Imagens dos poucos veículos da CCFL que circularam em dia de Greve Geral
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
sábado, 20 de novembro de 2010
«Yes, we can!» da 18E à 28E
Muito se tem falado na cimeira da NATO. Por dois dias deixou-se de falar em orçamentos de estado, cortes nos salários e as atenções centraram-se para Obama e restante comitiva. Nos transportes públicos não foi diferente. Os cortes e alterações de percursos devido à cimeira que decorreu em Lisboa, provocaram uma crise de nervos em alguns lisboetas. Na sexta-feira foi concedida pelo Governo, a tolerância de ponto e o certo é que o serviço na 25E até poderia ter sido como uma bela tarde de verão, como o próprio horário indicava, mas a chuva a obrigar uma marcha mais reduzida e as constantes passagens do Sr. Obama entre Belém e São Bento, causaram atrasos e desabafos.
«Estamos entregues à bicharada», desabafava a senhora que dizia nunca mais chegar a casa. Sentado no lado oposto, um outro passageiro tentava apaziguar a situação dizendo que «estamos nas mãos nos americanos. Já que nem nós mandamos no nosso país eles que venham para cá mandar...» E num instante via-me como se estivesse, sentado em frente ao televisor a assistir a um debate político entre a esquerda e a direita, dado que a troca de palavras ia-se fazendo enquanto se esperava ordem para seguir marcha, rumo à Rua da Alfândega.
Lá passou o presidente dos Estados Unidos da América e sua comitiva pelo meio de milhares de polícias que me fizeram parecer estar a conduzir eléctricos num qualquer país em estado de guerra. Até o eléctrico mandavam parar para correr com os "penduras". Era tão bom que fosse sempre assim!
Entretanto o dia lá passou sem nada de anormal a acontecer. Já hoje, o dia começou cedo para mim. Não por vontade própria é certo, nem muito menos por escalamento, mas porque a expedição me pediu para fazer um bocado em aberto na carreira 18E. Como não pegava muito cedo (7h10) e como até há já algumas semanas que não ia para os lados da Ajuda, lá cedi uma vez mais.
Na realidade, passam semanas e meses, mas tudo continua igual. A agitação matinal de um sábado na Boa-Hora deixa qualquer um farto de ver sacos de plásticos, de tanta compra que é carregada pelos passageiros que deixam para o sábado as compras da semana, um hábito português que já não se consegue contrariar. Até ás 9h00 o serviço passa rápido, mas depois do sol dar um ar de sua graça, tudo sai à rua como se de uns portões abertos se tratasse, em que restassem apenas mais umas horas de liberdade.
Pelo meio cruzam-se vizinhos, familiares ou amigos todos com uma coisa em comum: vão de eléctrico às compras. Pelo meio lá se ouvem as "conversas de quintal". A dona Maria (toda a gente ficou a saber que se chamava Maria porque a outra passageira, a Rosa chamou-lhe constantemente pelo nome durante a viagem), diz para a "plateia" - entenda-se, restantes passageiros - que a maior alegria que poderia ter esta semana «era chegar perto do Obama e dizer-lhe: Sr. Presidente, gosto muito de si, é um grande homem, e parabéns por enfrentar todos aqueles americanos que desde a eleição o contestam...» Na verdade já ninguém parece ligar ao Sócrates, pois até cá está o Obama!Já da parte da tarde o meu serviço na 28E, que previa ser caótico dadas as manifestações aguardadas, desenrolou-se com alguns atrasos consequentes dos muitos turistas que andaram à margem da cimeira a visitar Lisboa e sempre com muita polícia de choque pelas ruas da baixa e hoje sim, senti que estava em Bagdad a conduzir eléctricos.
A cimeira já terminou, mas por terminar está ainda a minha semana, pelo que agora resta-me por hoje, descansar e recuperar energias para os próximos dias que se avizinham, mas depois de tudo isto até dá vontade de dizer «Yes, we can!»
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Sabes muito mas andas a pé!
"Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!" É o sinal sonoro que o validador emite, indicando que o título de transporte é inválido, mas como nem sempre o passageiro acredita na máquina, tenta novamente até ouvir de novo.... "Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!" Desta vez é um jovem que depois de fazer uma corrida para apanhar o eléctrico, se apercebe que o seu título de transporte tem saldo insuficiente. Estamos na paragem que se situa no final da Calçada do Combro e o rapaz com mochila às costas começa já a contar os passos que terá de dar para subir a pé a Calçada da Estrela.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
«Contas são contas!»
É 1h20 da madrugada e acabo de chegar a casa - cansado -, vindo de um serão da carreira 28E, e o que me apetece mesmo é estender as costas e preparar-me para mais um dia de trabalho que se aproxima. Contudo, hoje entrou-me um passageiro já a meio da noite que pela a sua atitude, me leva a estar ainda aqui a transcrever-vos no blogue.
Se por vezes são as coisas negativas que nos chamam mais a atenção e nos deixam a pensar, hoje é diferente. O frio caiu em grande na cidade de Lisboa e a noite foi portanto muito calma e com poucos turistas à procura do eléctrico 28E. Os poucos passageiros que fui apanhando entre o M.Moniz e os Prazeres estavam apenas de regresso a casa depois de mais um dia, mas outros limitavam-se a procurar um local mais acolhedor.
Na Rua da Conceição, entrou-me um senhor, com aspecto de ser mais um dos sem abrigo da cidade, num estado que não era propriamente o mais indicado para se transportar num transporte público, não só pelo cheiro como pelo asseio, mas não fui capaz de lhe negar o acesso. Ao contrário do que previa, disse-me «Boa noite!»... Pousou os sacos que trazia consigo junto ao lugar que havia escolhido e solicitou-me um bilhete.
Junto ao controller (equipamento à esquerda do guarda-freio, onde através da manivela se liga e corta a corrente, orientando a marcha do veículo), abre um embrulho de papel com algumas moedas que talvez tenha conseguido ao longo do dia e com algum custo. Aos poucos junta 1.45 €, enquanto a máquina imprime o bilhete. Entrego-lhe o bilhete e depois veio a parte que me faz ainda estar aqui a escrever este texto. Agradece-me e deixa 1 cêntimo em cima do controller e diz «ontem fiquei a dever 1 cêntimo, portanto aqui está!»
Surpreendido, digo-lhe que esqueça o cêntimo, até porque não tinha sido comigo que tinha ficado a dever o dito cêntimo, mas não tardou muito para me dizer que «não me interessa. Contas são contas e se ontem fiquei a dever 1 cêntimo, hoje quero dar-lhe o cêntimo». E com esta, provou-me uma vez mais que nem sempre é preciso estar bem vestido para se ser sério. A consciência e seriedade já está no instinto da pessoa.
Já na Rua dos Poiais de São Bento, pede-me para sair pela porta da frente e agradece uma vez mais toda a atenção que havia tido com ele. Agora já posso ir descansar, porque esta história vivida esta noite, tinha de fazer parte deste diário e deste «retrato» do dia-a-dia de um transporte público numa cidade como Lisboa.
Boas Viagens a bordo dos veículos da CCFL!
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
De bonde... para o Brasil
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| Clique na imagem para ler a entrevista |
«O que têm em comum, um guarda-freio e uma empregada de mesa numa cidade como Lisboa?» A pergunta poderia ser descabida, se não estivessem o "Diário do Tripulante" e o "Pssht...ó menina", enquadrados numa reportagem conjunta da revista brasileira, CartaCapital. Este blogue conta o dia-a-dia nos eléctricos de Lisboa, enquanto que o blogue de Vera Agostinho relata os acontecimentos diários que se vão vivendo entre as quatro paredes de um restaurante no Chiado.
Sob o título «Diários Virtuais de Lisboa», a entrevista realizada pela jornalista Simone Cunha e fotos de Vítor Sorano, dá a conhecer «uma garçonete e um condutor de bonde que registram na internet impressões sobre turistas» e não só.
