sexta-feira, 26 de julho de 2019

Nos bastidores dos eléctricos (IV): Manutenção da Via Férrea

Normalmente saem para as ruas após a recolha dos eléctricos, mas por vezes dão um ar de sua graça em plena luz do dia, quer seja para limpeza de carris devido a acidentes, quer seja para a lubrificação das agulhas, ou comandos de via se quisermos ser mais técnicos. São conhecidos no meio por "pessoal da linha", e também eles são peça fundamental para o funcionamento das "casinhas amarelas" que diariamente servem milhares de pessoas, quer seja em deslocações diárias para o trabalho quer seja em passeio.

O certo é que o trabalho destes homens é em grande parte quando o Sol já se pôs e quando a Lua tenta iluminar a noite. Pois é durante o período da noite que conseguem realizar com mais tranquilidade, os trabalhos necessários à manutenção dos carris por onde circulam os eléctricos de Lisboa e por isso mesmo, passam muitas das vezes despercebidos, contudo o Diário do Tripulante não pode deixar passar em branco o trabalho destes homens.

Na noite de ontem, os trabalhos tiveram direccionados para o percurso da carreira 25E, com substituição de carril na curva da Rua de Buenos Aires com a Rua de São Domingos, na Lapa muito devido ao desgaste. Um trabalho de peso e perícia para que tudo bata certo no dia seguinte quando os primeiros eléctricos ali começarem a passar. E nem uma avaria no carro zorra impossibilitou a realização dos trabalhos. Coube assim ao "remodelado" 577 dar uma ajuda nocturna ao pessoal da linha. Escusado será dizer que os trabalhos foram concluídos com sucesso.

O Diário do Tripulante agradece a colaboração do tripulante Paulo Brito, que presenciou os trabalhos nocturnos após a tripulação do 577 e que partilha agora com os leitores deste blogue, algumas das imagens pouco vistas, mas não tão menos importantes, que aquelas a que por norma aqui vão passando sobre o quotidiano dos eléctricos de Lisboa, que são cada vez mais uns postais vivos da cidade, e que sem o trabalho destes homens, não ganhavam certamente vida.
Boas viagens pelos carris de Lisboa! 

quarta-feira, 24 de julho de 2019

[Off Topic]: Saldos de Verão 2019 - Leve 3 e pague só 2!

Está a chegar o "meu querido mês de Agosto..." mês pelo qual muitos passam o ano inteiro a sonhar. É para muitos o mês das férias, de repor energias, rever a família, fazer outras actividades e até colocar as leituras em dia. Pensando neste último aspecto e assinalando as três edições de autor publicadas pelo autor do blogue que já faz parte do seu dia-a-dia, o Diário do Tripulante, chegam assim os saldos de Verão, com uma promoção que não pode deixar passar. 

Assim, até 30 de Agosto de 2019 (Sexta-feira) ao adquirir os livros "Lisboa e Praga de Eléctrico" e "InstaTram - Lisboa", paga apenas 24€ e recebe de oferta o livro de 8 postais "Os Eléctricos de Lisboa" através dos quais pode partilhar com o mundo as aventuras vividas nas suas férias com uma recordação de Lisboa, a cidade das sete colinas. Os portes de envio pelos CTT ficam por conta do Diário do Tripulante! 

Encomende já o seu pack de verão através do endereço de email livro.diariotripulante@hotmail.com ou lisbonandpraguebytram@gmail.com e receba comodamente em casa os livros que ajudarão a colorir a sua estante! 

Boas leituras e claro está, boas viagens, que esteja de férias ou a trabalhar!

sábado, 20 de julho de 2019

[Off Topic]: Apollo 11 vs Eléctrico 238

Chegada do Homem à Lua em 1969 com a Missão Apollo 11
Foto da NASA
Faz hoje 50 anos que ocorreu "o pequeno passo para o Homem, um salto gigante para Humanidade". Foi a 20 de Julho de 1969 que Apollo 11 chegou à Lua e deixou todo o mundo colado na televisão para assistir a Neil Armstrong em solo lunar a hastear a bandeira norte-americana.  A história da exploração espacial começou muito antes de os norte-americanos colocarem os primeiros homens no satélite natural da Terra, antes de a antiga União Soviética ter feito de Yuri Gagarin o primeiro humano a completar um voo orbital da Terra, antes de a NASA ter sido criada...

