quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Frio, solidão e um papel social cada vez mais presente nos tempos que correm a bordo dos transportes públicos

Frio, muito frio. Queixamos-nos nós como se estivéssemos perante temperaturas negativas, ou porque queríamos estar no quente do lar em vez de andar na rua. Ou porque andamos num eléctrico antigo sem chauffage, quando outros andam no pópó quentinhos. Mas então e que dirão aqueles que nem um conforto do lar têm ao seu dispor, aqueles que vivem debaixo da arcada ou que dormem embrulhados num papelão. E poderia aqui continuar a enumerar situações que diariamente nos passam ao lado, e que só nos chama a atenção quando as temperaturas baixam radicalmente.

O certo é que o frio que se passa num eléctrico tradicional durante o inverno, sobretudo para quem o conduz, já que o passageiro está de passagem, acaba por ser quente para quem não tem onde estar ou com quem estar. O abrir e fechar da porta que é crítico para o guarda-freio que quando tem as mãos prestes a aquecerem, gelam novamente com o vento gélido que entra pela porta que não fecha mais rápido porque nestes dias todos se lembram de respeitar a fila demorando a entrarem, graças às inúmeras cerimónias... «entre que está primeiro...», «Não, você já cá estava...», «Entre lá que cabemos todos...»

Mas nesta semana, que tenho andado pelas madrugadas, encontrei um senhor que ao que parece, procura diariamente o calor do eléctrico para combater a madrugada fria que se faz sentir na rua. Não sei a sua história de vida nem se tem ou não abrigo. Com idade avançada e passe válido, entrou-me há dois dias no Marim Moniz na viagem das 6h15. Deu-me os bons dias e sentou-se no último lugar do eléctrico bem junto à porta da saída. Os seus lábios roxos do frio que se fazia sentir lá fora pouco mais se abriram durante a viagem até ao Calhariz da Bica. 

Dois dias depois, volto a encontrá-lo mas na viagem das 7h15 e de sentido oposto. Com as temperaturas mais baixas ainda, as suas muletas pouco pareciam ajudá-lo. As articulações custavam a dobrar e o rosto vinha mais coberto ainda. Validou o título de transporte e pediu-me para esperar que se sentasse porque «hoje estou com receio de cair» e mais não disse. Daquele rosto sombrio com os lábios roxos gretados do frio apenas se ouvia um gemer. E lá foi até ao Martim Moniz onde demorou bastante até conseguir sair do eléctrico. Sem dúvida que dá que pensar. De facto a solidão é triste, sobretudos em dias como estes em que o frio vence tudo e todos.

Tentei fotografar o senhor no terminal quando ele se preparava para sair, e de forma a que não se visse o seu rosto, porque aqui não interessa de quem se trata porque não é apenas um caso deste tipo que temos diariamente nos transportes públicos, mas sim muitos, o que prova uma vez mais a importância que também nós temos nesta sociedade cada vez com menos valores morais e sociais.    

domingo, 17 de novembro de 2013

Amor às voltas na carreira "carrossel", onde a senha de demasia faz milagres!

O frio chegou e congelou as ideias dos nossos passageiros. Esquecem-se que o eléctrico, tal como o autocarro não é uma caixa multibanco, e tentam a todo o custo dificultar ao máximo a tarefa de quem tem de vender um bilhete sempre que solicitado. Da Praça da Figueira para o Castelo poucos minutos são necessários e muitos menos seriam se os nossos queridos passageiros facilitassem os trocos. Mas para quê levar trocado se podemos levar 20 euros?, poderão questionar alguns. 

Assim foi quase toda a manhã, na carreira "carrossel" da Carris. Num vai e vem constante à Praça da Figueira, em muito, idêntico ao jogo do lenço mas com a diferença que ali ando sempre sentado em todas as voltas, lá fui levando os mais corajosos que enfrentaram o frio para rumar até ao Castelo de São Jorge. 

GF: -Bom dia...
TUR: -2 entradas por favor.
GF: -5.70€ se faz favor.
TUR: -Este billete no es válido?(mostrando um bilhete da viagem anterior). 
GF: -Não, esse bilhete já não é válido, pois é apenas para uma viagem.
TUR: -Pero sólo tenemos € 5.50.
GF: -Então terá de arranjar mais 20 cêntimos...
TUR: -Tienes cambio de 50 euros?
GF: -Lamento mas não. 

