sábado, 10 de abril de 2010

O «abrir da loja» na 25E e o fechar da semana na 18E...

Depois de ter estado grande parte da semana a «abrir a loja» na 25E, com um serviço de madrugada, com o primeiro eléctrico da carreira a sair ás 6h30 da R. Alfândega, acabei a semana na carreira 18E, e da parte da tarde, que é a altura em que mais gosto de trabalhar, já com o sol a dar sinais de um Verão que se aproxima.

As manhãs mostraram a rotina habitual dos lisboetas. Apressados em chegar ao trabalho ou à escola, mas sempre com a certeza que a viagem não ia ser feita sem interrupções, nem que fossem causadas apenas pelas cargas e descargas que ocorrem a qualquer hora na Rua de São Paulo. Há quem tente esquecer o tempo perdido a ler as notícias frescas que trazem os jornais, mas outros há que não deixam se soltar um desabafo em jeito de reprovação para o que diariamente assistem.


Na segunda-feira uma senhora pergunta-me na paragem de Santos se o eléctrico ali passaria sempre à mesma hora. Digo-lhe que "se tudo correr bem, sim. Mais minuto menos minuto, por volta das 6h40 costuma cruzar este largo...", agradece-me a informação, mas não sem antes dizer que espera que não haja adiantamentos. Talvez queira aproveitar o tempo ao máximo logo ao começar o dia.

No dia seguinte lá está na paragem e à mesma hora. Reconheço-a de imediato, porque a minha memória visual ainda está apurada. Na paragem seguinte também a passageira que na véspera tal como nessa manhã trazia consigo o bebé ao colo, que parece ainda não estar habituado ao ranger das calhas a cada curva do eléctrico.


Num instante subimos a colina e com o carro quase cheio chegamos à Estrela. Ali saem grande parte dos passageiros. Mas pela porta da entrada entram dois idosos que aproveitam a boleia do 25E para irem tomar o pequeno almoço ao Canas.

Ao terceiro dia de 25E a primeira interrupção. Na Rua de São Domingos, um camião carrega uma grua para uma obra nas ruas vizinhas. Mas um carro mal estacionado impossibilita-o de entrar nessas ruas. Sem qualquer tipo de policiamento, descarregam ali mesmo a grua, para descontentamento dos passageiros que tinham horas certas para entrarem ao serviço. À minha frente está o eléctrico do turismo, repleto de turistas que se levantam para registar o momento, também eles incrédulos com o que se faz por cá.

O que parecia ser rápido demora mais de 20 minutos, o suficiente para atrasar a carreira e a vida de muita gente. Depois de feitos os trabalhos, os carris ficam de novo livres e lá prosseguimos a descida com o Tejo ao fundo a fazer esquecer tempo perdido. A chegada ao Corpo Santo trás novas paragens e desabafos de quem está saturado daquele caos matinal que se repete ao fim da tarde. «Isto cada vez está pior! Não há quem meta mão nisto e o zé povinho é que paga», diz uma senhora.

A semana termina então na carreira 18E. Diferentes caminhos, pessoas diferentes. Para a Ajuda transporta-se quem vai trabalhar ou estudar e no sentido inverso o eléctrico é a ajuda para vencer a descida inclinada até ao Mercado. As manhãs são rotineiras. As caras são as mesmas todos os dias, os gestos repetem-se a cada viagem. A eleição de Lisboa como melhor destino de férias para 2010, parece já colher frutos e embora o verão ainda não tenha chegado, o certo é que Lisboa já está repleta de turistas.

No Cais do Sodré, e com um português "arranhado" dizem-me... «querro dôs bilhetes parra Ajuda Palace , porre favorre», são dois euros e oitenta! Sentam-se contentes e com o mapa de Lisboa na mão. Atrás um senhor que se esqueceu do passe em casa, pede-me «um bilhete para quem não se devia ter esquecido do passe, se faz favor...» , Um euro e quarenta cêntimos é o custo do esquecimento. E em jeito de brincadeira ao entregar-lhe o bilhete ainda me pergunta se não acho «caro 1,40€ por um pedaço tão pequeno de papel que já não tem o encanto dos bilhetes de outros tempos?»

