segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Pergunta do dia...

E hoje a pergunta do dia vai para... «Ó pai como é que se pede o bilhete?», dita por um jovem na casa dos seus 25 / 27 anos. Ora se dúvidas há, o bilhete pede-se com a boca e não custa nada. É só dizer... "quero um bilhete s.f.f.".

E tudo isto depois de uma senhora estrangeira ter passado o seu cartão «viva viagem», na roda cinzenta da válvula do guarda-freio, que é nada mais, nada menos que o manípulo que temos à direita que serve para efectuar paragens, frenando o eléctrico através do sistema de ar.

Assim foi hoje na mítica carreira 28E... Amanhã há mais.

domingo, 29 de agosto de 2010

Um dia de trabalho na primeira pessoa...

"É Sábado, estou na Estrela e são 21h05, acabo de chegar da estação de Santo Amaro, depois de ter recolhido com um eléctrico na primeira parte do serviço. Tive uma hora para jantar e 25 minutos para me deslocar até à Estrela. Mas depois do dia quente, a noite parece ser bem fresca e ainda faltam 14 minutos para eu render. Sentado à porta do quiosque, vejo alguns casais a chegarem aos poucos. Dois a dois, cada um no seu carro. Devem ter combinado encontrarem-se ali ainda antes de escolherem o local onde iriam jantar. Um rapaz lembra-se que o jogo do Benfica está prestes a começar. Já nem eu me lembrava. Tenho já os braços gelados, mas já falta pouco para o eléctrico chegar...

Mas enquanto o eléctrico não chega, ligo o rádio para tirar as dúvidas sobre quem iria defender as redes «encarnadas» frente ao Vitória de Setúbal. Confirma-se, Roberto fica no banco, mas por pouco tempo. Ainda tive tempo de ouvir o primeiro golo do Benfica. O eléctrico surge finalmente da escuridão que cobre a Rua Domingos Sequeira. Desligo o rádio e dirijo-me para a paragem. As luzes do seu interior deixam um rasto pelas calhas enquanto os turistas tiram fotos à Basílica da Estrela. Lá vou eu para o Martim Moniz. Olho para a chapa do horário e vejo que afinal só tenho de fazer 3 viagens. Passa num instante!

Um senhor entra na Graça e diz-me que o «Roberto é o maior!». O Benfica venceu por 3-0 disse-me, deixando-me a pensar como um guarda-redes passa de besta a bestial... tão rápido quanto o tempo que demorei a chegar ás Escolas Gerais. O sinal está verde e os flashes começam a disparar quando o eléctrico roça os prédios de Alfama. Mais à frente, um táxi impede-me a passagem nas Portas do Sol.

Toco à campainha, mas ninguém aparece. Toco novamente e lá aparece o senhor do táxi saindo do café. São sempre os mesmos! Chateado por ouvir a campainha do eléctrico, aparece a reclamar. Diz que «já ouvi pá. Tas com pressa, passa por cima», e num instante, penso na reacção que o mesmo teria se eu tivesse aceite o seu convite. Bastava ligar a corrente e passar, mas... não era a mesma coisa.

No Chiado, muitos assistem aos truques dos mágicos que por estes dias têm trazido a magia ás ruas de Lisboa. Ouvem-se aplausos, mas no eléctrico a música é outra. Ouvem-se espanhóis, italianos, franceses, todos querem ir experimentar a noite do Bairro Alto, mas nenhum tem coragem de perguntar qual a paragem onde devem descer. Afinal havia um corajoso, mas quando perguntou pelo Bairro Alto, já o eléctrico subia a Calçada da Estrela.

A viagem termina e logo de seguida começa outra. É a minha última viagem do dia. E lá os trouxe de volta até ao Bairro Alto. Daqui ao Castelo o eléctrico para apenas duas vezes. E poucos são os turistas que andam pelas ruas até à Graça. Pelas janelas do casario vê-se gente atenta à novela da noite. E são as próprias janelas que vão dando um colorido diferente ao caminho até ao final da linha. Chego ao Martim Moniz, encho os pulmões e digo «Terminus.... Finish....»

Amanhã há mais!"

Boas Viagens!

domingo, 22 de agosto de 2010

A francesa que queria ser guarda-freio e bonés ao vento...

Continua a a enchente de verão nos eléctricos de Lisboa e se cada um deles fosse um restaurante, poder-se-ia dizer que era todos os dias casa cheia. De facto já pouco falta para se servirem refeições, porque ao que parece os turistas gostam cada vez mais de passar férias a tempo inteiro dentro dos eléctricos, pelo que talvez fosse um excelente negócio, servir refeições a bordo entre o Martim Moniz e os Prazeres.