E de imediato apareceu uma nota de 10€, isto para quem só tinha 5.50€. Mas na volta seguinte, ao mesmo tempo que os trocos iam "voando" ao ritmo das voltas que ia dando, eis que entra determinada e com uma nota de 20€, uma senhora portuguesa que queria apenas "dar uma volta". 

GF: -São 2.85€ por favor.
Cli: -Aqui tem (estendendo-me a nota de 20€)
GF: -Peço desculpa mas não me arranja nada mais pequeno? É que não consigo já ter troco para 20€.
Cli: -Desculpe lá mas não tenho. Mas o senhor tem de ter troco!
GF: -Pois bem, arranjo-lhe troco até 10€ e passo-lhe uma senha de demasia e posteriormente a senhora dirige-se a um posto de venda da Carris e recebe a quantia em falta, se assim preferir. 
Cli: -Não, isso não. Era só o que me faltava. Mas espere lá deixe-me ver se tenho aqui trocado... (abre a carteira repleta de moedas e eis que...) Afinal tenho aqui 2.85€.
GF: -Aqui tem o seu bilhete, muito obrigado.

Ora afinal de contas a senhora até tinha trocado. Afinal de contas a senhora, à semelhança de tantos outros, pensava mesmo é que o guarda-freio que pediu 2.85€ pelo bilhete, era uma voz mais masculina de um qualquer inovador ATM que não diz "retire o seu dinheiro", mas que pouco falta. Que não aceita cheques, mas que por vezes fica sem dinheiro. Que não cospe papel, mas que entrega bilhetes e que ao contrário de anúncios mostra a cidade através das janelas do eléctrico que percorre os carris faça frio ou calor. 

E por falar em calor, esta manhã fria acabaria com um passeio de um casal que comemorava os 60 anos de casamento. Com alguma idade o casal entrava no eléctrico após um farto almoço. A esposa ainda não sendo cliente dos aparelhos auditivos apresentados pelo Júlio Isidro, perguntava em alto e bom som ao marido pelo troco do almoço. O marido sabendo da dificuldade da escuta da receptora, berra-lhe ao ouvido que «troco não houve. Ainda tive de acrescentar 2 euros Alice. Foram 22 euros!» e esta nem queria acreditar. «22 euros o almoço? Não pode ser...» 

Trocavam carícias como se tivessem recuado 60 anos e diziam aos turistas que viajavam no banco de trás que foram até agora 60 anos de muito amor e amizade. «Raramente almoçamos fora, pagámos bem mas comemos bem! comemoramos 60 anos de casados» dizia o marido ao turista que não estava a entender nada... Mas isso não interessava para nada. A felicidade estava estampada no rosto e descrita a cada palavra. «Agora desfruta da viagem», rematava o senhor para a sua amada. E lá prosseguiram para mais uma volta na carreira 12E.

E assim se espalhou o amor na carreira pela qual não morro de amores...

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

"Diário do Tripulante - O livro" já chegou ao 28Café

Depois de percorrer as prateleiras das livrarias e feiras do país, de andar pela montra da rede social, o livro do «Diário do Tripulante» chega agora também ao 28Café. Com o Natal à porta, esta iniciativa pretende fazer chegar o livro a quem o procura e sendo o 28Café actualmente um ponto de passagem obrigatório numa visita ao Castelo, fazia todo o sentido a presença deste livro que relata as histórias do dia-a-dia a bordo do transporte público. 

Se para alguns o efeito surpresa surge ao folhear, para outros é um reviver de situações e um recordar do passado que foi vivido a bordo dos «amarelos» da Carris. Já tem assim mais uma ideia para aquele presente de Natal que faltava. Se a ida até ao 28Café até pode ter sido conduzida pelo autor do livro a bordo do 28, porque não saborear uma boa refeição neste acolhedor café no coração de Lisboa, levando para casa uma recordação do café e claro da viagem a bordo do 28. 

