terça-feira, 22 de maio de 2012

Há procura do milagre na carreira do Corpo Santo

Esta tarde no Terminal dos Prazeres após interrupção na 25E
Um serviço na carreira 25E não requer um Corpo Santo porque já o tem como terminal, graças às intermináveis obras da praça do Comércio, mas requer uma paciência de Santo para a constante atenção necessária ao estacionamento da Rua de São Paulo e do Largo de Santos. Na verdade estes locais sempre foram críticos para esta carreira e para os seus passageiros, que são «massacrados» pelas sucessivas interrupções causadas por quem só pensa no seu umbigo.

Raro é o dia em que não há uma paragem da carreira devido a alguém que decidiu parar o carro de qualquer maneira e por vezes até os serviços ocasionais ficam lá presos por centímetros como aconteceu ontem no serviço de Aluguer que tive pela manhã. No entanto, hoje a tarde até parecia estar a ser complicada mais para os lados da Rua do Comércio com uma interrupção a desviar algumas rotas das carreiras que por ali passam, mas quando me dirigia para o Corpo Santo, lá me cruzei com dois eléctricos que no sentido oposto, se viam impossibilitados de chegar aos Prazeres. 

Ontem  a caminho de um aluguer e impedidos de prosseguir
E lá apareceu o autocarro a substituir os eléctricos como sempre acontece nestas ocasiões em que o elo mais fraco se vê impossibilitado de realizar com sucesso a sua missão. Com alguma razão os passageiros lá reclamavam a paz que tarda em aparecer para os lados do Conde Barão. Primeiro a retirada do 794, depois o encurtamento da 25E ao Corpo Santo e uma maratona diária entre o terminal dos barcos do Terreiro do Paço e o Corpo Santo, onde rezam talvez aos Santos da igreja ali presente no largo para que um milagre aconteça e que um dia não tenham interrupções durante a viagem que os leva ao trabalho. 

Certo é também, que reclamam sempre com o tripulante, que pouco pode fazer e que certamente até preferia ter a "ajuda" do 794 ou regressar com o 25E, o mais breve possível ao terminal da R. Alfândega evitando assim um sem número de viagens que se tem de fazer num serviço, que acaba por se tornar mais maçador e que só vai sendo atenuado pela simpatia de alguns passageiros que vão entrando e saindo entre os Prazeres e o Corpo Santo.

E assim vão as viagens pela carreira 25E...

 

domingo, 20 de maio de 2012

Quando a paciência esgota na 28E...

Fazer a barba durante uma viagem de autocarro pode parecer irreal, e pouco higiénico, mas a verdade é que há quem o faça. Mas pior que isso é alguém fazer a barba a outra pessoa, com uma gillette, sem gel ou espuma de barbear e muito menos água. E tudo isto aconteceu durante uma viagem no 735 esta tarde quando me deslocava até Sapadores, a fim de apanhar o 28E com destino à Estrela onde iria render. Confesso que quando um colega que também seguia viagem naquele autocarro, me alertou nem queria acreditar. Mas um simples olhar sobre o lugar em questão, fez com que me apercebesse que a barba do senhor era feita com minúcia pela sua esposa, apesar da expressão sofredora do senhor, talvez pelo passar da lâmina no rosto.  

Já no eléctrico 28E, onde foi o meu serviço este domingo, a manhã passou-se com grandes enchentes por parte dos turistas, o que já vem sendo hábito nos tempos que correm. Mas pior que as enchentes, porque essas acabam por trazer sempre alguma receita para a Carris, é ter alguns turistas que persistem em querer fazer de nós totós. Pois já foram algumas as vezes que também eu fui turista, e em todas passageiro e utilizador dos transportes públicos para me deslocar e conhecer as cidades em que já estive. No entanto, sempre que chegava  a um terminal, levantava-me e seguia o meu caminho, nem que esse fosse até à paragem para voltar a entrar no transporte.

Mas ao que parece por cá e para os nossos turistas tudo é diferente neste pedaço de terra à beira-mar plantado na extremidade da Europa. Chego aos Prazeres e perante toda a calma dos que permaneciam sentados, alertei: «Fim da viagem! Terminus! Finish! Capolinea! C'est fini!»

E todos se riam às gargalhadas permanecendo sentados. Solicito que saiam até porque já estavam a atrasar a partida e a entrada dos que já aguardavam na paragem pelo 28E. Mas a risota continuava até que a minha paciência esgotou após uma manhã onde a cada terminal esta situação se repete, e disse: «FINISH! Get out please. Not yet understood? I do not have to wait more time please...»

