 98.7 FM, pode sempre ouvir o podcast já disponível no site da rádio Observador ou aqui mesmo clicando na imagem ou no link. 

Resultado de imagem para Conversas de fim de tarde

domingo, 4 de agosto de 2019

[Off Topic] : Informação ao cliente - Alteração provisória carreira 15E

A partir desta seguda-feira, 5 de Agosto de 2019 e por um período de 75 dias, a carreira 15E funcionará em modo eléctrico e autocarro, com transbordo em Belém, por motivo de obras de requalificação a decorrerem na Rua Bartolomeu Dias. Assim sendo, a carreira 15E funcionará entre Praça da Figueira e Belém com eléctricos e entre Belém e Algés com autocarros, sendo este segundo trajecto desviado entre o CCB e o Largo da Princesa, via Avenida da Índia. É permitido o transbordo tarifário entre os dois modos operacionais da carreira. Também as carreiras 729 e 79B vêm os seus percursos alterados conforme informa a carris através do seu site oficial.

O Diário do Tripulante, sugere assim a consulta atempada das alterações decorrentes das obras de repavimentação a decorrerem, para evitar alguns contratempos na sua deslocação. A Carris informa igualmente através de um esquema as paragens suprimidas e as paragens provisórias para as carreiras supra mencionadas. Para mais informações deverá ser consultado o site da Carris em www.carris.pt  

Mapa: Carris.pt

Próxima paragem... Rádio Observador

Se é daqueles passageiros que viaja connosco na blogosfera desde os primeiros dias, certamente que conhecerá a história do tripulante deste blogue que em 2008 decidiu dar a conhecer o outro lado de quem habitualmente o conduz pelas ruas de Lisboa. Contudo, se entrou a bordo há pouco tempo nesta viagem que leva já alguns anos pela Internet, tendo dado origem a um livro, e mais tarde, ás edições Diário do Tripulante, o melhor é mesmo ficar na próxima paragem que é nada mais nada menos que, a Rádio Observador. 

Chegou à antena a 27 de Junho de 2019 dando seguimento ao trabalho desenvolvido pelo jornal online Observador e pelos vistos tem observado bem o que se tem feito em todas as áreas, como é o caso da blogosfera. O convite foi lançado no decorrer da semana passada e o Diário do Tripulante aceitou o convite. Assim sendo, o autor Rafael Santos estará no próximo dia 6 de Agosto a falar sobre o trajecto desta viagem que tem sido o Diário do Tripulante. 

Em conversa de fim de tarde, pelas 19h20 aproximadamente, o guarda-freio troca as manivelas pelos microfones da rádio que pode ser escutada on-line em todo o mundo, ou em 98.7FM na zona de Lisboa.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Conduzindo a história pelas ruas de Lisboa

Surgiu quando menos esperava, mas há muito que ambicionava ter esta formação. E por coincidência calhou com o dia de aniversário. E qual poderia ser a melhor prenda, se não esta de poder conduzir a história da Carris pelas ruas de Lisboa? 

Após o convite e selecção por parte da Carris, tive hoje o prazer de poder conduzir os eléctricos 283 e 444, de freios manuais, pertencentes à frota do Museu da Carris. 

Com o objectivo de preparar novos tripulantes para a condução destes veículos históricos que hoje são peças de museu, mas que outrora serviam diariamente a população de Lisboa, tive então hoje a oportunidade de ver como era ser guarda-freio naqueles tempos. Carros abertos onde a exigência física é mais requisitada a cada frenagem e onde não podemos ser apanhados desprevenidos, sobretudo se tivermos em conta que o tráfego automóvel hoje é bem mais frequente que nos anos 40 ou 50. O certo é que os eléctricos continuam a fazer parar o trânsito e estão aí para as curvas.

Foram inúmeros os carros a parar ao avistarem o 283 e 444 para tirarem uma fotografia. Houve quem quisesse tirar selfies com o eléctrico em pano de fundo e turistas a quererem entrar para viajar no tempo eram igualmente muitos. Este será portanto um dia de anos inesquecível. Em Setembro é a vez da Carris celebrar mais um aniversário e tudo indica, que a 22 de Setembro se repita o desfile de eléctricos. Fiquem atentos! E até lá... visitem o Museu da Carris porque vale realmente a pena a visita! 



sexta-feira, 26 de julho de 2019

Nos bastidores dos eléctricos (IV): Manutenção da Via Férrea

Normalmente saem para as ruas após a recolha dos eléctricos, mas por vezes dão um ar de sua graça em plena luz do dia, quer seja para limpeza de carris devido a acidentes, quer seja para a lubrificação das agulhas, ou comandos de via se quisermos ser mais técnicos. São conhecidos no meio por "pessoal da linha", e também eles são peça fundamental para o funcionamento das "casinhas amarelas" que diariamente servem milhares de pessoas, quer seja em deslocações diárias para o trabalho quer seja em passeio.

