segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

De eléctrico no... estaleiro!

Onde estavam paragens, está agora um amontoado de pedras e asfalto rachado. Onde circulavam pessoas, agora estacionam-se carrinhas e onde habitualmente circulam os automóveis, querem que por lá circulem os peões. A fila interminável que avistava na hora de ponta da manhã no Cais do Sodré, ocupando toda a Rua do Arsenal, quando me dirigia para a Praça do Comércio, a fim de iniciar o serviço turístico do eléctrico das colinas, fez-me antever que algo se passava no Terreiro que é cada vez menos das pessoas, pelo menos para já.

As barreiras voltaram a circundar parte da praça, as setas de desvio fazem labirintos entre arcadas e passadeiras, entre eléctricos e autocarros e as paragens essas foram desviadas. Resultado: A confusão está instalada numa praça que está novamente em obras, e desta feita, para que seja desviada uma das linhas de eléctrico e que seja criado um corredor BUS. 

Se ficará melhor ou não, só o tempo o dirá. O que para já sei é que não faz qualquer sentido, obrigar um turista seguir um caminho para adquirir um bilhete, depois obrigá-lo a voltar atrás, seguir pela estrada, contornando a bilheteira para então tentar entrar no eléctrico que o leva a conhecer Lisboa, sem bater com os ombros numa das carrinhas que por lá costumam estar estacionadas. É esta a imagem que querem dar de Lisboa?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Na 12E há sempre direito a brinde!

Seria necessário recorrer à agenda de 2011 para ver qual minha ultima passagem pela carreira 12E, mas o que importa saber é que nesta carreira podem passar os meses e até mesmo os anos, que os hábitos se mantêm. Hoje e para terminar a semana de forma mais descansada, até porque a semana foi toda no eixo ribeirinho da carreira 15E entre Algés e a Praça da Figueira, nada melhor que uma visita inesperada à 12E, carreira pela qual não morro de amores, mas à qual gosto de ir de vez em quando.

Esta é daquelas carreiras que, como já tive oportunidade de anteriormente referir, temos de ter paciência redobrada, até porque o público alvo da mesma é a idosa população dos bairros da Mouraria, do Castelo e Alfama, aos quais se juntam os sempre apressados turistas que querem a todo o custo chegar ao Castelo, que lá da Praça da Figueira conseguem avistar, fazendo mesmo por vezes lembrar o antigo programa da SIC, «Caça ao Tesouro», como se estivessem numa missão e o tempo a acabar.

Comecei então o serviço após o almoço e notei nas primeiras voltas algumas ausências que são presenças habituais nas voltas da 12E, provavelmente receosas da confusão que os polacos têm espalhado pela baixa lisboeta. A minha constipação adquirida dias antes começa a ter dias melhores, mas ainda assim nota-se, como me fez querer uma das senhoras que carregada de sacos me pedia encarecidamente que lhe desse um "jeitinho" para poder entrar, já depois de eu ter arrancado da paragem. Como o sinal estava vermelho, e não punha em risco nem a segurança dela nem dos restantes passageiros, decidi abrir-lhe a porta.

Quase sem fôlego, agradece-me «a bondade por ter aberto a porta. É que vou tão carregada e preciso de chegar a casa e ir descansar filho...», dizia-me ao mesmo tempo que eu lhe pedia para que se sentasse, para evitar uma queda. De imediato ela diz-me que «estou habituada a andar de carro eléctrico. Fica descansado filho e vê se curas essa constipação... Olha toma lá uma laranjinha que tem vitamina C. Comprei agora ali no Mercado da Figueira». Escusado seria repetir que não era necessário, porque não ia ter tempo para a comer sequer. «Mas no fim da viagem comes que faz-te bem. A fruta faz muito bem. Toma la mais uma Clementina». E já com o carro em andamento coloca-me a fruta em cima do controller.

Senta-se finalmente e de imediato puxa conversa com o passageiro do lado, num tom de voz que me permitia ouvir o tema da conversa. «Sabe, gosto muito deles. São todos umas jóias. Andam o dia todo aqui ás voltas e muita gente nem lhes dá valor ao que passam com os turistas, com os carros mal estacionados, e com aquela Calçada de Santo André que é um tormento...», dizia com a concordância do passageiro com quem partilhava lugar. 

No final e como não poderia deixar de ser, lá me pediu para sair pela porta da frente e despediu-se com um «até amanhã e as melhoras filho!», porque para aqueles passageiros todos nós, somos seus filhos. Assim é a carreira 12E, numa circulação que dá sempre direito a brinde, sejam chocolates, bolos, fruta ou até mesmo os automobilistas que decidem descer a calçada de Santo André, mesmo vendo que o eléctrico está a subir. 

