sexta-feira, 31 de maio de 2019

Com a paciência a esgotar, Lisboa qual será o teu destino?

O dia começa como tantos outros. A chegada à estação de Santo Amaro faz-se ainda pela fresca quando os dias prometem ser escaldantes. As temperaturas sobem acima dos 30º C e as pessoas ficam impacientes e por isso, trabalhar de madrugada nestes dias é a melhor opção, mesmo para quem goste pouco de acordar cedo. Levanta-se a chapa do horário que dita a escala de serviço, deslocamos-nos até ao pilar do Car-Barn onde está a tabela que indica o eléctrico que nos foi atribuído, durante as poucas horas que estiveram em descanso, nas 24 horas que tem cada dia. 

O procedimento é rotineiro. Baixar o trolley, verificar os areeiros, colocar as bandeiras de destino e numéricas de acordo com a carreira e iniciar o serviço na consola que nos identifica e localiza através dos monitores que estão na Central de Comando de Tráfego da Carris, em Miraflores. Ligam-se as luzes interiores, liga-se o farol e liga-se a corrente dos motores. Instantes depois já estamos a receber os primeiros passageiros do dia, os que se deslocam para os empregos e os que regressam a casa, seja do trabalho ou de uma noite de folia. 

A cidade acorda lentamente, mas num instante tudo muda. O sol nasce e a noite dá lugar ao dia. As ruas quase vazias, enchem-se de tudo e mais alguma coisa, desde pessoas a trotinetes. Uma antítese quase perfeita no quotidiano de uma cidade que mudou bastante nos últimos anos, devido ao boom turístico. Lisboa está nas bocas do mundo e deixa no limite quem nela trabalha.

São 9h06 e faltam poucos minutos para iniciar mais uma viagem na carreira 15E com destino a Algés. Turistas enchem por completo a paragem da Praça da Figueira em busca do eléctrico que os leve a Belém. Uns mais prevenidos, entram e validam o seu título de transporte. Outros entram e vão direitos à cabine do guarda-freio. Há de tudo e para todos os gostos, desde perguntas sobre paragens, como comprar o bilhete ou até quem coloque a nota na ranhura da porta que nos permite o acesso à cabine, como se fosse possível retribuir qualquer troco ou vender bilhetes por uma abertura que muitas das vezes, não tem mais que meio centímetro.

A viagem inicia-se entretanto, mas pouco depois já estamos parados na Rua dos Fanqueiros. Um carro mal estacionado impossibilita a passagem do eléctrico porque a condutora deixou a roda da frente virada para a esquerda. São questões de centímetros que se transformam em minutos. Toco a campainha insistentemente em busca do seu proprietário, mas nem sempre com sucesso. Desta feita, a senhora sai de uma loja em frente com os seus sacos. Pede desculpa e diz que foi só ali fazer uma compra rápida. Os meios entretanto accionados, são cancelados e a viagem prossegue. 

Novo dia, novo problema mas outros actores. Estamos na carreira 28E com destino ao Martim Moniz. A primeira paragem prolongada é para descarga de mercadorias no supermercado. O local das cargas e descargas está ocupado por ligeiros e a descarga, faz-se entre cada passagem de eléctrico. Perda de tempo para o eléctrico e para quem descarrega paletes de um camião cheio de bens essenciais. Os passageiros desesperam por chegar a horas ao seu destino, mas até que o atinjam, ainda paramos por causa de táxis, TVDE'S, e outras cargas e descargas. 

"ó chefe é só um minuto!"... Multipliquemos então por uma média de 5 a 6 paragens por trajecto. A chegada ao destino acaba por ser atrasada e isso obriga a uma partida atrasada na viagem seguinte. Circular em Lisboa num transporte público pode tornar-se portanto numa autêntica matemática viva. Chegamos à Sé, na entrada de Alfama, onde tuk-tuks tomaram, de há uns anos a esta parte, conta de todo o espaço disponível.  Mesmo com a Polícia Municipal presente, ou os seus carros, são ignorandos traçados da marcação rodoviária e ignorado muitas das vezes a sinalização vertical, em busca de clientes, mesmo que saibam que o eléctrico passa ali, mas que ali vai parar porque as frentes dos tuks não o deixam prosseguir viagem devido ao estacionamento em espinha, muitas das vezes abusivo, inclusive em passadeiras e paragens. 

