sábado, 18 de maio de 2013

[Off Topic]: Subida à Glória teve como assistente um dos guarda-freios que várias vezes vence a subida

Na noite da passada sexta-feira a Calçada da Glória encheu-se de gente. O Ascensor da Glória parou e deu lugar aos ciclistas. A «Subida à Glória»  é uma corrida aberta à participação de todos (e todas) numa das mais icónicas "rampas" da cidade. Centro e treze anos após a 1.ª edição, a história encontra-se com a contemporaneidade, trazendo o espetáculo do ciclismo para o centro de Lisboa. Com 265 metros de extensão e declive médio superior a 17%, a calçada que tantas vezes é vencida com a ajuda do Ascensor foi a pista para um surpreendente espetáculo sobre duas rodas, na tentativa de bater o recorde oficial desta subida em bicicleta, na posse de Alfredo Piedade (55 segundos em 1926!), mas que agora pertence a Ricardo Marinheiro com 39 segundos.

Nesta mítica corrida-festa no coração da nossa cidade, contou-se com a participação de várias gerações de ciclistas, profissionais e amadores, utilizadores urbanos da bicicleta e atletas de competição.
 
A prova integrou o programa do Congresso Internacional de História do Ciclismo e teve como assistentes durante a realização da prova, um dos guarda-freios que por dia sobe mais de 40 vezes a calçada da Glória a bordo do Ascensor, mas ainda assim, longe de bater o record com os cerca de 2 minutos que demora a viagem. 
 
Uma noite diferente com o velho amarelinho a ter o previlégio de assistir à partida e à chegada dos participantes, como pode o leitor agora comprovar através do link para a reportagem da RTP:


Foto: DR abola.pt

sábado, 11 de maio de 2013

Sugestão do Tripulante (13): Fim-de-semana nos elevadores à descoberta de Lisboa

Lisboa, cidade conhecida pelas suas Sete Colinas e caracterizada também pelas suas ruas íngremes e sinuosas, que dificultam a circulação pedonal, viu em 1884 com o aparecimento do Ascensor do Lavra, o ultrapassar de barreiras tornando o longe mais próximo e de forma mais rápida e suave. No ano seguinte surgiu o da Glória e sete anos depois, o da Bica. Em 1902 surgia na capital o primeiro elevador vertical, o de Santa Justa. Estes importantes e históricos meios de transporte, foram classificados como Monumentos Nacionais em 2002 e com o sol a convidar ao passeio, nada melhor que aproveitar o fim-de-semana para os conhecer e desfrutar das belas vistas e recantos que cada um nos proporciona. Nesse sentido aqui fica mais uma sugestão do «Diário do Tripulante», desta feita para um fim-de-semana diferente.

O ponto de partida é a Praça dos Restauradores, caracterizada pela sua largura e pelo monumento obelisco de 30 metros de altura que assinala a libertação de Portugal, do domínio espanhol em 1 de Dezembro de 1640. As figuras de bronze do pedestal representam a Vitória, com uma palma e uma coroa, e a Liberdade. Os nomes e datas nos lados do obelisco são os das batalhas da Guerra da Restauração. Situada no início da principal avenida da cidade - a Avenida da Liberdade, a Praça dos Restauradores conta ainda no seu lado poente com um Monumento Nacional que se move em direcção ao Bairro Alto, mas a primeira viagem sugerida é no lado oposto, mais precisamente no Largo da Anunciada, até porque foi o primeiro Ascensor a surgir na cidade de Lisboa. Valide o seu título de transporte e aguarde a partida até ao extremo superior. Depois de vencida a forte inclinação entre os prédios que parecem ser rasgados ao passar da cabine, saia pelo pórtico da Travessa Forno Torel e siga para a esquerda em direcção ao Jardim do Torel. 