O 28Café fica na Rua de Santa Cruz do Castelo, 45 a 47A, 1100-479 Lisboa e está aberto todos os dias das 10h às 19h com excepção feita para a terça-feira que é o dia do descanso para os tripulantes deste eléctrico que além de nos satisfazer e bem a gula, conta-nos também a história do eléctrico até aos dias de hoje e deixa quem por lá passa fascinado como foi o caso das turistas que não quiseram partir sem uma foto de recordação. 

Para quem não consegue chegar até ao 28Café recordo que o livro pode ainda ser adquirido online através do mail livro.diariotripulante@hotmail.com ou através da página do Facebook em www.facebook.com/diariodotripulante .

terça-feira, 12 de novembro de 2013

De Lisbonne à France avec le "Mediterraneo" dans le tram 28

Et voilá, hoje recebi no eléctrico 28E a equipa de reportagem da cadeia de televisão France 3 que está em Lisboa a fazer uma reportagem sobre o Eléctrico 28 e sobre o livro que teve origem neste blogue - o Diário do Tripulante.  Levei-os então a conhecer as ruas estreitas de Alfama com direito a uma paragem no Miradouro das Portas do Sol ainda antes de iniciar o meu serviço. Se a entrevista a bordo enquanto passageiro se tornou numa tarefa complicada dada a afluência de passageiros no interior, quem nem sempre vêem com bom agrado a presença de uma câmara de televisão, outros há que aproveitam para chamar a atenção do que vai mal, com o objectivo de serem também eles entrevistados. 

Confesso que também eu continuo a preferir estar atrás das câmaras e hoje vontade não faltou para ser eu a fazer a reportagem no que a imagem diz respeito, fazendo-me recordar o meu trabalho anterior que tantas saudades me deixou. Mas a equipa de reportagem vinha bem preparada e com muita paciência à mistura. Falei sobre o 28E e na sua importância na cidade das sete colinas, falei de algumas situações mais marcantes enquanto guarda-freio e claro está, sobre o livro que conta o dia-a-dia de quem anda aos comandos dos "amarelos" de Lisboa.

O dia foi longo e cansativo, mas no final acaba sempre por compensar até porque assim se leva até além fronteiras o que de bom há por cá. Assim se dá a conhecer a Lisboa antiga a bordo de um dos transportes mais característicos e emblemáticos de Lisboa. Os repórteres da France 3 mostraram-se surpreendidos com o percurso sinuoso e único da carreira 28E e tinham já encontro marcado comigo para o final do serviço, porque quiseram no fundo acompanhar um dia de trabalho de um guarda-freio em Lisboa. Antes e como não podia deixar de ser ainda fiquei "preso" numa interrupção devido a um carro mal estacionado, que acabou por atrasar a chapa em 30 minutos em plena hora de ponta. Mas por incrível que pareça, hoje os passageiros estavam compreensíveis e tolerantes aos atrasos, assim fosse todos os dias.

A próxima paragem é a do Castelo onde lhes vou a dar a conhecer o novo 28 - o do café, que conta também a história dos nossos eléctricos enquanto se pode degustar os sabores portugueses. Por hoje foi assim e amanhã lá termino mais uma semana, a bordo do eléctrico turístico. Resta-me então desejar-vos boas viagens a bordo dos veículos da CCFL e agradecer o convite e a simpatia demonstrada ao longo do dia pela equipa da France 3, que espero, tenham gostado da viagem.

sábado, 9 de novembro de 2013

O "massador" e desejado reembolso na 15E

Sábado calmo este que agora chega ao fim. Manhã na 12E e umas voltas a um "carrossel" que continua a não convencer-me. Quem me tira a 28E tira-me tudo porque digam o que disserem, o tempo na 28E passa muito mais rápido. Ainda assim hoje o serviço até correu bem a bordo da carreira da Mouraria que ajuda também os turistas numa ligação mais rápida e directa ao Castelo de São Jorge. 

Já depois da pausa do almoço, onde aproveitei uma vez mais para visitar o 28café, até porque duas horas de pausa dá para almoçar e quase lanchar, lá fui para a segunda parte do meu serviço de hoje e desta feita na 15E, precisamente na altura em que a manifestação dos trabalhadores dos transportes percorria as ruas da baixa em direcção ao Ministério das Finanças. Mas desta vez não afectou a circulação dos eléctricos, ao contrário do que acabou por acontecer já ao final da tarde na Rua da Junqueira junto ao Centro de Congressos que hoje teve bastante concorrido, a julgar pela quantidade de carros que invadiram os passeios, num salve-se quem puder em busca de um estacionamento.

