São diferentes. Agem de forma semelhante, mas a simpatia é em grande parte superior à encontrada nos autocarros. Uns mais velhos, outros de passagem. De casa para o trabalho, ou apenas em turismo, todos têm uma coisa em comum - são passageiros. Pela manhã, acompanhado de uma simpática saudação, transporta-se um perfume apetecível e que nos deixa a pensar no apetecível banho que tomámos antes de sair de casa. Mas o pior é quando depois deste momento de - diria - prazer, se desmancha com o entrar de um odor insuportável pela porta onde entram diariamente, estudantes, idosos, doutores, engenheiros, sapateiros, costureiras, turistas, entre outros...«Ó riqueza, deixa-me sair aqui pela porta da frente que vou muito carregada», diz uma senhora que acaba de vir do supermercado com uma quantidade de sacos, que nos leva a pensar que o mundo acaba já amanhã. É assim quando se passa na Boa-Hora com destino à Ajuda, onde o eléctrico é realmente uma grande ajuda para subir a colina.
Ao virar da esquina, automóveis que circulam no sentido oposto, teimam em não facilitar a passagem do eléctrico que tem de ocupar a via contrária. Resta-nos esperar até que alguém decide realmente ceder passagem ao transporte mais antigo da capital. Ponto a ponto lá vai o 18E subindo rumo ao Cemitério da Ajuda, onde termina mais uma viagem no meu primeiro dia de trabalho nesta carreira.
Os dias seguintes são na 25E e aos poucos vou retendo as principais dicas que me vão sendo transmitidas pelos colegas que nos acompanham nos primeiros dias. Mais experientes e conhecedores das zonas a ter em atenção, sobretudo pelo desrespeito que ainda persiste pelo eléctrico, vão-nos dizendo como agir perante determinado cruzamento ou arruamento. Mas ao final da tarde uma senhora já com alguma idade, agradece-me por ter parado na paragem - coisas de antigamente - e com ela vem o tal cheiro que se entranha durante algum tempo a bordo de um transporte que é por sinal arejado.
Trata-me por chefe. Parece que é da praxe, segundo outros guarda-freios e despede-se dizendo «ó chefe pare aí nessa paragem e se não se importa deixa-me sair pela porta da frente...» Se nos autocarros já se ouvia este pedido com alguma regularidade, aqui repete-se em todas as viagens. As dificuldades na locomoção aliadas ao receio de não serem vistas pelo guarda-freio na porta traseira, leva-as a sentarem-se logo no primeiro lugar que encontram ao entrar, o que nem sempre é a melhor ideia, porque nem a janela da frente aberta ajuda.O dia seguinte é de manhã e pelo movimento na Avenida 24 de Julho, a noite foi longa e com muito álcool à mistura. A saída da estação é rumo à Rua da Alfândega e enquanto uns acordam para mais um dia de trabalho, outros estão a caminho da cama. Em Santos, mandam parar o eléctrico. A porta abre-se e do lado de fora apenas dizem «Bom Dia!». Só queriam mesmo "brincar" sendo "simpáticos" com quem já estava a trabalhar. Diferentes maneiras de distracção.
A bordo ia já um senhor que se inteirava das últimas notícias que publicava o Diário de Notícias. Chegamos ao Cais do Sodré e uma outra Lisboa. Do lado direito saem pessoas apressadas, outras distraídas. Bem dizia o formador que o guarda-freio tem de ter sete olhos! A campainha do eléctrico raramente é respeitada, mas serve de alerta. Do lado oposto um jovem cambaleia entre o passeio e o corredor BUS. Descanse que não houve nenhum sismo com epicentro no Cais do Sodré! É apenas mais uma das vítimas de um descontrole provocado pelo álcool e que obriga a quem ali circula a passar com velocidade reduzida.
Já a meio da manhã e com alguns pingos de chuva à mistura, alguns turistas no terminal da Rua da Alfândega entram no eléctrico rumo aos Prazeres. Nos olhos, o brilho de uma alegria imensa de entrarem num transporte único. O lugar à janela é o mais apetecido e por norma cedido às senhoras. Assim foi. Durante a viagem, tiram fotografias, comentam a riqueza das arcadas da Praça do Comércio, que contrastam com as obras que persistem, ou a acalmia da Lapa. A chegada aos Prazeres traz um misto de satisfação e de tristeza. Chegava ao fim a viagem.
Regressam na viagem seguinte ao ponto de partida, porque soube a pouco e lá fora está a chover. Chega também ao fim o meu dia de trabalho e termina a primeira semana que mostrou uma Lisboa em tudo diferente, em tudo igual. Uma Lisboa em dois tempos, em duas carreiras. Uma cidade onde acima de tudo adoro viver e onde gosto de trabalhar. Valeu a pena esperar três anos, porque o futuro começa agora...
Boas Viagens!





















