domingo, 3 de novembro de 2013

De França para Portugal com passagem pelo Brasil...

Se há dias atípicos, hoje foi um deles. Quando tudo parece ir de encontro a nós, então o melhor mesmo é tomar uma boa dose de paciência redobrada. Depois das madrugadas que aqui relatei, regressei ao serviço de turismo, pensando eu que ia ter um dia bem mais calmo que os anteriores, contudo nem o facto de ser Domingo na capital Lisboeta, trouxe a devida calma a uma cidade que se viu uma vez mais inundada de turistas. 

A primeira volta decorreu dentro da normalidade já a segunda teve uma paragem pelo meio devido a um acidente entre terceiros. Não houve outro remédio se não esperar e responder às inúmeras questões que os turistas iam colocando, ora sobre o que visitar ora sobre o tempo que poderia demorar a chegar ao local a PSP, para que pudéssemos seguir viagem. E o certo é que houve até tempo para alguns irem provar algumas iguarias no café mais próximo enquanto eu aguardava que chegasse a polícia e tratasse logo da questão, porque a minha hora de almoço aproximava-se a passos largos. 

Resolvido o acidente, finalizámos então a viagem e lá fui almoçar, procurando pela Baixa, um local sossegado para comer e recuperar energias para a segunda parte do serviço. Segunda parte essa que parecia estar reservada para me causar uma enorme dor de cabeça. Na primeira volta mais uma interrupção e claro está, no sítio do costume, junto à pastelaria Cristal na Lapa, cujo nome foi muito mal escolhido, até porque a sua fama é enorme não só pelos pasteis de nata e pelos seus magníficos croquetes, mas também pelos seus clientes que contam só com o seu umbigo. Na minha opinião o nome da pastelaria devia ser mesmo "o parque", porque os clientes não querem saber de quem vem atrás e estacionam o carro de qualquer maneira, desde que fique o mais próximo da porta. 

Mas afinal esta seria uma interrupção ligeira, porque para a última volta estava então guardada a interrupção do dia. Desta feita vinda de França directamente para Portugal e com a "casa" às costas. Ora turistas franceses decidiram estacionar a auto-caravana na Rua dos Fanqueiros, onde não faltam sinais de alerta para os limites de estacionamento. Sendo a viatura demasiado larga, impedia a passagem dos eléctricos articulados da carreira 15E e por arrasto, a passagem da carreira 12E e do meu turístico. 

Informei-me no local do que se passava e do tempo previsto que é nestes casos, sempre muito relativo. Contudo a dimensão da viatura que impedia a passagem, levava-me a crer que ia demorar. Informei os passageiros, mas eles estavam confiantes numa rápida resolução. Um turista brasileiro, pergunta-me então quanto iria o tipo pagar pela multa e como era o procedimento. Perguntou-me também se era normal por cá este tipo de situações. Disse-lhe que sim, e a vendedora das castanhas que ouvia a pergunta também, concluiu... «é aqui e é em todo o lado! Ninguém respeita ninguém homem!»

Alguns aproveitavam para tirar fotos com o bondinho, já outros começavam já a perguntar como podiam reaver o dinheiro do bilhete porque não tinham tempo para voltar nem para esperar. A certa altura já começava a falar inglês e terminava em francês dada a confusão gerada por todos ao mesmo tempo a quererem uma solução que estava longe de ser resolvida, até porque o reboque que tinha chegado, mostrava-se incapaz de rebocar a viatura, como aliás já tinha comentado. Dois casais espanhóis pedem-me uma sugestão para um bom restaurante e no minuto imediatamente a seguir, uma senhora que já estava há algum tempo na paragem junto ao eléctrico 15E, dirige-se a mim perguntando o porquê dos eléctricos não andarem. 

Explico-lhe o porquê e revoltada a senhora questiona-me se não achava que «devia estar ali alguém da Carris a avisar?», não lhe tirei a razão, mas fiz-lhe ver que não seria por gosto que os eléctricos estavam parados e que todos os passageiros se aperceberam do sucedido, menos ela. Contudo eu estava no último eléctrico e tinha 4 eléctricos na minha frente, não consegui perceber o porquê de vir ter comigo, confesso. Até porque lá na frente as notícias chegariam mais rápido. E lá foi ela em direcção do carro do "Controlo de Tráfego", para expressar o seu descontentamento. 1h15 minutos depois foi reposta a circulação e tudo graças à PSP que uniu forças para colocar em cima do passeio a auto-caravana, para que os eléctricos pudessem passar, porque o reboque esse era incapaz de remover a dita. 