O Jardim do Torel foi requalificado recentemente e além dos espaços ajardinados, conta com boas áreas de repouso, e de uma vista sobre a colina oposta, a do Príncipe Real, onde se destaca o Miradouro São Pedro de Alcântara. Num anexo ao jardim do Torel, encontra-se uma esplanada que serve umas boas tostas mistas, mas se a fome ainda não lhe aperta, aproveite para ouvir o cantar dos pássaros, ou aproveite e vá até ao Campo dos Mártires da Pátria, onde o jardim apresenta um simpático conjunto de aves, entre galinhas, patos e pavões. Volte ao Torel e opte pela descida no Ascensor que o ajudou a subir. 
 
No lado oposto, já depois de atravessar a Avenida que no próximo mês de Junho recebe o desfile das Marchas Populares de Lisboa, vai encontrar o Ascensor da Glória, ali mesmo ao lado do Palácio Foz. Trata-se de um belo edifício, de linhas sóbrias, revelando o "novo gosto" italiano. Em 1889, o palácio é adquirido pelo marquês da Foz, que transformou os seus interiores no que de mais sumptuoso se conhecia em Lisboa, recebendo trabalhos de José Malhoa e Columbano. Nesta altura dispunha de uma pequena ermida. Com o correr dos anos o Palácio foi perdendo o seu recheio e a sua sumptuosidade. Nos dias de hoje é ocupado pelo Instituto de Comunicação Social e por um posto de turismo.

Na calçada da Glória encontra então mais uma cabine amarela que outrora foi movida a contra-peso de água. O Ascensor da Glória foi então inaugurado em 1885, fazendo desde então a ligação entre a Praça dos Restauradores e o Bairro Alto, tratando-se do ascensor mais movimentado da capital. Suba até à extremidade superior da colina e vire à direita, repouse e desfrute da vista desafogada sobre o centro de Lisboa, com a Sé, o Castelo de São Jorge e a Igreja da Graça no horizonte. Depois de obter umas fotografias fantásticas sobre a cidade desta "janela" sobre o centro de Lisboa, dê uma volta pelas lojas do Príncipe Real, e volte a entrar a bordo do Glória, desta vez para descer rumo aos Restauradores, porque vai certamente encontrar pormenores na descida que não observou na subida. 

A próxima paragem é a Rua do Ouro, onde vai encontrar o único elevador vertical que presta serviço público em Lisboa. Inaugurado em 1902, o Elevador de Santa Justa, resulta do trabalho do arquitecto Raoul Mesnier du Ponsard, aluno de Gustave Eiffel. A sua estrutura de ferro fundido, enriquecido com trabalhos em filigrana, faz a ligação entre a Rua do Ouro e o Largo do Carmo, através do passadiço na parte superior. Prepare-se então para estar nos céus da baixa pombalina, de onde pode avistar o Tejo e todo o casario da baixa e da colina do Castelo. No topo existe ainda um restaurante onde pode desfrutar de uma refeição com boa companhia e boas vistas sobre Lisboa, como pano de fundo. 

Siga agora até ao Largo do Carmo, local crucial da revolução de Abril. Desça em direcção à Rua do Carmo, uma das mais animadas artérias de Lisboa, com lojas requintadas e cafés entre os quais, "a Brasileira", um dos mais antigos de Lisboa. Suba a Rua em direcção ao Largo de Camões, grande poeta português e autor dos Lusíadas. Suba pela Rua do Loreto e certamente que se irá cruzar com um dos eléctricos da carreira 28E, que por esta altura deve andar apinhado de gente, como aliás acontece um pouco por todo o ano. 

Chega então ao Largo do Calhariz da. Aqui encontra o Ascensor da Bica, de todos o mais pitoresco, inaugurado em 1892 faz a ligação entre a Rua de São Paulo e o Largo do Calhariz. A vista desta extremidade do seu curto mas apetecível trajecto é deslumbrante, com os estendais de roupa estendida, os candeeiros típicos de Lisboa com os seus corvos e claro está o Tejo. Tal como nos anteriores ascensores, sugiro a descida e posteriormente a subida porque a viagem vale mesmo a pena. 
 