Cada dia que passa, sinto que desempenho funções que nem todos no mundo se podem gabar. E reparem que não foi preciso ter estudado para médico, cozinheiro, advogado, engenheiro ou seja lá o que for. Na verdade estudei para seguir a vertente da comunicação social, escolhendo a imagem televisiva como futuro. Concretizei o sonho de ser operador de câmara e fiz jornalismo, mas quis o destino que me tornasse Guarda-Freio.

De facto, comunicação é o que não falta no meu dia de trabalho e garanto-vos que é da mais diversificada que pode haver, do português ao chinês, passando pelo italiano e não esquecendo o espanhol e o francês... Outra coisa que esta minha profissão tem de semelhante com a que, para a qual estudei é o movimento. Ora tanto estou nos Prazeres como, de repente, parece que cheguei à Índia com a ajuda do cheiro a caril no Martim Moniz.


Ingredientes à parte, posso então gabar-me de diariamente, e em conjunto com os meus colegas, satisfazer milhares de pessoas que vêem nos eléctricos um prazer único e inigualável. A palavra mais dita num dia é capaz de ser «Castelo», porque é onde todos querem ir, mas por vezes chegados à paragem do Castelo, poucos são os que conseguem resistir à tentação de continuar a viajar pelas ruas estreitas de Alfama no eléctrico.

Entre os sorrisos abertos, lá aparece alguém mais interessado em perceber como funciona o eléctrico. É francesa e aos poucos lá tenta meter conversa até que consegue mesmo. Confesso que não me importei nada, tal a simpatia e beleza da jovem que ficou surpreendida por eu falar francês. Lá lhe fui respondendo às perguntas e encantada com o funcionamento do «tramway», lá me disse que se vivesse em Lisboa era uma profissão que gostaria de ter...

Num instante chegámos à Rua da Conceição... «Au Revoir monsieur, merci pour votre sympathie et explications...», dizia a rapariga ao mesmo tempo que abandonava o eléctrico, não sem antes tirar uma foto junto ao eléctrico, para mais tarde recordar.


«Mas afinal quantas fotos tiram ao eléctrico por dia?», pergunta-me logo de seguida um senhor que aparenta ter acabado de chegar com a sua família do norte do país. - Milhares, disse-lhe. Se o Papa aparece "uma vez por semana na janela do Vaticano e vê-se milhares de flashes a serem disparados, imagine então nós que andamos todos os dias à janela" durante 8 horas aproximadamente... «são portanto, mais fotografados que o Papa!», ironizava o senhor.

Aos poucos o dia ia dando lugar à noite, mas o eléctrico continua com «casa cheia» e resta um espaço no lado esquerdo do guarda-freio. Já na casa dos 50, um senhor, pergunta-me se pode ali ficar até ao seu destino. Brasileiro a passar férias em Lisboa, dizia-se «maravilhado com a beleza da cidade e com os bondes, que de forma impressionante passam junto das casinhas»...

Com o calor que se fazia sentir no interior do eléctrico, muito graças ao facto de viajar rumo à Estrela bem ao jeito de sardinhas em lata, lá me disse a certa altura que ali naquele lugar é que «se está bem. É bom de mais sentir esse fresquinho.» mas nem um minuto passava e já estava a procurar outro lugar, porque o vento fez-lhe saltar o boné da cabeça, fazendo até lembrar a célebre frase de Vasco Santana nos anos 40... "porque chapéus há muitos!"


Fotos: Rafael Santos /
Alessandro Garofalo -Reuters

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Diário do Tripulante - Versão 3.0

Bem-vindos à versão 3.0 do Diário do Tripulante. Depois do amarelo que acompanhou as suas leituras desde o primeiro dia, em que este blogue começou a relatar as aventuras de quem por dia transporta milhares de pessoas, eis que a simplicidade do cinza vem dar uma nova imagem ao blogue que há uns meses atrás passou também a mostrar-lhe o dia-a-dia nos eléctricos de Lisboa, depois de ter estado cerca de dois anos ligado aos autocarros.

Com o objectivo de facilitar a leitura e a viagem pelas histórias e sugestões que já fazem parte deste espaço que também é seu, decidi destacar os textos sobre um fundo branco tal como acontece nos livros, facilitando assim a leitura até porque se trata de uma leitura, não em papel mas através de um monitor. As imagens estão agora inseridas numa caixa, porque também elas destacam e ajudam a relatar muitas das histórias vividas no dia-a-dia desta minha profissão de Guarda-Freio.

