sábado, 29 de dezembro de 2012

Obrigado pelas 177.000 visitas e votos de um Bom Ano 2013

O "Diário do Tripulante" despede-se em grande de 2012. Depois do lançamento do livro «Diário do Tripulante - As melhores histórias e aventuras», numa edição Fonte da Palavra, o blogue acaba de atingir as 177.000 visitas. Recorde-se que em 2012 a página deste espaço que conta o dia-a-dia vivido nos transportes públicos de Lisboa, no facebook alcançou os 500 "passageiros". Estes números dão ainda mais força para que 2013 seja repleto de histórias relatadas, fotografias e vídeos partilhados, seja no blogue, na rede social ou quem sabe, numa livraria perto de si.

A todos os leitores e seguidores do blogue, livro e da página no Facebook, o "Diário do Tripulante" agradece a atenção demonstrada e espera continuar a poder transportá-los em 2013 com muita paz, saúde e alegria. Votos de boas viagens a bordo dos veículos da CCFL.

Se ainda não faz parte desta viagem na rede social, espero poder transportá-lo(a) em 2013 através do endereço: Facebook.com/diariodotripulante

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Deixem-nos trabalhar!

E quando me preparo para sair da estação para mais um dia de trabalho, este carro deixado no portão da estação, "à grande e à francesa" fez-me logo lembrar que era sexta-feira e véspera de festas e feridos. Tocar a campainha na esperança que o dono aparecesse, foi mais uma das tentativas sem êxito. Restou chamar a polícia, fazer manobra e sair pelo portão principal da Estação porque os turistas aguardavam pelo eléctrico que os levaria a descobrir as colinas de Lisboa. Se a polícia chegou antes da proprietária, não faço ideia, mas por esta não esperava ainda antes de começar uma viagem. É caso para dizer: "Deixem-nos trabalhar!" Afinal de contas as interrupções já não são apenas durante o serviço ou na recolha...

Resta-me portanto desejar Boas Festas porque no decorrer do serviço ainda houve mais uma situação semelhante, desta feita no Poço do Borratém.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Nos bastidores dos eléctricos (II): O carro do fio...



Grande parte dos trabalhos são feitos pela noite, mas as eventuais avarias que podem ocorrer a qualquer momento durante o dia, são prontamente assistidas por estes homens que garantem assim o funcionamento dos eléctricos pelas ruas de Lisboa. São eles os responsáveis pela montagem e manutenção da rede aérea que faz chegar a energia aos pantógrafos e trolleys que estão em constante contacto. De Algés ao centro da cidade e do centro ao topo das colinas, estão centenas de quilómetros de cabo de cobre suspensos nas ruas de Lisboa. Criam uma malha característica através das suas espias, ora mais tradicionais nas linhas 12E e 28E, ora mais modernas nas restantes. 
 
O carro do fio – como é conhecido entre os tripulantes – é a par de outros serviços na Carris, aquele que não pára. Sempre pronto a reparar uma espia partida, a retirar um galho que acabou de cair de uma árvore ou até mesmo a retirar um lençol que acabou de cair do estendal. Eles são também fundamentais quando o trolley salta e a corda se desprende do eléctrico ficando sobre o tejadilho do eléctrico. Faça chuva ou sol, eles estão lá e sem eles não seria possível o bom funcionamento de uma rede aérea que está a seu cargo e que se modernizou no início dos anos 90, quando a Rua dos Fanqueiros começou a receber os novos cabos de tipo flexível, que vieram substituir os de tipo semi-rígido, permitindo assim a partilha entre o trolley de roldana e o pantógrafo semelhante ao utilizado nos comboios.

Além de mais económicos, esta alteração da rede aérea veio permitir maiores velocidades e menores perdas de energia. As principais alterações de cabos, que de tempo a tempo precisam ser renovados, faz-se durante a noite e o tempo para os trabalhos é pouco e tudo tem de ser feito longe da confusão diária do trânsito lisboeta. Um trabalho por vezes esquecido, mas precioso e que o «Diário do Tripulante», não quis deixar cair em esquecimento.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Sexta-Feira claustrofóbica na 28E para terminar a semana no dia em que se dizia que o Mundo acabaria