E tudo isto no dia em que até o terminal dos turísticos foi mais procurado pelo facto de ali por perto estarem a gravar um filme brasileiro, com o eléctrico a ser uma das estrelas do filme, numa cidade que é cada vez mais procurada pelos realizadores de todo o mundo. 

Mas por falar em Brasil, não quero deixar de partilhar com todos os leitores, um vídeo brasileiro, que foi gentilmente enviado por um dos seguidores deste Diário do Tripulante. Proponho então uma viagem até ao Brasil, mais precisamente até ao Rio de Janeiro, onde muitas diferenças se tornam em enormes semelhanças, como prova o texto e documentário dirigido pelo realizador Jean Manzon nos anos 1950. 



O Diário do Tripulante agradece ao Hígor de Oliveira, que de Campinas nos enviou este link. 

sábado, 2 de novembro de 2013

Madrugadas na 15E... «Chamem a polícia, que eu não pago...»

Mais uma madrugada daquelas de arrancar os cabelos. Tudo bem que o horário não era de longe dos melhores. Poucos terão até ideia do que é sair de casa às 04h30 e chegar a casa às 16h30, porque claro que não podemos esquecer das deslocações casa-trabalho e trabalho-casa. Eis um dos espinhos desta profissão que outrora foi respeitada e que hoje vai deixando de ser. Como é do conhecimento geral, sobretudo de quem segue este blogue desde 2008, as madrugadas são por mim dispensadas, contudo, por vezes não as consigo evitar, apesar de serem sempre muito procuradas por grande parte da tripulação da minha estação. 

É bom sair cedo? Claro que sim, mas para tal temos de acordar muito cedo e nada melhor que poder desfrutar de um bom sono e não ter de enfrentar situações que já foram diversas vezes relatadas, inclusive na comunicação social, e que me fui habituando a presenciar mais na rede da madrugada quando ainda era motorista na estação da Musgueira.

Ainda assim esta manhã cheguei mesmo a colocar em causa se estaria numa capital europeia minimamente civilizada ou se estaria numa selva. Cheguei de imediato à conclusão que a segunda hipótese era a mais plausível. Só me vinha à cabeça a música dos "Trabalhadores do Comércio", que convido agora a ouvirem enquanto lêem o resto do texto...


Desgraçadas das 4 clientes que seguiam já viagem comigo desde Algés. As paragens do Calvário e Infante Santo, foram um autêntico epicentro de um abalo da maior escala possível, e dizem colegas que por lá costumam andar que nem era dos piores dias. O certo é que parar naquelas paragens fez-me sentir uma revolta interna que se fazia agitar a cada entrada, fosse pela janela, pela porta de trás que forçavam para não fechar ou pela porta da frente que por pouco não caiu.

Fui em minutos, engolido por uma multidão de seres que após gozarem a noite ao som de música e com uns copos na mão, decidem fazer um prolongamento num transporte público, mesmo que sem título de transporte algum. O eléctrico abanava como se uma ventania se fizesse sentir no exterior, e escusado seria pedir calma ou o que fosse, porque a excitação de quem não sabe o que é viver em sociedade era bastante elevada. Por mim passavam ambulâncias em direcção do Cais do Sodré. Polícia? Nem vê-los. Mas afinal onde está a prometida segurança a quem trabalha neste eixo lisboeta? 

Depois da Infante Santo, apenas tive condições de segurança para parar no Cais do Sodré e desejoso estava eu de entrar na 28E que apesar de cansativa e muito procurada por turistas que o enchem a toda a hora, é de longe a melhor carreira que posso fazer, mas antes ainda tinha pela frente uma ida a Algés e respectivo regresso. Solicitei junto da Central que fosse pedida a presença da PSP no local, mas o certo é que nas esquadras o ambiente estava bem mais agradável e certamente sem tantas chatices. 