A paragem esvazia-se à medida que o eléctrico enche e passado algum tempo lá prosseguimos viagem rasgando o horizonte da avenida 24 de Julho que apenas nos deixa ver o eléctrico da carreira 15E que já dobra a curva de Santos. Subimos a colina para gáudio dos turistas que ficam impressionados com a força do eléctrico a vencer as inclinações acentuadas da cidade.

É finalmente sexta-feira. O serviço é de tarde e que tarde... Parece Verão autêntico. Os decotes assim anunciam. A brasa visível junto ao alcatrão comprova. A Praça do Comércio ainda em obras já permite que se veja o rio através das janelas do eléctrico. E do lado oposto, mal se vê a calçada da Rua Augusta que mais parece um formigueiro. O silêncio à porta do cemitério da Ajuda deixa-nos ouvir o rádio da florista que se prepara para fechar o quiosque. São quase 16h30 e o cemitério fecha também as suas portas.

Do terminal parte apenas um passageiro que me diz, «vou dar uma volta para me distrair...» E só mesmo a confusão do trânsito numa sexta-feira em Lisboa, me faz chegar atrasado à R. Alfândega. Aos poucos os carros lá vão fluindo pelo Cais do Sodré e pouco depois estou de novo na Ajuda. Aproveito o tempo disponível até ao início de uma nova descida para beber um café e aconchegar o estômago. No regresso lá está à volta do eléctrico uma senhora que habitualmente segue naquela viagem. Faz sempre as mesmas perguntas, mesmo que todos os dias utilize aquele eléctrico e naquela hora.

«Ó senhor motorista este eléctrico abala a que horas?»... "ás 19h29 minha senhora!", «puxa ainda faltam 6 minutos», espanta-se, como se fosse a primeira vez que soubesse que aquele só dali partia ás 19h29. Pergunta se pode entrar, e digo-lhe que sim. Senta-se sempre no primeiro lugar à esquerda. A paragem onde desce é a primeira da Rua da Bica do Marquês e até lá faz sempre a mesma conversa. «Era para apanhar o 60, mas dá uma volta muito grande. Mas também espero tanto pelo eléctrico que é quase igual. Lá vai outro para cima está a ver?...» Despede-se sempre com o até logo, na esperança de me apanhar no regresso. Mas o regresso é já tardio. Segue-se depois a recolha a Santo Amaro já com o Sol posto e o desejo de que o bom tempo que esteve toda a semana se repita agora também no fim-de-semana.

Foi assim a minha semana e que termina também com uma notícia vinda dos Estados Unidos, através do site menosumcarro.pt que nos dá a conhecer que o eléctrico 28E,
foi um dos sítios escolhidos pelo reality show “The Bachelorette”, transmitido por uma das maiores cadeias de televisão norte-americanas, a ABC, para gravar um dos seus próximos episódios. A notícia pode ser lida na íntegra no site menosumcarro.pt

terça-feira, 6 de abril de 2010

«O que mudava em Lisboa?» no Público

Desde que este blogue entrou na blogosfera, tenho dado a conhecer um pouco do que é a profissão de um motorista (numa primeira fase) e mais recentemente a de Guarda-Freio, numa cidade como Lisboa. Muitas foram também as sugestões culturais e turísticas aqui referidas, não a pedido de ninguém, mas apenas porque gosto de Lisboa e porque quero mostrar que há muito para se ver numa cidade cujos próprios habitantes ainda vão desconhecendo, mesmo sem recebendo nada em troca.

