Último dia antes das férias é sempre uma eternidade para se chegar à hora de saída e até lá tenham de surgir situações que fizeram com que me apetece gritar pela janela «salvem-me!!!»
Na primeira viagem com destino ao Martim Moniz, sou abordado por um passageiro daqueles que deixa as saudações em casa... «...Até pensei que estavam em greve! Houve algum acidente?», não lhe respondi de imediato porque julguei não ser comigo a conversa, até porque com ele entraram mais pessoas.
«Está a ouvir-me?», pergunta-me já num tom mais baixo... Digo-lhe que sim, mas que pensei não ser comigo, uma vez que quando entrou não deu os bons dias. Mas nesta viagem havia de aparecer ainda uma outra senhora, talvez pouco habituada a andar de eléctrico a reclamar com os solavancos da viagem.
De forma educada, vestida e arranjada fazendo lembrar Lili Caneças, diz-me «desculpe meter-me no seu trabalho, mas não acha que vai com muita velocidade? Com tantos solavancos... Eu não conduzo eléctricos, mas é que nem lugares há para me sentar...», percebi de imediato que era uma tentativa de arranjar lugar sem ter de o pedir, ou então queria chatear o guarda-freio porque ao que parece, hoje o seu motorista não a pôde levar...
Ouço-a atentamente e digo-lhe “que tomarei em conta o seu reparo, embora esteja a viajar à velocidade adequada ao percurso e às condições da via, mas que iria atender de imediato o seu pedido”, tendo abrandado a marcha para desespero dos restantes passageiros que só não a comeram viva, para não estragar o arranjo...
Mas de facto quando pensava que naquela viagem estava a salvo de passageiros que, talvez pelo vento matinal tenham acordado mais mal humorados, lá tinha de chegar ao terminal, anunciar o fim da viagem e olhar pelo espelho e ver a maioria a levantar-se para abandonar o eléctrico, ao mesmo tempo que os que tinham viajado de pé, se sentavam nos lugares que iam vagando, alegres e com sorriso de orelha a orelha por terem conseguido um lugar. Na verdade só eles pareciam estar bem perante os outros que tinham saído.
Digo que têm de sair. Indignada uma espanhola, diz... «Non. Nosoutros vamos continuar...» Conto até 10 baixinho e digo, “vais continuar mas antes vais ter de sair e apanhar no inicio onde estão aquelas pessoas”. «Mas non entendo porquê tengo que salir...», remata.
Chegou depois na Estrela, a tão desejada pausa do almoço.
Mas a tarde não seria melhor que a manhã. Interrupções, gente que nunca mais acabava e alguém que me tinha de atribuir um novo nome à minha profissão. Parado no terminal do Martim Moniz, uma portuguesa emigrante num dos países cuja língua falada é o francês, dirige-se a mim e pergunta: «O senhorre é o electricista deste elécktrícu?», nem queria acreditar.
Olhei à volta para ver se havia alguma carrinha de vidros fumados com uma possível câmara para os apanhados, mas na verdade a senhora pensava que quem conduzia os eléctricos eram electricistas. «Sim, não é o senhorre que vai levar este eléctkrícu aos Prazeres?» , digo-lhe que sim, ao mesmo tempo que lhe informo que o nome da minha profissão era guarda-freio. «Guarda o quê?...» Os freios do eléctrico, ao mesmo tempo, que já pensava no curto circuito, que havia de ir naquela cabeça e eu sem nenhum electricista ali por perto.
Tirando tudo isto, o que importa dizer é que já é oficial: ás 19h35 entrei de férias. O regresso está apenas marcado para 15 de Agosto. Até lá... Boas viagens a bordo dos veículos da CCFL.