Depois das entrevistas à TimeOut Lisboa, à revista LisboaCarris, ao RCP, ao Jornal de Notícias e das referências da Antena1 e do jornal Público, agora foi a vez da imprensa brasileira dar a conhecer ao outro lado do Atlântico o «Diário do Tripulante», o blogue que criei com o objectivo de dar a conhecer o dia-a-dia de uma profissão que muitas das vezes passa despercebida, mas que tem um papel fundamental na vida de uma cidade.
Na entrevista à Carta Capital, sabe-se portanto que os clientes espanhóis, são os que mais facilmente se identificam, quer seja no eléctrico ou na mesa do restaurante, e que em ambos os blogues há um q.b. de ironia. Em comum há também a área jornalística, dado que, «Ele [Rafael Santos] queria ser operador de Câmera e acabou em guarda-freio, em busca da estabilidade. Ela [Vera Agostinho] se formou como jornalista e não conseguiu emprego...», cita a revista.
A entrevista foi publicada na revista Carta Capital, edição número 620, de 4 de Novembro de 2010, a quem desde já renovo os meus agradecimentos pelo convite.
[n.d.r.: Digitalização, gentilmente cedida por Everaldo Ygor, leitor da revista e autor do blogue http://miniminimos.blogspot.com/ ]
domingo, 7 de novembro de 2010
O maior susto da minha vida!
Foi dos maiores sustos que apanhei em 27 anos de vida e tudo por causa da queda da folha! Nos três anos que andei ao volante dos autocarros da Carris apanhei alguns sustos nomeadamente, devido a alguns bairros por onde passavam certas carreiras que estavam afectas à minha estação.
Mas o que eu queria mesmo na Carris, era ser guarda-freio e quando me foi dada essa oportunidade, iniciei uma formação que encarei com garra e determinação, até porque estava apenas a um passo de atingir um dos objectivos. Os formadores prepararam-nos de imediato para os sustos que iríamos apanhar no decorrer da nossa profissão. Entre os quais, a irresponsabilidade dos outros utentes da via e nomeadamente as primeiras chuvas e a queda da folha.
Deram-nos a conhecer os pontos críticos da rede de eléctricos e até tivemos alguns dias de formação com chuva o que ajudou. Na verdade passaram já onze meses (parece que foi ontem) e só hoje apanhei um susto mesmo valente, e porquê? Precisamente: por causa da queda da folha.
E porque nem sempre são boas as histórias, creio que tenho também o direito de partilhar convosco alguns dos percalços pelos quais temos de passar. Decorria então a primeira parte do meu serviço, quando me dirigia para o Largo da Graça. A subida da Calçada de São Vicente, tornou-se um tormento e o que se costuma fazer em segundos levou mais de 10 minutos e muito graças à ajuda do Quitério, o colega que seguia no sentido oposto, e que mostrou uma vez mais o espírito de entreajuda que há entre os guarda-freios e que é digno de registo. (Obrigado pela ajuda Quitério!)
A folha caída das árvores circundantes era abundante e já tínhamos pela manhã alertado a Central de Comando de Tráfego, a fim de ser solicitada a limpeza da via. As vezes que já por lá tinha passado nas viagens anteriores, fizeram-me recuar no tempo e causaram-me saudades de ver pelas ruas os Limpa-vias, que eram uns senhores que andavam com umas pás sobre os carris a limpar os trilhos por onde andam as rodas dos eléctricos, e que tanta falta fazem.
Contudo a limpeza efectuada - ja a meio da manhã - meteu água ao barulho, como se diz na gíria e se já parecia manteiga pela quantidade de folhas caídas, então foi pior a emenda que o soneto e o resultado foi um eléctrico a escorregar pela calçada abaixo, para susto de uns e delírio de outros. Finalmente imobilizado e depois de algumas faíscas lançadas sobre os trilhos, as rodas lá se decidiram a parar de patinar e a galgar a areia que fomos colocando sobre a linha, mas com o cuidado de não isolar o carro.