Agora que já tem o trajecto sugerido, resta apenas dar algumas indicações e sugestões quanto ao serviço prestado pela Carris. 

Ascensor do Lavra:
Horário de Funcionamento:2ª Feira a sábado: 7:00h - 21:00h
Domingo e feriado: 9:00h - 21:00h  

Tarifa de Bordo (válida por duas viagens): 3.70 €
 
Ascensor da Glória:
Horário de Funcionamento:2ª a 5ª Feira: 7:00h – 23:55h
6ª Feira: 7:00h – 00:25h
Sábado: 8:30h – 00:25h
Domingo e feriado: 9:00h – 23:55h

Tarifa de Bordo (válida por duas viagens): 3.70 €
 
Elevador de Santa Justa:
Horário de Funcionamento do Elevador de Santa Justa:Todos os dias: 7:00h - 22:00h (Horário de Inverno)
Todos os dias: 7:00h - 23:00h (Horário de Verão)

Horário de Funcionamento do Miradouro de Santa Justa:Todos os dias: 8:30h - 20:30h
Tarifa de Bordo (válida por duas viagens, inclui acesso ao miradouro): 5.15 €
 
Ascensor da Bica:
Horário de Funcionamento:2ª Feira a sábado: 7:00h - 20:55h
Domingo e feriado: 9:00h - 20:55h
Tarifa de Bordo (válida por duas viagens): 3.70 €

Mas pode poupar dinheiro e fazer todo este trajecto por muito menos, se para tal optar pelo título de transporte pré-comprado e o «Diário do Tripulante» sugere que opte pelo bilhete diário Carris/Metro 24 Horas, que tem um custo de 6.30 € + 0.50 € do cartão "7Colinas" ou "VivaViagem". Obtenha mais informações através dos ascensores e tarifas, através do site oficial da Carris em carris.pt e desfrute da sua cidade através dos amarelos da Carris.

Boas viagens a bordo dos veículos da CCFL.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

E hoje, alguém apelidou o eléctrico turístico de «comunista» devido à sua cor

A semana aqui do tripulante chegou ao fim e com ela vem uma pausa semanal para recuperar energias, após duas semanas desgastantes com cruzeiros em Lisboa e muitos turistas pela capital, desde franceses a russos, passando por brasileiros, espanhóis ou italianos. Depois de uma passagem pela carreira 15E e pela 28E, o final da semana foi no circuito das colinas da CarrisTur. E muito haveria por contar nesta semana, mas não me sai da cabeça o encanto que se apoderou de uma família brasileira que viajou comigo em busca das colinas da cidade. A cada esquina e a cada subida, não conseguiam conter o entusiasmo que a viagem lhes provocava, o encanto que cada prédio lhes transmitia e até os estendais de roupa estendida em Alfama. «Olha só que lindo. Nossa, vê só essa ruazinha ai... Olha o Beco da Mó, parece uma favela com essas ruas estreitas e casas sobrepostas...»

A certa altura da viagem, anuncio a chegada à paragem do Castelo, local onde habitualmente alguns turistas decidem sair para visitar o monumento que dá o nome ao bairro, mas desta vez ninguém quis sair e o chefe da família brasileira dizia mesmo: «não vamos querer sair porque você é um cara simpático que até já nos falou onde é o restaurante onde vamos jantar...», justificava já depois de um pedido de orientação quanto à localização do restaurante onde teria lugar o repasto.

Mas refeições e encantos à parte o certo é que chegaram ao fim da viagem completamente satisfeitos e transmitindo que «a vossa cidade é linda de mais. Amámos o passeio e vamos querer repetir», ou não fossem eles turistas que aposto, até devem sonhar com os eléctricos. E por falar em eléctricos, muito já chamaram os nossos turistas a este transporte característico da cidade...

