segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A casa onde trabalho faz hoje 145 anos



A casa onde trabalho está de Parabéns! A Carris comemora esta segunda-feira 145 anos de vida desde que foi fundada em 18 de Setembro de 1872 no Rio de Janeiro. A Companhia Carris de Ferro de Lisboa, introduziu na cidade o então moderno sistema de transporte, composto por carris instalados na via pública por onde circulavam carruagens puxadas por animais – os chamados «americanos», que tornaram mais cómodas as viagens até então realizadas noutras carruagens que não evitavam o mau estado das vias por onde passavam. E um ano depois era então inaugurada a primeira linha de carros «americanos», entre Santos e Santa Apolónia.

Depois dos Americanos vieram os eléctricos a 31 de Agosto de 1901 e seguiram-se depois os autocarros nos anos 40 adquiridos para serviço à Exposição Mundial que se realizou em Belém. Ao longo dos anos, construíram-se novas estações, e apostou-se fortemente na renovação da frota o que fez com que a Carris tivesse obtido a certificação em 2006. Até ao ano de 2011 a Carris vinha então, continuando a apostar na melhoria do serviço, com a vinda de novos autocarros, mas esquecendo um pouco a aposta nos eléctricos. Na verdade foram eles o ponto de partida da Carris e são neles que a maioria das cidades europeias aposta. Não posso deixar no entanto  de referir, que actualmente a gestão da Carris está a cargo da Câmara Municipal de Lisboa, que já anunciou publicamente querer apostar novamente no eléctrico e nos planos próximos estão o prolongamento da 15E a Santa Apolónia e o sempre prometido regresso do eléctrico 24, contudo e até então, não tem passado disso mesmo, promessas. Aguardemos agora pelos próximos capítulos.


Com a crise instalada em Portugal nos últimos anos, quase sanada, hoje a Carris volta aos poucos a enfrentar os desafios que o presente o futuro proporcionam. Começaram a chegar já novos tripulantes e em breve chegarão os novos autocarros. Quanto aos eléctricos, nada se sabe, mas já se ouvem rumores que poderão ser feitos investimentos nesse sentido. O que se sabe é que é vontade de Fernando Medina, actual presidente da Câmara e candidato à próxima legislatura, investir na renovação da Carris levando a que a empresa volte a ser imagem de marca de uma cidade que tem também ela crescido e que volte a ser a Carris que todos nós nos habituamos a conhecer e a viver. 


A todos os trabalhadores da Carris, o Diário do Tripulante, cujo autor leva já quase 11 anos destes 145, dá os parabéns porque são eles o motor desta marca que comemora hoje mais um ano de vida e talvez por isso a imagem corporativa dos 145 anos tenha sido desenhada com recurso ao nome de todos os seus colaboradores. Parabéns Carris! Juntos movemos Lisboa.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Eléctrico nocturno para o médio oriente...

Quarta-feira, 06 de Setembro de 2017, são 20h57 e preparo-me para iniciar a segunda parte do meu serviço, na carreira 15E que viria a terminar pelas 01h27. Saio da estação com destino a Algés pela Rua da Junqueira já deserta porque na minha frente seguem dois autocarros e um eléctrico articulado que provavelmente vai recolher de Algés para Santo Amaro. Chego a Algés na hora prevista e para a partida rumo à Praça da Figueira ainda faltam 6 minutos. Giro a manivela que permite rodar a bandeira e pelo espelho procuro o meu próximo destino. Avanço com o eléctrico até à paragem e abro a porta da frente, dando assim, início a a mais uma viagem.

«Boa noite senhor guarda-freio», diz-me uma senhora que de imediato valida o seu título de transporte e se senta no primeiro lugar individual do lado direito do eléctrico. Chega a hora da partida sem mais passageiros. Prossigo viagem até à paragem seguinte onde já se encontrava mais passageiros à espera do eléctrico. Uns com ar cansado outros com ar mais fresco. Aqui ninguém saudou à entrada. 

A viagem e a noite seguem calmamente rasgando as ruas por onde estão os carris que permitem a certa altura cruzar com os eléctricos que vão no sentido contrário. São rasgos de luz pela escuridão de Pedrouços. "Plim!", ouve-se no interior. Alguém quer sair no Largo da Princesa e a luz indicadora de "PARAR" a piscar no corredor não engana. Pouco mais a acrescentar numa viagem rumo ao centro de Lisboa, sempre com o olhar atento da Lua hoje especialmente brilhante.