O fascínio pela Lua - aquele "destino planetário" que podemos ver facilmente com os nossos olhos e por isso mais à mão de semear - é ancestral e manifestou-se de várias formas ao longo do tempo. A missão Apollo 11 foi “apenas” uma delas, mas sem dúvida a mais decisiva: foi aí que a "viagem extraterrestre" propriamente dita começou.

Teófilo Braga à conversa com condutor da Carris na
Estrela. Foto de Joshua Benoliel (Arquivo Municipal Lisboa). 
Contudo muito antes desta aventura que se viria a tornar num "salto gigante para a Humanidade", em Lisboa no ano de 1904, mais precisamente a 7 de Dezembro a Carris fazia chegar à Estrela o eléctrico, através da nova carreira que ligaria o Rossio à Estrela via Lapa.

A linha da Estrela era então desde o seu início vista como uma das mais difíceis para os Guarda-freios, dadas as curvas apertadas e os declives acentuados. Relata-nos Luís Cruz-Filipe no seu livro "Do Dafundo ao Poço Bispo, uma História sobre Carris" que «a vistoria, realizada na véspera da inauguração, foi acompanhada com interesse por centenas de populares. A primeira viagem de ida-e-volta entre Santos e a Estrela, no carro 238, realizou-se sem incidentes; apenas foi necessário mandar cortar alguns ramos de árvores que partiram um vidro do eléctrico.(...) À data da inauguração, a carreira que seria o 25 circulava com intervalos de 10 minutos entre o Rossio e a Estrela...»

Eléctrico tipo 700 na chegada à Estrela em 2010
Foto: Rafael Santos
Assim, se a chegada à Lua por parte da Nasa foi um "salto gigante para a Humanidade", a chegada da Carris à Estrela foi um passo gigante para a capital portuguesa, permitindo assim à população, vencer o declive acentuado da colina, com o auxílio do eléctrico.

Hoje, à Estrela continuam a chegar eléctricos todos os dias, com as carreiras 25E, que agora circula entre a Praça da Figueira e os Prazeres e com o 28E, que liga o Martim Moniz aos Prazeres. A estas duas carreiras juntou-se o eléctrico turístico da YellowBus Tours com o circuito das Colinas. 

Continuamos no entanto em 2019, ou seja 115 anos depois, com os problemas inerentes aos ramos de árvores que agora causam constrangimentos esporádicos entre a Estrela e os Prazeres, desde que a poda de árvores passou a ser competência das Juntas de Freguesia. Contudo o problema agora não é a quebra de vidros, mas sim de pantógrafos e não deixa de ser igualmente curioso que está previsto igualmente para hoje a poda das árvores no referido troço, como anuncia a Carris no seu site oficial. 

Termino, não sem antes desejar boas viagens a bordo dos veículos da CCFL e porque não sugerir a quem ainda não o fez, que viaje então nessa experiência que foi um passo gigante para a capital portuguesa, a viagem de eléctrico à Estrela, sem dúvida um programa diferente para o seu fim de semana.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

"Uma profissão que acima de tudo é uma paixão", na revista Lisboa dedicada à mobilidade

Ao longo destes anos na blogosfera, muitas têm sido as histórias aqui contadas, sobre o quotidiano de quem anda aos comandos dos "amarelos" da Carris. Uma viagem que começou há mais de 10 anos e que veio dar a conhecer ao público em geral o outro lado da viagem que habitualmente fazem entre um ponto A e um ponto B a bordo dos nossos autocarros e eléctricos. E têm sido muitos os passageiros desta viagem que também já segue nas redes sociais.

Entre dias bons e outros menos bons, muitos são os passageiros que se vão cruzando comigo e proporcionando também eles essas histórias. O turismo em crescente, o trânsito que não para de crescer e as novas formas de mobilidade também não deixaram de passar por aqui ao longo destes tempos e talvez por isso mesmo, a Revista Lisboa, publicação trimestral da Câmara Municipal de Lisboa, quis apanhar uma boleia do Diário do Tripulante e trocar uns dedos de conversa ao longo da carreira 15E. 

A entrevista está disponível on-line e chegará ás caixas do correio dos munícipes brevemente na sua 27ª edição, dedicada à mobilidade, ou então pode consultá-la aqui!