O certo é que o trabalho destes homens é em grande parte quando o Sol já se pôs e quando a Lua tenta iluminar a noite. Pois é durante o período da noite que conseguem realizar com mais tranquilidade, os trabalhos necessários à manutenção dos carris por onde circulam os eléctricos de Lisboa e por isso mesmo, passam muitas das vezes despercebidos, contudo o Diário do Tripulante não pode deixar passar em branco o trabalho destes homens.

Na noite de ontem, os trabalhos tiveram direccionados para o percurso da carreira 25E, com substituição de carril na curva da Rua de Buenos Aires com a Rua de São Domingos, na Lapa muito devido ao desgaste. Um trabalho de peso e perícia para que tudo bata certo no dia seguinte quando os primeiros eléctricos ali começarem a passar. E nem uma avaria no carro zorra impossibilitou a realização dos trabalhos. Coube assim ao "remodelado" 577 dar uma ajuda nocturna ao pessoal da linha. Escusado será dizer que os trabalhos foram concluídos com sucesso.

O Diário do Tripulante agradece a colaboração do tripulante Paulo Brito, que presenciou os trabalhos nocturnos após a tripulação do 577 e que partilha agora com os leitores deste blogue, algumas das imagens pouco vistas, mas não tão menos importantes, que aquelas a que por norma aqui vão passando sobre o quotidiano dos eléctricos de Lisboa, que são cada vez mais uns postais vivos da cidade, e que sem o trabalho destes homens, não ganhavam certamente vida.
Boas viagens pelos carris de Lisboa! 

quarta-feira, 24 de julho de 2019

[Off Topic]: Saldos de Verão 2019 - Leve 3 e pague só 2!

Está a chegar o "meu querido mês de Agosto..." mês pelo qual muitos passam o ano inteiro a sonhar. É para muitos o mês das férias, de repor energias, rever a família, fazer outras actividades e até colocar as leituras em dia. Pensando neste último aspecto e assinalando as três edições de autor publicadas pelo autor do blogue que já faz parte do seu dia-a-dia, o Diário do Tripulante, chegam assim os saldos de Verão, com uma promoção que não pode deixar passar. 

Assim, até 30 de Agosto de 2019 (Sexta-feira) ao adquirir os livros "Lisboa e Praga de Eléctrico" e "InstaTram - Lisboa", paga apenas 24€ e recebe de oferta o livro de 8 postais "Os Eléctricos de Lisboa" através dos quais pode partilhar com o mundo as aventuras vividas nas suas férias com uma recordação de Lisboa, a cidade das sete colinas. Os portes de envio pelos CTT ficam por conta do Diário do Tripulante! 

Encomende já o seu pack de verão através do endereço de email livro.diariotripulante@hotmail.com ou lisbonandpraguebytram@gmail.com e receba comodamente em casa os livros que ajudarão a colorir a sua estante! 

Boas leituras e claro está, boas viagens, que esteja de férias ou a trabalhar!

sábado, 20 de julho de 2019

[Off Topic]: Apollo 11 vs Eléctrico 238

Chegada do Homem à Lua em 1969 com a Missão Apollo 11
Foto da NASA
Faz hoje 50 anos que ocorreu "o pequeno passo para o Homem, um salto gigante para Humanidade". Foi a 20 de Julho de 1969 que Apollo 11 chegou à Lua e deixou todo o mundo colado na televisão para assistir a Neil Armstrong em solo lunar a hastear a bandeira norte-americana.  A história da exploração espacial começou muito antes de os norte-americanos colocarem os primeiros homens no satélite natural da Terra, antes de a antiga União Soviética ter feito de Yuri Gagarin o primeiro humano a completar um voo orbital da Terra, antes de a NASA ter sido criada...

