terça-feira, 7 de maio de 2019

Quando o mau tempo traz a má disposição dos nossos passageiros...

Foram-se os dias de calor e soalheiros, voltaram os dias cinzentos e chuvosos. Terminou assim a minha semana, a bordo do autocarro da carreira 15E que substituiu, um eléctrico devido a avaria, mostrando cada vez mais que os anos começam a pesar e que se deseja cada vez mais a conclusão do concurso público internacional, entretanto lançado pela Carris, para a aquisição de novos eléctricos, como aliás aqui foi referido a seu tempo. 

Os novos passes vieram sem dúvida trazer mais passageiros aos transportes da capital e por isso não é de estranhar ver autocarros e eléctricos bem compostos durante todo o corpo do dia, assim como também já não se estranha, as questões dos últimos tempos como, "onde que eu valido isto?" ou "e agora o que é que eu faço com este cartão aqui se não há cancela para abrir?" , pois há perguntas para todos os gostos, ás quais se juntam as dos turistas afoitos em busca de um monumento conhecido e numa pressa para lá chegar que os leva sempre a passar o cartão no validador com uma rapidez, como que, se a qualquer instante o validador lhes dê uma dentada bem ao género de um tubarão. Quando na verdade apenas acende a luz vermelha e pede para que valide novamente.

Mas questões à parte, o certo é que esta mudança repentina do tempo, quando os dias prometiam ter já um verão à porta, faz com que os passageiros também andem mais impacientes e mal dispostos, ou chateados com a vida. É o carregar do chapéu de chuva, é as capas que têm de vestir ou o facto dos vidros irem embaciados e não poderem ver as vistas. Depois há aqueles que, ou chegam chateados com os familiares ou até mesmo com o patrão, e encontram no guarda-freio ou motorista um belo saco de boxe para descarregar toda a revolta. 

Se já há dois dias uma passageira no 28E se mostrava revoltada comigo por ter permitido a entrada de 29 turistas acompanhados de um guia, os quais validaram individualmente o seu título de transporte, já hoje a questão era o porquê de ser um autocarro e não um eléctrico. Mas não ficaria por aqui. 

A meio da tarde numa das viagens entre Algés e a Praça da Figueira e já com o autocarro completo... bem, completo não estava porque lá atrás havia espaço, como quase sempre acontece. As pessoas têm medo de chegar para a rectaguarda do veículo, impossibilitando assim a entrada de outros passageiros, mas vá, digamos que ia quase completo. Chegados à paragem do calvário, os passageiros começam num tom elevado, a solicitar que aguardasse e que lhes prestasse auxílio. De imediato tento aperceber-me do que se passava e verifiquei que uma passageira se tinha sentido mal, ao ponto de desmaiar. Falo com o acompanhante em francês no sentido de saber se não seria melhor chamar uma ambulância, até que o mesmo agradece a ajuda. Pego no telemóvel para ligar 112 ao mesmo tempo que peço aos passageiros que saiam por instantes, permitindo assim que o ar circulasse mais no interior do autocarro e porque não se tratava de nenhuma sessão cinematográfica para estarem todos em redor da senhora.

Neste instante em que chegam a perguntar-me "mas já não segue viagem daqui?" e eu responder que primeiro está o socorro à senhora, entram-me pela porta de trás uns três agentes da PSP que se aperceberam da situação e acorreram ao local. Retiraram a senhora para o banco do jardim e chamaram o INEM. Questiono os agentes se necessitavam de alguns dados o qual me diz "não se preocupe, fez o que devia, mas o meu colega é socorrista e está a controlar a situação até chegar o INEM, pois a senhora sofre de epilepsia. Pode seguir viagem descansado, obrigado".

De volta ao autocarro, pronto para prosseguir a marcha, lá tinha de vir alguém dizer que a culpa era do motorista porque tinha deixado entrar muita gente. Claro, a culpa é sempre do motorista, o mesmo que iria ter culpa caso não abrisse a porta por já ter muita gente. Prosseguimos então viagem até ao destino final. Na viagem de regresso, o agradecimento à PSP na passagem pelo Calvário e numa tarde caótica de trânsito lento na cidade lá cheguei a Algés. 

O tempo de almofada já não dava para mais, se não fazer a vistoria interior e exterior ao veículo antes de iniciar nova viagem rumo ao centro de Lisboa. Chegado ao Altinho, abrem-se as portas. Uns saem, outros entram e depois desses movimentos fecho a porta da frente já depois de encerrada a porta de trás, e preparo-me para iniciar a marcha, olhando para o retrovisor esquerdo. 

"Toc-toc-toc", batem na porta. Uma jovem que ao que parece vinha de uma corrida para apanhar o autocarro. Entra, diz boa tarde e agradece. De seguida aparece logo outra passageira que não disse boa tarde nem agradeceu, mas que não deixou de comentar que "até parece que não consegue ver as pessoas a correr pelo espelho!"

Disse-lhe que se a tivesse visto não tinha fechado a porta, mas que estava a olhar para a esquerda para iniciar a marcha. Mas a senhora tinha mais interesse em querer arranjar ali um conflito, do que ouvir a explicação. "É que se perdemos um autocarro, estamos aqui à seca à espera do próximo..." Não valia a pena alimentar mais um diálogo onde a razão iria estar sempre do lado da passageira, perfeita como ninguém e que jamais alguma vez na vida terá cometido algum erro, a senhora que depois sairia na Praça do Comércio e se atravessaria à frente do autocarro fora da passadeira só porque queria apanhar o 735. E eu com uma vontade enorme de lhe dizer pela janela "até parece que está aqui uma passadeira para se atravessar...", mas não disse nada e segui o meu caminho rumo ao destino final, que dali me levaria então a dois dias de folga e bem merecidos.

Parece que afinal não foi só o tempo a mudar, mas também o estado de espírito dos nossos passageiros aos quais continuo como sempre a desejar, boas viagens a bordo dos veículos da CCFL.  

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