domingo, 7 de maio de 2017

E vão 10... a conduzir lisboetas e estrangeiros pelas colinas de Lisboa


Foto de Rafael Santos.E vão 10! Em 2007, neste mesmo dia 7 de Maio, começava uma nova etapa na minha carreira profissional. Depois de crescer no bairro de Alfama no meio do vai e vem constante dos eléctricos que cruzavam as Escolas Gerais, e de ter escolhido o jornalismo televisivo como formação profissional após o ensino secundário, quis o destino que fosse aos comandos dos eléctricos que viria a passar grande parte do meu dia-a-dia. Interessado desde cedo pelos transportes públicos, nomeadamente os da Carris porque eram os que me levavam e traziam da escola, a entrada da Carris viria a mostrar-me o outro lado da empresa, passando assim a ver como funcionavam as coisas do lado de dentro e passava também eu a representar essa marca centenária.
Em 2012, durante a formação de Eléctricos Articulados com o
formador Cardoso e com o colega Gaspar...


Inscrevi-me como Guarda-freio depois da passagem pela televisão e de 6 anos no comércio têxtil, mas as vagas existentes eram apenas para motoristas. A falta de trabalho na televisão e o querer mudar de rumo fez com que não ficasse na paragem à espera da próxima chamada e entrei a bordo de uma nova aventura pelas ruas de Lisboa. Concluída a formação, apresentei-me na Estação da Musgueira onde permaneci durante 3 anos efectuando serviço em todas as carreiras afectas nessa estação de recolha e de Cabo Ruivo. Passados os 3 anos surge então a oportunidade de me transferir para a Estação de Santo Amaro, passando assim a desempenhar as funções de Guarda-Freio. 

Os anos passaram e já vão 10... 10 anos ao serviço da Companhia Carris de Ferro de Lisboa, com um percurso interessante, na medida em que esta nova aventura levou também à criação deste blogue, onde tenho vindo a partilhar convosco, histórias e situações do dia-a-dia de quem conduz milhares de passageiros por dia. Depois também de forma inesperada surge a oportunidade de editar um livro com as melhores histórias aqui relatadas. E foram muitas. Juntei assim a paixão pela condução do transporte público, ao da escrita.

Na carreira 15E de autocarro devido à
prova do etapa do Rally de Portugal
Mais recentemente a publicação de um novo livro numa edição de autor, permitiu-me juntar igualmente duas paixões: Lisboa e Praga vistas através do fascínio que uma viagem de eléctrico nos proporciona. Digamos portanto que esta opção de entrada na Carris acabou por ser uma boa opção na altura, no entanto muitos espinhos foram surgindo neste percurso, porque nem sempre é fácil lidar com o público cada vez mais exigente e conduzir um transporte numa cidade onde há cada vez menos respeito pelo transporte público. Depois a conjuntura do país nos últimos anos não foi a melhor e o sector dos transportes foi dos mais penalizados. Passei a conturbada fase das Greves, cortes, supressão de carreiras e redução do pessoal tripulante, que originou um desgaste a quem dava a cara pela empresa, mas não atirei a toalha ao chão e apesar de mais complicado, permaneci na esperança de um novo rumo. 

Não nego que ao longo de 10 anos, não tenha ponderado sair e procurar uma nova carreira lá fora, mas com algum esforço e empenho, optei por ficar e manter-me a representar as cores da Carris, sempre com o mesmo brio profissional que impus desde o primeiro dia, apesar de ter dias melhores que outros, como todos nós tempos, mas afinal de contas até a Carris já teve dias melhores e piores. O ciclo da vida é assim mesmo e resta-nos tentar fazer melhor amanhã e dar o nosso melhor a cada dia. Espero assim, que a situação actual da empresa melhore, e que se volte a apostar no modo eléctrico como tantas vezes se promete em campanhas eleitorais. 

Quanto ao futuro, que venham mais 10... 20... Os que sejam, mas acima de tudo com saúde, força e paciência para enfrentar o dia-a-dia aos comandos dos eléctricos (e por vezes autocarros) pelos carris de Lisboa, sabendo desde já que 2017 será sem dúvida um ano marcante.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Chegou a época (do passo) do Caracol!

E eis que estamos em Maio! O primeiro mês sem "r" e como manda a tradição abre-se assim oficialmente a época do caracol. Do liso ao riscado, do mais graúdo ao mais miúdo, sempre acompanhado de uma "loira" ou de uma "cola", num pratinho ou numa travessa, é à vontade do freguês. Mas nem só na mesa se serve o caracol... 

Não seria de todo má ideia colocar os típicos letreiros com a inscrição "Há Caracóis" em toda a extensão dos carris entre o Largo da Madalena e a Rua de São Tomé, porque de facto ali naquela zona histórica de Lisboa só se anda mesmo a passo de caracol. Como diz a letra de Luis Fonsi, é "pasito a pasito, suave suavecito..." para se subir ou descer aquele troço cada vez mais saturado de carros, tuk-tuks, autocarros, táxis, eléctricos, ligeiros, etc... Chegamos a demorar 20 minutos para fazer um caminho que normalmente se faz em 4 minutos porque tudo afunila em São Tomé no estreito que estava apenas preparado para a época das carroças e quando passava um eléctrico a cada 20 minutos. 

Mas mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e são cada vez mais os carros a circularem numa zona que devia estar restrita a moradores e transportes públicos. A ausência de semáforos e a falta de respeito leva a que diversas vezes o trânsito pare até que tenha de chegar a polícia para resolver. O problema é que nem sempre a polícia está por perto - mas devia -  e quando assim é, digamos que é o salve-se quem puder e lá vamos nós viajando a passo de caracol, com os automobilistas a colocarem a cabeça de fora a ver o que se passa, parecendo os corninhos dos caracóis quando estão ao sol. Depois lá se anda mais 2 metros e lá se pára novamente e é isto a tarde toda.

A viagem do 28 atrasa-se à semelhança do 12 e as paragens vão enchendo, ao ponto de quando chegamos à paragem, já serem os próprios eléctricos que empatam porque demoram imenso tempo na paragem porque a venda de bilhetes é mais demorada porque os passageiros são mais e depois tudo é uma bola de neve porque se o eléctrico não anda depois os que vão no sentido contrário também não passam e pronto, estamos novamente num beco sem saída. 

Mas até quando é que a Câmara Municipal de Lisboa, a Carris, a Junta de Freguesia, ou quem quer que seja, decide resolver o problema que se vive diariamente naquela artéria histórica da cidade? Até quando é que aquela "selva" onde os traços contínuos são para os tuk-tuks como são as fitas coloridas para a árvore de Natal, ou seja, para decorar? Até quando é que quem está a trabalhar é poupado de tanto martírio? Até quando é que os autocarros de turismo continuam a ir para a Sé onde não têm condições para tomar ou largar passageiros? Até quando é que a polícia municipal vai assistindo a isto tudo de braços cruzados? 

Sim porque o verão está à porta e se em Maio é a "açorda" que se vê então os próximos meses prometem ser uma verdadeira caldeirada onde os tripulantes voltam constantemente a sair fora de horas, porque simplesmente e cada vez mais cada um que anda na estrada, pensa única e exclusivamente no seu umbigo. Até quando vamos continuar a prestar um serviço nestas condições onde chegamos ao fim do serviço completamente exaustos? 

Até quando??

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