Lá entrei finalmente às 07h38 no Martim Moniz na carreira 28E, perante um sossego tremendo comparando com as viagens anteriores. Bem dita seja a carreira 28E, onde houve ainda lugar a uma interrupção por quem decidiu ir comprar o jornal Expresso que sai habitualmente aos sábados para a banca. De expresso teve pouco, o senhor que deixou o carro a impedir a passagem do eléctrico. Após tocar insistentemente à campainha  ninguém surgia junto do mesmo e muitos foram os que tiveram de seguir o resto da viagem a pé, pelo menos até Sapadores, porque 15 minutos depois lá aparecia o dono do carro, a dizer que «eu estava só ali a comprar o jornal, nem reparei...», pois claro está. Não reparou nem ouviu a campainha tocar. Cheguei mesmo a pensar que terá ido buscar o jornal à gráfica. 

E lá prossegui então viagem neste dia de trabalho que custou e muito chegar ao fim. Agora o merecido descanso e o regresso amanhã ao circuito das colinas...

    

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Um vazio matinal numa carreira cheia de histórias para contar, eis a 28E...

"Ruas vazias. Noite cerrada e uma geada que deixa qualquer um com vontade de voltar para o conforto do lar. São 04h40 da madrugada e saio de casa para mais um dia de trabalho. As voltas que dou até chegar ao carro, são as mesmas que outros dão ainda na almofada. Há que abrir a "loja" do 28E para levara para a escola ou para o trabalho quem daqui a pouco inicia mais uma jornada..." assim poderia começar o relato de mais uma madrugada pelo coração de Lisboa. Mas em noite de bruxas, que cada vez mais se transforma num evento carnavalesco, a julgar pelos trajes que deambulavam pela cidade, quando além dos amarelos da carris, apenas me cruzei com táxis ou carrinhas de pão neste meu caminho entre casa e a Estação de Santo Amaro.

Copos e garrafas vazias pela estrada era a pontapés. Crise? Qual crise?...

Uma crise mas de sono afectava-me largamente porque como sabem, madrugadas não são mesmo a minha praia. Uma luz âmbar rotativa assinala a marcha da Zorra, o veículo afecto à reparação dos carris, que pela primeira vez vi em serviço porque tal como os morcegos também ela só trabalha de noite. Se no verão nos lembramos dos bombeiros que devem ser lembrados todo o ano, é em dias como estes em que "caio da cama", como dizia um colega, que me faz lembrar na importância daqueles homens que enfrentam o frio da noite, tratando dos carris que percorremos durante o dia. Um bem haja também para eles.

Estava então na hora de rumar para a emblemática 28E. Ruas vazias, lojas fechadas, parecia até que o eléctrico tinha chegado ao campo. Nos prazeres dava até para ouvir os pássaros, ou os passos largos de quem não quer perder o eléctrico que está prestes a partir. -"Bom dia senhor guarda-freio", dizia a senhora quase entre os dentes e ainda o frio não está no seu auge. Olho pela janela e avisto o amanhecer a querer dar um ar de sua graça, com uma claridade que ainda está longe mas que promete trazer algum sol para esta sexta-feira.

Rumo ao Chiado passamos pela Assembleia da República. Rodeada de grades, anuncia a manifestação prevista que poucos recordavam pela manhã. Previa-se portanto constrangimentos na circulação do 28, deixando a pé quem recorre ao eléctrico para a sua deslocação matinal. Os turistas ainda não se viam mas já se fazia prever as questões habituais em dias de manifestações na capital. A acalmia matinal permite-me em algumas paragens onde é solicitada a paragem pelos passageiros, que capte imagens de uma cidade vista através do 28 que tem a cada hora do dia, imagens diferentes dos mesmos locais.

Afinal de contas, quem mais se poderá gabar de trabalhar na mais emblemática carreira de eléctricos da Europa? E porque não do Mundo?...

A manhã chegava então a passos largos e para trás ficava o sossego da noite, a correria dos padeiros e as manobras das cargas e descargas que abastecem os supermercados ainda antes destes abrirem as suas portas. Em seu lugar apareciam então os turistas e em grande número. Com eles veio a esperada manifestação e os cortes, com alguns desvios para a 25E. A prova estava mais que dada, todos os dias são diferentes a bordo da "montanha russa" da capital portuguesa. Hoje foi assim, amanhã será certamente diferente, embora o horário seja novamente para acordar quando a cama convida ainda mais a ficar.  

sábado, 26 de outubro de 2013

Semana de loucos num regresso às madrugadas...