Chegamos à Praça da Figueira, com esplanadas cheias de turistas à porta de um hotel. Trocam-se gargalhadas, bebem-se uns copos, conversa-se e degusta-se boa comida portuguesa. Faço a revista ao eléctrico para ver se nada ficou esquecido, e preparo nova viagem rumo a Algés. A paragem está composta e se encontro um português lá no meio, poderei mesmo dizer que é um achado. Há passageiros oriundos de toda a parte. Com a hora de fecho dos restaurantes indianos, nepaleses, o eléctrico vai-se enchendo com uma multiculturalidade bastante diversa. 

Cheira a fritos, chamuças ou até a sushi nesta viagem. Não se entende nada daqueles idiomas, mas curiosamente são os que mais saudaram com um "Boa noite" ou com sotaque enrolado oriundo da língua, "boa noite chefe!" De repente a viagem para Algés parece ter como destino o Médio Oriente. Os poucos portugueses que viajam com eles, vão entretidos com o olhar sobre as janelas por onde vamos passando, ou a ouvirem música. No meio do eléctrico cheio, só consigo ver pelo espelho um ramo de rosas lá no alto. 

Seguro na pega para não cair com o balançar do eléctrico, o indiano que leva o ramo de rosas, espera certamente ter uma boa venda na noite que se inicia. Afinal de contas quem não se lembra do famoso "Ké Frô?" Sai na Infante Santo e sobe em grande ritmo as escadas que dão acesso ao outro lado da linha do comboio.  

A noite vai avançando e para muitos é o regresso a casa, mas para tantos outros aquelas viagens são o ponto de partida para mais uma noite de trabalho. Cozinheiros, padeiros, seguranças, motoristas, operadores de telemarketing, mulheres de limpeza, entre tantas outras profissões, todos partilham do mesmo desejo. Que a viagem seja rápida, tão rápida quanto eu desejo que chegue ao fim o serviço. 

São já 01h07. Está na hora da recolha e afinal até passou rápido. Amanhã é outro dia. Boas viagens a bordo dos veículos da Carris. 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Gravidez pode dar prioridade mas não livre trânsito...

Dia de Feira da Ladra promete sempre muita confusão na 28E, mas ao contrário do que se esperava a manhã até foi tranquila neste meu início de mais uma semana de trabalho. Carro cheio para os Prazeres, carro cheio para o Martim Moniz, e pelo meio apenas o desabafo de quem tinha visto na véspera todo o seu ouro desaparecer sem saber como. «Eu devia estar parvo não sei. Veja só que estava na paragem à espera do carro eléctrico, quando pára um tipo ali na Graça e me tira a pulseira e o fio na profunda das calmas e eu não me apercebi de nada senhor guarda-freio... É uma cambada que aí anda e a polícia não faz nada...», dizia quase a chorar o idoso em jeito de desabafo. 

«Ando sempre a avisar os outros para terem cuidado e no fim quem foi roubado fui eu. É a vida!» acrescentou já quando se preparava para sair no Largo da Graça para ir comprar o pão. A viagem prosseguiu rumo ao Martim Moniz, com turistas afoitos em busca do Miradouro da Graça que já estava para trás. Saíram em Sapadores e disse-lhes que tinham de andar para trás até ao largo. Duvido que tenham entendido. Pois seguiram em frente o Largo dos Sapadores. 

Depois de chegado ao Martim Moniz, fui rendido e dirigi-me para a Praça da Figueira onde iria iniciar a segunda parte do meu serviço na carreira 12E. A caminho do Castelo pela subida da Mouraria, cruzam-se vizinhos. Trocam-se lamurias porque «a idade já vai pesando», dizem. «Deixe-me sair ai na próxima paragem que já chega de voltinhas por hoje. Vou fazer o Almoço», diz-me uma cliente habitual da 12E, daquelas que parece ter lugar cativo à janela. 