Prosseguimos finalmente viagem, mas a passo de caracol porque entretanto um barulhento tuk-tuk apanha clientes ao virar da esquina e o condutor vai tentando render o seu "peixe" explicando isto e aquilo a uma velocidade que permite quase tirar uma fotografia a cada janela por onde se passa. Em instantes estaremos com o Tejo aos nossos pés, visto das Portas do Sol, onde a selva parece ser a melhor designação para a balbúrdia que por ali se assiste com os chamados serviços de animação turística. O facto é que por vezes a confusão dá mesmo lugar a uma animação para quem nos visita ao ver discussões, agressões, que são pintadas com um cheiro a embraiagem constante.

Chegamos às Escolas Gerais, local destinado exclusivamente aos eléctricos no sentido ascendente, mas no semáforo que é accionado pelo eléctrico estão já 3 automóveis ligeiros. Toco a campainha para saírem da frente. Não entendem, e sou obrigado a sair do eléctrico e pedir para que saiam da frente, para que o sinal seja accionado. Explico que estão em sentido proibido, e quase sempre ignoram. Mais uns minutos perdidos...

Estou finalmente a poucos metros de chegar ao Martim Moniz, mas não sem antes ser ultrapassado por um TVDE que pára de imediato na frente do eléctrico para apanhar uns clientes que acabaram de sair do Ramiro. Apanha os clientes, arranca e o semáforo fica vermelho. Chego finalmente ao Martim Moniz e a fila dos que aguardam a partida seguinte é longa, mesmo que o sol esteja escaldante. Pois todos querem um lugar sentado após tanto tempo de espera, que só é muito por isso mesmo, porque querem ir sentados. 

Com os Santos Populares à porta, as carrinhas de cerveja também aumentam no reforço dos stocks de cafés, restaurantes e arraiais. Estamos agora na carreira 25E com destino aos Prazeres num novo dia de trabalho. Já perdi a conta às vezes que tive de imobilizar o eléctrico, abrir a porta, fechar um retrovisor que impede a passagem, ou verificar se o estribo do eléctrico não bate no carro que ficou para cá da marca delimitadora do lugar. É das zonas mais problemáticas da rede de eléctricos. Onde os minutos acumulados se transformam facilmente em horas e em viagens canceladas. 

Passada a zona crítica, seguem na minha frente cerca de 10 segways com um guia na frente. Vão circulado entre os carris como se fossem até, a simular a viagem a bordo do 25E, mas numa versão mais soft e fresca, mesmo que para isso empate quem vem atrás. Parece não haver regras para nada e tudo pode circular na via de rodagem. Os passageiros que já habitualmente desesperam com os carros mal estacionados, gritam pela janela para saírem "com essa treta da frente que vamos trabalhar pá!", sem sucesso. 

Termino um retrato semanal na 24E, com trotinetes que tentam vencer a inclinação da Rua da Misericórdia. Pelo meio o trânsito num pára-arranque provocado por um acesso ao bairro alto condicionado e por um autocarro espanhol que se cruzou no estreito com uma carrinha da cerveja. Ouvem-se buzinas. Os turistas param para ver o que vai dar. Quem segue atrás nos passeios, tem de recorrer à via de trânsito para passar os turistas que pararam para ver as manobras. Lisboa parece a certa altura um molho de brócolos. 

A paciência esgota-se, o calor toma conta de nós. Os horários tornam-se impraticáveis e de quem é a culpa? É do guarda-freio, que facilmente se torna em saco de encher por parte de quem entra após algum tempo de espera, e que entra com reclamações por isto e por aquilo. Um dia de trabalho pelas colinas de Lisboa, está por esta altura equiparado a uma viagem de comboio na Índia, onde vale tudo menos arrancar olhos. Vale-nos o gosto pelo que fazemos e a necessidade de o fazer, porque não sabemos qual será o destino desta cidade que está cada vez mais bonita, mas cada vez mais caótica, sobretudo para quem trabalha num transporte público, onde há muito deixou de haver respeito por corredores BUS, paragens, ou prioridades. 

Afinal de contas, todos temos direito à cidade e ao aproveitar do turismo para a sustentabilidade de cada negócio, mas sem regras dificilmente se alcançam bons objectivos e acima de tudo uma boa imagem. A que ponto vamos chegar com a cidade a rebentar pelas costuras? Lisboa qual será o teu destino?   