Para quê uma tarde de domingo num centro comercial quando há jardins,
museus e espaços públicos bem mais agradáveis do que estar fechado num edifício? Para quê andar a perder tempo com a procura de um lugar para estacionar quando temos uma vasta rede de transportes públicos? É precisamente para responder a algumas destas questões que aqui têm aparecido algumas sugestões.

Mas na semana passada foi-me lançado um desafio, por parte do jornal Público que através do blogue, reparou que o meu gosto por Lisboa e a função que desempenho nos transportes da cidade, poderia ser o ponto de partida para escrever um texto respondendo a uma simples pergunta... «O que mudava em Lisboa?», inserida no suplemento Cidades, que é publicado aos Domingos no jornal Público.

Longe de querer alguma vez candidatar-me à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, o certo é que lá aceitei o desafio e disse de minha justiça. Disse o que pensei no momento e "mostrei" a Lisboa onde gostaria ainda mais de viver. Mais eléctricos, uma Lisboa mais limpa e reabitada, um trânsito mais ordeiro e o Tejo foram alguns dos pontos que foquei, num texto, onde no fundo digo o que mudava na cidade de Lisboa.

O texto foi publicado no passado Domingo, no jornal Público a quem desde já agradeço uma vez mais pelo convite feito.

"Lisboa tem sofrido muitas alterações nos últimos tempos, mas quem vive nesta cidade, sabe que muito mais há para mudar. Longe vão os tempos em que a capital tinha outro encanto. Recentemente premiada, como sendo «o melhor destino de férias de 2010», Lisboa necessita sobretudo de acompanhar as grandes cidades europeias.
Uma das grandes mudanças na cidade seria a aposta numa recuperação da rede de eléctricos da cidade, que só poderia avançar depois de se criarem condições à circulação daqueles que durante décadas marcaram ritmo na vida dos lisboetas.
Os eléctricos viriam devolver à cidade um encanto de outros tempos, aliado ao turismo da cidade que ficaria também mais rico, com um transporte que além de cómodo, é amigo do ambiente, ajudando assim a tornar Lisboa mais sustentável.
Outra das grandes mudanças seria a limpeza das ruas, edifícios e recuperação de habitações abandonadas e degradadas no centro da cidade, que por vezes até nos faz esquecer a riqueza e monumentos que a cidade ainda preserva, como tenho vindo a mostrar no blogue diariodotripulante.blogspot.com e claro está, com recurso aos transportes públicos, porque de carros está Lisboa saturada.
O trânsito era vedado em algumas zonas e condicionado a moradores noutras. Mas muito mais poderia dizer de uma cidade que até tem um rio que também é esquecido. Porque não a criação de circuitos turísticos no Tejo? A aposta na animação e na cultura seria algo também a apostar numa cidade que ainda não aproveita verdadeiro valor que tem."




sexta-feira, 2 de abril de 2010

Boa Páscoa!


A todos os leitores do blog "diariodotripulante.blogspot.com" , colegas guarda-freios, motoristas, colegas da manutenção, expedição e amigos, os votos de uma santa e feliz Páscoa!

quarta-feira, 31 de março de 2010

A manual: Se fosse Segunda ou Quinta...

...Era caso para se dizer: «anda à roda!», tal como a Lotaria. Prestes a acabar a 5ª. semana de trabalho nos eléctricos, depois da minha passagem pelos autocarros, lá tinha de surgir a primeira avaria que me fez recolher com o eléctrico a manual. Valeu a experiência feita durante a formação, que foi suficiente para aplicar em prática os procedimentos a ter nestes casos em que o freio manual (ver foto em baixo) passa a ser o recurso único e principal para travar o eléctrico, e para ajudar a aumentar os biceps do guarda-freio e sem recurso ao ginásio.