Inspirado no cinza do tejadilho dos eléctricos ou no prateado dos carris que rasgam o preto do alcatrão, espero que esta mudança de visual seja do agrado de todos os leitores que continuam a seguir este blogue e a fazer com que eu continue atento ao que me rodeia durante as 40 horas semanais, que em média passo a transportar pessoas de todas as idades, de todos os géneros, classes sociais mas onde todas são tratadas de igual forma, como clientes, ou se preferir, como ... passageiros.



Boas viagens e Boas Leituras!

Andamos a pensar no ambiente

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Milhares em busca do tranvia 28 num Agosto que muitos dizem ser calmo...

Agosto em Lisboa é calmo por um lado mas é o caos por outro. Se muitos vão de férias, outros há, que vêm de férias para Lisboa e se a todos estes que escolhem a capital como destino de férias, nem que seja para seguir o conselho de sua excelência, o senhor Presidente da República para passarem férias cá dentro, juntar-mos os dois paquetes Aida que hoje atracaram em Lisboa, então a confusão instala-se mesmo com turistas em busca do tranvia 28.

O resultado é o que se vê na imagem, tirada esta tarde no Terminal do Martim Moniz, minutos depois de eu ter terminado mais uma viagem e de ter "ganho coragem" para iniciar outra com o eléctrico cheio até à porta. Hoje nem que tivessem 40 eléctricos na carreira 28E, chegariam para responder à procura daqueles que chegados aos Prazeres, mostravam-se desalentados por ter terminado uma viagem que de certeza nunca mais irão esquecer na vida, porque como um dizia hoje, «é impressionante a força que o eléctrico tem para subir estas colinas carregados de gente a toda a hora...»

Só mesmo o facto do terminal estar logo ali ao lado e o eléctrico iniciar de imediato outra viagem, os fez ter de novo o sorriso e entusiasmo estampado no rosto, contrastando assim com os rostos mais descontentes de quem habitualmente utiliza o eléctrico para se transportar e que nestes dias se vê quase impossibilitado de entrar.

Assim foi o último dia da semana... Uma semana que nunca mais tinha fim, mas que culminou com a minha estreia, ainda antes de pegar ao serviço, a fazer um aluguer com um grupo de alemães e que terminou com uma jovem que quis finalmente cumprir o que há muito andava a prometer a si própria... Fazer a carreira 28E de uma ponta à outra. No final, despediu-se com um sorriso e dizendo «que espectáculo!»

Agora vou gozar as folgas e recuperar forças porque creio que a próxima semana vai ser igual no que a turistas diz respeito.

Boas ferias se for o caso e boas viagens a bordo dos veículos CCFL.

sábado, 14 de agosto de 2010

O poliglota da 28E

Quando falamos de Paris, lembramos-nos da Torre Eiffel. Se a conversa Chegar a Praga, recordamos a passagem na Ponte Carlos, ou se der-mos um pulo a Barcelona queremos andar nas Ramblas. E ir a Roma e não ver o Papa é a mesma coisa que vir a Lisboa e não andar de eléctrico. Tudo isto são cartões de visita das diversas cidades, são memórias, lembranças, são locais e até pessoas que nos ficam na retina.

Ora agora que tenho andado todos os dias na 28E, chego também à conclusão que no Universo do modo eléctrico da Carris também há pessoas que associamos de imediato à carreira. São daquelas pessoas que têm lugar cativo todos os dias na carreira, e que até um supra
(tripulante que corre todos os serviços de escala), consegue memorizar.

Há a já aqui abordada "D.Odete" da 25E que nos trata a todos como amigo/a. Há a senhora da Ajuda que todos os dias pergunta o mesmo e sempre na mesma viagem... «Falta muito para sair, chefe?»


Depois há também a carreira 12E que é a sala de convívio de muitos idosos que lá passam os seus dias e depois temos a 28E que no meio de tanto turista lá se consegue igualmente destacar uns passageiros habituais desde o homem do casaco cor-de-rosa ao poliglota. Em todos os casos, existe um tanto ou quanto de cromo, no bom sentido da palavra como é óbvio. Pois não é objectivo deste blog, provocar ninguém, até porque também eu tenho a minha parte croma como todos nós temos.

Mas depois de terem passado mais de duas semanas de serviço na carreira 28E, creio que é altura para aqui vos falar daquele que considero o maior "cromo" da 28. E a minha escolha vai sem dúvida alguma para o poliglota.