Numa das viagens tive mesmo alguma dificuldade em efectuar paragem de forma a que os passageiros pudessem entrar e sair em condições. E precisamente por causa de um carro mal estacionado, a circulação ficaria interrompida devido a um acidente e lá recebi ordens para ficar a trabalhar entre Belém e Algés quando vinha já no CCB com destino ao Cais do Sodré.

Informei os passageiros pelo intercomunicador do eléctrico do sucedido, o que causa sempre algum bruaá no interior de um articulado onde circulam maioritariamente turistas. Mas quando pensava que ia ter uma tarefa árdua em explicar em várias línguas o motivo de ter terminado a viagem em Belém, eis que me deparo apenas com uma inglesa a perguntar-me por alternativas e uma portuguesa que me moeu a paciência por causa do bilhete que tinha comprado a bordo. 

-"Desculpe lá, mas vim para Algés, paguei 2.85€, agora venho de Algés e volto a pagar 2.85€ quando a tarifa da Carris é 1.80€. Fico a meio e dá-me alternativa de apanhar o autocarro, portanto quero ser reembolsada." dizia de forma veemente a passageira já na raquete de Belém . Expliquei-lhe que não teria de se preocupar uma vez que os acidentes são imprevistos e o bilhete que tinha adquirido era válido até ao seu destino final. Mas a senhora voltava a dizer que "isto é um roubo e tenho direito de ser reembolsada..." e eu explicava-lhe que não tinha razão porque não ia ficar sem se transportar, uma vez que tinha o 714 e 728 como alternativa para o Cais do Sodré.  

Mas ela fazia questão de reafirmar que "você não está a perceber. Paguei 2.85€ e agora vou ter de mudar para o autocarro que custa 1.80€! Paguei mais por um serviço que me vai ser prestado por um meio de transporte que custa menos." E lá tive de ganhar mais paciência e explicar-lhe com mais calma o seguinte. "A senhora repare. Os autocarros custam 1.80€ e os eléctricos 2.85€ independentemente da carreira. A senhora se tivesse adquirido um título de transporte pré-comprado teria pago menos, contudo recordo que os acidentes são imprevistos e neste caso não fica sem se transportar, mas se a sua questão é o facto de prosseguir o resto da viagem num autocarro, pode sempre optar por aguardar na paragem que fique livre o percurso e seja restabelecida a carreira 15E..." e eis que indignada, lá me disse novamente que teria de ser reembolsada. Digo-lhe que já lhe dei as hipóteses e ajuda que estava ao meu alcance enquanto guarda-freio. Quanto ao resto poderá sempre apresentar a reclamação junto a quem de direito. 

Afinal de contas ela nem reclamava por ter de mudar de veículo e ter de esperar ou ter perdido o lugar sentada para ter provavelmente prosseguir de pé no autocarro. O que ela queria mesmo era o reembolso de 1.05€ que era a diferença do que pagou em Algés quando entrou no eléctrico. Ou seja, quando pensamos que já ouvimos de tudo eis que surge uma alma para nos contrariar e moer o juízo. 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Nos bastidores dos eléctricos (III): A folha que parece manteiga e a areia que parece fazer milagres...

Hoje enquanto aguardava que o "homem dos queijos" fizesse as suas entregas na Rua da Graça porta sim, porta não, decidi registar esta imagem que pouca gente dará tanta importância como nós guarda-freios. As primeiras chuvas são péssimas para os eléctricos devido à gordura acumulada nos carris, mas se a isso juntarmos a folha caduca então o melhor mesmo é ter atenção redobrada, reduzir a velocidade e claro está ter os areeiros bem compostos porque a areia é uma preciosa ajuda. Com a diminuição do período diurno, a descida da temperatura e aumento de humidade, observamos a queda das primeiras folhas, sabemos que o equinócio do Outono está a chegar.

"Mas porque é nesta altura do ano que caem as folhas?" questiona o site ciência viva na imprensa regional e a resposta também lá está... 