[n.d.r.: Fotos do autor / DN / Razão Automóvel / Dinheiro Vivo]

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Livros, Farturas, Sardinhas, Música e muita animação... vem aí um Junho repleto de festas


São Vicente é o padroeiro da cidade de Lisboa, mas as festas são em honras a Santo António. Lisboa começa já a ficar engalanada para as festas da cidade que arrancam já este sábado dia 1 de Junho. Balões, festões e muita cor, música e animação são os ingredientes que por este mês se encontram nas ruas dos bairros mais típicos da cidade. O programa das festas é vasto e a Carris é uma vez mais a melhor forma para se desfrutar da festa. 

Os arraiais estão já delineados e prontos para abrir portas para receber quem nestes dias quer comer uma sardinha, dar um pé de dança ou simplesmente conviver com os amigos fora de portas, mas no coração de Lisboa, cidade escolhida também por muitos dos que nos visitam. Não se estranha portanto que uma viagem no 28 ao passar pelas ruas estreitas de Alfama, o cheiro a sardinha assada entre pelas janelas do eléctrico e façam crescer água na boca. Vamos então ver qual o roteiro possível pelos arraiais de Lisboa à boleia dos eléctricos.

A Mouraria tem nos seus recantos e em São Tomé, os locais mais propícios a comer uma sardinha ou um chouriço assado nem que para isso, tenha de se sentar num largo ao que os moradores lhe deram o nome "Jardim das pichas murchas". Para lá chegar só tem de entra a bordo do 12E e descer em São Tomé.

Belém também, costuma ter os seus arraiais. Não tão conhecidos como os do centro histórico, mas quase sempre bem preenchidos, os arraiais desta zona mais conhecida pelos seus monumentos, é organizado pelo Belém Clube e costumam ter lugar em Pedrouços, onde poderá chegar à boleia do 15E, por onde se costuma ouvir entre os passageiros que é onde se come a melhor sardinha de Lisboa.

Mas como festa nunca é de mais, a romaria de Santo Amaro fica ali a paredes meias com a Estação de Santo Amaro por isso a alternativa pode ser o 18E que por esta altura está desviado da Ajuda para Belém. Há farturas, música e muita animação. 

Com um cartaz de convidados normalmente bem composto, o Arraial de Campolide tem pelo segundo ano consecutivo, o eléctrico 24E como seu vizinho e se ainda não viajou nesta nova carreira, é uma boa oportunidade para o fazer para se divertir pela noite dentro ao som do Quim Barreiros entre outros, sempre com uma boa sardinha assada no pão ou um prato de caracóis.

E animação é o que se promete também em Santos, com a boleia do 25E que mergulha no meio do arraial nas noites de sexta e sábado enquanto as restantes carreiras são desviadas. Há um palco montado para receber aqueles que prometem animar as noites quentes deste santo António lisboeta. E aqui costuma estar também o tradicional Pão com Chouriço.

Mas este roteiro não poderia terminar sem os arraiais do 28E, talvez aqueles que captam mais gente, como são os casos dos arraiais da Graça e de Alfama. A junta de Freguesia de São Vicente apresenta este ano 3 espaços para a sua festa que vão desde o Largo da Graça, ao largo da igreja de São Vicente. Já mais abaixo em Alfama, a paragem das Escolas Gerais pode ser o ponto de chegada para uma partida pelas ruas estreitas onde a cada janela ou recanto lhe convidam a uma ginjinha ou uma cerveja. A festa rija pela rota do 28 é no entanto no Largo das Portas do Sol, onde os lugares habitualmente ocupados pelos tuk-tuks dão agora lugar às farturas, ao pão com chouriço, e claro está, às sardinhas. 

Opções não faltam e por isso o melhor mesmo é consultar o programa completo das festas de Lisboa que a autarquia, já disponibilizou na internet. Quanto a nós Carris, já sabe que contamos com a sua colaboração, pois não é permitido comer ou beber a bordo dos nossos veículos.

As Festas de Lisboa arrancam então este sábado dia 1 de Junho e prolongam-se até ao final do mês. Também este sábado tem lugar a inauguração da Exposição de Fotografia "InstaTram - Lisboa" que é dedicada aos eléctricos de Lisboa e terá lugar na Livraria Palavra de Viajante, na Rua de São Bento, 34 com entrada livre. E no que a livros diz respeito já abriu a Feira do Livro de Lisboa que estará até dia 16 no Parque Eduardo VII, onde poderá igualmente chegar com as carreiras da Carris que passam pelo Marquês Pombal a sul ou pelo Palácio da Justiça a norte. 