Seguem-se agora as merecidas folgas. Boas viagens a bordo dos veículos da CCFL.



 

domingo, 19 de fevereiro de 2012

É Carnaval, ninguém leva a mal!

"É Carnaval, ninguém leva a mal!" Poderia ser a frase mais ouvida esta tarde na carreira 15E, mas acabou por não ser, apesar dos inúmeros atrasos provocados pela quantidade de gente que ao ver o sol dar um ar de sua graça, decidiu ir para Belém, como quem antigamente ia para a Avenida. Sem coches, porque esses já só mesmo no museu, que em breve ou talvez não, terá uma nova sede, mesmo em frente à actual. 

Com disfarces para todos os gostos, lá foram no eléctrico a quem muitos chamam de rápido, mas que em dias como os de hoje tornam-se lentos, com a quantidade de gente que tenta forçar um pouco mais os que já lá vão dentro, acabando por não deixar fechar as portas do articulado. A romaria para os Pasteis de Belém começou logo após o almoço, com uma fila que parecia querer competir com a fila do eléctrico na paragem em frente, fazendo uma espécie de «corredor da morte» para quem tentava minimamente cumprir um horário, quase impraticável de 37 a 40 minutos de viagem entre Algés e a Praça da Figueira. 

O serviço de hoje teve então direito a saída e recolha da estação de Santo Amaro e domingo que é domingo, tem de ter os habituais passeios de quem parece andar a semana toda a escolher o traje a usar neste dia de passeio. Muitos acompanhados com familiares e amigos, outros com uma simples muleta ou bengala, mas todos com algo comum. Demoram tempo a entrar e sair e quando chegam a Algés, saem e voltam a entrar rumo à Praça da Figueira.   

Mas se muitos eram os que iam de eléctrico ou autocarro, muitos mais foram os que optaram pelo carro, entupindo por completo os cruzamentos da zona do Mosteiro dos Jerónimos, onde se perdia muito tempo porque ainda há condutores que não compreendem o significado da palavra «BUS», ou porque simplesmente decidem avançar quando sabem que não vão ter hipótese de entrar na via pretendida. Mas já dizia e bem o formador Cardoso: «Nós guarda-freios, não nascemos para educar o mundo!» 

Pronto, mas e um de cada vez pode ser? E tudo isto num só dia em que poderia ter ficado por aqui, ou não fossem os dois açorianos que decidiram entrar e arranjar lugar, sem se preocuparem com o título de transporte. Azar dos azares, a fiscalização entrou a bordo e ao serem confrontados pelos agentes da Carris, tiveram o à-vontade de dizer que pensavam ser grátis porque «nos Açores o bilhete compra-se ao motorista», diziam. Ora como não tinham acesso ao condutor e como as máquinas de bilhetes, para eles estavam simplesmente ali como elemento decorativo, ainda tiveram direito a uma visita guiada à Esquadra da PSP da Praça do Comércio, por não se quererem identificar. Afinal até é Carnaval, ninguém leva a mal!

Assim vão as viagens pelo universo que liga Algés à Praça da Figueira - eis a carreira 15E!


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

[Off Topic]: Alterações da Rede Carris têm início a 3 de Março 2012

A Carris deu hoje a conhecer as alterações que vai fazer na sua rede, «face ao actual contexto de grande constrangimento orçamental e de reestruturação global». Os ajustamentos impostos pelo Governo, implicam a supressão de 4 carreiras e alterações noutras 23. Estes ajustamentos da oferta, entram em vigor a 3 de Março de 2012 (Sábado), mas a Carris irá «procurar continuar a assegurar padrões de qualidade que caracterizam a oferta da empresa», lê-se nos folhetos que estarão disponíveis nos autocarros, eléctricos e pontos de venda MOB, já a partir deste sábado.

Através do seu site oficial, a empresa de transportes de Lisboa, dá então a conhecer as alterações através de um ficheiro disponível no seguinte link: http://www.carris.pt/fotos/editor2/tabela_alteracoes_de_rede_branco.pdf  

No total serão 27 as carreiras com modificações (algumas das quais com mais do que uma modificação): quatro são suprimidas (10, 777, 790 e 203), seis deixam de funcionar em períodos específicos como fins-de-semana, feriados ou à noite (108 -passa a 798-, 701, 709, 714, 756 e 793), três têm uma redução de frequência (49 -passa a 749-, 76 - passa a 776- e 724), três têm redução do período de funcionamento (70 - passa a 770-, 776 e 729), cinco sofrem alterações de percurso (31 -passa a 731-, 798, 703, 717 e 794), duas vêem o seu percurso ser prolongado (74 -passa a 774- e 760) e 11 sofrem encurtamentos de trajecto (12 -passa a 712-, 770, 701, 703, 706, 709, 723, 732, 794, 797 e o eléctrico 18E).