Para os muitos espanhóis que invadiram Lisboa em vésperas de Páscoa, ver o guarda-freio em pé a dar à roda, ou "à carica" como um colega chegou a apelidar na formação, é sempre motivo para rir e fotografar, até porque eléctricos como os nossos não há em lado nenhum. Para muitos deles a viagem durou apenas uma paragem entre o terminal dos Prazeres e
a Igreja de Santo Condestável, de onde levei o carro «reservado» e a manual até à estação de Santo Amaro, onde tinha já um eléctrico pronto para que não se perdesse mais tempo.

Hoje senti realmente a adrenalina de segurar uma "casinha andante" perante as pessoas que embora vejam algo diferente no eléctrico metem-se de propósito à frente do eléctrico, quase como que pensassem: "deixa lá por este a dar ao braço..." Afinal os carros são como as pessoas. Para avariarem, basta estarem bons!

Avaria à parte, o dia até foi bem diferente do habitual. A carreira 25E já se consegue fazer sem atrasos, mas para tal também convém dizer que não apanhei nenhuma interrupção na Rua de São Paulo, coisa rara nos tempos que correm. Os bancos repletos de turistas obrigam gente a ir de pé chegando mesmo o eléctrico a subir a Lapa tipo "sardinha em lata". Afinal o que os turistas querem é eléctricos, nem que tenham de chegar ao terminal, saírem e voltarem a entrar. A cada curva uma risada, uma foto, um comentário e uma experiência que certamente vão contar no regresso a casa.

Na Rua da Alfândega, um senhor aproxima-se do eléctrico e consigo trazia o seu filho ao qual lhe daria uns 5 ou 6 anos. A criança via pela primeira vez um eléctrico quando tinha passado pela Praça do Comércio e o pai fez-lhe então o favor de parar o carro em frente à Casa dos Bicos e esperar que chegasse um eléctrico. Foi então que depois de me ter contado a história, me pede autorização para tirar uma foto ao rapaz na entrada do eléctrico.

Alegre, o rapaz sobe o estribo do eléctrico 574 e encosta-se à porta, mas como a criança gostou mesmo do eléctrico, até teve direito a uma foto sentado na cadeira do guarda-freio, com a minha ajuda. E retribuiu com um sorriso de orelha a orelha e a prova de que um simples gesto vale muita coisa. Aos pulos lá foi ele de mão dada com o pai para o carro, mas sempre com um olhar de esguelha para o eléctrico e dizendo-me adeus. Será que temos guarda-freio? O futuro o dirá!

Por hoje chega de tranvias, mas amanhã há mais! E para os que ás vezes perguntam para que serve aquela roda ao lado da porta de entrada, aqui está neste post a explicação. Trata-se da roda de freio manual, habitualmente utilizada como travão de parque e que é usada nestas situações pontuais.

Aproveito então para desejar a todos os leitores do blog diariodotripulante.blogspot.com
, uma Páscoa Feliz e votos de boas viagens, seja de eléctrico, tranvia, strassenbahn ou tramway, mas que seja nos nossos porque são únicos!

sexta-feira, 26 de março de 2010

Na 18E afinal, «a tradição ainda é o que era»

Após mais uma semana de trabalho, chego à conclusão que sou um privilegiado. Claro que ficaria mais feliz se me tivesse saído hoje o Euromilhões e não necessitasse de trabalhar, mas como tal não aconteceu, só o facto de ter um trabalho onde faço o que realmente gosto e ainda me pagarem, já me deixa satisfeito. Depois para além do trabalho está o convívio com os colegas e com os passageiros, embora hajam passageiros mais simpáticos que outros.

Uns ignoram-nos, outros desprezam-nos, mas outros há que nos têm já como família. Alguns chegam mesmo a partilhar connosco momentos marcantes das suas vidas, mesmo sem que tenhamos perguntado algo. São desabafos, são confissões, são partilhas de histórias e episódios do presente e do passado.