Desejamos portanto umas boas festas e boas viagens a bordo dos veículos da CCFL. 

quinta-feira, 23 de maio de 2019

InstaTram - Lisboa - Exposição fotográfica de 4 a 18 de Junho de 2019

Estimados passageiros, é com enorme alegria que vos dou agora a conhecer que, no âmbito do lançamento do meu mais recente projecto editorial, o fotolivro "InstaTram - Lisboa", irei apresentar de 4 a 18 de Junho de 2019 uma exposição fotográfica na livraria Palavra de Viajante, onde no ano passado teve lugar a minha exposição sobre os eléctricos de Praga. 

Agora que as festas de Lisboa convidam mais que nunca a um passeio pela cidade e pelos bairros mais típicos, são os nossos eléctricos que ganham destaque durante duas semanas neste simpático espaço onde encontramos os livros que nos convidam à viagem. Numa iniciativa conjunta do Diário do Tripulante com a Palavra de Viajante e com a Gráfica99, esta exposição fotográfica da minha autoria pretende dar a conhecer um pouco do quotidiano dos eléctricos de Lisboa, através das fotografias que tenho vindo a partilhar no Instagram. Embarque então numa viagem fotográfica a bordo dos eléctricos lisboetas, que são sem dúvida os mais famosos e procurados do mundo.

"Instagram - Lisboa" é inaugurada a 1 de Junho e estará disponível para visita na galeria da livraria Palavra de Viajante, na Rua de São Bento, 34 em Lisboa, de Terça a Sábado das 10h00 ás 14h00 e das 15h00 ás 19h00, com entrada livre.

terça-feira, 7 de maio de 2019

Quando o mau tempo traz a má disposição dos nossos passageiros...

Foram-se os dias de calor e soalheiros, voltaram os dias cinzentos e chuvosos. Terminou assim a minha semana, a bordo do autocarro da carreira 15E que substituiu, um eléctrico devido a avaria, mostrando cada vez mais que os anos começam a pesar e que se deseja cada vez mais a conclusão do concurso público internacional, entretanto lançado pela Carris, para a aquisição de novos eléctricos, como aliás aqui foi referido a seu tempo. 

Os novos passes vieram sem dúvida trazer mais passageiros aos transportes da capital e por isso não é de estranhar ver autocarros e eléctricos bem compostos durante todo o corpo do dia, assim como também já não se estranha, as questões dos últimos tempos como, "onde que eu valido isto?" ou "e agora o que é que eu faço com este cartão aqui se não há cancela para abrir?" , pois há perguntas para todos os gostos, ás quais se juntam as dos turistas afoitos em busca de um monumento conhecido e numa pressa para lá chegar que os leva sempre a passar o cartão no validador com uma rapidez, como que, se a qualquer instante o validador lhes dê uma dentada bem ao género de um tubarão. Quando na verdade apenas acende a luz vermelha e pede para que valide novamente.

Mas questões à parte, o certo é que esta mudança repentina do tempo, quando os dias prometiam ter já um verão à porta, faz com que os passageiros também andem mais impacientes e mal dispostos, ou chateados com a vida. É o carregar do chapéu de chuva, é as capas que têm de vestir ou o facto dos vidros irem embaciados e não poderem ver as vistas. Depois há aqueles que, ou chegam chateados com os familiares ou até mesmo com o patrão, e encontram no guarda-freio ou motorista um belo saco de boxe para descarregar toda a revolta. 

Se já há dois dias uma passageira no 28E se mostrava revoltada comigo por ter permitido a entrada de 29 turistas acompanhados de um guia, os quais validaram individualmente o seu título de transporte, já hoje a questão era o porquê de ser um autocarro e não um eléctrico. Mas não ficaria por aqui. 

A meio da tarde numa das viagens entre Algés e a Praça da Figueira e já com o autocarro completo... bem, completo não estava porque lá atrás havia espaço, como quase sempre acontece. As pessoas têm medo de chegar para a rectaguarda do veículo, impossibilitando assim a entrada de outros passageiros, mas vá, digamos que ia quase completo. Chegados à paragem do calvário, os passageiros começam num tom elevado, a solicitar que aguardasse e que lhes prestasse auxílio. De imediato tento aperceber-me do que se passava e verifiquei que uma passageira se tinha sentido mal, ao ponto de desmaiar. Falo com o acompanhante em francês no sentido de saber se não seria melhor chamar uma ambulância, até que o mesmo agradece a ajuda. Pego no telemóvel para ligar 112 ao mesmo tempo que peço aos passageiros que saiam por instantes, permitindo assim que o ar circulasse mais no interior do autocarro e porque não se tratava de nenhuma sessão cinematográfica para estarem todos em redor da senhora.