A tarde passava, com viagens de 20 minutos a decorrerem dentro da normalidade até que antes de iniciar a última viagem do meu serviço teria de aparecer algo para me fazer perder algum tempo. A fila na paragem era grande e enquanto cobrava os bilhetes a um casal de espanhóis, atrás surge vinda do Rossio uma jovem apressada... «Estou grávida ok?! Deixe-me passar, veja lá!», dizia em tom pouco simpático para uma francesa que estava pronta para subir o estribo. Contei até 10 para não me meter naquela troca nada amistosa de palavras entre ambas, até que observo a jovem passar em direcção ao banco da janela a meio do corredor, como passam os carros com identificador na Via Verde da portagem, na auto-estrada. Nem um "boa tarde", nem um "obrigado" e aquilo começou a ferver cá dentro, até porque o volume daquela barriga era algo estranho para uma gravidez. 

Viro-me para trás e peço-lhe delicadamente que valide o título de transporte. Ela olha-me de cima a baixo e diz-me «valido já, senhor!», esperando que entretanto vendesse mais alguns bilhetes para me apanhar distraído. Mas eis que ela se dirige ao validador, o mesmo acende a luz vermelha e senta-se. Observo tudo pelo espelho retrovisor. E começo a ver sair de um saco, vários pares de calças, aos quais se juntam um que sai debaixo do vestido. Descontraída começa a dobrar as calças, par por par. Peço-lhe novamente que valide um título de transporte válido porque "gravidez" além de não ser doença, também não é livre trânsito nos transportes. Sim ainda há quem confunda prioridade com gratuitidade. 

Chateada grita comigo que «já passei e não me vou levantar novamente para passar». Digo-lhe que deu luz vermelha e que para se transportar tem de dar verde ou adquirir um bilhete. Mas insiste: «Não me vou levantar outra vez que venho cansada! Já o conheço à anos e nunca implica e hoje tá a implicar?» ... e juro-vos, nunca vi tal personagem desde que trabalho na Carris, mas tudo bem. Ela insiste em dizer que não sai do eléctrico e eu insisto em dizer-lhe que não lhe estou a pedir para sair. Apenas para validar ou comprar um bilhete, porque isto da paciência, também tem limites. Ela entretanto levanta-se e diz-me já menos exaltada, que o melhor é mesmo sair e ir no próximo. Pede-me desculpa mas que não tinha o cartão carregado. Eu explico-lhe que a forma como entrou não foi correcta e que apenas me limito a fazer o meu trabalho, despede-se com um «tá-se bem chefe!» 

E lá sai com a barriga mais leve e o saco mais composto, porque afinal de contas a gravidez era outra. Já dizia o outro... "E esta hein?!"


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Vamos dar as boas vindas a Setembro com o regresso às aulas

Chegou a hora do câmbio. Os nossos "avec's" regressam aos países onde procuraram ser felizes e os nossos turistas regressam do lá fora cá dentro. Bem quanto aos estrangeiros, esses estão sempre num vai e vem constante que já nem se dá conta. Lisboa fervilha com o turismo, mas agora com a chegada de Setembro, começará também a fervilhar novamente com as filas de trânsito. O pára-arranca constante provocado também pelo regresso às aulas porque longe vão os tempos em que apenas o transporte público era o transporte ao alcance de muitos. Hoje os carros particulares abundam nas portas das escolas. «É só um minuto para deixar o menino na escola...», depois mais um minuto ali, outro mais à frente e lá se chega ao terminal com um bom atraso. 

Setembro é sempre assim, e com ele costumam vir também as primeiras chuvas apesar do tempo andar também ele já todo trocado. Afinal de contas tudo parece estar em constante mudança e mudanças são sempre prometidas em tempo de campanha eleitoral para as Autárquicas. É já em Outubro, por isso Setembro será também um mês de reflexões, e de conclusões das obras ainda em curso numa azáfama constante entre máquinas e trânsito para mostrar trabalho feito. Lisboa está mais bonita, mas promete-se sempre mais e nessas promessas estão sempre os eléctricos. 

Assim foi sempre que me lembro, por isso chegou a hora de deixar para trás as boas memórias das férias, e cair na realidade de um regresso nunca desejado. Dêem as boas vindas a Setembro e boas viagens nos veículos da CCFL, na esperança que mais e melhores transportes passem da promessa à realidade numa cidade cada vez mais turística e bonita como Lisboa, onde também os lisboetas precisam de melhor mobilidade. 

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