Todas as pessoas falaram nos últimos dias que esta sexta-feira seria então o fim do Mundo, mas a verdade é que uma vez mais, o Mundo não acabou a não ser para aqueles que partem e não voltam. Contudo o trânsito que já era de prever nesta sexta-feira - vésperas de Natal - foi uma vez mais caótico com longas filas nas artérias de ligação à Baixa. E o serviço lá tinha de começar com uma interrupção devido ao estacionamento abusivo. Desculpem, direi antes, abandono abusivo de viatura, porque estacionamento seria se o mesmo estivesse no local indicado que até estava livre, mas para a senhora do Golf preto da foto, o mais fácil foi mesmo deixar o carro no meio da rua e ligar os piscas. Juntaram-se então três eléctricos e o meu era o último. Juntos e a tocar a campainha, anunciava-se que algo não estava bem na circulação, e até se podia ouvir talvez nos Anjos, mas a senhora em questão até estava numa das lojas ao lado e não deu conta.

Diz quem viu, que ela saiu mesmo da Associação de Inquilinos Lisbonenses e se foi pagar a renda de casa, saiu-lhe cara a ideia de deixar ali o carro a transtornar a vida de quem usa o transporte público e tudo porque a Policia Municipal que passava no local, apesar de pouco satisfeita por ter de intervir (poderiam eventualmente estar na troca do turno), acabou por dar início ao bloqueio do carro. Mas como sempre acontece, mal chega a Policia o dono aparece também. «Ahhhh, desculpe, peço imensa desculpa, mas foram só 5 minutos...» dizia ao mesmo tempo que ouvia das boas por quem tinha visto a sua viagem parada pelo carro da senhora que há pelo menos 15 minutos estava na referida loja. Da multa não se livrou e aquela ida à loja terá sido certamente o fim do Mundo para aquela senhora.

Retirada a viatura, prosseguimos viagem pela carreira 28E, que continua a encantar quem nos visita. E hoje senti-me uma vez mais em casa nesta que é a minha carreira preferida também por isto mesmo, o contacto com os turistas. Oriundos do Brasil dois casais deram uma volta até aos Prazeres e regressaram ao Martim Moniz em busca de um restaurante para comer um bom bacalhau. Pelo meio uma simpática mas curta conversa sobre os bondes de Santa Teresa, que habitualmente são comparados pelo povo irmão, com os nossos eléctricos de Lisboa. Surpreendidos ficaram quando lhes disse que eles iriam voltar depois de uma intervenção conjunta do estado brasileiro e da Carris. 

O trânsito na zona do Bairro Alto circulava com demora. As compras de última hora para o Natal que está à porta é um habitué português e quem vier atrás que se desenrasque, sobretudo se estiver limitado a uns carris. Encantados com a viagem pelas ruas estreitas e sinuosas por onde passa o 28E, os dois casais lá seguiram depois em busca do restaurante depois de abandonarem o eléctrico no Martim Moniz. 

Foi também nesta praça que logo na viagem seguinte apanhei mais um casal brasileiro, desta feita em busca do Castelo de São Jorge que já estava de portas fechadas. Em vésperas de regresso ao Brasil, não queriam partir sem andar no 28E e de conhecer um pouco mais da cidade e acabei por sugerir então uma viagem até ao Chiado, de onde poderiam através do miradouro de São Pedro de Alcântara, avistar não só o Castelo, mas também a igreja da Graça, e a Sé com os Restauradores e a Baixa a seus pés. O sr. Celso a sua esposa e filha, acabaram por seguir a sugestão e ficaram pelo Chiado onde visitaram a Brasileira, a estátua de Pessoa e Camões, dois dos autores preferidos deste amigo que veio de São Paulo também com a paixão pelos "bondes" que infelizmente já não circulam na sua terra Natal, mas que como fez questão de dizer, «ainda bem que são preservados em Portugal». Dos eléctricos de Lisboa passamos para os do Brasil, os de Praga e até de metro se falou, tenho o turista em questão, feito questão de me oferecer um "ingresso unitário do metrô de São Paulo", para coleccionar, o qual não pude deixar de agradecer.

A viagem passou num instante ou não estivéssemos nós a falar de transportes, a trocar ideias e a fazer comparações. A simpatia do senhor Celso e família acabou por marcar a noite que não se ficaria sem o caricato episódio habitual e desta feita na minha última viagem do dia, com partida dos Prazeres. Uma jovem de auriculares nos ouvidos ouvia descontraidamente a sua música enquanto desfrutava do ar que entrava pela janela que mal entrara terá aberto. Era a única passageira, mas na paragem da conhecida pastelaria «O Canas», duas senhoras entraram e sentaram-se imediatamente atrás da jovem, pedindo que fechasse a janela. A rapariga em questão, até foi educada e disse que não se importaria de fechar e avançar um lugar para a frente para poder abrir a janela. «Desculpe mas é que eu com a janela fechada não posso ir porque sofro de claustrofobia e por isso mesmo só à noite ando de Eléctrico...»