Se no centro da cidade o trânsito desta sexta-feira era caótico, muito por causa de uma manifestação, na Ajuda a acalmia marcante do terminal da carreira 18E, permitia ouvir o som dos pássaros numa tarde que prometia chuva mas que acabou com sol. Na calçada da Ajuda o sentinela da guarita do quartel da GNR mete-se em sentido. Em direcção ao eléctrico correm os putos que tentam apanhar boleia do eléctrico, mas à pendura. Atentos, os soldados contraria-os.


Na paragem seguinte entra um casal na casa dos 70 anos. Com traje a fazer lembrar esses mesmos anos, dizem «boa tarde sr.guarda-freio» - coisa rara nos tempos que correm em que chamam motorista a tudo e todos.

Sentam-se no lado direito do eléctrico. A senhora no banco mais à frente e o seu marido no banco imediatamente a seguir. Sobre a janela espreitam o jardim botânico e comentam o aspecto crispado que o Rio Tejo, ao fundo apresenta. Rumo à Boa-Hora degustavam rebuçados que após os comentários que ia ouvindo ainda tentei ver através do espelho, de quais teciam grandes elogios.


«Estes de Seiva de Pinheiro, são fantásticos Antonieta!», dizia o senhor à esposa referindo que eram os verdes. Embora concordasse com a opinião do marido, a senhora lá foi dizendo que os azuis também eram saborosos. Contudo, o que a senhora queria mesmo era desfrutar da viagem que lhe fazia «lembrar quando passeávamos aos domingos naqueles eléctricos que ainda eram abertos e tinham cortinas de pano», dizia, ao mesmo tempo que acrescentava que «agora não estou cá. Vais caladinho que eu também vou...»

Até ao Cais Sodré lá foram, mas o desafio ficou-se pelo Calvário quando o marido se lembrou dos tempos em que ali apanhavam o «o 15 até Belém naqueles eléctricos grandes, mas dos antigos, para irmos comer um pastel e beber um chá».

Precisamente no Calvário, outros passageiros vão entrando e acomodando-se no interior do eléctrico que num instante se enche de jovens e velhos com destinos diferentes. A 24 de Julho corre pelas janelas quase à velocidade com que o comboio que vai para Cascais passa, logo ali ao lado.

Chagámos pouco depois ao Cais do Sodré e parecia estarmos noutra cidade. As buzinas, os apitos, a agitação de uma tarde de sexta-feira e uma manifestação que ajudou a entupir as artérias mesmo no centro da cidade, causando atrasos nos transportes.

A viagem terminava na R.Alfândega. Rodo a tela dos destinos e de novo a "Ajuda" a aparecer na bandeira do eléctrico. Era a penúltima viagem do dia, mas ainda a tempo de ouvir uma passageira já com alguma idade dizer-me que estava muito feliz porque no seu tempo «diziam que a 2000 chegarás, mas de 2000 não passarás»
, ouve-se de tudo e quando menos se espera, num transporte público.

Chegava então ao fim mais um dia, mais uma semana, e desta feita com a curiosidade de saber quais seriam os tão falados e gabados rebuçados de Seiva de Pinheiro. Escrevi então num papel para que não me esquecesse e agora após pesquisa na internet, vejo que cabe ao Santo Onofre (passe a publicidade), a responsabilidade de manter tais sabores e aromas há quase 75 anos e sob o slogan que «a tradição ainda é o que era».

Slogan este que também me deixa a pensar na viagem da recolha quando na Rua da Bica do Marquês, uma jovem brasileira após eu ter aberto a porta da frente, começa a gritar reclamando que «estou há 40 minutos à espera de um transporte, está brincando com a minha cara é? Acabei de perder um exame. Nem estou acreditando! Você acabou de arruinar minha vida», o que prova que após longas semanas sem ouvir reclamações nestes tons e sem o mínimo de respeito, a tradição ainda é o que era...

Boas Viagens e bom fim-de-semana!

Imagens: Rafael Santos e Santoonofre.com

terça-feira, 23 de março de 2010

Nunca uma travessa me deixou a falar só...