Sempre com um livro na mão, o senhor na casa dos 70 anos, com óculos de massa pretos e com graduação elevada, não perde oportunidade para treinar as diversas línguas que fala. Não consegui ainda entender se o seu sonho era ser guia turístico, mas o que é certo é que, se ele entra pela porta do eléctrico, já sei que escuso de gritar «castelo, castle, chateau, castillo...», mas o que sei também, mal o vejo entrar pela porta do eléctrico é que vou ficar a saber, mesmo que não queira, qual a origem do turista que entusiasmadamente tira fotos com a namorada na janela do eléctrico, tal o à vontade com que se mete com os turistas.

«Speak english? Speak French?» Na maioria das vezes acerta à primeira e daí até saber de onde vieram, quantos dias cá estão e o que já viram, é um instante. Hoje por exemplo foi desde a Estrela até à R.Conceição a falar com uma jovem emigrante portuguesa que está a viver na Suíça, mas que tem origens em Évora e que está cá em Lisboa a passar férias. Pior foi mesmo quando a rapariga lhe disse que estava a preparar um trabalho sobre Fernando Pessoa.

O poliglota contou-lhe logo a história toda, desde o Martinho da Arcada à Brasileira, no Chiado e indignada a jovem perguntou-lhe: «mas como é que o senhor sabe isso tudo?» E lá lhe respondeu o senhor: «Fui estudando ao longo da vida e também sei falar japonês...», dizia ao mesmo tempo que se punha a falar com as turistas Japonesas que tinham acabado de entrar no Camões.

Até ao Martim Moniz, ainda falou italiano, espanhol e alemão que segundo ele é o que mais gosta de falar... Será esta a distracção do senhor? Ou será que gosta mesmo de conviver com outros povos e dar-lhes a conhecer o que a nossa cidade tem de bonito, como faz questão de dizer.... O certo é que sempre que ele entra, as viagens são mais animadas, tendo em conta a alegria que se estampa nos rostos dos turistas que ficam encantados por ver o idoso a falar com o seu à vontade característico, que o torna no meu ver, no maior cromo da carreira 28E.

Imagem retirada do blog: http://cronicadumbloguotico.blogspot.com/

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Uma diferente forma de fazer turismo...

Da Sé ao Castelo são apenas duas as paragens, mas nem isso faz com que se deixe de pagar 1.45 para fazer esse percurso de eléctrico. O que importa para quem visita Lisboa, é andar de eléctrico, nem que tenham de pagar 11 bilhetes para fazer apenas uma paragem. Este ano Lisboa parece ter visto o número de visitantes aumentar, a constatar pelo estado em que andam os eléctricos desde que o sol aparece até à noite.

Colina acima, colina abaixo, italianos, franceses, chineses, alemães, espanhóis e até muitos emigrantes, passam os seus dias de férias a bordo das casinhas andantes. Uns mais experientes que outros, estão já habituados a trazer a quantia exacta para evitar perdas de tempo. Mas outros há que se julgam mais espertos e entram no eléctrico como que se tudo fosse uma oferta da cidade.

Um casal de espanhóis, entra na Rua da Conceição com destino ao Martim Moniz. A senhora pergunta pelos bilhetes ao marido e este responde para ir caminhando para a frente. Ela segue as suas indicações, talvez confiante de que o marido ia prontificar-se a pagar os bilhetes, mas é necessário o guarda-freio, questionar o tamanho da esperteza.

"Desculpe... Título de transporte, tem?", e num instante, vê-se o dito senhor chegar-se à frente do eléctrico e pedir dois bilhetes. Outros há que entram compram um bilhete e quando têm de sair no terminal, ficam revoltados e até desconfiados do guarda-freio por ter de comprar novo bilhete para o regresso.

Passam horas e até dias nisto, numa correria constante. São até capazes de estar numa paragem com destino aos Prazeres, mas se o eléctrico para o Martim Moniz chega primeiro no outro lado da rua, então é vê-los correr desalmadamente ao estilo de um Obikwelu. Entram suados, cansados e com mochilas, carrinhos de bebé, mapas e uma série de coisas que me deixam a pensar se estão realmente de férias.

É sem dúvida uma maneira diferente de fazer turismo, daqueles que por vezes até perguntam onde é a Sé, apenas para a fotografar da janela do eléctrico ou registar no cartão de memória da máquina a entrada do café «A Brasileira», porque o que eles querem mesmo é andar de eléctrico, tranvia, strassenbahn, tramway e de preferência no 28...

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