sexta-feira, 18 de maio de 2018

Uma salada russa de perguntas no quotidiano dos carris de Lisboa...

"Bom dia moço... esse é o cárrês qui vai no Além?", começava assim mais um dia ao volante do autocarro que substituiu o meu eléctrico esta manhã ao longo do trajecto da carreira 15E, devido a uma avaria. A pergunta vinha de alguém do outro lado do Atlântico e não entendendo a questão, pedi que repetisse. "Esse cárrês vai no Além. Nossa no Belém? Disculpa." E lá consegui entender que a ideia era saber se era aquele carris que ia para Belém. Tudo poderia ser anormal ou não estivéssemos nos em plena Praça do Comércio onde nos últimos meses os dialectos têm sido dos mais variados do mundo e acima de tudo da Europa até porque fomos também a capital da eurovisão. "You allez aux mónaster San Jerónimo?" é a pergunta que surge do lado de fora, de quem já está  com um pé dentro, pronto a ganhar impulso rumo a mais uma viagem num transporte público que aparenta ser diferente de toda a parte do mundo.

O validador tem as setas e os desenhos dos cartões indicando o local onde devem validar, mas a maioria acha que nós somos uns totós e que na verdade deve ser no visor que devem validar os cartões. Depois questionam "porque no passa?"... Porque será?

Mais uma chegada a Belém, paragem terminal. Informo que terminou a viagem e peço que saiam. Restam 2 turistas sentados a olharem com um ar assustado, mas ao mesmo tempo, de quem são os únicos que estão bem. Informo que acabou e peço que saiam. "But were is Belém Tower?" É um pouco mais à frente explico em inglês e digo-lhes que deviam ter entrado no 15E com destino a Algés mas eles insistem... "But the bus say in front Belém" ora pois claro e diz muito bem, embora baixinho.

Inicia-se mais uma viagem e em frente aos pasteis entram 3 sexagenárias oriundas da Rússia ou país vizinho. Tento sempre ajudar estes povos que nos visitam e que expressam alguma dificuldade no inglês. Pedem-me três bilhetes para "go tramvaj castielo". Queriam 3 bilhetes até à paragem onde pudessem apanhar um eléctrico para o castelo. Como responder inglês provavelmente seria chinês para elas, digo-lhes que sim podiam ir comigo e eram 5 euros e 55 cêntimos. Elas olham umas para as outras como quem não tinha entendido o «five and fifty five cents». Como o checo é semelhante, e como tenho aprendido ao longo dos últimos anos, digo-lhes «pět a padesát pět» e elas respondem alegremente com um toque dourado no sorriso, "ah aaa, spacibaaa", ao mesmo tempo que me entregam 10 euros. Faço-lhes o troco e digo que podem ir até ao fim da viagem. E lá se sentaram.

Depois no meio de tanto estrangeiro lá surge assim de repente vindo lá de trás e já na paragem do corpo santo um rapaz que se dirige a mim chateado e diz "ó chefe isto é todos os dias o mesmo. Boa tarde desculpe. Mas os autocarros de turismo param isto tudo e nós que vamos trabalhar temos de esperar..." Apenas ouvi e nem respondi, porque o trânsito estava parado apenas porque o semáforo que dá acesso à Praça do Comércio tarda sempre em dar luz verde. 

E assim foi decorrendo o dia que terminou com uma recolha a Santo Amaro neste dia Internacional dos Museus, onde o 535 fez as honras da casa ao transportar os visitantes entre o núcleo 1 e 2. Não resisti a colocar uns pontos e conduzir o veículo que outrora transportou milhares de passageiros pelas ruas de Lisboa. E assim vai o quotidiano pelos carris de Lisboa.

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