«Uauuuu! C'est Fantastic!», diz um francês mal acaba de sair nos Prazeres depois de mais uma viagem na carreira 28E. Não resiste a esperar pelo próximo, até porque o que ele queria mesmo era andar de eléctrico. Dos Prazeres ao Martim Moniz, o eléctrico vai carregado de gente. Os portugueses já estão em minoria porque o relógio diz que está na hora da janta, e no interior a maioria fala francês. Dois casais espanhóis esgotam quase o cartão de memória da máquina fotográfica. Os italianos ficam espantados com o percurso do eléctrico que parece rasgar as ruelas de Alfama.Em S.Tomé uma espanhola que tinha saído no Largo das Portas do Sol, surge na frente do eléctrico aflita, pedindo que lhe abrisse a porta. «Roubaram-me o telemóvel aí dentro», dizia! Corajosa, entrou e revistou um passageiro do qual ela duvidava, mas ao que parece o telemóvel já tinha sido roubado ainda antes de entrar no eléctrico. Desgastada com o roubo, lá me agradeceu, deixando de novo o eléctrico.
Todos os olhares passaram a recair sobre aquele passageiro, e os comentários inevitáveis. «Isto mói-me cá dentro que nem imagina», desabafa a senhora que aproveita o vento que entra pela janela da frente para se refrescar. E num instante parece que chegámos ao Brasil, com as duas passageiras que queriam ir para a Almirante Reis e apanharam no sentido oposto o 28E.
«Moço, esse bondinho não vai p'ra Almirante Reis?», ao que lhe respondi que "vai sim. Depois eu aviso!", mas como sempre, os turistas brasileiros teimam, em fazer-se difíceis de entender, em quererem ser mais espertos que tudo e todos e quando chegam ao Largo da Graça, tocam e quando vão para sair, voltam a perguntar ao moço (mas qual moço qual quê? Já andámos juntos na escola alguma vez? - é o que me apetece logo perguntar...) «é aqui não é!», e logo lhes perguntei, se já lhes tinha dito que era ali a Almirante Reis. «Ah você nos avisa, né? Brigada moço!»
A noite substitui o dia, mas o eléctrico continua cheio, bem ao estilo de uma lata de sardinhas. Um italiano pergunta até que horas funciona o eléctrico, dando a entender que ali quer andar até acabar, colina acima, colina abaixo. Uma diferente forma de fazer turismo. E se o trolley salta, então até parece que ganham o dia, só por ver o guarda-freio sair e voltar a colocar a roldana em contacto com o cabo da rede aérea. Uma aproximação a um carro mal estacionado, deixa-os na expectativa. Passa, não passa?... Desta vez passa por centímetros e dá direito a salva de palmas, tal como aquela moda que já parece ter passado, de se bater palmas na aterragem dos aviões.
Coisas banais que acontecem todos os dias na 28E, mas que para estes turistas, são mesmo algo de um outro Mundo. É por estas e por outras razões que, esta é para mim a melhor carreira do universo Carris, porque aqui todos os dias são realmente diferentes!






