terça-feira, 5 de maio de 2015

Reflexão...

Nem tudo é um mar de rosas neste constante vai e vem pelas ruas de Lisboa. E a juntar às inúmeras viagens, que cada vez mais acontecem numa cidade cada vez mais caótica, onde os tuk-tuk usam e abusam da via, onde os eléctricos vêm a sua vida cada vez mais complicada, onde as pessoas desesperam pela chegada de um transporte, estão os espinhos que a própria empresa nos vai colocando no caminho e que nos vão cada vez mais desmotivando, por muito gosto que se tenha pelo que se faz.

Longe vão os tempos em que na Carris as pessoas existiam além de um número mecanográfico. Hoje esse número serve apenas de adereço, porque o que interessa é o serviço estar feito sem olhar a meios. Faça chuva ou sol, não interessa a opinião de quem anda no terreno. Não interessa o horário a que se sai, não interessa se está ou não a ser respeitado o AE, não interessa se somos respeitados, nada parece interessar. 

Os passageiros parecem finalmente ter ganho a empresa como sua aliada e o clima que se vê é generalizado e dado ao descontentamento. Quem ia para as estações com gosto, vai actualmente com algum custo, porque ao contrário de muitas empresas que gostam de ver os trabalhadores satisfeitos aqui parece que o lema é diferente. Mas acredito que seja uma fase, aliás acredito e partilho esta opinião, porque há 41 anos atrás deu-se algo que me permite publicamente expressar o que penso - o 25 de Abril, que foi comemorado recentemente, assim como o 1º de Maio, que marcou algo importantíssimo que muitos pretendem descurar e sinais disso são as grandes superfícies comerciais que se dão ao luxo de propagandear preços de arromba, para esse dia. Assim tem sido nos últimos anos. 

Mas se muitos pensam que a repressão acabou há 41 anos, há casos que nos deixam a pensar se assim terá sido e eu bem que tenho pensado durante cada dia de trabalho na empresa que orgulho-me de representar pela sua história. Tudo o que tenho dado à empresa foi feito com brio, empenho, dedicação e paixão, algo que por vezes é visto como coisa de malucos. Mas há quem goste de aviões, barcos, e eu gosto de autocarros e eléctricos, eu gosto da Carris. Contudo, tive conhecimento esta semana que dia 19 de Maio, estarei suspenso. Alega a empresa que desrespeitei uma ordem de um superior hierárquico, esquecendo esta, que a ordem dada foi ilegal, não só pelo facto de haver uma greve às horas extras no período em que foi dada a ordem, mas também porque no AE nada me obriga a fazer horas extras, não falando da forma abrupta com que fui abordado pela referida hierarquia. 

Algures em Novembro após uma avaria de uma chapa, o controlador da carreira 25E obrigou-me a fazer o horário dessa chapa que faria com que saísse do serviço após o horário previamente estabelecido, contudo, por ter assuntos do foro pessoal nesse mesmo dia, informei que não poderia fazê-lo, sabendo à partida que haviam meios disponíveis no local para o fazer e consciente de que nenhum passageiro iria ficar sem se transportar, por se tratar do último carro da carreira naquele dia, e que recordo, não era o meu serviço. A hierarquia em causa nem quis saber o porquê de eu não poder naquele dia colaborar, ao contrário de tantos outros, em que sempre que possível fui colaborando. Fizeram questão de me dizer via rádio, que não me estavam a pedir nada, mas sim a ordenar, talvez bem há semelhança do que acontecia há mais de 41 anos atrás, pelas histórias que me vão sendo relatadas desse período pré-revolução. 

Ferido no meu orgulho, mas consciente dos meus actos, no dia 19 de Maio, estarei impossibilitado de estar ao serviço e esse dia será descontado no meu vencimento, mas há males que chegam por bem, e no tão apregoado provérbio que a empresa usa, de que uma mão lava a outra, agora dia 19 lavarei com as duas a cara. Continuarei acima de tudo, a representar a empresa com o mesmo brio e profissionalismo, porque ao contrário dessa hierarquia, jamais faltarei ao respeito a um colega, porque para se ser respeitado temos de nos dar ao respeito. 

Como disse um dia Friedrich Nietzsche, «o que não me destrói, torna-me mais forte» e continuarei a desempenhar as minhas funções dando sempre o meu melhor, esperando igualmente que as pessoas aprendam de facto o que foi a Carris para que possam hoje representar e bem esse nome.

2 comentários:

Rui Ribeiro disse...

Triste, muito triste.
Já vi fazerem pior, por piores motivos e ainda assim nada acontece.
Força e coragem!

josé afonso Santos disse...

Gostei !

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