sábado, 31 de março de 2018

40 euros... o preço da seriedade e da desolação num transporte público perto de si

"Mira... Mira... vamos à lo Monasterio de los Jerónimos!?"... Podia ser mais um tema daqueles calientes desta Páscoa em Lisboa, como todas as outras, mas deixemos de parte por agora a visita de nuestros hermanos que já aqui foi falada este ano, mantendo assim a tradição habitual nesta quadra. Hoje as viagens da 15E foram em tudo diferentes das de ontem, com excepção da lotação, porque essa esteve idêntica ou ainda pior que ontem. Viagem cheia para Belém, viagem cheia para o centro. 

Contudo a certa altura do final da manhã quando muitos já se preparavam para procurar um local para almoçar no meio de tanta gente para tão poucos restaurantes, outros haviam que o procuravam fazer longe da área de Belém. Na paragem do Mosteiro dos Jerónimos e com destino a Algés, entre os poucos passageiros que entraram, quando comparando com os que saíram, entrou um rapaz com os seus 14 a 16 anos que educadamente cumprimentou-me e validou o seu título de transporte, tendo-se sentado de seguida. Ao que parece terá deixado cair duas notas de 20 euros quando retirou o passe do bolso, não tendo reparado, tal como eu não reparei. 

A marcha foi retomada e na paragem do Centro Cultural de Belém entra um casal já com os seus 60 anos. A mulher na frente o marido atrás, ficam num certo impasse que confesso estranhei dado o carro ali já estar praticamente vazio. Ela diz-me «desculpe, que estava distraída...» e valida o titulo de transporte, ao mesmo tempo que se baixa e apanha algo do chão, que pensei ter caído ao retirar o passe da mala. Num instante lhe passou a distracção e sugere ao marido «vamos sentar lá atrás António...»

Como não me tinha apercebido de nada anteriormente, prossegui viagem e mal arranco da paragem o rapaz terá visto a senhora baixar-se e pegar nas duas notas e terá levado as mãos ao bolso tendo reparado que já não as tinha e que seriam as dele. Educadamente tal como tinha entrado, dirige-se a mim e questiona, «senhor, desculpe mas... aquela senhora que apanhou as duas notas de 20 euros entregou-lhe a si?» 

Estranhei a questão, mas associei de imediato ao facto dela se ter baixado para apanhar algo quando entrou. Disse-lhe que não, e que tão pouco não tinha reparado que estavam duas notas no chão. Sugeri ao rapaz que questionasse a senhora. O mesmo assim o fez, mas a senhora respondeu-lhe lá no fundo que não. Que as notas tinham caído quando tirou o passe da mala. Indignado o rapaz não insistiu, mas perguntou aos restantes passageiros se tinham visto a situação. Os dois passageiros que estavam a meio do carro, disseram também não ter reparado nas notas, mas que repararam que a senhora ao entrar se baixou para apanhar algo, mesmo que não tivessem visto nada cair naquele instante. 

Na paragem seguinte o casal saiu. Perguntei ao rapaz se tinha então conseguido reaver os 40 euros que tinha deixado cair. O mesmo responde-me quase com a lágrima no canto do olho que «não. Disse-me que eram dela e que tinham caído da mala. Agora não sei como fazer... era o dinheiro para ir buscar o meu almoço e o dos meus pais...» O rapaz, agradece-me a ajuda (que não foi nenhuma porque não me apercebi de nada) e pede-me desculpa ter-me questionado ao mesmo tempo acrescenta que «é uma pena as pessoas não serem honestas» e sai cabisbaixo sem saber o que fazer ou justificar no regresso a casa e sem almoço...

Confesso, que não consegui deixar de pensar na situação o resto do dia, porque  certamente que os 40 euros não tornaram aquele casal milionários, e causou certamente um grande problema para o rapaz que além de ficar sem o almoço, ficou também sem os 40 euros e provavelmente sem saber o que dizer aos pais. O ar desolado dele deixou-me perplexo, assim como a naturalidade com que a pessoa que apanhou o dinheiro dizer que era dela sem ser, mesmo que achado não é roubado, aqui via-se perfeitamente que o dinheiro era do rapaz pela forma como desesperadamente os procurou reaver, mas sempre da forma mais educada possível.

2 comentários:

CR 35 disse...

Não é justo!mas também serviu de lição para o rapaz e não só , nunca se deve ter dinheiro solto no mesmo sitio em conjunto com outros objectos.
Enfim , é um roubo dissimulado e a consciência desta gaja não deve ser nenhuma .Ainda ás vezes temos pena de certa gente sem conhecer o íntimo ,mas que na realidade são uns autênticos monte de esterco: Boas viagens a bordo dos amarelinhos e não se esqueçam dinheiro sempre à parte .

Cristina Santos disse...

Já eu, fui gozada por ter encontrado 5€ no corredor do autocarro e os ter entregue ao motorista, na eventualidade de alguém acusar a falta dos mesmos... Enquanto adultos, somos exemplares para os mais jovens. Devíamos pensar melhor nos valores que andamos a passar.

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