"Tal como muitos animais hibernam em períodos de frio para assegurar a sua sobrevivência em períodos que têm menos alimento disponível e condições climáticas extremas, também as plantas terrestres (inferiores e superiores) têm os seus mecanismos, que asseguram a biodiversidade de flora que o Homem tem disponível. Com a diminuição de luminosidade as folhas caem e as plantas entram num período de dormência, que finaliza mais um ciclo. Este é um mecanismo de defesa e poupança de energia para na Primavera, quando todas as condições ideias estão reunidas, sermos presenteados com o espectáculo que todos apreciamos, o brotar dos primeiros rebentos e o desabrochar das primeiras flores, formando tapetes de cor indescritíveis e de uma beleza inigualável". 

Mas teorias e naturezas à parte, o certo é que este é dos períodos mais propícios a deslizes e chega então a altura de se pressionar mais a betoneira do areeiro. Sim o eléctrico tem areia! Muitos desconhecem mas ela é uma grande ajuda para criar aderência entre as rodas e o carril evitando assim a patinagem. Se muitos acham estranho o som projectado no interior cada vez que é accionado o botão do areeiro, outros que por lá andam há muitos anos e que fazem do eléctrico o seu transporte diário chegam mesmo a dizer "mete areia!".

A assim fica desvendado o porquê da existência de areia nos carris.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

[Off Topic]: Lisbon: This is my city... This is my life...

A semana terminou com turistas e para eles e para os que tencionam passar férias, eis um olhar sobre Lisboa, um dos melhores destinos europeus. Sejam bem-vindos a Lisboa.


Welcome to Lisbon... My city and my life!


Boas viagens a bordo dos veículos da CCFL.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Troca de galhardetes por causa da muleta no salve-se quem puder a bordo do 28

Gostava de ter presenciado os gloriosos anos em que os eléctricos eram abertos e entrava-se e saia em andamento, em que se empoleiravam em busca de um lugar ou simplesmente de uma boleia, do tempo em que o cobrador aparecia ou fiscal era respeitado, do tempo em que os senhores de cartola e as senhoras de chapéu eram respeitados e davam-se ao respeito, mas o certo é que longe vão esses tempos e hoje é o salve-se quem puder porque quem vem atrás que feche a porta. Assim vão os dias a bordo do transporte público na capital portuguesa, como em qualquer outro lugar do Mundo.

E nem a teoria de que os velhos devem dar o exemplo permanece válida porque hoje na 28E o clima esteve aceso entre São Bento e a Calçada do Combro e tudo porque uma senhora já com alguma idade, tocou sem querer com a sua muleta numa outra senhora de idade que estava sentada no lugar em frente que não gostando do descuido lá disse: «Bolas, que a senhora é bruta. Tomara eu aguentar com as minhas dores, quanto mais levar com a sua muleta...»

Indignada, por não ter sido desculpada pela referida senhora, a passageira da muleta, pediu desculpa e fez questão de frisar que não tinha sido propositado. «A senhora não vê que foi sem querer? Não tive a culpa de me desequilibrar e cair para o seu lado, tocando-lhe com a muleta...» E a outra voltava a queixar-se da falta de cuidado, mas o certo é que viajava já comodamente sentada quando a outra lhe tocou ao sentar-se. Mas a segunda não se ficou por ali. «Já lhe pedi desculpa, mas a senhora é muito parva. Apesar de eu ser velha, preferia desequilibrar-me para cima de um cavalheiro do que para cima de si, sua velha jarreta...» E mais não respondeu a "ofendida".

A viagem prosseguia com algumas trocas de palavras entre ambas, chegando mesmo a causar algumas gargalhadas na retaguarda. Mas a cena terminaria já na Calçada do Combro quando a passageira da muleta saiu mas não sem antes recordar à outra passageira que «sou velha e bem sei, mas tu ainda és mais velha que eu, minha rançosa, eeehhhiii», e lá foi com alguma dificuldade descendo os estribos do eléctrico enquanto a outra penetrava o rosto no folheto do Lidl fazendo que não ouvia nada do que vinha já do lado de fora da porta.

E assim foi mais uma viagem na carreira das histórias, a mítica 28E que apesar de tudo continua a fazer parte das minhas preferências.

domingo, 3 de novembro de 2013

De França para Portugal com passagem pelo Brasil...