Já devem ter reparado que pouco se tem escrito por aqui. Não porque não haja nada para contar porque numa profissão como a minha há sempre que contar, mas se algumas das situações acabam por se tornar já repetitivas porque os anos passam e as pessoas não mudam, o certo é que o tempo tem sido cada vez menos para colocar na rede as aventuras e desventuras do dia-a-dia. Com a ideia de aprender checo, ideia esta que poucos se lembrariam, solicitei dois dias por semana horários compatíveis com as aulas que decorrem na Cidade Universitária, e a direcção da minha estação acabou por ceder ao meu pedido. Contudo o que à partida parecia fácil nem sempre é, porque acordar ás 4h20 para estar na estação às 5h30 para poder sair às 16h00 a fim de estar nas aulas das 18h às 20h é sem dúvida uma "maratona" que é percorrida por quem corre por gosto, mas por quem chega ao final da semana completamente de rastos.

As semanas têm sido portanto mistas no que a horários diz respeito, ora médias, ora madrugadas e misto tem também sido o tipo de veículo do serviço ao longo da semana. Ora nos carris, ora no asfalto, de eléctrico ou de autocarro, o serviço tem andado pelas Colinas, 28E e 15E.

E para a história desta semana não posso deixar de vos relatar a situação com que me deparei na Praça do Comércio na madrugada de ontem, quando perto das 5h50 um casal chinês manda-me parar rumo à Praça da Figueira e me questiona como iam para o Castelo, ou seja qual o transporte que tinham de apanhar. Não sabia se havia de rir ou chorar, porque se aquela é uma pergunta à qual já estou habituado, o certo é que ainda não a tinham feito em plena madrugada, quando o Castelo nem sequer está aberto, e sobretudo quando eu dava tudo para estar a dormir e me deparava com alguém que de férias acordou cedo para visitar o Castelo. Lá acabei por lhes encaminhar para a terceira rua paralela à Praça do Comércio e lá foram eles todos contentes com o seu guia de viagem com caracteres que obviamente não consegui decifrar mas que aposto, queria algo dizer Lisboa.

Lisboa esta cada vez mais multi-cultural e cada vez mais, uma cidade que realmente não dorme. Hoje o dia ficou então marcado pela manifestação "Que se lixe a Troika" que acabou por interferir com o serviço. Aguardava então ordens superiores, com o eléctrico fechado em plena Praça do Comércio estando junto da bilheteira. Quando olho para o eléctrico tinha já a porta aberta e os bancos repletos de turistas à espera da partida como se fossem aqueles bancos de jardim, de acesso livre. E assim vai o reino de quem nos visita, que até podem ter muitos euros na carteira, mas que têm cada vez menos respeito por quem por cá vive e trabalha. Será que por lá em terras de suas majestades também se abrem as portas de casa e pode-se entrar à la garder? ...

Este domingo muda a hora, o que permite mais uma hora de sono que tanta falta tem feito nesta semana que termina apenas na segunda-feira. E acreditem, nunca desejei tanto que fosse segunda-feira. E esta hein?

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Há viagens em que desejamos ver alguém correr e dizer «é meo!»...

Sejam bem vindos ao caos lisboeta! Assim poderia começar este texto de hoje em que o Metro de Lisboa voltou a fechar portas devido a Greve. Mas o certo é que apesar de muito trânsito, a manhã até acabou por se fazer com algum atraso nas viagens mas ainda assim, sem as confusões de outros tempos, porque cada vez mais as pessoas vão planeando com antecedência as alternativas que mais se adequam às suas deslocações. Contudo a tarde estaria para causar dores de cabeça num desejado regresso a casa. 