Bondinho, tramvaj, tranvia, onibus, bus, enfim da simples tradução à mais complicada confusão, muito lhe chamam, mas hoje um senhor fez questão de marcar a diferença. Circulava eu já na Rua da Conceição em direcção à Estrela quando um senhor me bate na porta pedindo para entrar. Avisei-o que não poderia abrir a porta fora da paragem. Ele não insistiu e decidiu dar corda aos sapatos, como se não houvesse amanhã. Correu em direcção à paragem e quando lá cheguei, tira de forma repentina do seu bolso, o passe e pergunta-me se passo na Estrela. Informo-lhe que passava na Estrela, mas que era um eléctrico turístico, pelo que o passe não era válido. «Mas ainda há turismo?», perguntava-me de forma algo cómica. Disse-lhe que havia e não era pouco, daí ter o carro cheio. Mas o senhor queria mais conversa e pergunta-me então, como poderia ir para  Estrela e lá lhe disse que teria de aguardar pelo 28E, um eléctrico amarelo. 

E quando pensava que a questão estava arrumada, lá me disse que «então o seu é vermelho é o eléctrico dos comunistas. Se assim é, é mesmo melhor esperar pelo amarelo, porque não quero nada com os comunistas...» E lá segui viagem sem voltar a responder, porque se o fizesse teria conversa para toda a tarde. O certo é que de vermelho ou amarelo, o regresso está apenas previsto para daqui a 10 dias. Até lá andarei por Lisboa à descoberta de outras paragens e de algumas sugestões para si que segue diariamente o «Diário do Tripulante». Até lá, boas viagens a bordo dos veículos da CCFL.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Meia-Dúzia de anos ao serviço da Carris



Mais um ano passou e hoje completo 6 anos de Carris. A 7 de Maio de 2007 entrava nas instalações da Carris em Cabo Ruivo, para dar início ao curso de motoristas, depois de afastada a possibilidade de me tornar guarda-freio. A vontade enorme em mudar o rumo a uma carreira profissional que tinha escolhido no mundo da televisão, mas que me deixava a maior parte do tempo sem trabalho, aliada à minha prestação numa loja de roupa masculina durante 5 anos, fez com que arriscasse e me inscrevesse na Carris.

Tive a sorte de ser um dos candidatos seleccionados e de poder representar uma empresa que este ano completa 141 anos de vida, ligada à história dos transportes e da própria cidade de Lisboa. O gosto que nutria pelos meios de transporte, nomeadamente pelos eléctricos, fez-me sentir como peixe na água e era com grande gosto que passava a vestir a farda azul da Carris.

Estive os três primeiros anos na estação da Musgueira, o que me permitiu conhecer melhor, zonas da cidade que até então desconhecia. Um ano passava e parecia ter encontrado a estabilidade que tardava em aparecer no mercado audiovisual. Mas o bichinho do jornalismo sempre ficou e com muita ironia à mistura, em Agosto de 2008 nascia este espaço ao qual dei o nome de «Diário do Tripulante», fazendo jus ao que os formadores me tinham dito nos primeiros dias da formação inicial na Carris. Pois muitas histórias iria ter para contar.

Observando o quotidiano a bordo dos autocarros amarelos fui registando situações que em muitos dos casos, contadas ninguém acreditaria. Constatei factos e vi que as pessoas teimam em perder velhos hábitos. Surgiu em meados de 2009 a confirmação de um pedido que tinha feito por escrito à administração da Carris. Tinha sido aceite o meu pedido de transferência para a estação de Santo Amaro, onde passaria desde Janeiro de 2010 a desempenhar as minhas actuais funções: Guarda-freio.

Entre subidas e descidas pelas colinas da cidade passava agora a ter um contacto mais directo com as gentes dos bairros típicos de uma Lisboa que é cada vez mais procurada por turistas. Uma mistura interessante que transporto diariamente nos eléctricos de Lisboa, verdadeiras peças de museu ambulantes.