E nestas situações que nos deixam bloqueados, mas que nos ajudam também a viver e a conviver com as situações, há também os "espertos" que dizem que tudo se resolve de forma simples, e lá surgiu um turista a querer reunir a malta toda, que assistia ao nosso trabalho na tentativa de fazer subir o eléctrico, para que ajudassem a empurrar o eléctrico, como se conseguissem empurrar cerca de 13 toneladas.
Resumindo, hoje apanhei um valente susto, e na 28E que como sabem é a minha carreira preferida. Foi um incidente que até era escusado caso as ruas da capital tivessem a adequada limpeza, nomeadamente nas zonas das árvores por esta altura, assim como se os carris estivessem sem folhas.
E pegando no slogan do anuncio da operadora de tv por cabo... «Se o guarda-freio podia não apanhar sustos? Poder, podia mas não era a mesma coisa!»
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
A palermice do lugar sentado
São por norma os últimos lugares sentados a serem ocupados, mas quando são necessários, já não estão vagos. Depois entre passageiros, gera-se uma troca de olhares, soltam-se comentários e por fim - em alguns casos - a inevitável discussão. De costas para a rua e de frente para frente os bancos vermelhos estão «reservados para passageiros inválidos, doentes ou idosos e senhoras grávidas ou crianças de colo», mas na ausência destes qualquer um se pode lá sentar.
O pior mesmo, é quando entra alguém no eléctrico já com o olhar fisgado naqueles primeiros quatro lugares, como que quem diz "qual destes é que se vai levantar para eu me sentar?!" Apelidados por muitos como o «banco dos palermas», sabe-se lá porquê, estes lugares são como a primeira fila do Cinema. E porquê? Porque há pessoas conscientes, outras nem tanto e há os que se julgam mais espertos que os outros.
Ora esta tarde em plena hora de ponta, na carreira 25E, assisti a uma discussão como há muito não via sobre esta temática. Uma senhora entrou e solicitou o lugar a um dos passageiros que estava sentado nesses referidos bancos revestidos de napa vermelha. «Desculpem, mas alguém tem de me ceder o lugar porque já não tenho idade para ir de pé». A forma talvez não tenha sido a mais correcta de o fazer, e foi o suficiente para um dos senhores responder de imediato. «Que idade é que a senhora tem? É que não sabia que isto agora era por idades...»
A troca de palavras ia aumentando enquanto os restantes passageiros iam entrando. Num instante já se falava em próteses no joelho e operações à coluna vertebral, tal e qual como se estivéssemos numa sala de espera de um qualquer posto médico do país. Passados alguns segundos lá chegaram a um consenso e pelo que me apercebi pelo espelho, um outro passageiro idoso limitou-se a trocar de lugar «para pôr ordem no galinheiro que já não vos posso ouvir com a conversa do lugar e da idade», dizia de forma convicta.
Posso dizer-vos que a troca de palavras entre a senhora e os restantes chegou a palavras menos bonitas que dispenso aqui transcrever, mas que me provaram que por vezes quem anda de vestido e sapato de salto alto, mais parece andar de chinelo na mão e avental pela rua fora, tal o nível a que conseguem descer por causa de um lugar.
Talvez por estas e outras discussões, alguém diga que este é o lugar dos palermas, até porque por vezes a palermice na discussão do lugar é tanta que o guarda-freio ou motorista tem de intervir. E neste campo, confesso que me irrita bastante por exemplo andar numa carreira movimentada como a 28E, estar o carro quase lotado, entrar alguém com uma criança ao colo e todos os que estão sentados, limitarem-se a olhar para fora da janela, como se estivessem completamente distraídos.
Ainda assim registo alguns comentários por vezes ouvidos nestas discussões e que são dignos de uma verdadeira palermice, se não vejamos...
«Só me sentei porque venho cansada de trabalhar...», ai é? Então e os outros? [...]«Desculpe mas o que não faltam aí é lugares, peça a outro», mesmo à lei do salve-se quem puder. É caso para dizer, "lugares há muitos seu palerma"!
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
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