O fascínio pela Lua - aquele "destino planetário" que podemos ver facilmente com os nossos olhos e por isso mais à mão de semear - é ancestral e manifestou-se de várias formas ao longo do tempo. A missão Apollo 11 foi “apenas” uma delas, mas sem dúvida a mais decisiva: foi aí que a "viagem extraterrestre" propriamente dita começou.

Teófilo Braga à conversa com condutor da Carris na
Estrela. Foto de Joshua Benoliel (Arquivo Municipal Lisboa). 
Contudo muito antes desta aventura que se viria a tornar num "salto gigante para a Humanidade", em Lisboa no ano de 1904, mais precisamente a 7 de Dezembro a Carris fazia chegar à Estrela o eléctrico, através da nova carreira que ligaria o Rossio à Estrela via Lapa.

A linha da Estrela era então desde o seu início vista como uma das mais difíceis para os Guarda-freios, dadas as curvas apertadas e os declives acentuados. Relata-nos Luís Cruz-Filipe no seu livro "Do Dafundo ao Poço Bispo, uma História sobre Carris" que «a vistoria, realizada na véspera da inauguração, foi acompanhada com interesse por centenas de populares. A primeira viagem de ida-e-volta entre Santos e a Estrela, no carro 238, realizou-se sem incidentes; apenas foi necessário mandar cortar alguns ramos de árvores que partiram um vidro do eléctrico.(...) À data da inauguração, a carreira que seria o 25 circulava com intervalos de 10 minutos entre o Rossio e a Estrela...»

Eléctrico tipo 700 na chegada à Estrela em 2010
Foto: Rafael Santos
Assim, se a chegada à Lua por parte da Nasa foi um "salto gigante para a Humanidade", a chegada da Carris à Estrela foi um passo gigante para a capital portuguesa, permitindo assim à população, vencer o declive acentuado da colina, com o auxílio do eléctrico.

Hoje, à Estrela continuam a chegar eléctricos todos os dias, com as carreiras 25E, que agora circula entre a Praça da Figueira e os Prazeres e com o 28E, que liga o Martim Moniz aos Prazeres. A estas duas carreiras juntou-se o eléctrico turístico da YellowBus Tours com o circuito das Colinas. 

Continuamos no entanto em 2019, ou seja 115 anos depois, com os problemas inerentes aos ramos de árvores que agora causam constrangimentos esporádicos entre a Estrela e os Prazeres, desde que a poda de árvores passou a ser competência das Juntas de Freguesia. Contudo o problema agora não é a quebra de vidros, mas sim de pantógrafos e não deixa de ser igualmente curioso que está previsto igualmente para hoje a poda das árvores no referido troço, como anuncia a Carris no seu site oficial. 

Termino, não sem antes desejar boas viagens a bordo dos veículos da CCFL e porque não sugerir a quem ainda não o fez, que viaje então nessa experiência que foi um passo gigante para a capital portuguesa, a viagem de eléctrico à Estrela, sem dúvida um programa diferente para o seu fim de semana.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

"Uma profissão que acima de tudo é uma paixão", na revista Lisboa dedicada à mobilidade

Ao longo destes anos na blogosfera, muitas têm sido as histórias aqui contadas, sobre o quotidiano de quem anda aos comandos dos "amarelos" da Carris. Uma viagem que começou há mais de 10 anos e que veio dar a conhecer ao público em geral o outro lado da viagem que habitualmente fazem entre um ponto A e um ponto B a bordo dos nossos autocarros e eléctricos. E têm sido muitos os passageiros desta viagem que também já segue nas redes sociais.

Entre dias bons e outros menos bons, muitos são os passageiros que se vão cruzando comigo e proporcionando também eles essas histórias. O turismo em crescente, o trânsito que não para de crescer e as novas formas de mobilidade também não deixaram de passar por aqui ao longo destes tempos e talvez por isso mesmo, a Revista Lisboa, publicação trimestral da Câmara Municipal de Lisboa, quis apanhar uma boleia do Diário do Tripulante e trocar uns dedos de conversa ao longo da carreira 15E. 

A entrevista está disponível on-line e chegará ás caixas do correio dos munícipes brevemente na sua 27ª edição, dedicada à mobilidade, ou então pode consultá-la aqui!

Boas leituras e boas viagens a bordo dos veículos da CCFL

domingo, 7 de julho de 2019

Mais um dia ao serviço do... 15 mas com turismo "pé descalço"!

