Depois de ter estado grande parte da semana a «abrir a loja» na 25E, com um serviço de madrugada, com o primeiro eléctrico da carreira a sair ás 6h30 da R. Alfândega, acabei a semana na carreira 18E, e da parte da tarde, que é a altura em que mais gosto de trabalhar, já com o sol a dar sinais de um Verão que se aproxima.As manhãs mostraram a rotina habitual dos lisboetas. Apressados em chegar ao trabalho ou à escola, mas sempre com a certeza que a viagem não ia ser feita sem interrupções, nem que fossem causadas apenas pelas cargas e descargas que ocorrem a qualquer hora na Rua de São Paulo. Há quem tente esquecer o tempo perdido a ler as notícias frescas que trazem os jornais, mas outros há que não deixam se soltar um desabafo em jeito de reprovação para o que diariamente assistem.
Na segunda-feira uma senhora pergunta-me na paragem de Santos se o eléctrico ali passaria sempre à mesma hora. Digo-lhe que "se tudo correr bem, sim. Mais minuto menos minuto, por volta das 6h40 costuma cruzar este largo...", agradece-me a informação, mas não sem antes dizer que espera que não haja adiantamentos. Talvez queira aproveitar o tempo ao máximo logo ao começar o dia.
No dia seguinte lá está na paragem e à mesma hora. Reconheço-a de imediato, porque a minha memória visual ainda está apurada. Na paragem seguinte também a passageira que na véspera tal como nessa manhã trazia consigo o bebé ao colo, que parece ainda não estar habituado ao ranger das calhas a cada curva do eléctrico.

Num instante subimos a colina e com o carro quase cheio chegamos à Estrela. Ali saem grande parte dos passageiros. Mas pela porta da entrada entram dois idosos que aproveitam a boleia do 25E para irem tomar o pequeno almoço ao Canas.
Ao terceiro dia de 25E a primeira interrupção. Na Rua de São Domingos, um camião carrega uma grua para uma obra nas ruas vizinhas. Mas um carro mal estacionado impossibilita-o de entrar nessas ruas. Sem qualquer tipo de policiamento, descarregam ali mesmo a grua, para descontentamento dos passageiros que tinham horas certas para entrarem ao serviço. À minha frente está o eléctrico do turismo, repleto de turistas que se levantam para registar o momento, também eles incrédulos com o que se faz por cá.
O que parecia ser rápido demora mais de 20 minutos, o suficiente para atrasar a carreira e a vida de muita gente. Depois de feitos os trabalhos, os carris ficam de novo livres e lá prosseguimos a descida com o Tejo ao fundo a fazer esquecer tempo perdido. A chegada ao Corpo Santo trás novas paragens e desabafos de quem está saturado daquele caos matinal que se repete ao fim da tarde. «Isto cada vez está pior! Não há quem meta mão nisto e o zé povinho é que paga», diz uma senhora.
A semana termina então na carreira 18E. Diferentes caminhos, pessoas diferentes. Para a Ajuda transporta-se quem vai trabalhar ou estudar e no sentido inverso o eléctrico é a ajuda para vencer a descida inclinada até ao Mercado. As manhãs são rotineiras. As caras são as mesmas todos os dias, os gestos repetem-se a cada viagem. A eleição de Lisboa como melhor destino de férias para 2010, parece já colher frutos e embora o verão ainda não tenha chegado, o certo é que Lisboa já está repleta de turistas.
No Cais do Sodré, e com um português "arranhado" dizem-me... «querro dôs bilhetes parra Ajuda Palace , porre favorre», são dois euros e oitenta! Sentam-se contentes e com o mapa de Lisboa na mão. Atrás um senhor que se esqueceu do passe em casa, pede-me «um bilhete para quem não se devia ter esquecido do passe, se faz favor...» , Um euro e quarenta cêntimos é o custo do esquecimento. E em jeito de brincadeira ao entregar-lhe o bilhete ainda me pergunta se não acho «caro 1,40€ por um pedaço tão pequeno de papel que já não tem o encanto dos bilhetes de outros tempos?»A paragem esvazia-se à medida que o eléctrico enche e passado algum tempo lá prosseguimos viagem rasgando o horizonte da avenida 24 de Julho que apenas nos deixa ver o eléctrico da carreira 15E que já dobra a curva de Santos. Subimos a colina para gáudio dos turistas que ficam impressionados com a força do eléctrico a vencer as inclinações acentuadas da cidade.
É finalmente sexta-feira. O serviço é de tarde e que tarde... Parece Verão autêntico. Os decotes assim anunciam. A brasa visível junto ao alcatrão comprova. A Praça do Comércio ainda em obras já permite que se veja o rio através das janelas do eléctrico. E do lado oposto, mal se vê a calçada da Rua Augusta que mais parece um formigueiro. O silêncio à porta do cemitério da Ajuda deixa-nos ouvir o rádio da florista que se prepara para fechar o quiosque. São quase 16h30 e o cemitério fecha também as suas portas.
Do terminal parte apenas um passageiro que me diz, «vou dar uma volta para me distrair...» E só mesmo a confusão do trânsito numa sexta-feira em Lisboa, me faz chegar atrasado à R. Alfândega. Aos poucos os carros lá vão fluindo pelo Cais do Sodré e pouco depois estou de novo na Ajuda. Aproveito o tempo disponível até ao início de uma nova descida para beber um café e aconchegar o estômago. No regresso lá está à volta do eléctrico uma senhora que habitualmente segue naquela viagem. Faz sempre as mesmas perguntas, mesmo que todos os dias utilize aquele eléctrico e naquela hora.
«Ó senhor motorista este eléctrico abala a que horas?»... "ás 19h29 minha senhora!", «puxa ainda faltam 6 minutos», espanta-se, como se fosse a primeira vez que soubesse que aquele só dali partia ás 19h29. Pergunta se pode entrar, e digo-lhe que sim. Senta-se sempre no primeiro lugar à esquerda. A paragem onde desce é a primeira da Rua da Bica do Marquês e até lá faz sempre a mesma conversa. «Era para apanhar o 60, mas dá uma volta muito grande. Mas também espero tanto pelo eléctrico que é quase igual. Lá vai outro para cima está a ver?...» Despede-se sempre com o até logo, na esperança de me apanhar no regresso. Mas o regresso é já tardio. Segue-se depois a recolha a Santo Amaro já com o Sol posto e o desejo de que o bom tempo que esteve toda a semana se repita agora também no fim-de-semana.
Foi assim a minha semana e que termina também com uma notícia vinda dos Estados Unidos, através do site menosumcarro.pt que nos dá a conhecer que o eléctrico 28E, foi um dos sítios escolhidos pelo reality show “The Bachelorette”, transmitido por uma das maiores cadeias de televisão norte-americanas, a ABC, para gravar um dos seus próximos episódios. A notícia pode ser lida na íntegra no site menosumcarro.pt