Hoje passam 6 anos e muita coisa mudou desde que entrei na Carris. A crise instalou-se em Portugal e consigo trouxe inúmeras consequências quer pessoais, quer profissionais no dia-a-dia de quem se transporta e de quem faz transportar. Estados de humor menos vincados mas um espírito de sacrifício do qual só nós nos podemos orgulhar. Apesar de tudo, continuo a gostar daquilo que faço e de representar uma marca com uma história única no sector dos transportes. Faço o que gosto e ainda me pagam para tal. Se bem ou mal, já é outra nota de quinhentos, mas acreditem que é óptimo quando fazemos o que gostamos e isso sim é o mais importante.

E assim espero continuar a transportar pessoas, em viagens pelas ruas de Lisboa, esperando ter como até aqui matéria para dar a conhecer aos leitores deste espaço e do livro que foi editado no ano anterior e que continua à venda e a dar a conhecer como é afinal ser tripulante numa empresa de transportes públicos numa cidade como Lisboa. 

[n.d.r.: Foto autocarro de: Pedro Almeida e eléctrico de: Bernardo Rafael]

sábado, 27 de abril de 2013

Todos rendidos a Lisboa e ao "eléctrico chamado desejo"...

Não sei se Lisboa é um destino em saldos, ou se o facto de ter sido um dos melhores destinos europeus, tenha levado a que nos últimos fins-de-semana, tenha havido pelas ruas da cidade uma invasão oriunda de todos os cantos do Mundo. As ruas repletas de gente, obrigam a uma gincana para que se consiga chegar a um lugar e as paragens com filas fora do normal, fazem com que se tornem cada vez mais normais por estes dias, sobretudo por onde passa o eléctrico 15 e 28. Se um vai para a monumental zona de Belém, o outro percorre os bairros históricos sempre a subir e a descer, o que faz delirar os turistas que chegam em grande número mas que querem viajar sentados.

Assim acontece no Martim Moniz, como mostra a foto que podia ser de arquivo, mas que é de hoje no ponto de partida da carreira 28E, por onde andei este Sábado. A fila chega mesmo a atravessar a rua, mas quando o eléctrico chega à paragem e abre a porta, entram pouco mais de 20 pessoas, e assim que ficam preenchidos os lugares, os restantes preferem aguardar pelo próximo. Do lado de fora perguntam-me se «há lugar para mais 3 pessoas?» -Há para mais 3, 5, 10, 15, é até atingir a lotação. Mas «ok, mas não há para sentar, vamos no próximo». Começa então mais uma viagem pelas colinas de Lisboa. Na Graça já o eléctrico enche para logo nas Portas do Sol voltar a vazar. É um entra e sai, quando é, porque há muitas viagens que parecem um verdadeiro expresso das colinas, porque atingida a lotação, poucos são os que pretendem sair.

Chegamos aos Prazeres e quando anuncio o final da viagem muitos desatam-se a rir, num acto que ainda não consegui perceber o porquê, mesmo depois de andar há 3 anos a conduzir eléctricos, e outros há que dizem que querem voltar. Esta tarde lá surgiu um casal português, para contrariar a estatística e perguntar como faziam para voltar. «Temos bilhete de ida e volta, como fazemos para voltar?» Explico-lhes que têm de sair e aguardar na paragem nova partida de regresso. Mas algo intrigava o senhor que não tardou em ripostar «então e se não tiver lugar para me sentar?» Ora cá está uma das tais perguntas que não pedem outra resposta se não, terá de viajar de pé

Óbvio que poderia ter sugerido que aguardassem pelo próximo, mas em dias como o de hoje em que poucos eram os eléctricos que andavam a horas, poderiam ter de aguardar muito tempo pelo próximo. O certo é que o senhor não terá gostado da ideia de ter de viajar de pé e lá ficou na paragem à espera do próximo.