De repente todos passam da gargalhada ao descontentamento até que um grupo de espanhóis, de forma revoltada diz-me que sou parecido com o Mourinho. «Eres como Mourinho! Estamos en Portugal, estamos en el país de José Mourinho! Qué indignación tener que abandonar el tranvía y volver a entrar» Não respondi porque iria dar demasiada importância a quem não tinha o mínimo de razões para reclamar o que fosse, porque afinal estava no terminal. Escusado será dizer que tiveram de pagar novo bilhete para voltar ao Chiado, e por se saber ficou o porquê de me terem comparado ao José Mourinho. Terá sido pela eficiência e rapidez com que uma simples frase fez toda a gente levantar-se e sair, ou pela forma determinada com que foi expressa essa frase?

segunda-feira, 14 de maio de 2012

[Off Topic]: Vem aí a noite dos museus!

No próximo dia 19 de Maio tem lugar mais uma noite dos museus. E este ano, o Museu da Carris volta a associar-se aos festejos do Dia Internacional dos Museus – 18 de maio – e Noite dos Museus – 19 de maio. Esta é mais uma oportunidade para ter contacto com a história da empresa de transportes de Lisboa, no ano em que a Carris comemora 140 anos de vida. 140 anos a contribuir para a a evolução da cidade, com a expansão da sua rede ao longo dos anos.

O Dia Internacional dos Museus comemora-se desde 1977. Este dia é uma ocasião para realçar o papel e importância dos Museus no desenvolvimento das sociedades. Recentemente, cerca de 30.000 Museus de mais de 100 países comemoram este dia, facultando ao público uma grande variedade de iniciativas.
 
Como anuncia o site oficial da Carris, o «tema deste 35.º aniversário do Dia Internacional dos Museus é MUSEUS NUM MUNDO EM MUDANÇA: NOVOS DESAFIOS, NOVAS INSPIRAÇÕES».

O Museu da CARRIS estará aberto, facultando entrada gratuita:
                18 de maio (6.ª feira) – das 10:00 às 17:00 horas
                19 de maio (sábado) – com entrada gratuita entre as 17:00 e as 24:00 horas.

Aproveite e assista ao concerto da Orquestra Ligeira da Banda de Música da CARRIS, que se realiza às 21:30 horas, no Museu da CARRIS no dia 19 de maio. Consulte o programa deste dia aqui.

Participe, visite o Museu da CARRIS!

sexta-feira, 11 de maio de 2012

O "pendura" extremamente diferente na 15E...

Há anos que andam pendurados e se muitos é apenas para uma boleia na ajuda a vencer a subida, outros há que o fazem por divertimento ou rotina. A sós ou acompanhados os penduras, são na maioria miúdos que chegam mesmo a faltar às aulas para "surfar" as colinas de Lisboa em cima do estribo do eléctrico, agarrados a uma porta ou às janelas tentando sempre escapara ao olhar mais atento do guarda-freio, ou à inesperada aparição da autoridade.

Há quem vá para a escola ou até para o trabalho à boleia da pendura do eléctrico, e se os putos levam as mochilas às costas, hoje vi um "pendura" que no eléctrico da frente não só ia descontraído a caminho do trabalho, ou até mesmo já pronto a fazer qualquer entrega, que com seu engenho, e visto ao longe me fez pensar que o eléctrico tinha alguma deformação na sua retaguarda ou talvez uma publicidade inovadora a três dimensões. Mas afinal o que eu tinha avistado era mesmo real e não era defeito do eléctrico nem tão pouco inovação publicitária. Era engenho do "pendura" que decidiu levar bagagem, mas sem correr o risco de a perder pelo caminho.

Uma mochila com imane, talvez mais indicada para usar nas motas, agarrada à traseira do eléctrico, acabaria por chamar a atenção dos turistas pelas paragens em que o eléctrico ia passando. Afinal de contas esta era uma forma de entrega por estafetas, talvez nunca vista na Europa, dando provas que por cá tudo é possível. De Algés à Infante Santo este pendura já graúdo, provou ser "extremamente diferente".

quinta-feira, 10 de maio de 2012

"Preso por ter cão e preso por..." um carro mal estacionado

Os nossos queridos passageiros nunca estão satisfeitos com o serviço prestado. Se o carro vem atrasado reclamam que «é sempre a mesma coisa....», se o carro vai adiantado é porque «andam a acelerar e agora vamos ter de esperar mais tempo pelo barco porque vamos chegar cedo de mais». Depois há a questão do ar condicionado. Se funciona em condições, é uma alegria para uns e um desagrado total para outros. Se as janelas vão abertas, alguém as quer fechadas e se o calor aperta como foi o caso de hoje, há quem não queira outra coisa se não ar condicionado. Na verdade o stress diário acaba por ser descarregado em minutos numa deslocação, num transporte público onde até há um motorista ou guarda-freio que já está habituado a ser o muro das lamentações, críticas, reclamações e de vez em quando alguns elogios.