Para tirar dúvidas e esclarecer os clientes, a Carris criou ainda uma linha telefónica que funcionará a partir de segunda-feira, dia 20 de Fevereiro, através do número 808 201 777.

Estas informações foram apresentadas esta manhã em Conferência de Imprensa, na Sede da CARRIS, no Complexo de Miraflores como testemunha a reportagem da RTP: http://www.rtp.pt/noticias/?article=528117&layout=122&visual=61&tm=8&

Mais informações disponíveis em www.carris.pt

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Na 15E: Quando um articulado se torna atribulado...

Se enquanto motorista já tinha tido experiência em conduzir fechado numa cabine, agora chegou a vez de tal situação se repetir, mas de eléctrico. Há diferenças? Há... e muitas! Se nos autocarros a cabine do motorista está lado a lado com os passageiros em frente à porta da entrada, já nos eléctricos articulados, a cabine está na frente do veículo, e à frente dos passageiros. 

Ao contrário dos autocarros, nesta cabine, não temos contacto com os passageiros e bilhetes só se vendem nas máquinas de venda que estão no interior do eléctrico e com moedas, como dizem os vários avisos nas portas e no interior dos eléctricos. Parece simples, não é? Mas não é! Pois no primeiro dia na carreira 15E, bastou uma ida a Algés para logo na viagem seguinte ter alguém a bater à porta da cabine para comprar um bilhete. Seguiu-se uma rápida explicação que teria de ser comprado na máquina e com moedas. Mas de imediato surge um pedido de troco de 10 €.

Mais rápidos e confortáveis que os tradicionais eléctricos, estes que circulam na 15E funcionam com mais tecnologia, o que nem sempre ajuda, nomeadamente quando as portas decidem deixar de trabalhar, como uma forma de revolta pelas inúmeras vezes que são forçadas pelos passageiros que se chegam mesmo a apoiar nelas para subir ou descer do eléctrico. E se de quatro portas passamos a trabalhar só com duas, então temos o dobro do tempo gasto em cada paragem, o que ao fim de umas quantas paragens já se torna um transtorno para alguns. Assim foi também na terça-feira quando cheguei ao Cais do Sodré com destino à Praça da Figueira.

Parado a aguardar a saída de todos os passageiros, sou chamado à atenção já do lado de fora da cabine e com um valente murro no vidro, por um senhor que exaltado dizia já ter perdido o barco por minha culpa. Acredite que fiquei a olhar para o senhor sem qualquer tipo de reacção, e nestas situações talvez seja mesmo o melhor a fazer. Pensava o senhor que eu demorava nas paragens por gosto. Ficou também provado que o stress continua a vencer tudo e todos e esse senhor não escapou.

Outra das situações com a qual já me deparei, foi com o facto dos passageiros pensarem que somos nós que fechamos as portas. Se estão a entrar no momento em que a porta se fecha e levam um encosto da dita cuja, então começam logo a gritar «estás parvo ou quê? Não vês que ainda estou a entrar?»

Fica então o esclarecimento para todos os que usam a carreira 15E. As portas são accionadas através de botões através do qual o guarda-freio, apenas autoriza ou impede, digamos assim, a utilização das mesmas. Quer isto dizer que são os passageiros que as abrem e são uns sensores infravermelhos que detectam movimentos que as fazem fechar. E quanto a "jeitinhos", o melhor mesmo é deixá-los para os tradicionais amarelos porque nestes, um jeitinho à porta, multiplica-se por quatro e afinal de contas no metro e Lisboa, também não pede jeitinhos, certo?

Boas viagens a bordo dos veículos da CCFL.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Pelas Colinas à procura do aparelho...

Depois da formação, o regresso ao contacto com o público, foi no "Circuito das Colinas" da Carristur, ainda antes da estreia na carreira 15E com articulados que acontecerá já esta terça-feira. Se o fim-de-semana foi calmo, mesmo com manifestação na Praça do Comércio, já hoje os eléctricos vermelhos pareciam estar a ser alvo de uma invasão alemã. Muitos foram os que depois do desembarque matinal do AIDA, se dirigiram à Praça do Comércio para descobrirem os recantos de Lisboa e seus monumentos com a ajuda do eléctrico que é ele também um símbolo da cidade.

Sempre agitados e alguns diria mesmo, desconfiados começam por se esforçar minimamente para falar inglês. Torna-se portanto por vezes difícil a comunicação com estes senhores e senhoras, altos e bem constituídos de cabelos normalmente alourados ou grisalhos. E se há situações em que parece que acabamos de estabelecer um diálogo de mudos com recursos a gestos, há também aquelas situações em que explicamos em inglês, e nos dizem entender tudo, mas na verdade não estão a entender nada. 