O dia não estava de facto a ser fácil, porque a procura era em muito superior à oferta e se em dias de feira da Ladra já é complicado, se juntar-mos uma feira na Graça, mais complicado fica com as constantes entradas e saídas que acabam por atrasar os eléctricos que já têm ao fim-de-semana um horário bastante apertado. Pelo meio há ainda os turistas receosos de um fim do mundo antecipado que querem a todo o custo andar no "eléctrico do desejo", nem que para tal entrem pela porta de trás. Mas quando o fazem igualmente com o intuito de viajar à conta dos que pagaram, o melhor mesmo é convidá-los a entrar pela porta da frente, onde tiveram de adquirir o bilhete que lhes permitia fazer uma viagem na casinha amarela, como não há em mais parte nenhuma do mundo, e que fez a revista de LE FIGARO ficar rendida à Vida Portuguesa e ao "eléctrico chamado desejo" que é Lisboa.

n.d.r.: Imagem revista LE FIGARO, do blogue de Cataria Portas.

sábado, 20 de abril de 2013

Até os turistas gostavam de ser guarda-freios... ou de provar a boa azeitona portuguesa



Mais um fim-de-semana na capital portuguesa e repleto de turistas, a comprovar pelo que se viu este sábado pelas ruas da Baixa. No Martim Moniz, a fila para o eléctrico 28E chegava à entrada do Poço do Borratém e a procura era também elevada na Praça do Comércio em busca do eléctrico para Belém ou para um passeio mais tranquilo pelas colinas de Lisboa. A presença dos navios de cruzeiro em Lisboa trazem sempre muitos turistas que pretendem em pouco tempo, ver o máximo possível da cidade de Lisboa. Os que trazem a lição já previamente estudada, acabam por comprar o bilhete combinado para todas as rotas turísticas, mas outros ficam-se apenas por um dos trajectos, deixando o resto do tempo em terra para passear ou fazer compras.

Com as esplanadas da baixa cheias e com muita cerveja à mistura, animação é algo que não tem faltado por estes dias e quando os clientes estão bem dispostos até o serviço acaba por correr melhor. Entusiasmados com a viagem pela Graça, São Vicente e pelas ruas estreitas de Alfama em direcção ao Castelo, os turistas que cruzavam a Baixa em direcção ao Chiado, a bordo do eléctrico das colinas nem ficaram chateados, como é habitual, por causa de uma interrupção que impedia por momentos a continuação do trajecto devido a uma mini-explosão numa das lojas próximas da Bica. Se muitos aproveitaram para almoçar pelo Chiado, outros acabaram por tomar outro rumo em direcção à monumental zona de Belém.


Com o sol a convidar ao passeio pelas ruas, não é de estranhar também que muitos tenham igualmente escolhido o 28E para uma tarde diferente, com o ar a correr pelas janelas em busca do melhor local para se obter uma boa vista sobre a cidade, ou uma esplanada para matar a sede. E miradouros e esplanadas é do que há mais pela cidade. Um casal de turistas brasileiro, dizia-me durante a interrupção que «estamos amando a vossa cidade. Lisboa tem carisma e é tudo gente boa, muito legal», diziam com um brilho nos olhos ao mesmo tempo que eu escutava com agrado e com um arrepio simpático daqueles que nos deixam quase sem reacção quando assim se referem à nossa cidade.

A pausa no trajecto dava portanto para troca de ideias entre turistas e um guarda-freio apaixonado por Lisboa. De França, um casal aparentemente, já muito viajado, questionava-me sobre alguns detalhes mais técnicos do eléctrico. Fazia-lhes alguma confusão o porquê da grelha que decora a frente e a traseira do eléctrico afecto ao turismo. Após uma breve explicação sobre a dita grelha, a resposta foi um arranhado «Superrrrr!» e não abandonaram o eléctrico sem dizer que «vous avez la profession plus intéressant de Lisbonne, sûrsement».

Se é a profissão mais interessante de Lisboa não o poderei dizer, mas certo é que são dias como os de hoje e clientes como estes que fazem com que cada vez mais, goste de fazer aquilo que faço. Conduzir pessoas numa cidade maravilhosa, mas nem sempre bem aproveitada, que tem do nascer e do pôr do Sol mais bonito, porque afinal de contas Lisboa é uma cidade com uma luz especial. E certo é também que sou um privilegiado por poder dizer que faço o que realmente gosto. 