Neste instante em que chegam a perguntar-me "mas já não segue viagem daqui?" e eu responder que primeiro está o socorro à senhora, entram-me pela porta de trás uns três agentes da PSP que se aperceberam da situação e acorreram ao local. Retiraram a senhora para o banco do jardim e chamaram o INEM. Questiono os agentes se necessitavam de alguns dados o qual me diz "não se preocupe, fez o que devia, mas o meu colega é socorrista e está a controlar a situação até chegar o INEM, pois a senhora sofre de epilepsia. Pode seguir viagem descansado, obrigado".

De volta ao autocarro, pronto para prosseguir a marcha, lá tinha de vir alguém dizer que a culpa era do motorista porque tinha deixado entrar muita gente. Claro, a culpa é sempre do motorista, o mesmo que iria ter culpa caso não abrisse a porta por já ter muita gente. Prosseguimos então viagem até ao destino final. Na viagem de regresso, o agradecimento à PSP na passagem pelo Calvário e numa tarde caótica de trânsito lento na cidade lá cheguei a Algés. 

O tempo de almofada já não dava para mais, se não fazer a vistoria interior e exterior ao veículo antes de iniciar nova viagem rumo ao centro de Lisboa. Chegado ao Altinho, abrem-se as portas. Uns saem, outros entram e depois desses movimentos fecho a porta da frente já depois de encerrada a porta de trás, e preparo-me para iniciar a marcha, olhando para o retrovisor esquerdo. 

"Toc-toc-toc", batem na porta. Uma jovem que ao que parece vinha de uma corrida para apanhar o autocarro. Entra, diz boa tarde e agradece. De seguida aparece logo outra passageira que não disse boa tarde nem agradeceu, mas que não deixou de comentar que "até parece que não consegue ver as pessoas a correr pelo espelho!"

Disse-lhe que se a tivesse visto não tinha fechado a porta, mas que estava a olhar para a esquerda para iniciar a marcha. Mas a senhora tinha mais interesse em querer arranjar ali um conflito, do que ouvir a explicação. "É que se perdemos um autocarro, estamos aqui à seca à espera do próximo..." Não valia a pena alimentar mais um diálogo onde a razão iria estar sempre do lado da passageira, perfeita como ninguém e que jamais alguma vez na vida terá cometido algum erro, a senhora que depois sairia na Praça do Comércio e se atravessaria à frente do autocarro fora da passadeira só porque queria apanhar o 735. E eu com uma vontade enorme de lhe dizer pela janela "até parece que está aqui uma passadeira para se atravessar...", mas não disse nada e segui o meu caminho rumo ao destino final, que dali me levaria então a dois dias de folga e bem merecidos.

Parece que afinal não foi só o tempo a mudar, mas também o estado de espírito dos nossos passageiros aos quais continuo como sempre a desejar, boas viagens a bordo dos veículos da CCFL.  

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Novo passe traz a Lisboa alguém que há 30 anos que não andava de eléctrico no dia em que a Carris lança concurso para 15 novos eléctricos


"Há mais de 30 anos que não andava num eléctrico" diz o senhor Augusto, logo pela manhã quando o Sol ainda tardava em tentar aquecer a manhã fria com que nos deparámos hoje na carreira 28E. O novo passe "foi uma coisa que já deviam ter feito há muito tempo", acrescenta. A viagem começa no Martim Moniz com destino aos Prazeres e o senhor Augusto dizia-me que hoje era um dia para recordar velhos e bons tempos quando trabalhava no Campo de Ourique e habitava nos Anjos. 

Após validar o seu cartão Lisboa Viva, carregado com o Navegante Metropolitano de reformado, e de esboçar um sorriso ao ver o sinal verde do validador, o senhor Augusto não tardou e querer dar dois dedos de conversa enquanto os restantes passageiros (já em maior número que o habitual por estas horas da manhã) entravam para prosseguir viagem aos mais diversos destinos ao longo do trajecto do 28E.

"A última vez que andei de eléctrico, talvez você ainda não tivesse nascido. Sempre foi o meu transporte preferido, mas agora já não moro em Lisboa e para cá vir de vez em quando ficava caro, mas felizmente este vosso presidente da Câmara fez aquilo que há muito eu andava a dizer que devia ser feito", dizia-me já com o eléctrico a iniciar a marcha preparando-se para entrar na Rua da Palma.