Lisboa está na moda. Ganha prémios por isto e por aquilo, e dizem que é bom. Há um boom de turismo que enche ruas, cafés, lojas e transportes, mas será este turismo aquele que mais se deseja? Lisboa perde aos poucos a sua essência e nos transportes é vê-los a tentar enganar quem por cá está a prestar um serviço público. 

Como se não bastasse optarem por usar os transportes públicos ao invés dos serviços turísticos para descobrir a capital das sete colinas, ainda tentam entrar sem pagar, tentam regatear o preço, e muitos compram um cartão para dois ou três. É aquilo a que na gíria se chama o verdadeiro turismo de pé descalço. 

E quando dizemos que um cartão é só para uma pessoa, ou se dizemos que a luz vermelha não permite viajar, o caldo está entornado. Eles são sempre donos da razão e nós que somos de cá e por sinal até somos os condutores do transporte que querem usar, não temos razão e não percebemos nada disto. Perde-se tempo a explicar e tempo a  tentar perceber.

Se o destino diz "Centro de Congressos" e eles querem ir para o "Rossio", então chegados à Rua da Junqueira, é um problema para os tirar lá de dentro porque como dizem "mas é o 15!", reacções que me levam a crer que ou não usam transportes nos países de origem ou então querem mesmo fazer de nós parvos. 

A semana ainda agora começou e eu já estou desejoso que chegue a folga. Trabalhar em Lisboa está a ser cada vez mais desgastante, por muito que se goste do que se faz e da própria cidade. 

Boas viagens a bordo dos veículos da CCFL.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Nota de Redacção: Autocarro da Carris abalroado por ligeiro de mercadorias (chega de Fake News!)

Foto: Publicada no JN.pt
Não é prática comum deste blogue, abordar os acidentes que envolvem viaturas da Carris, ainda que as mesmas estejam constantemente vulneráveis, pelo facto de circularem ao longo das 24 horas de cada dia pelas ruas de uma cidade cada vez mais movimentada. Contudo, as notícias que vieram a público nesta manhã de sexta-feira, na sequência do acidente que envolveu um autocarro da carreira 794, na Baixa de Lisboa, obrigam a que se diga BASTA!

Os órgãos de comunicação social, na ânsia de captar audiências à custa da desgraça alheia, ainda que com o objectivo de tentar informar os telespectadores e leitores, acabaram por horas a fio, passarem a notícia de que "autocarro da carris despista-se e causa 5 feridos", mesmo que não tenham procurado a razão do acidente. Contudo e após algumas das testemunhas no local, assim como alguns passageiros que seguiam a bordo do autocarro 1764 da Carris, em declarações a alguns meios, o despiste deveu-se a um embate de uma viatura ligeira de mercadorias que não terá respeitado a sinalização vertical luminosa existente na Rua da Conceição, no cruzamento com a Rua da Prata, originando assim o despiste e embate do autocarro, contra uma das lojas, causando 5 feridos ligeiros, apesar dos estragos visíveis.

Assim, a notícia correcta a ser transmitida deveria ter sido "Autocarro da Carris é abalroado por veículo ligeiro, causando despiste do mesmo e cinco feridos ligeiros".

Como esta situação, infelizmente, não é a primeira e muito provavelmente não será a última, vem agora o Diário do Tripulante, de forma isenta e alheia ao acidente, expressar o desagrado pelas notícias vinculadas nos meios de comunicação social, que através dos seus títulos, levam a um julgamento público contra a Carris, e nomeadamente contra os seus tripulantes, que diariamente evitam milhares de acidentes ao longo dos seus serviços.  

Foto: Publicada no JN.pt
Segundo as autoridades, o alerta para o acidente foi dado perto das 7h15, e no local estiveram uma viatura médica de emergência e reanimação (VMER), duas ambulâncias de suporte básico de vida e duas ambulâncias dos bombeiros. A divisão de Trânsito da PSP também esteve no local a apurar as causas do acidente, assim como a Polícia Municipal, equipas de Controlo de Tráfego da Carris, e equipas de limpeza da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior.  Do acidente terão resultado 4 feridos ligeiros, entre os quais estão o motorista do autocarro, passageiros e uma senhora que se encontrava no multibanco, todos foram transportados ao Hospital de São José.