Mas a senhora que havia então entrado, apesar de imediato nada ter dito, não chegou à Estrela sem deixar a sua cházada... «Se sofre de clatrobia, que toma um xarope que há caltrofóbico ou que raio se diz...». A jovem continuou no entanto a curtir a viagem ao som da música e do vento que corria já pela Calçada da Estrela. Já no cimo da Calçada de São Francisco eis o então falado, Fim do Mundo para um WV Polo que apesar de novo terá ficado sem a frente em segundos depois de derrubar uns quantos pilaretes, devido à condutora não ter feito a curva. Desorientada e aparentemente mal disposta, aconselhei juntamente com dois transeuntes a que deixasse o carro estacionado e se acalmasse, mas a senhora preferiu antes ignorar-nos e seguir mesmo com o carro a arrastar peças pela Calçada abaixo. 

Cheguei então à Igreja da Madalena e lá estava de novo com a frente do carro desta feita contra um sinal de trânsito. E a juntar a este, foram muitos os acidentes presenciados até à recolha, porque na verdade ou anda tudo maluco com o Natal ou então, todos quiseram fazer tudo antes do Mundo acabar, o que afinal de contas acabou mesmo por não acontecer. E assim terminou a semana pelos carris do 28. Despeço-me com os votos sinceros de um Feliz Natal para todos.


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Um serão na 15E: Aqui há botas!

Se há algo que não me canso de dizer, é que quem fez serviços acima das oito horas de trabalho de condução num transporte público em Lisboa, devia no mínimo andar lá duas vezes por semana para ver o que custa entrar perto da hora do almoço e sair muito para lá da hora do Jantar sendo obrigado a fazer as duas refeições fora de casa. Mas a vida é assim mesmo e nos tempos que correm o importante é mesmo ter trabalho. Com o final da semana à porta, hoje o serviço marcou o regresso aos serões, a segunda vez esta semana, o que acabou por descontrolar completamente o organismo, algo com que os tripulantes estão já acostumados, nomeadamente os supras como é o meu caso.

Ora de manhã, ora de tarde e até à noite, o certo é que o serviço tem de ser feito por alguém e esta quinta-feira andei pela 15E. Se na primeira parte do serviço só consegui ir uma única vez à Praça da Figueira, das três vezes que estavam previstas e tudo por causa de carros mal estacionados ou avarias, já na segunda parte do serviço as viagens conseguiram ser todas feitas. Mas se há carreira pela qual não morro de amores é mesmo esta carreira 15E que faz perder a paciência a qualquer um, primeiro pela linearidade do seu trajecto quase sempre recto e depois pela quantidade de interrupções que surgem quando menos se espera. 

Mas se a uns faz perder a paciência, outros há que perdem as botas e por se encontrar está o dono de quem as esqueceu penduradas no balaústre do eléctrico 504. Apercebi-me do esquecimento durante uma das interrupções, quando muitos tiveram de optar por seguir o resto da viagem a pé ou de autocarro. Provavelmente aquelas botas seriam um segundo par, pronto para o que desse e viesse. E ali ficaram até ao resto da viagem à espera que o dono as viesse reclamar. Aparentemente seriam de um dos romenos que entrou com a "casa" às costas no Largo da Princesa, mas de princesa as botas tinham muito pouco. 

Já na viagem seguinte uma senhora bateu à porta da cabine e pensando eu que vinha procurar pelas botas, dizia-me: «olhe estão ali umas botas esquecidas...» Agradeci a atenção da senhora e disse-lhe que não as poderia guardar porque não apresentavam condições mínimas de higiene. Dei no entanto, comigo a pensar o porquê das pessoas repararem num par de botas esquecido num transporte e não repararem no destino do eléctrico/autocarro ou no botão que faz abrir as portas ou até mesmo solicitar a paragem. Afinal tudo isto é bem mais importante que um par de botas que, ao que parece nem ao dono faziam tanta falta. O certo é que ao fim de duas viagens as botas já lá não estavam porque ou o dono terá aparecido ou alguém terá dado corda, não aos sapatos mas às botas que só faltavam ter uns óculos e uma boca para virarem botas Botildes a bordo do eléctrico 15E, porque famosas foram durante quase toda a tarde.

