Frio, muito frio. Queixamos-nos nós como se estivéssemos perante temperaturas negativas, ou porque queríamos estar no quente do lar em vez de andar na rua. Ou porque andamos num eléctrico antigo sem chauffage, quando outros andam no pópó quentinhos. Mas então e que dirão aqueles que nem um conforto do lar têm ao seu dispor, aqueles que vivem debaixo da arcada ou que dormem embrulhados num papelão. E poderia aqui continuar a enumerar situações que diariamente nos passam ao lado, e que só nos chama a atenção quando as temperaturas baixam radicalmente.
O certo é que o frio que se passa num eléctrico tradicional durante o inverno, sobretudo para quem o conduz, já que o passageiro está de passagem, acaba por ser quente para quem não tem onde estar ou com quem estar. O abrir e fechar da porta que é crítico para o guarda-freio que quando tem as mãos prestes a aquecerem, gelam novamente com o vento gélido que entra pela porta que não fecha mais rápido porque nestes dias todos se lembram de respeitar a fila demorando a entrarem, graças às inúmeras cerimónias... «entre que está primeiro...», «Não, você já cá estava...», «Entre lá que cabemos todos...»
Mas nesta semana, que tenho andado pelas madrugadas, encontrei um senhor que ao que parece, procura diariamente o calor do eléctrico para combater a madrugada fria que se faz sentir na rua. Não sei a sua história de vida nem se tem ou não abrigo. Com idade avançada e passe válido, entrou-me há dois dias no Marim Moniz na viagem das 6h15. Deu-me os bons dias e sentou-se no último lugar do eléctrico bem junto à porta da saída. Os seus lábios roxos do frio que se fazia sentir lá fora pouco mais se abriram durante a viagem até ao Calhariz da Bica.
Dois dias depois, volto a encontrá-lo mas na viagem das 7h15 e de sentido oposto. Com as temperaturas mais baixas ainda, as suas muletas pouco pareciam ajudá-lo. As articulações custavam a dobrar e o rosto vinha mais coberto ainda. Validou o título de transporte e pediu-me para esperar que se sentasse porque «hoje estou com receio de cair» e mais não disse. Daquele rosto sombrio com os lábios roxos gretados do frio apenas se ouvia um gemer. E lá foi até ao Martim Moniz onde demorou bastante até conseguir sair do eléctrico. Sem dúvida que dá que pensar. De facto a solidão é triste, sobretudos em dias como estes em que o frio vence tudo e todos.
Tentei fotografar o senhor no terminal quando ele se preparava para sair, e de forma a que não se visse o seu rosto, porque aqui não interessa de quem se trata porque não é apenas um caso deste tipo que temos diariamente nos transportes públicos, mas sim muitos, o que prova uma vez mais a importância que também nós temos nesta sociedade cada vez com menos valores morais e sociais.














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