O Diário do Tripulante, deseja assim que o jornalismo tenha melhores dias e que passe a informar as pessoas correctamente, após a pesquisa de causas e de testemunhos, no que acidentes digam respeito, para que se evite os comentários que estas notícias causam, colocando muitas vezes em causa o profissionalismo de quem conduz milhares de passageiros por dia, assim como a manutenção dos veículos. Aos feridos envolvidos no acidente, desejamos as rápidas melhoras e neste caso concreto, termino expressando o máximo apoio ao tripulante envolvido no acidente de que foi também ele alvo.

Recordo que também eu já fui há uns anos atrás alvo de um acidente, do qual me encontrava a tripular o eléctrico da carreira 28E, tendo sido abalroado por um pesado de mercadorias na Calçada do Combro, tendo a comunicação social, passado a informação que eu teria embatido numa carrinha por distracção, quando o acidente se deu com o eléctrico totalmente imobilizado. 

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Com destino a Algés, que pelos vistos não é Algés que todos os passageiros conhecem!

Uma das viagens desta manhã na carreira 15E podia ser igual a tantas outras, muito embora, todas as viagens sejam por si só diferentes. O certo é que a diferença desta viagem não estava apenas no veículo, que era um autocarro em vez do habitual eléctrico. A viagem a que me refiro foi diferente por duas situações. A primeira porque transportei uma senhora que me perguntou se eu era o Rafael. Estranhei a questão, ou talvez não até porque esta viagem partilhada neste blogue tem levado ao longo dos anos a que alguns passageiros me reconheçam, por muito que se tente passar despercebido entre as curvas e linhas de Lisboa.

Num curto diálogo entre as quatro paragens que separavam o ponto de partida e de chegada dessa passageira, lá me disse que tinha estado na exposição fotográfica que apresentei recentemente na livraria Palavra de Viajante, na Rua de São Bento. Deu-me os parabéns e que gostou muito de ver "os amarelos tão bem representados através do olhar de quem os conduz...", não deixando de acrescentar que tenciona em breve adquirir o livro porque na altura não ia prevenida para tal. 

Mas na mesma viagem, chegado ao terminal de Algés, todos os passageiros saíram, menos uma jovem de origem oriental mas que aparentemente terá nascido por cá, ou que por cá estuda, dado falar português quase correcto. Estranhando estar só no autocarro, questiona "Isto é Algés?" ao que lhe respondi de forma afirmativa, acrescentando ser a paragem terminal da carreira. 

A jovem, com ar de quem estava a estranhar o local, exclama: "Mas Algés que conheço não é assim!" Iniciava-se assim um dialogo divertido...

Motorista: "Pois eu Algés só conheço esta localidade. Não digo no entanto que não haverá outra algures pelo país..."
Passageira: "Mas... (pausa) Estes jardins e flores... (pausa) Não me parece!"
Motorista: "Mas olhe que está em Algés - Oeiras. Mas como é afinal a Algés que conhece?"
Passageira: "Não sei...(pausa) Mas tem coisas e largo com... não sei como dizer..."
Motorista: "Pois assim é difícil, se nem você sabe!"
Passageira: (risos) "Pois, mas... tem a certeza que estamos em Algés?"
Motorista: "Tenho pois. Mas não estará a estranhar não ser a zona do terminal dos autocarros ao lado da estação do comboio?" 
Passageira: "Pois não sei, mas talvez. Como procuro isso?"
Motorista: "Então é caminhar em frente que encontra, caso contrário pode perguntar. Mas se você não sabe como é a Algés que diz conhecer, não vejo como perguntar..."

E lá foi a jovem, meio perdida, quer geograficamente, quer pelo riso de quem se viu numa situação insólita de querer explicar algo que nem a própria sabia como o fazer. 

E assim vão as viagens pelos veículos da CCFL. E quanto a si, já sabe... se quiser adquirir o livro "InstaTram - Lisboa", pode recebê-lo comodamente em sua casa com os portes de envio grátis. Encomende por email livro.diariotripulante@hotmail.com 

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Com a paciência a esgotar, Lisboa qual será o teu destino?