Se durante o dia não parei num chega e vai de turistas a quererem descobrir Lisboa, já na última volta tudo parecia estar reservado para a minha passagem. E a primeira paragem prolongada foi na Rua do Limoeiro, paredes meias com o bairro do Castelo. Uma carrinha da "Meo" com as luzes de emergência ligadas impedia a passagem do eléctrico. Toquei a campainha para ver se o técnico aparecia a fim de remover a carrinha, mas de imediato chegava a informação que o senhor tinha sido avistado algures para os lados das Portas do Sol. Passavam 5 minutos... 10 minutos até que lá apareceu um polícia - ali de serviço numa obra próxima - e um agente da EMEL. Aparecia toda a gente menos quem nós queríamos ouvir dizer «é meo

E ali estivemos 35 minutos à espera, já depois de solicitado o reboque que não chegou a ser necessário, porque o técnico lá apareceu e a interrogar-se se era por ele que estava tudo parado, como se fosse nossa vontade estar parado a olhar para uma carrinha que apenas dizia MEO, sem 4G, televisão, Internet ou até um telefone que fosse atendido perante as tentativas da minha parte e do agente da autoridade presente no lugar. 

Mas lá prosseguimos, rumo à Rua da Conceição, onde permanecemos mais 25 minutos quase parados num contínuo mas lento pára-arranca até à rua que dá acesso ao Cais do Sodré, já bem próximo da Rua Duques de Bragança. Os turistas - persistentes - lá iam perguntando se era normal o trânsito ser assim em Lisboa e iam aproveitando para fotografar detalhes que noutra ocasião não seriam possíveis ser fotografados.

Com custo lá passámos mais uma interrupção, mas apenas até à Lapa, onde nos deparámos perante um autocarro da 713 que de maneira nenhuma, conseguia seguir a sua trajectória numa curva apertada à direita para entrar na Rua da Lapa e tudo claro está, porque alguém só contou com o seu umbigo, deixando o carro, em plena curva, numa travessia de peões e afastado do passeio. E ali permanecemos então já com a PSP também a solicitar o reboque, durante alguns minutos, até que a Central de Comando de Tráfego, decidiu então mandar o 713 via carreira 25E, desimpedindo assim a circulação dos eléctricos que já por ali estavam em número considerável. 

Parecia que finalmente poderia terminar a viagem sem mais situações, mas as aparências iludem e a chegada ao Corpo Santo ditava-nos isso mesmo. Trânsito, trânsito e mais trânsito, tudo parado, com tempo para tudo e mais alguma coisa, até para ouvir uma desfolhada de Simone de Oliveira, caso a cantora estivesse para aí virada. Simone não cantava, mas era centro das atenções enquanto por ali era fotografada para uma revista, a propósito do lançamento do seu livro. Os turistas brasileiros que seguiam no eléctrico, questionavam-me se era alguém importante, e lá lhes desfiz o mistério. "-É cantora e actriz". E logo se soltou um «uauuuuuu».

Terminava então depois um longo dia onde não posso deixar de estranhar a quantidade de autocarros extraordinários que andavam nas ruas, numa altura em que se fala diariamente da falta de tripulantes. Do fim da viagem até à recolha lá foram mais uns largos minutos parado entre a Praça do Comércio e o Cais do Sodré, e com tudo isto o serviço que era para ter terminado ás 18h20 terminou às 19h55. Apenas um pormenor para conhecimento daqueles que dizem que o nosso trabalho é um "mar de rosas"...

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Regresso ao Colinas com direito a postais vindos de Dresden

Lisboa continua a ser cidade de eleição para os inúmeros cruzeiros que todas as semanas por cá passam e nos trazem milhares de turistas. E nem o tempo chuvoso e húmido que se tem feito sentir nos últimos dias deixa quem nos visita, no barco ou no hotel. As filas para os eléctricos continuam numerosas e as máquinas fotográficas apontadas são mais que muitas e tudo para captar uma recordação do transporte mais antigo da capital portuguesa.

De regresso ao circuito turístico, após um dia no 28E, deparei-me hoje com um casal espanhol que ficou encantado com o trajecto e com a história comentada ao longo do percurso que tem início na Praça do Comércio e que passa pelos principais pontos da zona histórica e central de Lisboa. No final comentavam com outros turistas que tinha sido um passeio que embora tenham achado caro ao início, valeria a pena porque «me encanta esta cuidad...» 

E quem estava na paragem aguardando a partida ficou mesmo convencido com o que ouviam. Um senhor dirigiu-se também a mim e perguntou-me o preço do bilhete. Se num primeiro instante ficou na dúvida se ia ou não entrar, rapidamente decidiu entrar, porque «me dijeron que era un muy buen paseo. Así que le doy vuelta!», dizia determinado. 