Se há dias atípicos, hoje foi um deles. Quando tudo parece ir de encontro a nós, então o melhor mesmo é tomar uma boa dose de paciência redobrada. Depois das madrugadas que aqui relatei, regressei ao serviço de turismo, pensando eu que ia ter um dia bem mais calmo que os anteriores, contudo nem o facto de ser Domingo na capital Lisboeta, trouxe a devida calma a uma cidade que se viu uma vez mais inundada de turistas. 

A primeira volta decorreu dentro da normalidade já a segunda teve uma paragem pelo meio devido a um acidente entre terceiros. Não houve outro remédio se não esperar e responder às inúmeras questões que os turistas iam colocando, ora sobre o que visitar ora sobre o tempo que poderia demorar a chegar ao local a PSP, para que pudéssemos seguir viagem. E o certo é que houve até tempo para alguns irem provar algumas iguarias no café mais próximo enquanto eu aguardava que chegasse a polícia e tratasse logo da questão, porque a minha hora de almoço aproximava-se a passos largos. 

Resolvido o acidente, finalizámos então a viagem e lá fui almoçar, procurando pela Baixa, um local sossegado para comer e recuperar energias para a segunda parte do serviço. Segunda parte essa que parecia estar reservada para me causar uma enorme dor de cabeça. Na primeira volta mais uma interrupção e claro está, no sítio do costume, junto à pastelaria Cristal na Lapa, cujo nome foi muito mal escolhido, até porque a sua fama é enorme não só pelos pasteis de nata e pelos seus magníficos croquetes, mas também pelos seus clientes que contam só com o seu umbigo. Na minha opinião o nome da pastelaria devia ser mesmo "o parque", porque os clientes não querem saber de quem vem atrás e estacionam o carro de qualquer maneira, desde que fique o mais próximo da porta. 

Mas afinal esta seria uma interrupção ligeira, porque para a última volta estava então guardada a interrupção do dia. Desta feita vinda de França directamente para Portugal e com a "casa" às costas. Ora turistas franceses decidiram estacionar a auto-caravana na Rua dos Fanqueiros, onde não faltam sinais de alerta para os limites de estacionamento. Sendo a viatura demasiado larga, impedia a passagem dos eléctricos articulados da carreira 15E e por arrasto, a passagem da carreira 12E e do meu turístico. 

Informei-me no local do que se passava e do tempo previsto que é nestes casos, sempre muito relativo. Contudo a dimensão da viatura que impedia a passagem, levava-me a crer que ia demorar. Informei os passageiros, mas eles estavam confiantes numa rápida resolução. Um turista brasileiro, pergunta-me então quanto iria o tipo pagar pela multa e como era o procedimento. Perguntou-me também se era normal por cá este tipo de situações. Disse-lhe que sim, e a vendedora das castanhas que ouvia a pergunta também, concluiu... «é aqui e é em todo o lado! Ninguém respeita ninguém homem!»

Alguns aproveitavam para tirar fotos com o bondinho, já outros começavam já a perguntar como podiam reaver o dinheiro do bilhete porque não tinham tempo para voltar nem para esperar. A certa altura já começava a falar inglês e terminava em francês dada a confusão gerada por todos ao mesmo tempo a quererem uma solução que estava longe de ser resolvida, até porque o reboque que tinha chegado, mostrava-se incapaz de rebocar a viatura, como aliás já tinha comentado. Dois casais espanhóis pedem-me uma sugestão para um bom restaurante e no minuto imediatamente a seguir, uma senhora que já estava há algum tempo na paragem junto ao eléctrico 15E, dirige-se a mim perguntando o porquê dos eléctricos não andarem. 

Explico-lhe o porquê e revoltada a senhora questiona-me se não achava que «devia estar ali alguém da Carris a avisar?», não lhe tirei a razão, mas fiz-lhe ver que não seria por gosto que os eléctricos estavam parados e que todos os passageiros se aperceberam do sucedido, menos ela. Contudo eu estava no último eléctrico e tinha 4 eléctricos na minha frente, não consegui perceber o porquê de vir ter comigo, confesso. Até porque lá na frente as notícias chegariam mais rápido. E lá foi ela em direcção do carro do "Controlo de Tráfego", para expressar o seu descontentamento. 1h15 minutos depois foi reposta a circulação e tudo graças à PSP que uniu forças para colocar em cima do passeio a auto-caravana, para que os eléctricos pudessem passar, porque o reboque esse era incapaz de remover a dita. 