Boas leituras e boas viagens a bordo dos veículos da CCFL

domingo, 7 de julho de 2019

Mais um dia ao serviço do... 15 mas com turismo "pé descalço"!

Lisboa está na moda. Ganha prémios por isto e por aquilo, e dizem que é bom. Há um boom de turismo que enche ruas, cafés, lojas e transportes, mas será este turismo aquele que mais se deseja? Lisboa perde aos poucos a sua essência e nos transportes é vê-los a tentar enganar quem por cá está a prestar um serviço público. 

Como se não bastasse optarem por usar os transportes públicos ao invés dos serviços turísticos para descobrir a capital das sete colinas, ainda tentam entrar sem pagar, tentam regatear o preço, e muitos compram um cartão para dois ou três. É aquilo a que na gíria se chama o verdadeiro turismo de pé descalço. 

E quando dizemos que um cartão é só para uma pessoa, ou se dizemos que a luz vermelha não permite viajar, o caldo está entornado. Eles são sempre donos da razão e nós que somos de cá e por sinal até somos os condutores do transporte que querem usar, não temos razão e não percebemos nada disto. Perde-se tempo a explicar e tempo a  tentar perceber.

Se o destino diz "Centro de Congressos" e eles querem ir para o "Rossio", então chegados à Rua da Junqueira, é um problema para os tirar lá de dentro porque como dizem "mas é o 15!", reacções que me levam a crer que ou não usam transportes nos países de origem ou então querem mesmo fazer de nós parvos. 

A semana ainda agora começou e eu já estou desejoso que chegue a folga. Trabalhar em Lisboa está a ser cada vez mais desgastante, por muito que se goste do que se faz e da própria cidade. 

Boas viagens a bordo dos veículos da CCFL.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Nota de Redacção: Autocarro da Carris abalroado por ligeiro de mercadorias (chega de Fake News!)

Foto: Publicada no JN.pt
Não é prática comum deste blogue, abordar os acidentes que envolvem viaturas da Carris, ainda que as mesmas estejam constantemente vulneráveis, pelo facto de circularem ao longo das 24 horas de cada dia pelas ruas de uma cidade cada vez mais movimentada. Contudo, as notícias que vieram a público nesta manhã de sexta-feira, na sequência do acidente que envolveu um autocarro da carreira 794, na Baixa de Lisboa, obrigam a que se diga BASTA!

Os órgãos de comunicação social, na ânsia de captar audiências à custa da desgraça alheia, ainda que com o objectivo de tentar informar os telespectadores e leitores, acabaram por horas a fio, passarem a notícia de que "autocarro da carris despista-se e causa 5 feridos", mesmo que não tenham procurado a razão do acidente. Contudo e após algumas das testemunhas no local, assim como alguns passageiros que seguiam a bordo do autocarro 1764 da Carris, em declarações a alguns meios, o despiste deveu-se a um embate de uma viatura ligeira de mercadorias que não terá respeitado a sinalização vertical luminosa existente na Rua da Conceição, no cruzamento com a Rua da Prata, originando assim o despiste e embate do autocarro, contra uma das lojas, causando 5 feridos ligeiros, apesar dos estragos visíveis.

Assim, a notícia correcta a ser transmitida deveria ter sido "Autocarro da Carris é abalroado por veículo ligeiro, causando despiste do mesmo e cinco feridos ligeiros".

Como esta situação, infelizmente, não é a primeira e muito provavelmente não será a última, vem agora o Diário do Tripulante, de forma isenta e alheia ao acidente, expressar o desagrado pelas notícias vinculadas nos meios de comunicação social, que através dos seus títulos, levam a um julgamento público contra a Carris, e nomeadamente contra os seus tripulantes, que diariamente evitam milhares de acidentes ao longo dos seus serviços.  

Foto: Publicada no JN.pt
Segundo as autoridades, o alerta para o acidente foi dado perto das 7h15, e no local estiveram uma viatura médica de emergência e reanimação (VMER), duas ambulâncias de suporte básico de vida e duas ambulâncias dos bombeiros. A divisão de Trânsito da PSP também esteve no local a apurar as causas do acidente, assim como a Polícia Municipal, equipas de Controlo de Tráfego da Carris, e equipas de limpeza da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior.  Do acidente terão resultado 4 feridos ligeiros, entre os quais estão o motorista do autocarro, passageiros e uma senhora que se encontrava no multibanco, todos foram transportados ao Hospital de São José.