Que as pessoas pensam que nós - funcionários da Carris - devemos conhecer todas as ruas da cidade já não me espanta, mas daí até ficarem chateados quando simplesmente dizemos que não conhecemos uma rua ou travessa, como que se de um mapa da cidade estivesse-mos a falar, então o cenário muda como um filme quando deixa de ser a cores e passa a ser a preto-e-branco. Mas se um filme a preto-e-branco até pode ser um bom filme e com qualidade, o mesmo já não se passa com a atitude do passageiro que teima em não compreender como é que o guarda-freio não conhece por exemplo a Travessa do Fala-Só.

E para não bastar a má vontade de quem não quer aceitar que o senhor ou senhora que conduz o eléctrico ou autocarro não conhece a Travessa do Fala-Só, lá vem sempre a frase da indignação... «Não me diga que não sabe! Então trabalha na Carris e não sabe?»

Num ponto parecíamos estar de acordo: Eu trabalho na Carris... não na Polícia nem na C.M.Lisboa.

Pois sempre houve a ideia de que quem anda pela cidade tem o dever de conhecer bem todas as ruas, mas se nem os taxistas as sabem todas, porque havemos nós de saber todas as ruas quando a larga maioria delas nem fazem parte das nossas rotas diárias? Obviamente que também gosto de esclarecer o passageiro e confesso que até fico contente quando o consigo deixar esclarecido, até porque conheço relativamente bem a cidade de Lisboa, mas que nunca tinha ouvido falar nesta travessa, isso não.


Mas não fui o único. A senhora que havia perguntado por tal travessa, na paragem do Cais do Sodré na carreira 18E, após não ter ficado esclarecida com a minha ajuda, dirigiu-se então a um agente da Polícia Municipal, alguns metros à frente. O tempo que aguardei pela luz verde do semáforo no C.Sodré, com destino à Rua da Alfândega, foi o suficiente para ver o roteiro da cidade sair do bolso do agente e vê-los a procurar por tal Travessa.

Onde era a travessa não sabia, mas que fiquei a falar sozinho, fiquei e tudo por causa da Travessa do Fala-Só que após alguma pesquisa na Internet, já sei que fica ali para os lados da Calçada da Glória e se a senhora em questão for leitora deste blog, posso então ajudar-lhe dizendo que poderá apanhar do Cais do Sodré o autocarro 790 que passa no topo da Calçada ou se preferir, pode apanhar o 732 até aos Restauradores e lá apanhar o ascensor da Glória que ajuda a subir a colina. Agora já eu sei onde fica a Travessa que tem o nome de Fala-Só porque em tempos era frequentada por um cidadão que tinha por hábito... falar sozinho.

Conversas e Travessas à parte, a Páscoa está à porta e os turistas começam a chegar e a encher os eléctricos, fascinados com a Luz que esta capital tem que como dizem os cineastas - é única no Mundo.

Fotomontagem: Rafael Santos Imagem: Rafael Santos e Mário Marzagão


sábado, 20 de março de 2010

Um regresso ao passado em 5 minutos...

Os seus 11,35 metros de comprimento e 2,30 de largura vistos ao longe dão para perceber que ali vem um histórico da Carris e claro está, um exemplar único que também faz parte da história de Lisboa. É depois do americano, o resistente dos carros abertos que compõem a frota do Museu da Carris.

Depois das saídas mensais inseridas nas comemorações do 10º aniversário do Museu da emp
resa de transportes de Lisboa, o característico eléctrico com o número de frota 283, voltou a sair este Sábado, para um aluguer "especial" de um grupo de turistas alemães também eles admiradores dos nossos eléctricos.

Esta viatura histórica, exemplar único dos carros eléctricos abertos da série 283 a 322, entrou
ao serviço em 1902, tendo sido oferecido, em 1961, ao Parque Infantil do Alvito, em Monsanto,onde permaneceu durante 20 anos.