E se nos eléctricos foi mais ou menos assim o dia de hoje, já no regresso a casa e a bordo de um dos autocarros da companhia, constatei uma vez mais que, nem sempre se trata de um veículo de transporte de passageiros. De bicicletas a televisores já vi um pouco de tudo. Mas um barril de azeitonas é que nunca tinha visto e este senhor, deve ter apanhado uma boa promoção ali para os lados da Ribeira porque comprou ou teve a sorte de alguém lhe oferecer este barril que abriu o apetite pelo menos a mim, porque cheirava muito bem a azeitonas. Davam certamente para um excelente petisco para o final desta tarde de sábado, com umas boas iguarias à mistura.

Hoje foi assim, amanhã espero que assim continue, a ter e a proporcionar boas viagens a bordo dos veículos da CCFL.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Noite de Transbordo num regresso à borracha na 15E

Já sem chuva tal como apontavam as previsões, e com o Sol a dar ares de sua graça, assim começou o o meu dia de trabalho nesta quinta-feira, horas antes das luzes dos candeeiros substituírem os raios de um Sol que tem teimado em não aparecer. A realização do Rally de Portugal, com a prova especial em Lisboa, que tem lugar esta sexta-feira, levaria-me de novo a sair dos carris com mais um regresso à borracha, ao volante de um MAN.  Coube-me então o serviço de transbordo na carreira 15E, entre S.Amaro e Algés, devido ao corte de trânsito na zona do Mosteiro dos Jerónimos, que obrigava ao desvio da carreira pelo Restelo, via carreira 751 até à Avenida da Torre de Belém, onde depois de percorrida, retomaria o trajecto da carreira 15E já no Largo da Princesa.

Mas se para muitos passageiros, a presença de autocarros na carreira que é feita por eléctricos, é uma surpresa, para outros já não é novidade nenhuma. Os mais atentos às notícias sabiam o motivo do transbordo, outros perguntavam o porquê e houve ainda quem tentasse adivinhar o porquê, com os mais variados motivos, e a maioria sem sentido de ser.

E se por um lado este tipo de serviço é excelente para variar e quebrar a rotina diária, há também a parte chata de ter de estar a repetir sempre a mesma informação, porque a maioria dos passageiros limita-se a olhar para o número da carreira e quando olha, deixando para trás o destino ou outro tipo de informação. Desculpa-se portanto à partida, os estrangeiros que terão chegado por exemplo a Belém, de eléctrico e esperavam certamente o regresso ao centro da cidade no mesmo meio de transporte. 

No entanto não me deixa igualmente de causar alguma incompreensão para com os senhores passageiros que ao chegarem a Belém, e ao verem a estrada cortada, através de grades e de um aparato policial, questionem o desvio do autocarro rumo ao Restelo, como que fosse vontade do motorista alterar o trajecto. Isto depois da maioria perguntar se «vai mesmo para Algés?» Ora se pretendem ir para o CCB, porque não perguntam antes se passa no CCB? 

Mas desvios à parte, a noite acabaria por ficar marcada pela questão "TRANSBORDO" e aqui os turistas acabaram por vencer os portugueses, a nível de compreensão. Se na paragem da Universidade Lusíada, um estudante me perguntava o que era um Transbordo, deixando-me a pensar se estaria a falar a sério ou a brincar. O certo é que não sabia mesmo e lá lhe tive de explicar. Mas atrás não ficariam também os passageiros que ao chegarem a Santo Amaro e ao receberem informações para fazer o transbordo para o eléctrico, se dirigiam a mim num tom exaltado dizendo que a bandeira do autocarro dizia "PÇ. FIGUEIRA". Confirmava-lhes que de facto tinha la escrito, mas que convinha lerem tudo, porque também lá tinha a inscrição "Transbordo". 