O Diário do Tripulante, deseja assim que o jornalismo tenha melhores dias e que passe a informar as pessoas correctamente, após a pesquisa de causas e de testemunhos, no que acidentes digam respeito, para que se evite os comentários que estas notícias causam, colocando muitas vezes em causa o profissionalismo de quem conduz milhares de passageiros por dia, assim como a manutenção dos veículos. Aos feridos envolvidos no acidente, desejamos as rápidas melhoras e neste caso concreto, termino expressando o máximo apoio ao tripulante envolvido no acidente de que foi também ele alvo.

Recordo que também eu já fui há uns anos atrás alvo de um acidente, do qual me encontrava a tripular o eléctrico da carreira 28E, tendo sido abalroado por um pesado de mercadorias na Calçada do Combro, tendo a comunicação social, passado a informação que eu teria embatido numa carrinha por distracção, quando o acidente se deu com o eléctrico totalmente imobilizado. 

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Com destino a Algés, que pelos vistos não é Algés que todos os passageiros conhecem!

Uma das viagens desta manhã na carreira 15E podia ser igual a tantas outras, muito embora, todas as viagens sejam por si só diferentes. O certo é que a diferença desta viagem não estava apenas no veículo, que era um autocarro em vez do habitual eléctrico. A viagem a que me refiro foi diferente por duas situações. A primeira porque transportei uma senhora que me perguntou se eu era o Rafael. Estranhei a questão, ou talvez não até porque esta viagem partilhada neste blogue tem levado ao longo dos anos a que alguns passageiros me reconheçam, por muito que se tente passar despercebido entre as curvas e linhas de Lisboa.

Num curto diálogo entre as quatro paragens que separavam o ponto de partida e de chegada dessa passageira, lá me disse que tinha estado na exposição fotográfica que apresentei recentemente na livraria Palavra de Viajante, na Rua de São Bento. Deu-me os parabéns e que gostou muito de ver "os amarelos tão bem representados através do olhar de quem os conduz...", não deixando de acrescentar que tenciona em breve adquirir o livro porque na altura não ia prevenida para tal. 

Mas na mesma viagem, chegado ao terminal de Algés, todos os passageiros saíram, menos uma jovem de origem oriental mas que aparentemente terá nascido por cá, ou que por cá estuda, dado falar português quase correcto. Estranhando estar só no autocarro, questiona "Isto é Algés?" ao que lhe respondi de forma afirmativa, acrescentando ser a paragem terminal da carreira. 

A jovem, com ar de quem estava a estranhar o local, exclama: "Mas Algés que conheço não é assim!" Iniciava-se assim um dialogo divertido...

Motorista: "Pois eu Algés só conheço esta localidade. Não digo no entanto que não haverá outra algures pelo país..."
Passageira: "Mas... (pausa) Estes jardins e flores... (pausa) Não me parece!"
Motorista: "Mas olhe que está em Algés - Oeiras. Mas como é afinal a Algés que conhece?"
Passageira: "Não sei...(pausa) Mas tem coisas e largo com... não sei como dizer..."
Motorista: "Pois assim é difícil, se nem você sabe!"
Passageira: (risos) "Pois, mas... tem a certeza que estamos em Algés?"
Motorista: "Tenho pois. Mas não estará a estranhar não ser a zona do terminal dos autocarros ao lado da estação do comboio?" 
Passageira: "Pois não sei, mas talvez. Como procuro isso?"
Motorista: "Então é caminhar em frente que encontra, caso contrário pode perguntar. Mas se você não sabe como é a Algés que diz conhecer, não vejo como perguntar..."

E lá foi a jovem, meio perdida, quer geograficamente, quer pelo riso de quem se viu numa situação insólita de querer explicar algo que nem a própria sabia como o fazer. 

E assim vão as viagens pelos veículos da CCFL. E quanto a si, já sabe... se quiser adquirir o livro "InstaTram - Lisboa", pode recebê-lo comodamente em sua casa com os portes de envio grátis. Encomende por email livro.diariotripulante@hotmail.com 

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Com a paciência a esgotar, Lisboa qual será o teu destino?