É como dizer que o Castelo fica na segunda paragem e logo na primeira já tão a perguntar se é ali que têm de sair. Muitos ficam contentes por ter explicações em alemão, como é óbvio, mas o pior é quando nos chegam com um «voucher» e lhes explicamos que temos de ficar com o mesmo em troca de bilhetes. Tornam-se em segundos, mais desconfiados que os chineses quando vamos a uma loja e nos seguem a cada passo dado. Lá surge um promotor(a) que até fala alemão e lhes explica o procedimento, tornando-se na nossa salvação porque por instantes o guarda-freio parece estar à beira de levar um murro. 

Mas diálogos e «vouchers» à parte, pior ainda é quando para colocarem um auricular a fim de ouvirem o audioguia do circuito, perdem o aparelho auditivo. Ao que parece, ambos são incompatíveis e o senhor que esta tarde se transportou juntamente com os seus dez amigos, deu mesmo preferência ao audioguia, mas quando acabou a viagem já na Praça do Comercio, dei com o senhor e seus amigos a fazer uma vistoria pormenorizada ao interior do eléctrico. Tentávamos saber o que procuravam, mas havia o tal pormenor de nem inglês entenderem.

Alguns segundos depois lá se ouviu um «ahhhhhhh!». Tinham então encontrado o aparelho auditivo, o que me deixou intrigado com a seguinte questão. Será que ele não entendia mesmo inglês, ou era o facto de não ter o aparelho, que não o permitia ouvir o que lhe perguntava? Eis a questão. Já com o aparelho auditivo recolocado no lugar respectivo, lá seguiu satisfeito do eléctrico que lhe mostrou a zona mais antiga de Lisboa.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

RESERVADO: FORMAÇÃO


Por vezes dou comigo a pensar, no porquê da existência das bandeiras de destino dos autocarros e eléctricos em serviço regular de passageiros. Muitas são as vezes em que por lapso ou por distracção, alguns passageiros acabam por entrar numa carreira que na verdade nem era a que realmente pretendiam para chegar a determinado destino.

Mas se a razão “distracção” é uma boa justificação, outros há que entram num determinado autocarro e/ou eléctrico porque estão habituados a ver determinado tripulante por lá, ou porque simplesmente distinguem a carreira pelo modelo do carro habitual. O problema é quando o tripulante muda de carreira ou o autocarro habitual, é substituído por outro que raramente costuma andar em determinada carreira.

Ora por isso mesmo existem na frentes e no topo uma bandeira de destino, com o respectivo número da carreira e o destino final. Mas mesmo assim, esta não parece ser a solução para alguns. Os que não sabem ler, estão desculpados e por alguma razão, antes de entrarem perguntam qual a carreira e o destino. Aos invisuais, temos claro está, o cuidado de parar mesmo que não sejamos solicitados e informamos de que carreira se trata. Mas então qual é mesmo o problema dos que até vêem, sabem ler e insistem em querer entrar, mesmo que na bandeira de destino esteja “RESERVADO” ?!

A resposta pode estar repartida por vários factores, tais como pressa, a tal associação de um modelo de carro a uma carreira ou até mesmo, só porque sim! Na verdade é o que tem acontecido durante estas semanas de formação para a condução de eléctricos articulados. Depois dos estudos técnicos do eléctrico, fomos para a rua, nomeadamente para a carreira 15E que circula entre a Praça da Figueira e Algés. E para além da inscrição “RESERVADO”, junto ao vidro frontal está uma placa branca com a inscrição a preto “FORMAÇÃO”.

Nem uma nem outra parecem ajudar, porque ao aproximar o eléctrico das paragens, os braços levantam-se solicitando paragem, os passes começam a «ganhar vida» saindo dos bolsos e os passageiros que estão sentados na paragem levantam-se. Atempadamente ainda dizemos gestualmente que não serve, mas mesmo assim, muitos são os dedos que ganham força para pressionar os botões das portas. Ultimo recurso: Utilizar o microfone e através do sistema de comunicação com o exterior do veículo, informamos que o eléctrico encontra-se reservado.

E se muitos aceitam e até agradecem, outros há que ficam ainda mais furiosos e movimentam os braços num acto de revolta e desespero. Será que custa entender um pouco que para se conduzir um eléctrico, tem de se aprender?. Ou seja, que tem de haver uma formação e que essa formação, neste caso só é possível com um carro igual ao que habitualmente os transporta...

E assim tem sido as últimas semanas com estes diálogos entre formandos (tripulantes) e passageiros, quer seja de forma gestual, visual ou até verbal.

[n.d.r.]: Foto gentilmente cedida por Rogério Dias

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