Enquanto os turistas mais madrugadores iam captando imagens através dos seus telemóveis ou das suas máquinas fotográficas, o senhor Augusto ia ali à frente junto ao validador a comentar a viagem por onde ia passando. Após os elogios à medida agora tomada pela área metropolitana de Lisboa com todos os operadores de transportes, dizia-me que agora só espera ter saúde para poder finalmente gozar a reforma em condições usando o seu passe.

"Mas isto está tudo muito diferente amigo..." acrescentava. "A cidade está a ficar muito bonita. Agora é esperar que não venha a seguir outro para destruir o que o Medina tem feito de bom". E eu lá lhe disse que "e ainda deve ficar melhor num futuro próximo. Já temos autocarros novos a circular e hoje é lançado o concurso internacional para aquisição de mais 15 eléctricos novos para a linha marginal" e o senhor Augusto exclamava "não me diga!"

Num instante chegámos ao Chiado e a conversa ficaria por ali, pois era tempo do senhor Augusto ir recordar também o hábito que tinha na altura "de sair do eléctrico e tomar um café na Brasileira", despedindo-se com "um resto de boa viagem, muita saúde e felicidades, porque nota-se que gosta do que faz amigo". 


CARRIS LANÇA CONCURSO PÚBLICO PARA COMPRA DE 15 NOVOS ELÉCTRICOS

Também nesta manhã de quarta-feira, mas nas instalações do Museu da Carris em Santo Amaro, o presidente da Carris Tiago Farias, conjuntamente com o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina e o Ministro do Ambiente, José Matos Fernandes davam a conhecer o lançamento do concurso público internacional para a compra de 15 novos eléctricos articulados para a linha 15.

"Este é um momento histórico para a empresa, porque teríamos de recuar mais de 25 anos para a última ocasião em que a Carris decidiu comprar eléctricos", começou por dizer Tiago Farias por parte da Carris.  Já o presidente da autarquia, Fernando Medina referiu que estes novos equipamentos serão "metros de superfície", com um "comprimento de 28 metros", o que significa que serão maiores do que os que circulam actualmente na capital.

"Este é mais um dia para percebemos que tudo está a mudar, no domínio da mobilidade. (...) A perspectiva que as pessoas têm dos transportes é completamente diferente", começou por dizer o ministro do Ambiente e da Transição Energética, João Pedro Matos Fernandes, felicitando a Carris e a CML pela iniciativa.
Com um investimento de 45 milhões de euros, com verbas exclusivas da autarquia, Fernando Medina explicou igualmente que a ambição é não só reforçar como expandir a rede, frisando que a primeira fase deste projecto consiste na aquisição dos 15 novos eléctricos, seguindo-se a fase de expansão à Cruz Quebrada e Santa Apolónia, garantindo que quando chegar “o primeiro material circulante pode ter início a ligação, ou mesmo antes”
“Espero que neste mandato autárquico esta ligação seja uma realidade”, frisou Medina aos jornalistas, avançando que numa terceira fase o eléctrico de superfície "irá cobrir a zona ocidental da cidade, nomeadamente as duas zonas com maior densidade populacional, Miraflores e Linda-a-Velha”.
A terceira fase, denominada de LIOS (Linha Intermodal Ocidental Sustentável) será a conjugação da rede de eléctricos com a do metro de Lisboa, “aproveitando a extensão da linha vermelha do metro, às Amoreiras, Campo de Ourique, Alcântara, até parar em Santo Amaro”, disse Fernando Medina.
Como quarta fase de todo este projecto surge o prolongamento da rede de eléctricos articulados (ou metro de superfície) ao Parque das Nações, sendo, igualmente ambição que chegue, ao concelho de Loures, nomeadamente à Portela e a Sacavém. De acordo com Fernando Medina, os estudos das terceiras e quartas fases “devem ser lançados ainda este ano para que os concursos para as obras sejam lançados no próximo ano”, podendo acontecer em simultâneo.
O autarca reconheceu também que com esta expansão da rede de eléctricos articulados às zonas mais ocidentais e orientais da cidade seja necessário lançar novos concursos para compra de mais veículos, que se prevê que venham a ser adquiridos numa parceria com os municípios de Oeiras e Loures. Segundo Medina, a rede de eléctricos articulados irá expandir-se entre Santa Apolónia e o Parque das Nações, na zona ribeirinha, através da Avenida Infante Dom Henrique.
Fonte: 24.sapo.pt Fotos: Rafael Santos / AML / Carris / ECO / Jornal de Negócios

terça-feira, 26 de março de 2019

Novos passes à venda, novos autocarros e novos eléctricos foram os temas em cima da mesa na RTP3 com o presidente da Carris, Tiago Farias