Mas por vezes o inesperado torna-se o momento do dia. Na penúltima volta do dia e chegado à Estrela, troquei o contacto eléctrico, baixando o trolley e fazendo subir o pantógrafo, e quando amarro a corda do trolley, um turista aproxima-se da traseira do eléctrico e ali fica procurando algo numa mochila. Pensava eu que procurava o bilhete para poder seguir viagem até à, Praça do Comércio mas o senhor tira 3 postais e diz-me «Hello, are for you. Also working with trams...». Ora bateu na porta certa o senhor Thomas Fehr que assim e sem saber acabava de contribuir com 3 postais de eléctricos de Dresden, para a minha colecção de postais dos transportes. 

Enquanto esperava pela partida do 28E que estava na frente, lá fomos trocando algumas ideias e eis que no meio dos postais surgia um papel em português, com uma questão: «Agulha ajustada correctamente?», que relata uma experiência vivida pelos carris de Dresden quando um equívoco levou o senhor Thomas a pressionar o freio e garante que desde então sempre ficou atento e nunca mais lhe aconteceu e acrescenta ainda que foi graças a Deus. Sugere a leitura da Bíblia enquanto corre o mundo em busca de fotografias dos eléctricos porque no fundo, é um entusiasta que parece querer juntar o útil ao agradável. 

Afinal de contas, para hoje estava reservado uma mensagem de Deus vinda de Dresden por intermédio deste alemão que por ali ficou a recolher mais fotos dos eléctricos que por ali iam passando, talvez para mais tarde publicar no seu site, que teve também gosto em partilhar e que aqui vos deixo, também como agradecimento ao senhor Thomas pelos postais que me ofereceu. Visite então www.thomasfehr.de e viaje pelo mundo dos eléctricos pelo olhar e descrição de Thomas Fehr.
 
 

domingo, 29 de setembro de 2013

Lisboa a votos com muita água à mistura e muita afluência... ao 28E.

Lisboa foi este domingo a votos à semelhança de outras Câmaras e Freguesias durante mais um acto eleitoral para as eleições autárquicas. Com um dia cinzento e chuvoso, muitos foram os que tiraram os casacos que há muito não vestiam, do guarda-roupa e não seria de estranhar que hoje o cheiro a naftalina abundasse pelos autocarros e eléctricos da Carris. E muito por causa dos que optaram e bem pelo uso do transporte público neste dia em que muitos foram também os que optaram para ir exercer o seu direito de cidadania, de automóvel congestionando assim as artérias próximas às assembleias de voto.

Mas o dia de eleições começou com uma mega-operação de fiscalização com o apoio da PSP na AV. 24 de Julho, local onde há semanas a esta parte tem sido notícia pelas piores razões, seja pelos assaltos ou agressões a tripulantes e passageiros das carreiras que por ali passam, por parte de quem escolhe aquele local como distracção nocturna e decide voltar de transporte público ainda que de forma ilegal. Contudo nem a presença da Polícia que se mostrou bem visível segundo testemunhos de quem lá passou pela madrugada, foram motivo de acalmia nos eléctricos e autocarros que por ali passaram. Porque estando a PSP em Santos, os infractores escolheram o Cais do Sodré para entrar e novos problemas ocorreram. Mas afinal para quando uma segurança eficaz e efectiva nos transportes públicos durante a madrugada?

Já com a noite a dar lugar ao dia, saí então da Estação de Santo Amaro e cedo me apercebi que a afluência aos eléctricos ia ser bem superior à das urnas, até porque a abstenção aos votos continua a ser elevada. A fila para o 15E fazia concorrência à do 28E logo pela manhã e com os carros em maior número neste Domingo, os atrasos foram inevitáveis pelas colinas de Lisboa. Inevitáveis foram também os habituais comentários entre passageiros sobre este acto eleitoral o que acaba sempre por causar debates acesos mas com alguma contenção.

Os turistas esses continuam como sempre, a correr de um lado para o outro e sem perceber o porquê de terem de sair no terminal, ao ponto de hoje um até me dizer que não saía porque estava a chover... E como se não bastasse tudo isto, no final do serviço e já quando me preparava para a recolha para o merecido descanso, lá tive de aguardar mais um horário de partida e desta feita de uma carreira que também acaba em 8 mas que até é de autocarro. Com a alteração do terminal da carreira 708 por imposição da C.M.Lisboa lá têm as chapas da 28E que recolhem num horário que coincida com o da 708 de aguardar porque ao contrário de outros o eléctrico ainda não consegue desviar-se... 