E tudo isto no dia em que até o terminal dos turísticos foi mais procurado pelo facto de ali por perto estarem a gravar um filme brasileiro, com o eléctrico a ser uma das estrelas do filme, numa cidade que é cada vez mais procurada pelos realizadores de todo o mundo. 

Mas por falar em Brasil, não quero deixar de partilhar com todos os leitores, um vídeo brasileiro, que foi gentilmente enviado por um dos seguidores deste Diário do Tripulante. Proponho então uma viagem até ao Brasil, mais precisamente até ao Rio de Janeiro, onde muitas diferenças se tornam em enormes semelhanças, como prova o texto e documentário dirigido pelo realizador Jean Manzon nos anos 1950. 



O Diário do Tripulante agradece ao Hígor de Oliveira, que de Campinas nos enviou este link. 

sábado, 2 de novembro de 2013

Madrugadas na 15E... «Chamem a polícia, que eu não pago...»

Mais uma madrugada daquelas de arrancar os cabelos. Tudo bem que o horário não era de longe dos melhores. Poucos terão até ideia do que é sair de casa às 04h30 e chegar a casa às 16h30, porque claro que não podemos esquecer das deslocações casa-trabalho e trabalho-casa. Eis um dos espinhos desta profissão que outrora foi respeitada e que hoje vai deixando de ser. Como é do conhecimento geral, sobretudo de quem segue este blogue desde 2008, as madrugadas são por mim dispensadas, contudo, por vezes não as consigo evitar, apesar de serem sempre muito procuradas por grande parte da tripulação da minha estação. 

É bom sair cedo? Claro que sim, mas para tal temos de acordar muito cedo e nada melhor que poder desfrutar de um bom sono e não ter de enfrentar situações que já foram diversas vezes relatadas, inclusive na comunicação social, e que me fui habituando a presenciar mais na rede da madrugada quando ainda era motorista na estação da Musgueira.

Ainda assim esta manhã cheguei mesmo a colocar em causa se estaria numa capital europeia minimamente civilizada ou se estaria numa selva. Cheguei de imediato à conclusão que a segunda hipótese era a mais plausível. Só me vinha à cabeça a música dos "Trabalhadores do Comércio", que convido agora a ouvirem enquanto lêem o resto do texto...


Desgraçadas das 4 clientes que seguiam já viagem comigo desde Algés. As paragens do Calvário e Infante Santo, foram um autêntico epicentro de um abalo da maior escala possível, e dizem colegas que por lá costumam andar que nem era dos piores dias. O certo é que parar naquelas paragens fez-me sentir uma revolta interna que se fazia agitar a cada entrada, fosse pela janela, pela porta de trás que forçavam para não fechar ou pela porta da frente que por pouco não caiu.

Fui em minutos, engolido por uma multidão de seres que após gozarem a noite ao som de música e com uns copos na mão, decidem fazer um prolongamento num transporte público, mesmo que sem título de transporte algum. O eléctrico abanava como se uma ventania se fizesse sentir no exterior, e escusado seria pedir calma ou o que fosse, porque a excitação de quem não sabe o que é viver em sociedade era bastante elevada. Por mim passavam ambulâncias em direcção do Cais do Sodré. Polícia? Nem vê-los. Mas afinal onde está a prometida segurança a quem trabalha neste eixo lisboeta? 

Depois da Infante Santo, apenas tive condições de segurança para parar no Cais do Sodré e desejoso estava eu de entrar na 28E que apesar de cansativa e muito procurada por turistas que o enchem a toda a hora, é de longe a melhor carreira que posso fazer, mas antes ainda tinha pela frente uma ida a Algés e respectivo regresso. Solicitei junto da Central que fosse pedida a presença da PSP no local, mas o certo é que nas esquadras o ambiente estava bem mais agradável e certamente sem tantas chatices. 