Terá sido hoje o fim do mundo para aquelas botas? É que por enquanto nós vamos por cá andando, quase descalços é certo, mas enfrentando as dificuldades que nos vão surgindo. E esta hein?!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Há dias em que andar em Lisboa é como andar na Selva

Se há alturas em que andar no centro de Lisboa é uma autêntica selva, o Natal é uma delas e todos os anos se repetem as filas, os carros mal parados à espera da "Maria" ou do "Manel" que foi só ali à loja e já volta. A juntar a tudo isto há os carros mal estacionados e alguma má disposição que nesta época contrasta com a simpatia que surge quando menos se espera para desejar uma "boa noite e um Feliz Natal!" Mas de facto esta quarta-feira mais se parecia com a sexta, com muito trânsito, poucos turistas e muita gente em busca dos presentes de última hora. A selva instalou-se mesmo em Lisboa, nos lados do Chiado que hoje acordou com uma zebra a chamar a atenção de quem por ali passava. 

E se na 25E os autocarros substituíram os cansados eléctricos já na 28E, os eléctricos hoje não andaram muito cheios contratando com as avenidas por onde passavam, como por exemplo a Almirante Reis onde se demorava mais de dez minutos para se chegar ao Martim Moniz, a praça que vê de manhã à noite caixas da esquerda para a direita e da direita para a esquerda.  Tempo suficiente para se observarem todos os detalhes do renovado Intendente e das pinturas artísticas que surgiram nos prédios e até para se perder a paciência, como aconteceu com a maioria dos passageiros que pediram para sair.

Mas animação também não faltou pelas ruas de Lisboa nesta tarde de quarta-feira. Com um grupo de romenos que percorreram algumas artérias da cidade dando música da época a fazer lembrar os espectáculos de circo da infância. Enquanto os graúdos tocam os miúdos andam de porta em porta, à coca de uma janela a ver de onde possa cair uma moeda na cesta que transportam na mão. Admirados com o passar do eléctrico trocaram sorrisos com quem nele viajava e até houve tempo para pousarem para a fotografia dos poucos turistas que por lá andavam em busca das sete colinas. 

Amanhã não haverá certamente música pelas ruas, mas a confusão deve mesmo continuar até à noite de 24, por isso será necessária muita paciência para se circular pelas ruas de Lisboa, seja de carro, autocarro ou eléctrico.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Na 25E a viajar para Buenos Aires

«Última chamada para a viagem com destino à R.Alfândega. Senhores passageiros dirijam-se à porta de embarque por favor...» . Poderia ser assim o anuncio da partida da paragem dos Prazeres pelas 14h10 desta quinta-feira, até porque seria aqui que surgia a primeira pergunta do dia na carreira 25E. Sem o "boa tarde!", que já é normal nos tempos que correm, a passageira que vinha do cemitério dos Prazeres, onde calculo não tenha tido prazer algum, surgiu após uma curta corrida e quase sem fôlego perguntou «vai para Buenos Aires?»

Óbvio que a cliente em questão, queria ir para Lapa, mais precisamente para a Rua de Buenos Aires, mas por instantes viajei por completo para todos os lados menos para a Lapa, claro está. Disse-lhe que iria certamente passar na rua em questão, e não deixei no entanto de lhe dizer também que «não me importava nada de ir para Buenos Aires». A senhora sorriu e disse que também não se importaria nada de viajar. O tema acabou por gerar conversa durante a viagem entre os restantes passageiros. Havia opiniões para todos os gostos e os que gostavam de andar de avião e os que nem sequer queriam experimentar.

A viagem ganhou asas e o certo é que chegados à rua em questão a cliente manteve-se sentada, afinal de contas ela de Buenos Aires não devia querer nada. O resto da tarde custou a passar sobretudo porque o eléctrico acabou por não ganhar mais asas para voar para outros destinos que não a Rua de Alfândega e os Prazeres. Depois veio um pouco de chuva que a juntar-se às folhas arrancadas das árvores pelo forte vento que se fazia sentir,  tornaram a linha num autêntico escorrega, suficiente para causar alguns sustos numa carreira onde eles acabam por estar sempre presentes, seja pela porta inesperada de um carro que se abre, ou pelo peão que decide aparecer no meio dos carros da Rua de São Paulo. 