«Mas afinal quando sai a camineta?», perguntava-me um jovem já desesperado na paragem de Santo Amaro. Expliquei-lhe que não seria camineta nenhuma mas sim um eléctrico e que estava apenas a inverter a marcha para prosseguir rumo à Praça da Figueira. Confusões à parte no que diz respeito ao Transbordo, o certo é que foi sem dúvida um serviço diferente do habitual, que acabou por originar viagens diferentes também para quem se transportou na carreira 15E, para uns com apenas um pequeno desvio, para outros com uma grande chatice e para um, até com direito a alteração de trajecto devido ao "Rally Dakar", imagine. Havia portanto alterações e motivos para todos os gostos, e tudo devido ao Rally de Portugal e não do Dakar. Esta sexta-feira será igual. Para Sábado está já marcado o regresso aos carris e ao 28E. 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Mas não havia mais nada para acontecer hoje?

Nem sempre os passageiros são as personagens principais das histórias aqui relatadas. Hoje quero aproveitar este espaço, para "agradecer" ainda que de forma irónica, ao senhor presidente da Câmara Municipal de Lisboa ou aos seus vereadores, que decidiram esta semana fazer obras de repavimentação da R.Madalena em plena luz do dia. Ora estando no centro da cidade, era de prever que o caos se instalasse, sobretudo quando se fecham duas ruas bastante movimentadas, canalizando o trânsito para a R.Conceição. Não era portanto de admirar, que a cada viagem os eléctricos ali ficassem parados entre 15 a 20 minutos, com destino ao Martim Moniz.

Ora se Lisboa ficou no 2º lugar como melhor destino europeu, no que a buracos e obras diz respeito, terá mesmo ficado em 1.º lugar. Se é esta a imagem que gostam de passar a quem nos visita, os meus parabéns ficam aqui vincados publicamente porque conseguiram. Os turistas não deixam de referir isso mesmo quando andam a bordo dos eléctricos da Carris.

Mas o dia não começava mesmo da melhor maneira e foi mesmo necessária a ajuda «médica» dos amarelinhos que após diagnosticarem a avaria lá a conseguiram reparar e assim pude continuar o serviço, mas até onde pude, porque um carro haveria de impedir a minha passagem sem causar danos. Seguiu-se depois a hora de almoço e no regresso de novo o caos da Baixa que agora agravava-se com o aproximar da hora do jogo entre o Benfica e o Newcastle, com os adeptos ingleses a obrigarem ao corte de trânsito em algumas vias da Baixa.

E se pensa o leitor que o dia ficava por aqui, engana-se porque além da incompreensão de alguns passageiros perante os atrasos causados por todas as situações já referidas, ainda havia lugar para uma avaria num dos eléctricos que acabaria por impedir a circulação dos restantes e logo num dos piores sítios desta tarde. Precisamente na R.Conceição. O agente da PSP metia já as mãos na cabeça perante tanta confusão e outros faziam já contas à vida ora para chegar a casa, ora para chegar a tempo à Luz onde se jogava mais um jogo da Liga Europa.

Quanto a nós, restou-nos aguardar uma vez mais pela ajuda da equipa da manutenção das "casinhas amarelas" que diariamente carregam milhares de pessoas pelas colinas à descoberta da capital, conhecida agora, pelos buracos ou obras, e dar alternativas aos turistas que se viam assim bloqueados num passeio pela cidade que tantos apregoam mas que poucos se preocupam, nomeadamente com situações como as verificadas esta semana em pleno centro da cidade.

Uma senhora não compreendia mesmo o porquê dos eléctricos avariarem e se quando entrou me tinha dito que «há uma hora que estou à espera do eléctrico», nesta fase já não tinha pressa nem preocupação com o tempo perdido, porque ali permanecia a questionar-me o porquê do eléctrico da frente ter avariado e porque «é uma grande chatice ter de ir a pé, que disparate..», como se quando uma pessoa tem de recorrer ao hospital também seja um disparate. Sinceramente não entendo qual a dificuldade de se perceber que um carro também avaria quando menos se espera.

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