O dia começa como tantos outros. A chegada à estação de Santo Amaro faz-se ainda pela fresca quando os dias prometem ser escaldantes. As temperaturas sobem acima dos 30º C e as pessoas ficam impacientes e por isso, trabalhar de madrugada nestes dias é a melhor opção, mesmo para quem goste pouco de acordar cedo. Levanta-se a chapa do horário que dita a escala de serviço, deslocamos-nos até ao pilar do Car-Barn onde está a tabela que indica o eléctrico que nos foi atribuído, durante as poucas horas que estiveram em descanso, nas 24 horas que tem cada dia. 

O procedimento é rotineiro. Baixar o trolley, verificar os areeiros, colocar as bandeiras de destino e numéricas de acordo com a carreira e iniciar o serviço na consola que nos identifica e localiza através dos monitores que estão na Central de Comando de Tráfego da Carris, em Miraflores. Ligam-se as luzes interiores, liga-se o farol e liga-se a corrente dos motores. Instantes depois já estamos a receber os primeiros passageiros do dia, os que se deslocam para os empregos e os que regressam a casa, seja do trabalho ou de uma noite de folia. 

A cidade acorda lentamente, mas num instante tudo muda. O sol nasce e a noite dá lugar ao dia. As ruas quase vazias, enchem-se de tudo e mais alguma coisa, desde pessoas a trotinetes. Uma antítese quase perfeita no quotidiano de uma cidade que mudou bastante nos últimos anos, devido ao boom turístico. Lisboa está nas bocas do mundo e deixa no limite quem nela trabalha.

São 9h06 e faltam poucos minutos para iniciar mais uma viagem na carreira 15E com destino a Algés. Turistas enchem por completo a paragem da Praça da Figueira em busca do eléctrico que os leve a Belém. Uns mais prevenidos, entram e validam o seu título de transporte. Outros entram e vão direitos à cabine do guarda-freio. Há de tudo e para todos os gostos, desde perguntas sobre paragens, como comprar o bilhete ou até quem coloque a nota na ranhura da porta que nos permite o acesso à cabine, como se fosse possível retribuir qualquer troco ou vender bilhetes por uma abertura que muitas das vezes, não tem mais que meio centímetro.

A viagem inicia-se entretanto, mas pouco depois já estamos parados na Rua dos Fanqueiros. Um carro mal estacionado impossibilita a passagem do eléctrico porque a condutora deixou a roda da frente virada para a esquerda. São questões de centímetros que se transformam em minutos. Toco a campainha insistentemente em busca do seu proprietário, mas nem sempre com sucesso. Desta feita, a senhora sai de uma loja em frente com os seus sacos. Pede desculpa e diz que foi só ali fazer uma compra rápida. Os meios entretanto accionados, são cancelados e a viagem prossegue. 

Novo dia, novo problema mas outros actores. Estamos na carreira 28E com destino ao Martim Moniz. A primeira paragem prolongada é para descarga de mercadorias no supermercado. O local das cargas e descargas está ocupado por ligeiros e a descarga, faz-se entre cada passagem de eléctrico. Perda de tempo para o eléctrico e para quem descarrega paletes de um camião cheio de bens essenciais. Os passageiros desesperam por chegar a horas ao seu destino, mas até que o atinjam, ainda paramos por causa de táxis, TVDE'S, e outras cargas e descargas. 

"ó chefe é só um minuto!"... Multipliquemos então por uma média de 5 a 6 paragens por trajecto. A chegada ao destino acaba por ser atrasada e isso obriga a uma partida atrasada na viagem seguinte. Circular em Lisboa num transporte público pode tornar-se portanto numa autêntica matemática viva. Chegamos à Sé, na entrada de Alfama, onde tuk-tuks tomaram, de há uns anos a esta parte, conta de todo o espaço disponível.  Mesmo com a Polícia Municipal presente, ou os seus carros, são ignorandos traçados da marcação rodoviária e ignorado muitas das vezes a sinalização vertical, em busca de clientes, mesmo que saibam que o eléctrico passa ali, mas que ali vai parar porque as frentes dos tuks não o deixam prosseguir viagem devido ao estacionamento em espinha, muitas das vezes abusivo, inclusive em passadeiras e paragens. 

Prosseguimos finalmente viagem, mas a passo de caracol porque entretanto um barulhento tuk-tuk apanha clientes ao virar da esquina e o condutor vai tentando render o seu "peixe" explicando isto e aquilo a uma velocidade que permite quase tirar uma fotografia a cada janela por onde se passa. Em instantes estaremos com o Tejo aos nossos pés, visto das Portas do Sol, onde a selva parece ser a melhor designação para a balbúrdia que por ali se assiste com os chamados serviços de animação turística. O facto é que por vezes a confusão dá mesmo lugar a uma animação para quem nos visita ao ver discussões, agressões, que são pintadas com um cheiro a embraiagem constante.