Arrancou hoje a venda dos novos passes na Área Metropolitana de Lisboa. Um passo gigante na mobilidade e de aproximação aos países do centro da Europa, com o objectivo de estimular o uso do transporte público e assim, melhorar também o ambiente, mas melhorando igualmente as contas das famílias portuguesas. Mas esta alteração é uma simplificação de um sistema de passes que era até aos dias de hoje muito complexo e que só foi possível graças ao empenho de todos os operadores, que desta forma reduzem de cerca de 400 para 40, os passes que a partir de 1 de Abril estarão em vigor nos transportes públicos. 

Estes novos passes subdividem-se em metropolitanos ou municipais consoante a utilização entre um ou mais municípios, respectivamente com preços referência entre os 30 e 40 euros, havendo igualmente descontos para estudantes, reformados e idosos.

Para falar desta grande mudança mas também de outras que têm ocorrido nomeadamente na Carris, o presidente da empresa - agora sob gestão da Câmara Municipal de Lisboa - Tiago Farias, esteve ontem no programa "Tudo é Economia" da RTP3 onde falou sobre esta «revolução» na bilhética, mas também do «programa ambicioso» de renovação e ampliação da frota, com um proporcional aumento do pessoal tripulante.

Se no ano de 2018 já houve um reforço da oferta nomeadamente no período nocturno e fins de semana, contrariando com anos transactos, Tiago Farias prevê ainda «um aumento da oferta dos 8% a 10% em 2019». Nesta entrevista ao canal de informação da RTP, Tiago Farias não quis deixar passar em branco o grande impulsionador desta medida - Fernando Medina, que segundo o presidente da Carris, «sempre percebeu e defendeu desde que está à frente do Município que havia aqui um enorme desafio pela frente...», fazendo uma comparação à repartição do transporte público e individual, que é nos tempos de hoje acima dos 50% para o transporte individual em detrimento do transporte público, facto que «estava em sentido contrário aos países da Europa onde nos revemos, e como tal era preciso alterar esta fotografia».

Esta "revolução" é um processo gradual para o qual a Carris está preparada, segundo declarações de Tiago Farias, que nesta entrevista reforçou também a aposta da empresa na renovação dos seus eléctricos, anunciando que ainda este ano, será lançado o concurso público para a aquisição de 15 eléctricos articulados, e ambiciona o seu presidente, que a Carris possa até ao final do ano, lançar igualmente um concurso para aquisição de eléctricos do tipo histórico. O objectivo segundo o gestor, é reforçar e melhorar o serviço prestado ao passageiro com o objectivo de atrair mais pessoas para o transporte público. 

À parte dos novos passes e da renovação da frota, Tiago Farias destacou ainda «a melhoria das contas da empresa, da sua filosofia e capacidade de investimento», e anunciou que o objectivo é transportar mais de 130 milhões de passageiros em 2019. Uma interessante entrevista que decorreu nos primeiros 20 minutos do programa "Tudo é Economia" da RTP3 na sua edição de ontem, 25 de Março de 2019 e que pode agora ser revista aqui, clicando no link anexo à imagem abaixo...

https://www.rtp.pt/play/p4256/tudo-e-economia



terça-feira, 19 de março de 2019

Novos passes a marcar uma semana repleta de dúvidas e alteração da 18E que obriga a desvios

É daquelas medidas que se pode dizer que chegam para dar as boas vindas à campanha eleitoral, mas é também daquelas que todos esperavam após anos e anos a reclamarem com o preço dos passes. Não admira portanto, que o tema de conversa a bordo dos veículos da Carris sejam os novos passes que chegam em Abril. Perguntas, perguntas e mais perguntas. Mas as respostas eram até então poucas porque a informação era escassa. Contudo, com a assinatura do compromisso das 18 autarquias com a Área Metropolitana de Lisboa, permitiu a que já sejam conhecidos os 19 passes que substituem os actuais. 

