domingo, 8 de novembro de 2020

Domingo nos transportes: Da calma da 28E ao susto provocado pela hipoglicemia a bordo da 15E


O dia começou bem cedo na carreira 28E, numa Lisboa que conheceu na véspera, as novas medidas impostas pelo Estado de Emergência que entram em vigor às 00h desta segunda-feira. Ruas desertas num domingo com tempo a convidar a ficar debaixo da manta a ver televisão ou a ler um livro. Eléctrico vazio para os Prazeres, eléctrico vazio para o Martim Moniz, viagem após viagem com um silêncio quebrado pelo chiar das rodas nos carris ou pelo barulho dos areeiros do eléctrico a ejectarem areia nos carris escorregadios das ruas de Alfama.

Solicitada a limpeza dos carris para retirada das folhas que constantemente caem das árvores nesta época, lá prosseguimos numa manhã atípica, ou talvez não, dado o panorama que o mundo atravessa devido à pandemia da Covid-19. Ainda assim, foram começando a aparecer alguns turistas, sim ainda há cá turistas! Mas não os suficientes para causarem enchentes a que todos estavam habituados. 


A segunda parte do serviço foi na carreira 15E com o eléctrico "novo" de 1995 que continua a cumprir a sua missão de ligar Algés ao centro de Lisboa. Se na 28 o movimento estava fraco, na 15 não se notou grandes mudanças, mas ainda assim e apesar de menos tempo nos comandos do 15E, quando comparada com a manhã na 28E, custou mais. 

Quando menos esperava, a chegada a Algés ditava que tivesse de sair da cabine e deslocar-me aos últimos lugares onde estava um idoso sentado, pensando eu que teria adormecido. Chamo-o mas sem êxito. Toquei-lhe no braço para ver se respondia e sem êxito, permanecia com a sua boina preta, casaco branco, máscara e rosto caído. Agachei-me para perceber se estava a dormir, mas deparei-me com um olhar fixo e vidrado na direcção do solo com um rosto pálido. Faço gestos na frente dos olhos, falo com o senhor e abano-o mas sem resposta alguma. A única resposta era a respiração aparentemente normal. 

Volto à cabine para pegar no telemóvel e chamar o INEM e volto ao local onde o senhor estava sentado. Já com o rosto levantado, começa finalmente a responder. Pergunto-lho o que se passava, se precisa de ajuda. Diz-me que estava tudo bem. Comprovando que não estava pelo que assistia mesmo à minha frente, o senhor com cerca de 70 anos de idade e de máscara no rosto, e com um tremer cada vez mais acelerado do braço esquerdo, digo-lhe que «vou chamar uma ambulância».

Ambulância, a palavra mágica para que ressurgisse aos poucos ao seu estado normal, ou lá perto. Diz-me que ia para a Pontinha e queria ajuda para o levantar. Digo-lhe que não está bem para se levantar e que estava em Algés no terminal do eléctrico. Aos poucos os sinais dos olhos e as palavras iam melhorando e tentava descansar-me após o susto dizendo que por vezes acontece-lhe isto. 

Tentei fazer perceber que para me estar a dizer aquilo é porque não estava bem, tentado insistir para chamar a ambulância. Ele de imediato diz "não chame ambulância que eu não vou, ta tudo bem. preciso que me ajude a levantar". Acedi ao seu pedido, ainda que muito contrariado por ver o estado do senhor. 

Saiu para a rua, respirou o ar fresco e perguntou-me onde era a paragem do 729. Disse-lhe que não estava em condições de ir para o terminal do 729 que era preferível aguardar um pouco ou ir ao café para beber água com açúcar. Recusou de imediato e deixou-me a falar sozinho, partindo passo a passo rumo ao terminal de Algés dizendo que "agradeço os cuidados e a ajuda, desejo-lhe as melhores felicidades e saúde para si e para os seus...". Aguardei uns minutos a ver o seu caminhar que foi de encontro ao café de onde saiu com um pacote de açúcar. Provavelmente uma hipoglicemia, visto que depois, já na hora de partir rumo à Praça da Figueira vejo-o já a atravessar a rua como se nada se tivesse passado e a mim ainda não me tinha passado o susto. 

Ainda assim, e embora tudo não tenha passado de um susto que aparentemente pode ser normal para o senhor, dá que pensar nestes idosos que além de teimosos, são em muitos dos casos, deixados ao abandono pelos seus familiares, encontrando nos transportes públicos a sua distracção diária, mesmo que esteja a chover lá fora, facto que também a pandemia veio agravar com a "desculpa" do contacto e do contágio. Muitos acabam assim por ser desprezados não só pela família mas também pela própria sociedade.

E assim vão os domingos na capital das sete colinas onde embora a nossa função seja conduzir, nem sempre disso é feito o nosso dia-a-dia. Amanhã é outro dia. Boas viagens a bordo dos veículos da CCFL.

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