Chegamos às Escolas Gerais, local destinado exclusivamente aos eléctricos no sentido ascendente, mas no semáforo que é accionado pelo eléctrico estão já 3 automóveis ligeiros. Toco a campainha para saírem da frente. Não entendem, e sou obrigado a sair do eléctrico e pedir para que saiam da frente, para que o sinal seja accionado. Explico que estão em sentido proibido, e quase sempre ignoram. Mais uns minutos perdidos...

Estou finalmente a poucos metros de chegar ao Martim Moniz, mas não sem antes ser ultrapassado por um TVDE que pára de imediato na frente do eléctrico para apanhar uns clientes que acabaram de sair do Ramiro. Apanha os clientes, arranca e o semáforo fica vermelho. Chego finalmente ao Martim Moniz e a fila dos que aguardam a partida seguinte é longa, mesmo que o sol esteja escaldante. Pois todos querem um lugar sentado após tanto tempo de espera, que só é muito por isso mesmo, porque querem ir sentados. 

Com os Santos Populares à porta, as carrinhas de cerveja também aumentam no reforço dos stocks de cafés, restaurantes e arraiais. Estamos agora na carreira 25E com destino aos Prazeres num novo dia de trabalho. Já perdi a conta às vezes que tive de imobilizar o eléctrico, abrir a porta, fechar um retrovisor que impede a passagem, ou verificar se o estribo do eléctrico não bate no carro que ficou para cá da marca delimitadora do lugar. É das zonas mais problemáticas da rede de eléctricos. Onde os minutos acumulados se transformam facilmente em horas e em viagens canceladas. 

Passada a zona crítica, seguem na minha frente cerca de 10 segways com um guia na frente. Vão circulado entre os carris como se fossem até, a simular a viagem a bordo do 25E, mas numa versão mais soft e fresca, mesmo que para isso empate quem vem atrás. Parece não haver regras para nada e tudo pode circular na via de rodagem. Os passageiros que já habitualmente desesperam com os carros mal estacionados, gritam pela janela para saírem "com essa treta da frente que vamos trabalhar pá!", sem sucesso. 

Termino um retrato semanal na 24E, com trotinetes que tentam vencer a inclinação da Rua da Misericórdia. Pelo meio o trânsito num pára-arranque provocado por um acesso ao bairro alto condicionado e por um autocarro espanhol que se cruzou no estreito com uma carrinha da cerveja. Ouvem-se buzinas. Os turistas param para ver o que vai dar. Quem segue atrás nos passeios, tem de recorrer à via de trânsito para passar os turistas que pararam para ver as manobras. Lisboa parece a certa altura um molho de brócolos. 

A paciência esgota-se, o calor toma conta de nós. Os horários tornam-se impraticáveis e de quem é a culpa? É do guarda-freio, que facilmente se torna em saco de encher por parte de quem entra após algum tempo de espera, e que entra com reclamações por isto e por aquilo. Um dia de trabalho pelas colinas de Lisboa, está por esta altura equiparado a uma viagem de comboio na Índia, onde vale tudo menos arrancar olhos. Vale-nos o gosto pelo que fazemos e a necessidade de o fazer, porque não sabemos qual será o destino desta cidade que está cada vez mais bonita, mas cada vez mais caótica, sobretudo para quem trabalha num transporte público, onde há muito deixou de haver respeito por corredores BUS, paragens, ou prioridades. 

Afinal de contas, todos temos direito à cidade e ao aproveitar do turismo para a sustentabilidade de cada negócio, mas sem regras dificilmente se alcançam bons objectivos e acima de tudo uma boa imagem. A que ponto vamos chegar com a cidade a rebentar pelas costuras? Lisboa qual será o teu destino?   


[n.d.r.: Fotos do autor / DN / Razão Automóvel / Dinheiro Vivo]

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Livros, Farturas, Sardinhas, Música e muita animação... vem aí um Junho repleto de festas


São Vicente é o padroeiro da cidade de Lisboa, mas as festas são em honras a Santo António. Lisboa começa já a ficar engalanada para as festas da cidade que arrancam já este sábado dia 1 de Junho. Balões, festões e muita cor, música e animação são os ingredientes que por este mês se encontram nas ruas dos bairros mais típicos da cidade. O programa das festas é vasto e a Carris é uma vez mais a melhor forma para se desfrutar da festa. 