Contudo o meu serviço de hoje foi na carreira 15E e o contacto com os passageiros esteve limitado, dado que a minha chapa circulava com um eléctrico articulado que até tinha um bom ar condicionado. Mas claro está que uma interrupção acabaria por originar de imediato esse contacto. Através do sistema de comunicação com o interior do veículo, informo os «senhores passageiros que devido a uma interrupção após a zona de Belém, este eléctrico vai terminar a sua viagem na próxima paragem. Pedimos desculpa pelo sucedido. Obrigado.»

Entro na raquete de Belém e aguardei ordens da Central de Comando de Tráfego, já depois de todos os passageiros terem abandonado o eléctrico. Cinco minutos passaram e o rádio voltava  a tocar... «Sr.Guarda-Freio, o percurso está restabelecido. Siga para Algés. Termino.» Inicio então viagem novamente com destino a Algés e quando eu pensava que todos os passageiros que minutos antes tinham saído iriam ficar satisfeitos por prosseguir viagem até Algés, eis que o oposto se instalou naquela paragem dos Jerónimos e até maluco me chamaram.

Dei comigo então a pensar se aquelas pessoas, sabem realmente qual o nosso trabalho e missão enquanto tripulantes de um transporte de passageiros. Mas afinal de contas, que prazer daria a um condutor de um transporte público que as pessoas saíssem todas para minutos depois voltarem a entrar? E não seria pior se tivessem ficado sem transporte que as levasse até Algés? É caso para dizer que «é preso por se ter cão e preso por não se ter...»

E lá seguimos a viagem até... à Rua de Pedroços. O descontentamento no interior do eléctrico relatava que era «todos os dias a mesma coisa» e «parece que andam a brincar com as pessoas». Mas de repente o eléctrico é obrigado a parar e a tocar a campainha na esperança de aparecer o dono do carro que impedia a continuação da viagem. Acabavam então as criticas ao serviço e apontavam «as armas» para quem pensa só no seu umbigo. O dono teimava em aparecer até que uma das senhoras diz que «devia era ser levado à frente.»

E se minutos antes todos estavam contra mim, naquele instante, todos eram meus aliados até passar um 729 que os levou até ao destino. 15 minutos depois lá apareceu não a dona do carro, mas um senhor que nem sequer sabia ligar o carro. Agora digam lá quem é que consegue cumprir horários quando ninguém respeita o próximo, numa cidade que se parece cada vez mais com uma república das bananas...




segunda-feira, 7 de maio de 2012

5 anos a fazer o que gosto!


Completo hoje 5 anos de Carris. A 7 de Maio de 2007 entrava nas instalações da Carris em Cabo Ruivo, para dar início ao curso de motoristas, depois de afastada a possibilidade de me tornar guarda-freio. A vontade enorme em mudar o rumo a uma carreira profissional que tinha escolhido no mundo da televisão, mas que me deixava a maior parte do tempo sem trabalho, aliada à minha prestação numa loja de roupa masculina durante 5 anos, fez com que arriscasse e me inscrevesse na Carris.

Tive a sorte de ser um dos candidatos seleccionados e de poder representar uma empresa que este ano completa 140 anos de vida, ligada à história dos transportes e da própria cidade de Lisboa. O gosto que nutria pelos meios de transporte, nomeadamente pelos eléctricos, fez-me sentir como peixe na água e era com grande gosto que passava a vestir a farda azul da Carris.

Estive os três primeiros anos na estação da Musgueira, o que me permitiu conhecer melhor, zonas da cidade que até então desconhecia. Um ano passava e parecia ter encontrado a estabilidade que tardava em aparecer no mercado audiovisual. Mas o bichinho do jornalismo sempre ficou e com muita ironia à mistura, em Agosto de 2008 nascia este espaço ao qual dei o nome de «Diário do Tripulante», fazendo jus ao que os formadores me tinham dito nos primeiros dias da formação inicial na Carris. Pois muitas histórias iria ter para contar.

Observando o quotidiano a bordo dos autocarros amarelos fui registando situações que em muitos dos casos, contadas ninguém acreditaria. Constatei factos e vi que as pessoas teimam em perder velhos hábitos. Surgiu em meados de 2009 a confirmação de um pedido que tinha feito por escrito à administração da Carris. Tinha sido aceite o meu pedido de transferência para a estação de Santo Amaro, onde passaria desde Janeiro de 2010 a desempenhar as minhas actuais funções: Guarda-freio.

