Não são de hoje. Existem há muitos anos e não é agora que vão deixar de existir. Os "penduras" nos eléctricos de Lisboa, são já também eles um ícone da cidade. E se até então tenho-os deixado de parte deste blogue, tem sido porque já me basta ter de os aturar no dia-a-dia. Para mim eles estarem ou não à pendura, é pouco relevante desde que não interfiram na segurança da marcha do veículo, ou não se metam com calduços nas pessoas que vão descontraidamente nos passeios. Na verdade, a questão dos "penduras" faz lembrar aquele ditado que diz «primeiro estranha-se, depois entranha-se».
Mas quis o destino que este final de semana me reservasse uma situação com os putos que julgam já ser gente crescida, só porque andam de cigarro na boca. A última viagem que tinha por realizar nesta segunda-feira no eléctrico turístico ainda estava a 10 minutos de começar, quando dois jovens se dirigiram ao abrigo da paragem da P.Comércio para acender o cigarro. Por ali ficaram alguns instantes até que um deles disse que o fumo poderia estar a incomodar as pessoas, e afastaram-se.
Nada me fazia querer que os mesmos aguardavam a partida do eléctrico para apanhar boleia, ainda que à pendura. Iniciei a viagem e logo de seguida um turista brasileiro, alerta-me da presença dos mesmos, pendurados no eléctrico. Parado no semáforo, peço-lhes que «saiam do estribo e do salva-vidas do eléctrico», porque não podiam ali estar, sabendo à partida que iam ignorar-me completamente. Arranco e o turista brasileiro, mais preocupado com eles, do que com a volta e a história que ia sendo narrada através dos auriculares, volta a alertar-me. Digo-lhe que é normal os putos irem pendurados à boleia até caírem e aprenderem de vez.
E já dizia a letra de Ary dos Santos, cantada pelo Carlos do Carmo...
ou se machuca uma criança,
então a gente vê ao espelho o atropelo
e a ganância que nos cansa.
E quando a malta fica à espera,
é que percebe como é:
passa à pendura
um pendura que não paga
e não quer andar a pé."
Mas como o turista estava de facto incomodado com a presença dos intrusos, saí novamente do eléctrico e alertei-os que não os avisaria mais vez nenhuma. A próxima teria de solicitar ajuda da PSP. Escusado será dizer que se riram e voltaram à pendura, mal retomei a marcha. E como sempre, a procura insistente de um agente da PSP nestas alturas é sempre inglória, mas também teria tempo até à Estrela, dado que na segunda vez que tinha falado com eles tinha-os reconhecido daquela zona. Eles lá continuaram pendurados, ora sossegados, ora a meterem-se com as pessoas que passavam na rua. Na verdade eles não queriam pagar e também não queriam andar a pé até à Estrela.
Já com a primeira parte do trajecto feita, a passagem pela Rua Augusta permitiu-me finalmente ser eu sorrir, quando faço sinal ao agente da PSP ali presente, que se dirige de imediato à retaguarda do eléctrico. Um dos penduras mete-se em fuga, mas o segundo não teve tempo. Enquanto questiona o jovem, o agente faz-me sinal para seguir viagem e acreditem-me que deu-me um gozo enorme, porque depois de toda a primeira parte da viagem ser gozado pelos penduras, quem riu por último fui eu porque ficaram com a viagem pela Rua Augusta, bem perto do ponto inicial onde começaram a troça da tarde.
Se foram noutro eléctrico à pendura? ... É bem provável, mas perderam 35 minutos em vão, para regressarem ao mesmo sítio e se eu ganhei algo com isto tudo? Ganhei um resto de viagem sossegado e um enorme gozo por saber que os mesmos devem ter ficado com uma raiva tremenda por não terem conseguido à primeira chegar ao seu destino - a Estrela, pelo menos, por hoje.
[n.d.r.]: Fotos de Arquivo.