Em 1981, regressou às oficinas de Santo Amaro onde foi totalmente resta
urado e reconstruído,
integrando, actualmente, a exposição permanente do Museu da CARRIS.

A sua presença nas ruas de Lisboa, origina por todas as esquinas e ruas um movimento repetido dos transeuntes que não perdem a oportunidade para registar o momento com a máquina fotográfica ou com o telemóvel. Tudo serve para mais tarde lembrarem o carro que durante anos transportou milhares de pessoas.

O sorriso e olhar nostálgico apodera-se dos rostos dos turistas que aguardam o transporte que os leva até Belém ou até ao lado oriental da cidade e que em 5 minutos apenas centram atenções no eléctrico naquele instante cruzou o Cais do Sodré, conduzido pelo guarda-freio Luís Jesus, com destino a Algés e repleto de passageiros, que também eles vibram com este que é o transporte mais antigo de Lisboa.

Foi um regresso ao passado em 5 minutos mas que deixou saudades por muitos mais dos tempos em que por exemplo, ainda havia eléctricos a passar à porta do Jardim Zoológico, como testemunha esta imagem de arquivo que aqui partilho...


Boas Viagens!

quarta-feira, 17 de março de 2010

Com passageiros assim, quem não sorria?

Quem não gostaria de ser guarda-freio ou motorista da Carris se numa paragem estivessem passageiras como esta jovem que diariamente vai «provocando» que por ali passa não uma, mas várias vezes por dia. A ideia até não seria novidade nenhuma porque se no Metro já existe um dia sem calças e que acontece uma vez por ano, porque não o mesmo acontecer à superfície, provocando alguns olhares mais indiscretos ou até mesmo comentários de uma população que ainda é bastante conservadora.

Certamente que iria ser bastante agradável transportar pessoas com um traje diferente do habitual, mas por enquanto e ao que parece a moda fica-se mesmo pelos abrigos das paragens e nos anúncios de uma marca de roupa interior, porque no dia-a-dia o que vai entrando pela porta do eléctrico e do autocarro são outras modas.

Modas de quem sempre andou de transportes públicos que se cruzam com as modas de quem os usa esporadicamente. Uns por recurso, outros por "obrigação" o certo é que há sempre quem tente dar uma imagem diferente da cidade e com recurso ao transporte público, como aconteceu com a escola do ensino básico do Alto de Santo Amaro que decidiu levar a rapaziada ao Jardim Botânico da Ajuda, mas de eléctrico, talvez influenciados pela recente sugestão deste blog.

A descida da Calçada da Ajuda com o Tejo ao fundo a brilhar, logo me apresentava uma paragem repleta de miúdos, uns dois ou três coletes reflectores, professores e a esperança de que fossem no 729 que seguia à minha frente, mas aquele grupo que pelo seu tamanho me fez pensar que ira estar na carreira 28E e não na 18E, acabaria mesmo por optar pelo eléctrico, até porque como dizia uma das educadoras, «as crianças estão tão excitadas porque nunca tinham andado de eléctrico».

Um a um lá foram entrando e validando os seus títulos de transporte, o que acabou por facilitar a acomodação e entrada de todos no eléctrico. Em 4 minutos o eléctrico ficou tão cheio que mais parecia uma sardinha em lata, tal e qual como acontece diariamente na 28E. A alegria virou gritaria quando o eléctrico arrancou da paragem do Jardim Botânico da Ajuda. Janelas abertas e um ar puro que só este transporte permite nos tempos que correm.

Até ao Alto de Santo Amaro, foram poucas as paragens porque poucos mais cabiam na tal «casinha andante» que algum dia alguém apelidou. De sorriso estampado no rosto lá foram, uns para casa, outros para a escola... Com o mesmo sorriso que eu ou outro colega teria se algum dia, alguém entrasse como a jovem que diariamente nos vai provocando nos mupis das paragens, e se de preferência nos comprasse um bilhete.

Amanhã há mais!

Boas viagens!

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