«Então mas o senhor não sabe? Trabalha na Carris e não sabe?» dizia na passada segunda-feira uma passageira após me questionar sobre qual o passe e valor que passaria a ter de usar e pagar, quando lhe respondi que não tinha nenhuma informação. O certo é que agora a informação já está disponível no site da AML e no site da Carris. O novo passe arranca em Abril e nesta fase de transição haverá um passe renovável por 7 dias com um custo de 10€ que pode ser renovado até 30 de Abril, uma vez que os novos passes passam a ser mensais e não deslizantes de 30 dias. Assim o passe único passa a ser válido de 1 a 30 / 31 de cada mês. 

Se pretende usar os transportes apenas no seu município, pode optar pelo Navegante Municipal (30€) mas se pretende usar mais que um município, então a opção é o Navegante Metropolitano (40€). Mas há ainda descontos para jovens e idosos e por isso melhor mesmo é informar-se antecipadamente nas bilheteiras habituais, no site da carris ou no site da Área Metropolitana de Lisboa ( www.carris.pt / www.aml.pt ).

Entretanto, além das alterações nos passes, também a carreira 18E vai ser alvo de alterações que obrigam o seu desvio durante um ano, devido às obras no Palácio da Ajuda. Assim sendo, a partir do dia 29 de Março de 2019 e até ao 1.º semestre de 2020, a carreira 18E com eléctricos funcionará entre o Cais do Sodré e Belém; a carreira com autocarros funcionará entre o Palácio da Ajuda e o Calvário. Esta carreira terá terminal apenas no Palácio da Ajuda, e terá a designação “Palácio da Ajuda – Circulação”.


   

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Em dia de acompanhamento na 25E... surge alguém para nos surpreender com a sua paixão de morte

Acompanhando o novo guarda-freio na 25E (foto: Duarte Gomes)
O tripulante hoje não esteve aos comandos do eléctrico, mas nem por isso deixa de ter algo para contar. De facto esta profissão e este contacto com o público tem sempre algo a cada dia que nos surpreende quando menos esperamos. O dia de hoje, à semelhança dos anteriores, foi de acompanhamento a novos tripulantes. Contudo o colega que me calhou hoje, já não era novo na Carris e tal como eu há uns bons anos atrás, decidiu trocar a borracha pelo ferro. Mas veículo diferente requer sempre cuidados diferentes e como tal à semelhança dos recém entrados nesta família que é a Carris, também ele teve direito a ser acompanhado durante estes primeiros dias na sua nova função. 

Ao longo do dia fui-lhe dando alguns conselhos e sugestões, cabe agora a ele decidir o que deve ou não interiorizar. Por isso o dia estava a ser igual a tantos outros da semana, até que alguém já bem perto do final do serviço surge no terminal dos Prazeres com um inglês assim arranhando no francês a questionar se nos poderia colocar algumas questões. 

Acedemos ao pedido, enquanto aguardávamos a hora da partida. Solitária na Praça de São João Bosco, onde para além dela estava apenas o eléctrico que se preparava para fazer a última partida do dia rumo ao descanso, questionava se era dali que saía o 28E. após resposta afirmativa por parte do guarda-freio, a jovem agradeceu e mostrou vontade de perguntar algo mais e vendo que o eléctrico ali permanecia, lá soltou a questão... "Isto em frente, é um cemitério?"

Respondemos uma vez mais que sim. Ela esboçou um sorriso de orelha a orelha e disse. "J'adore les cimetières!" ao mesmo tempo que parecia algo constrangida com a afirmação que nos dava a conhecer a sua paixão de morte. O Elísio, sentado aos comandos, sorriu e disse "já eu não gosto nada de cemitérios!" O diálogo ficou algo animado embora o tema fosse de morte. E a jovem solitária numa noite de Lisboa lá continuava a dizer no seu francês convicto, que "são espaços lindíssimos e com uma calma profunda"

De facto há mesmo gostos para tudo. Sugerimos então à jovem que voltasse amanhã durante o dia para o visitar porque do seu interior até tinha umas boas vistas sobre o Tejo e a ponte. E ela lá nos contou um pouco mais deste seu carinho pelo espaço onde se descansa a alma eternamente. "Todos os países que visito, faço questão de visitar cemitérios e o mais bonito que já visitei fica em Nova Iorque..."

Fica assim provado que de facto o eléctrico de Lisboa pode mesmo levar alguém aos Prazeres, mesmo que a morte seja o foco desse prazer, porque dá realmente que pensar, mas acima de tudo respeitar estes gostos de quem nos visita e procura lugares tranquilos para passar parte das suas férias, nem que para tal seja necessário passear pelas ruas de um cemitério perto de si. 

Boas viagens a bordo dos veículos da CCFL. 

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