Lá entrei finalmente às 07h38 no Martim Moniz na carreira 28E, perante um sossego tremendo comparando com as viagens anteriores. Bem dita seja a carreira 28E, onde houve ainda lugar a uma interrupção por quem decidiu ir comprar o jornal Expresso que sai habitualmente aos sábados para a banca. De expresso teve pouco, o senhor que deixou o carro a impedir a passagem do eléctrico. Após tocar insistentemente à campainha  ninguém surgia junto do mesmo e muitos foram os que tiveram de seguir o resto da viagem a pé, pelo menos até Sapadores, porque 15 minutos depois lá aparecia o dono do carro, a dizer que «eu estava só ali a comprar o jornal, nem reparei...», pois claro está. Não reparou nem ouviu a campainha tocar. Cheguei mesmo a pensar que terá ido buscar o jornal à gráfica. 

E lá prossegui então viagem neste dia de trabalho que custou e muito chegar ao fim. Agora o merecido descanso e o regresso amanhã ao circuito das colinas...

    

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Um vazio matinal numa carreira cheia de histórias para contar, eis a 28E...

"Ruas vazias. Noite cerrada e uma geada que deixa qualquer um com vontade de voltar para o conforto do lar. São 04h40 da madrugada e saio de casa para mais um dia de trabalho. As voltas que dou até chegar ao carro, são as mesmas que outros dão ainda na almofada. Há que abrir a "loja" do 28E para levara para a escola ou para o trabalho quem daqui a pouco inicia mais uma jornada..." assim poderia começar o relato de mais uma madrugada pelo coração de Lisboa. Mas em noite de bruxas, que cada vez mais se transforma num evento carnavalesco, a julgar pelos trajes que deambulavam pela cidade, quando além dos amarelos da carris, apenas me cruzei com táxis ou carrinhas de pão neste meu caminho entre casa e a Estação de Santo Amaro.

Copos e garrafas vazias pela estrada era a pontapés. Crise? Qual crise?...

Uma crise mas de sono afectava-me largamente porque como sabem, madrugadas não são mesmo a minha praia. Uma luz âmbar rotativa assinala a marcha da Zorra, o veículo afecto à reparação dos carris, que pela primeira vez vi em serviço porque tal como os morcegos também ela só trabalha de noite. Se no verão nos lembramos dos bombeiros que devem ser lembrados todo o ano, é em dias como estes em que "caio da cama", como dizia um colega, que me faz lembrar na importância daqueles homens que enfrentam o frio da noite, tratando dos carris que percorremos durante o dia. Um bem haja também para eles.

Estava então na hora de rumar para a emblemática 28E. Ruas vazias, lojas fechadas, parecia até que o eléctrico tinha chegado ao campo. Nos prazeres dava até para ouvir os pássaros, ou os passos largos de quem não quer perder o eléctrico que está prestes a partir. -"Bom dia senhor guarda-freio", dizia a senhora quase entre os dentes e ainda o frio não está no seu auge. Olho pela janela e avisto o amanhecer a querer dar um ar de sua graça, com uma claridade que ainda está longe mas que promete trazer algum sol para esta sexta-feira.

Rumo ao Chiado passamos pela Assembleia da República. Rodeada de grades, anuncia a manifestação prevista que poucos recordavam pela manhã. Previa-se portanto constrangimentos na circulação do 28, deixando a pé quem recorre ao eléctrico para a sua deslocação matinal. Os turistas ainda não se viam mas já se fazia prever as questões habituais em dias de manifestações na capital. A acalmia matinal permite-me em algumas paragens onde é solicitada a paragem pelos passageiros, que capte imagens de uma cidade vista através do 28 que tem a cada hora do dia, imagens diferentes dos mesmos locais.

Afinal de contas, quem mais se poderá gabar de trabalhar na mais emblemática carreira de eléctricos da Europa? E porque não do Mundo?...

A manhã chegava então a passos largos e para trás ficava o sossego da noite, a correria dos padeiros e as manobras das cargas e descargas que abastecem os supermercados ainda antes destes abrirem as suas portas. Em seu lugar apareciam então os turistas e em grande número. Com eles veio a esperada manifestação e os cortes, com alguns desvios para a 25E. A prova estava mais que dada, todos os dias são diferentes a bordo da "montanha russa" da capital portuguesa. Hoje foi assim, amanhã será certamente diferente, embora o horário seja novamente para acordar quando a cama convida ainda mais a ficar.  

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