Uma tarde igual a tantas outras nesta carreira que esgota psicologicamente qualquer tripulante, sobretudo quando o serviço é no último dia de trabalho da semana. Seguem-se finalmente as folgas.

[n.d.r.: Imagem de TimeOut Lisboa]

domingo, 9 de dezembro de 2012

Da impaciência portuguesa à incompreensão castelhana à distância de um click

Cada dia que passa, entendo menos as atitudes de alguns passageiros. O meu dia de trabalho começava em Algés, pelo que antes teria de travessar toda a cidade para chegar ao local de rendição. Sábado, dia de feriado e o que me esperava seria certamente uma enchente como a verificada hoje por toda a cidade. A juntar-se aos inúmeros portugueses que aproveitam uma tarde de sol para o passeio, estavam os espanhóis que em peso se deslocaram até Portugal. Uma lufada de ar fresco para a economia portuguesa que tanto precisa. Mas ar fresco era algo que não se respirava nas carreiras que ligavam a zona de Belém ao centro da cidade.

Mas se os que vinham do centro da cidade vinham cheios, já o 729 que apanhei em Belém com destino a Algés, vinha com bastantes lugares disponíveis apesar de alguns passageiros circularem de pé, talvez impacientes com a chegada ao terminal. Do fundo do autocarro ouve-se a certa altura que «o motorista vai a pisar ovos. Mexa esses braços». Achei demasiada falta de respeito por parte da passageira para com o meu colega, que de forma profissional e, dada a irregularidade do piso entre o Largo da Princesa e a Rua Damião de Góis, procurava com todo o cuidado, realizar uma condução segura e confortável, poupando igualmente a própria máquina ao desgaste que o asfalto lhe provoca.

A pressa da passageira era enorme. Talvez a mesma com que tinha entrado quando procurou o lugar mais longe do validador. A mesma de quem entra às 9h00 no serviço e mete o despertador para as 9h05. Sentado no primeiro banco junto à porta da frente, olhei de forma repugnante para trás, mas como não era comigo, preferi não dizer nada. O mesmo fez e bem o colega que seguia ao volante da carreira que terminaria minutos depois em Algés. Ali saímos todos, cada um seguindo o seu caminho e a referida passageira que estava com tanta pressa, saía do autocarro num passo normal próprio de quem teria uma tarde livre pela frente. De fato treino vestido, mochila às costas, não terá tido certamente a tarde igual à de quem a transportou. Afinal de contas o melhor mesmo é decidirem-se porque se o autocarro vai rápido, o motorista é bruto. Já se vai com cuidado, o motorista é pastelão. 
 Mas autocarros à parte e já sobre os carris na carreira 15E lá andei a "abrir o sorriso" com o 506 aos espanhóis que não só "enchem" uma casa como também eléctricos. Creio mesmo que, mesmo estando fechado na cabine, o meu cérebro já pensava até em castelhano de tanto os ouvir falar... «Para ir à Torre de Belém?».... «Vás à Jerónimos?»... «Vás al centro?»...
Mas afinal para que servem os mapas nas paragens, as bandeiras de destino e os avisos de paragem? Afinal para que servem os botões existentes nas portas? Será preciso tirar um curso para andar num transporte público que até nem é de última geração? Tudo me leva a crer que quem nos visita tem certas e determinadas atitudes, como bater nos vidros para fazerem perguntas, fazer gestos como se fossem tradutores de língua gestual ou até mesmo encolher os ombros porque as portas não abrem quando não carregam no botão, só podem andar de carro nos seus países de origem. 
E escusado será dizer através do microfone para exterior "pressione o botão", que ainda se assustam, pensando que em Portugal os transportes são assustadores porque falam. Assim foi esta tarde na paragem do Museu dos Coches com destino à Praça da Figueira. Depois de um casal com dois filhos ter solicitado a paragem, ficaram durante uns segundos a olhar para a porta. O pai de família dirigiu-se de imediato ao vidro da cabine dizendo que a porta estava «cerrada!», tentei explicar que tinha de carregar, através de um gesto com o meu dedo indicador direito e a reacção do senhor foi qual?.... olhar para a parede seguindo o meu dedo.  Informo pelo micro que tem de "pressionar o botão!" e de imediato os quatro que estavam junto ao eléctrico deram um passo atrás. A cena, digna de uns apanhados televisivos, só terminaria porque alguém no interior do veículo se apercebeu e abriu a porta. E estava tudo à distância de um click!

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