Os arraiais estão já delineados e prontos para abrir portas para receber quem nestes dias quer comer uma sardinha, dar um pé de dança ou simplesmente conviver com os amigos fora de portas, mas no coração de Lisboa, cidade escolhida também por muitos dos que nos visitam. Não se estranha portanto que uma viagem no 28 ao passar pelas ruas estreitas de Alfama, o cheiro a sardinha assada entre pelas janelas do eléctrico e façam crescer água na boca. Vamos então ver qual o roteiro possível pelos arraiais de Lisboa à boleia dos eléctricos.

A Mouraria tem nos seus recantos e em São Tomé, os locais mais propícios a comer uma sardinha ou um chouriço assado nem que para isso, tenha de se sentar num largo ao que os moradores lhe deram o nome "Jardim das pichas murchas". Para lá chegar só tem de entra a bordo do 12E e descer em São Tomé.

Belém também, costuma ter os seus arraiais. Não tão conhecidos como os do centro histórico, mas quase sempre bem preenchidos, os arraiais desta zona mais conhecida pelos seus monumentos, é organizado pelo Belém Clube e costumam ter lugar em Pedrouços, onde poderá chegar à boleia do 15E, por onde se costuma ouvir entre os passageiros que é onde se come a melhor sardinha de Lisboa.

Mas como festa nunca é de mais, a romaria de Santo Amaro fica ali a paredes meias com a Estação de Santo Amaro por isso a alternativa pode ser o 18E que por esta altura está desviado da Ajuda para Belém. Há farturas, música e muita animação. 

Com um cartaz de convidados normalmente bem composto, o Arraial de Campolide tem pelo segundo ano consecutivo, o eléctrico 24E como seu vizinho e se ainda não viajou nesta nova carreira, é uma boa oportunidade para o fazer para se divertir pela noite dentro ao som do Quim Barreiros entre outros, sempre com uma boa sardinha assada no pão ou um prato de caracóis.

E animação é o que se promete também em Santos, com a boleia do 25E que mergulha no meio do arraial nas noites de sexta e sábado enquanto as restantes carreiras são desviadas. Há um palco montado para receber aqueles que prometem animar as noites quentes deste santo António lisboeta. E aqui costuma estar também o tradicional Pão com Chouriço.

Mas este roteiro não poderia terminar sem os arraiais do 28E, talvez aqueles que captam mais gente, como são os casos dos arraiais da Graça e de Alfama. A junta de Freguesia de São Vicente apresenta este ano 3 espaços para a sua festa que vão desde o Largo da Graça, ao largo da igreja de São Vicente. Já mais abaixo em Alfama, a paragem das Escolas Gerais pode ser o ponto de chegada para uma partida pelas ruas estreitas onde a cada janela ou recanto lhe convidam a uma ginjinha ou uma cerveja. A festa rija pela rota do 28 é no entanto no Largo das Portas do Sol, onde os lugares habitualmente ocupados pelos tuk-tuks dão agora lugar às farturas, ao pão com chouriço, e claro está, às sardinhas. 

Opções não faltam e por isso o melhor mesmo é consultar o programa completo das festas de Lisboa que a autarquia, já disponibilizou na internet. Quanto a nós Carris, já sabe que contamos com a sua colaboração, pois não é permitido comer ou beber a bordo dos nossos veículos.

As Festas de Lisboa arrancam então este sábado dia 1 de Junho e prolongam-se até ao final do mês. Também este sábado tem lugar a inauguração da Exposição de Fotografia "InstaTram - Lisboa" que é dedicada aos eléctricos de Lisboa e terá lugar na Livraria Palavra de Viajante, na Rua de São Bento, 34 com entrada livre. E no que a livros diz respeito já abriu a Feira do Livro de Lisboa que estará até dia 16 no Parque Eduardo VII, onde poderá igualmente chegar com as carreiras da Carris que passam pelo Marquês Pombal a sul ou pelo Palácio da Justiça a norte. 

Desejamos portanto umas boas festas e boas viagens a bordo dos veículos da CCFL. 

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