E assim vão os dias pelas colinas, a bordo do 28E com o regresso da chuva a uma capital que mais um ano parece ter-se esquecido de limpar as sarjetas, causando diversos "lagos" que por vezes tapam os carris, causando algumas surpresas a quem neles circula. 



 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Carris: Há 141 anos a viajar consigo!

A Carris está de parabéns! Hoje completa 141 anos de existência. Uma longa história que só é possível ser contada graças a si que é passageiro(a) da Carris e graças aos seus trabalhadores. Todos juntos fazemos a história de uma empresa que em 18 de Setembro de 1872 foi fundada no Rio de Janeiro. A Companhia Carris de Ferro de Lisboa, dotou a cidade de Lisboa de uma rede de transportes públicos colectivos utilizando, na época, o chamado sistema americano: carruagens movidas por tracção animal deslocando-se sobre carris.
 
Mas só no ano seguinte, mais precisamente a 23 de Janeiro de 1873, o escritor Luciano Cordeiro de Sousa e seu irmão Francisco Cordeiro de Sousa, diplomata, obtêm os direitos para a implantação na cidade de Lisboa, de um sistema de transporte do tipo americano denominado Viação Carril Vicinal e Urbana a Força Animal. Em 14 de Fevereiro, a Câmara Municipal de Lisboa aprova o trespasse daquela concessão para a Empresa Companhia Carris de Ferro de Lisboa. Em 17 de Novembro é inaugurada a primeira linha de "Americanos". O troço então aberto ao público estendia-se entre a Estação da Linha Férrea do Norte e Leste (Sta. Apolónia) e o extremo Oeste do aterro da Boa Vista (Santos).

Depois dos Americanos vieram os Eléctricos a 31 de Agosto de 1901 e seguiram-se depois os autocarros nos anos 60 com os primeiros a serem adquiridos para serviço á Exposição Mundial que se realizou em Belém. Ao longo dos anos, construíram-se novas estações, e apostou-se fortemente na renovação da frota o que fez com que a Carris obtivesse a certificação em 2006. 

Nos últimos anos a Carris tem continuado a apostar na melhoria do serviço, com a vinda de novos autocarros, mas esquecendo um pouco a aposta nos eléctricos. Na verdade foram eles o ponto de partida da Carris e são neles que a maioria das cidades europeias aposta.

Contudo, hoje que passam 141 anos desde a sua criação, a Carris que é de todos nós, está de parabéns e por isso também nós estamos de parabéns. Sugiro portanto, nesta data em que se completam 141 anos uma visita ao Museu da Carris, que além da história documental e física através dos autocarros e eléctricos ali presentes, passará a partir de hoje a ter uma projecção em vídeo de «Lisboa, quem és tu?», sobre a cidade de Lisboa, onde não podia faltar uma alusão à Carris.

Mas como 141 anos não se comemoram todos os dias, o Diário do Tripulante convida também o leitor a sentar-se na cadeira de um guarda-freio através de um vídeo em tempo real a bordo da carreira 15E, gravado exclusivamente para os "passageiros" deste diário.  Sinta-se na pele de um guarda-freio e veja o trajecto como vêem os tripulantes que o transportam diariamente entre a Algés e a Praça da Figueira. Prepare-se para os automobilistas que o ultrapassam pela direita mesmo nas paragens, ou para uma ultrapassagem em plena curva quando menos espera. E se vir um carro sobre a linha com luzes de emergência acesas, resta-lhe aguardar, pois o agente da PSP está a passar a multa! Siga então nesta viagem pelos carris daquele que foi o primeiro trajecto de eléctrico na história da Carris quando os eléctricos vieram substituir os «Americanos» que eram puxados por animais. 


Mas a história da Carris tem sido marcada ao longo dos 141 anos por uma série de factos e pessoas que por ali têm passado e há um vídeo disponível no Youtube, com uma amostra daquilo que foi um contributo para estes anos de vida da empresa que viaja à 141 anos consigo.

Translate