Entre subidas e descidas pelas colinas da cidade passava agora a ter um contacto mais directo com as gentes dos bairros típicos de uma Lisboa que é cada vez mais procurada por turistas. Uma mistura interessante que transporto diariamente nos eléctricos de Lisboa, verdadeiras peças de museu ambulantes.

Hoje passam 5 anos e muita coisa mudou desde que entrei na Carris. A crise instalou-se em Portugal e consigo trouxe inúmeras consequências quer pessoais, quer profissionais no dia-a-dia de quem se transporta e de quem faz transportar. Estados de humor menos vincados mas um espírito de sacrifício do qual só nós nos podemos orgulhar. Apesar de tudo, continuo a gostar daquilo que faço e de representar uma marca com uma história única no sector dos transportes. Faço o que gosto e ainda me pagam para tal. Se bem ou mal, já é outra nota de quinhentos, mas acreditem que é óptimo quando fazemos o que gostamos e isso sim é o mais importante.

E assim espero continuar a transportar pessoas, em viagens pelas ruas de Lisboa, esperando ter como até aqui matéria para dar a conhecer aos leitores deste espaço como é afinal ser tripulante numa empresa de transportes públicos numa cidade como Lisboa.

sábado, 5 de maio de 2012

Um 'retrato' bairrista do 18, e seus costumes...

Passaram largos meses. Não me recordo até, da última passagem pela carreira 18E. Era carreira frequente nos meus serviços quando me transferi dos autocarros para os eléctricos, mas nunca morri de grandes amores por ela, talvez por andar por caminhos pelos quais me "cansei" de andar ao volante do autocarro 742. Mas nunca deixei de defender a sua existência, nem que pela simples mas afincada ligação das gentes da Ajuda. Várias foram ao longo dos tempos, as tentativas para a sua extinção, mas várias foram também as formas de luta de quem não quer imaginar a Ajuda sem o 18E.

Hoje voltei então a andar pelos carris da carreira que agora liga o Cais do Sodré ao Cemitério da Ajuda, e se a carreira tem vindo a sofrer alterações, nomeadamente no seu horário e percurso com o mais recente encurtamento, que deixou de ter por exemplo a Praça do Comércio na sua espinha, já quem nela se transporta parece não ter mudado nada. Por necessidade própria de sair cedo, voltei a um serviço que dispenso - a madrugada - e cedo constatei que os velhos hábitos se mantêm inalteráveis. Reconheci alguns passageiros quer pela sua estatura, conversa ou simples gestos durante a viagem.

Ainda o relógio marcava as 7h00, e poucos eram os que andavam nas ruas da Ajuda, onde os pássaros trauteavam talvez brindando o nascer do dia sem a chuva que se tinha feito sentir durante a noite. Mas o aparecer do sol, trouxe para a rua gente que segue rotinas. Vai-se ao pão, mas ao da Boa Hora porque dizem «ser cozido a lenha, o que dá mais sabor». Vai-se ao mercado porque o peixe é fresco e os legumes têm cores outrora encontrados nas hortas que faziam parte de Lisboa quando a cidade ainda era uma aldeia. Uma aldeia calma semelhante à acalmia verificada ainda hoje numa manhã de fim-de-semana no bairro da Ajuda, onde as floristas continuam a dar cor a um terminal que pouco tem de bonito.   

«Bom dia Sr. Guarda-Freio. Então vai a conduzir em pé? Que grande maçada...», reparava uma senhora que entrara na Calçada da Tapada para se deslocar também ela ao Mercado da Boa Hora. Se há gente quem nem saúda o tripulante, esta senhora provou que ainda há quem repare na existência de alguém que a conduz, como aliás acontece naquela carreira. Na verdade fiz algumas viagens de pé, porque a cadeira aparentava também ela sinais de uma longevidade semelhante à dos muitos passageiros que por ali se transportam. 

Restabeleci-me no meu posto no final da viagem. Dou a volta ao Duque da Terceira e regresso à Ajuda. Um grupo de franceses pretende ir para o Museu Nacional de Arte Antiga e enche o eléctrico até ao Cais da Rocha onde deixam lugar para quem vai trabalhar, ou para quem regressa de uma noite de folia, talvez para esquecer a crise. Uns vão entrando e outros saindo. Uns cumprimentam e outros nem sequer olham. Há até quem dê sinais de querer dizer algo, até chegar à rápida conclusão que estão perante um condutor de transporte público, interrompendo de imediato o movimento dos lábios.