O dia começa como tantos outros. A chegada à estação de Santo Amaro faz-se ainda pela fresca quando os dias prometem ser escaldantes. As temperaturas sobem acima dos 30º C e as pessoas ficam impacientes e por isso, trabalhar de madrugada nestes dias é a melhor opção, mesmo para quem goste pouco de acordar cedo. Levanta-se a chapa do horário que dita a escala de serviço, deslocamos-nos até ao pilar do Car-Barn onde está a tabela que indica o eléctrico que nos foi atribuído, durante as poucas horas que estiveram em descanso, nas 24 horas que tem cada dia. 

O procedimento é rotineiro. Baixar o trolley, verificar os areeiros, colocar as bandeiras de destino e numéricas de acordo com a carreira e iniciar o serviço na consola que nos identifica e localiza através dos monitores que estão na Central de Comando de Tráfego da Carris, em Miraflores. Ligam-se as luzes interiores, liga-se o farol e liga-se a corrente dos motores. Instantes depois já estamos a receber os primeiros passageiros do dia, os que se deslocam para os empregos e os que regressam a casa, seja do trabalho ou de uma noite de folia. 

A cidade acorda lentamente, mas num instante tudo muda. O sol nasce e a noite dá lugar ao dia. As ruas quase vazias, enchem-se de tudo e mais alguma coisa, desde pessoas a trotinetes. Uma antítese quase perfeita no quotidiano de uma cidade que mudou bastante nos últimos anos, devido ao boom turístico. Lisboa está nas bocas do mundo e deixa no limite quem nela trabalha.

São 9h06 e faltam poucos minutos para iniciar mais uma viagem na carreira 15E com destino a Algés. Turistas enchem por completo a paragem da Praça da Figueira em busca do eléctrico que os leve a Belém. Uns mais prevenidos, entram e validam o seu título de transporte. Outros entram e vão direitos à cabine do guarda-freio. Há de tudo e para todos os gostos, desde perguntas sobre paragens, como comprar o bilhete ou até quem coloque a nota na ranhura da porta que nos permite o acesso à cabine, como se fosse possível retribuir qualquer troco ou vender bilhetes por uma abertura que muitas das vezes, não tem mais que meio centímetro.

A viagem inicia-se entretanto, mas pouco depois já estamos parados na Rua dos Fanqueiros. Um carro mal estacionado impossibilita a passagem do eléctrico porque a condutora deixou a roda da frente virada para a esquerda. São questões de centímetros que se transformam em minutos. Toco a campainha insistentemente em busca do seu proprietário, mas nem sempre com sucesso. Desta feita, a senhora sai de uma loja em frente com os seus sacos. Pede desculpa e diz que foi só ali fazer uma compra rápida. Os meios entretanto accionados, são cancelados e a viagem prossegue. 

Novo dia, novo problema mas outros actores. Estamos na carreira 28E com destino ao Martim Moniz. A primeira paragem prolongada é para descarga de mercadorias no supermercado. O local das cargas e descargas está ocupado por ligeiros e a descarga, faz-se entre cada passagem de eléctrico. Perda de tempo para o eléctrico e para quem descarrega paletes de um camião cheio de bens essenciais. Os passageiros desesperam por chegar a horas ao seu destino, mas até que o atinjam, ainda paramos por causa de táxis, TVDE'S, e outras cargas e descargas. 

"ó chefe é só um minuto!"... Multipliquemos então por uma média de 5 a 6 paragens por trajecto. A chegada ao destino acaba por ser atrasada e isso obriga a uma partida atrasada na viagem seguinte. Circular em Lisboa num transporte público pode tornar-se portanto numa autêntica matemática viva. Chegamos à Sé, na entrada de Alfama, onde tuk-tuks tomaram, de há uns anos a esta parte, conta de todo o espaço disponível.  Mesmo com a Polícia Municipal presente, ou os seus carros, são ignorandos traçados da marcação rodoviária e ignorado muitas das vezes a sinalização vertical, em busca de clientes, mesmo que saibam que o eléctrico passa ali, mas que ali vai parar porque as frentes dos tuks não o deixam prosseguir viagem devido ao estacionamento em espinha, muitas das vezes abusivo, inclusive em passadeiras e paragens. 