Em 10 minutos chego à Boa Hora até porque não há trânsito em Lisboa. O largo apresenta então, um movimento que contrasta com o matutino, onde a azáfama é agora rainha, porque há sacos para levar para casa e almoços por fazer. Entre muitos passageiros, uma senhora diz-me que fica ali à frente «porque vou já sair na próxima e era para ir a pé, mas assim é mais uma validação para ajudar a manter o eléctrico que eles nos querem tirar...», dizia com convicção.

Parecia falar com conhecimento de causa e acusava até «a alteração do 760 com o 714 é para isso mesmo. O que julga? Eles é que pensam que somos tapadinhos, mas de tapados, só temos a calçada e é a da Tapada», ironizava também despedindo-se de seguida com um «até logo e bom serviço, que ainda vou pôr a panela da sopa ao lume...»

Uns a caminho da Ajuda, outros a caminho do Calvário e pelo meio, sempre alguns turistas que por coincidência ou não, acabam por conhecer a Ajuda com o eléctrico 18E um eléctrico sem dúvida bairrista e com muitos costumes enraizados, mas que segundo os seus passageiros «tem os dias contados mas faz muita falta»...
E enquanto houver que desfrutem e tenham boas viagens a bordo do eléctrico da Ajuda!

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Até passava, mas não era a mesma coisa!

Ao descer a Avenida Almirante Reis ao final desta manhã, avistava um carro que impedia a passagem do meu eléctrico, mas como tinha as luzes de emergência ligadas, pensei que o condutor estaria por perto, como aliás já vem sendo hábito nas ruas de Lisboa. Pensei, mas enganei-me! Toquei a campainha durante algum tempo e nenhum sinal do condutor(a) que até então ninguém sabia quem era, apesar dos amantes da "loira" - leia-se cerveja - que estavam sentados na esplanada do café mesmo ao lado, dizerem que «o homem foi para a marisqueira do Ramiro pá!»

Pouco me interessava naquela altura para onde tinha ido o condutor(a) do veículo. O que eu pretendia mesmo, era que ele ou ela aparecesse rápido porque quem ia "dar ao dente" de seguida era eu, que na viagem seguinte iria ser rendido na Estrela. No interior do eléctrico eram diversos os comentários. Havia quem repreendesse o estacionamento em questão, mas havia também quem me perguntasse o porquê da paragem... «moço, porque não segue viagem com o bondinho?...»

Não foi preciso explicar o motivo, porque bastou a turista em questão olhar para a frente do eléctrico e perceber a causa da paragem. Entretanto comunicava à central a interrupção e ao mesmo tempo, já quando as dificuldades eram algumas na comunicação com a C.C.T por falta de cobertura da rede, eis que uma senhora já com alguma idade, decide descarregar a sua revolta bem próximo dos meus ouvidos. Pedi-lhe que tivesse em conta que estava a tentar comunicar com o colega da central a fim de solucionarmos o problema e lá se acalmou. 

Enquanto todo este processo decorria no interior do eléctrico, lá foram a "plateia" ia ficando preenchida entre transeuntes e os próprios turistas que aproveitavam todos os instantes para fotografar a profecia daquela condutora, que passados 15 minutos se apresentou perante a "plateia", em jeito de corrida e vermelha que nem um tomate. Pediu-me desculpa pelo incómodo, mas acrescentava que quando estacionou teve o «cuidado de deixar a linha livre». Afinal de contas, até passava mas não era a mesma coisa!

Pensei a certa altura que ainda estivesse a gozar comigo, ou então, pensaria a senhora que ali passava um carrinho de linhas em vez de um eléctrico. Não se livrou claro está dos habituais insultos por parte dos passageiros mais revoltados. A viagem prosseguiu e logo na paragem seguinte a cerca de 150 metros lá a senhora que me tinha gritado aos ouvidos pedia para sair pela porta da frente! Continuo por descobrir passados alguns anos de transportes públicos, o porquê de preferirem sair pela porta da frente. 

Razões já me deram várias, desde ser mais baixo o degrau, ser avistado pelo condutor, ou porque fica mais perto do destino. Há desculpas para todos os gostos, mas o certo é que a saída pela frente acaba sempre por atrasar a entrada dos que estão à fora, nomeadamente nos eléctricos tradicionais, onde a entrada é por natureza estreita. E em muitos dos casos, já observei pessoas que pedem para sair pela frente e são as próprias que quando estão do lado de fora para entrar, reclamam com quem então está a sair pela porta da frente, não deixando de dizer, «ouça lá a saída é lá atrás...», afinal até sabem, mas é só quando lhes interessa. E assim vão as viagens pelas colinas de Lisboa.


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