Prosseguimos finalmente viagem, mas a passo de caracol porque entretanto um barulhento tuk-tuk apanha clientes ao virar da esquina e o condutor vai tentando render o seu "peixe" explicando isto e aquilo a uma velocidade que permite quase tirar uma fotografia a cada janela por onde se passa. Em instantes estaremos com o Tejo aos nossos pés, visto das Portas do Sol, onde a selva parece ser a melhor designação para a balbúrdia que por ali se assiste com os chamados serviços de animação turística. O facto é que por vezes a confusão dá mesmo lugar a uma animação para quem nos visita ao ver discussões, agressões, que são pintadas com um cheiro a embraiagem constante.

Chegamos às Escolas Gerais, local destinado exclusivamente aos eléctricos no sentido ascendente, mas no semáforo que é accionado pelo eléctrico estão já 3 automóveis ligeiros. Toco a campainha para saírem da frente. Não entendem, e sou obrigado a sair do eléctrico e pedir para que saiam da frente, para que o sinal seja accionado. Explico que estão em sentido proibido, e quase sempre ignoram. Mais uns minutos perdidos...

Estou finalmente a poucos metros de chegar ao Martim Moniz, mas não sem antes ser ultrapassado por um TVDE que pára de imediato na frente do eléctrico para apanhar uns clientes que acabaram de sair do Ramiro. Apanha os clientes, arranca e o semáforo fica vermelho. Chego finalmente ao Martim Moniz e a fila dos que aguardam a partida seguinte é longa, mesmo que o sol esteja escaldante. Pois todos querem um lugar sentado após tanto tempo de espera, que só é muito por isso mesmo, porque querem ir sentados. 

Com os Santos Populares à porta, as carrinhas de cerveja também aumentam no reforço dos stocks de cafés, restaurantes e arraiais. Estamos agora na carreira 25E com destino aos Prazeres num novo dia de trabalho. Já perdi a conta às vezes que tive de imobilizar o eléctrico, abrir a porta, fechar um retrovisor que impede a passagem, ou verificar se o estribo do eléctrico não bate no carro que ficou para cá da marca delimitadora do lugar. É das zonas mais problemáticas da rede de eléctricos. Onde os minutos acumulados se transformam facilmente em horas e em viagens canceladas. 

Passada a zona crítica, seguem na minha frente cerca de 10 segways com um guia na frente. Vão circulado entre os carris como se fossem até, a simular a viagem a bordo do 25E, mas numa versão mais soft e fresca, mesmo que para isso empate quem vem atrás. Parece não haver regras para nada e tudo pode circular na via de rodagem. Os passageiros que já habitualmente desesperam com os carros mal estacionados, gritam pela janela para saírem "com essa treta da frente que vamos trabalhar pá!", sem sucesso. 

Termino um retrato semanal na 24E, com trotinetes que tentam vencer a inclinação da Rua da Misericórdia. Pelo meio o trânsito num pára-arranque provocado por um acesso ao bairro alto condicionado e por um autocarro espanhol que se cruzou no estreito com uma carrinha da cerveja. Ouvem-se buzinas. Os turistas param para ver o que vai dar. Quem segue atrás nos passeios, tem de recorrer à via de trânsito para passar os turistas que pararam para ver as manobras. Lisboa parece a certa altura um molho de brócolos. 

A paciência esgota-se, o calor toma conta de nós. Os horários tornam-se impraticáveis e de quem é a culpa? É do guarda-freio, que facilmente se torna em saco de encher por parte de quem entra após algum tempo de espera, e que entra com reclamações por isto e por aquilo. Um dia de trabalho pelas colinas de Lisboa, está por esta altura equiparado a uma viagem de comboio na Índia, onde vale tudo menos arrancar olhos. Vale-nos o gosto pelo que fazemos e a necessidade de o fazer, porque não sabemos qual será o destino desta cidade que está cada vez mais bonita, mas cada vez mais caótica, sobretudo para quem trabalha num transporte público, onde há muito deixou de haver respeito por corredores BUS, paragens, ou prioridades. 

Afinal de contas, todos temos direito à cidade e ao aproveitar do turismo para a sustentabilidade de cada negócio, mas sem regras dificilmente se alcançam bons objectivos e acima de tudo uma boa imagem. A que ponto vamos chegar com a cidade a rebentar pelas costuras? Lisboa qual será o teu destino?   


[n.d.r.: Fotos do autor / DN / Razão Automóvel / Dinheiro Vivo]

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