sábado, 29 de dezembro de 2012

Obrigado pelas 177.000 visitas e votos de um Bom Ano 2013

O "Diário do Tripulante" despede-se em grande de 2012. Depois do lançamento do livro «Diário do Tripulante - As melhores histórias e aventuras», numa edição Fonte da Palavra, o blogue acaba de atingir as 177.000 visitas. Recorde-se que em 2012 a página deste espaço que conta o dia-a-dia vivido nos transportes públicos de Lisboa, no facebook alcançou os 500 "passageiros". Estes números dão ainda mais força para que 2013 seja repleto de histórias relatadas, fotografias e vídeos partilhados, seja no blogue, na rede social ou quem sabe, numa livraria perto de si.

A todos os leitores e seguidores do blogue, livro e da página no Facebook, o "Diário do Tripulante" agradece a atenção demonstrada e espera continuar a poder transportá-los em 2013 com muita paz, saúde e alegria. Votos de boas viagens a bordo dos veículos da CCFL.

Se ainda não faz parte desta viagem na rede social, espero poder transportá-lo(a) em 2013 através do endereço: Facebook.com/diariodotripulante

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Deixem-nos trabalhar!

E quando me preparo para sair da estação para mais um dia de trabalho, este carro deixado no portão da estação, "à grande e à francesa" fez-me logo lembrar que era sexta-feira e véspera de festas e feridos. Tocar a campainha na esperança que o dono aparecesse, foi mais uma das tentativas sem êxito. Restou chamar a polícia, fazer manobra e sair pelo portão principal da Estação porque os turistas aguardavam pelo eléctrico que os levaria a descobrir as colinas de Lisboa. Se a polícia chegou antes da proprietária, não faço ideia, mas por esta não esperava ainda antes de começar uma viagem. É caso para dizer: "Deixem-nos trabalhar!" Afinal de contas as interrupções já não são apenas durante o serviço ou na recolha...

Resta-me portanto desejar Boas Festas porque no decorrer do serviço ainda houve mais uma situação semelhante, desta feita no Poço do Borratém.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Nos bastidores dos eléctricos (II): O carro do fio...



Grande parte dos trabalhos são feitos pela noite, mas as eventuais avarias que podem ocorrer a qualquer momento durante o dia, são prontamente assistidas por estes homens que garantem assim o funcionamento dos eléctricos pelas ruas de Lisboa. São eles os responsáveis pela montagem e manutenção da rede aérea que faz chegar a energia aos pantógrafos e trolleys que estão em constante contacto. De Algés ao centro da cidade e do centro ao topo das colinas, estão centenas de quilómetros de cabo de cobre suspensos nas ruas de Lisboa. Criam uma malha característica através das suas espias, ora mais tradicionais nas linhas 12E e 28E, ora mais modernas nas restantes. 
 
O carro do fio – como é conhecido entre os tripulantes – é a par de outros serviços na Carris, aquele que não pára. Sempre pronto a reparar uma espia partida, a retirar um galho que acabou de cair de uma árvore ou até mesmo a retirar um lençol que acabou de cair do estendal. Eles são também fundamentais quando o trolley salta e a corda se desprende do eléctrico ficando sobre o tejadilho do eléctrico. Faça chuva ou sol, eles estão lá e sem eles não seria possível o bom funcionamento de uma rede aérea que está a seu cargo e que se modernizou no início dos anos 90, quando a Rua dos Fanqueiros começou a receber os novos cabos de tipo flexível, que vieram substituir os de tipo semi-rígido, permitindo assim a partilha entre o trolley de roldana e o pantógrafo semelhante ao utilizado nos comboios.

Além de mais económicos, esta alteração da rede aérea veio permitir maiores velocidades e menores perdas de energia. As principais alterações de cabos, que de tempo a tempo precisam ser renovados, faz-se durante a noite e o tempo para os trabalhos é pouco e tudo tem de ser feito longe da confusão diária do trânsito lisboeta. Um trabalho por vezes esquecido, mas precioso e que o «Diário do Tripulante», não quis deixar cair em esquecimento.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Sexta-Feira claustrofóbica na 28E para terminar a semana no dia em que se dizia que o Mundo acabaria

Todas as pessoas falaram nos últimos dias que esta sexta-feira seria então o fim do Mundo, mas a verdade é que uma vez mais, o Mundo não acabou a não ser para aqueles que partem e não voltam. Contudo o trânsito que já era de prever nesta sexta-feira - vésperas de Natal - foi uma vez mais caótico com longas filas nas artérias de ligação à Baixa. E o serviço lá tinha de começar com uma interrupção devido ao estacionamento abusivo. Desculpem, direi antes, abandono abusivo de viatura, porque estacionamento seria se o mesmo estivesse no local indicado que até estava livre, mas para a senhora do Golf preto da foto, o mais fácil foi mesmo deixar o carro no meio da rua e ligar os piscas. Juntaram-se então três eléctricos e o meu era o último. Juntos e a tocar a campainha, anunciava-se que algo não estava bem na circulação, e até se podia ouvir talvez nos Anjos, mas a senhora em questão até estava numa das lojas ao lado e não deu conta.

Diz quem viu, que ela saiu mesmo da Associação de Inquilinos Lisbonenses e se foi pagar a renda de casa, saiu-lhe cara a ideia de deixar ali o carro a transtornar a vida de quem usa o transporte público e tudo porque a Policia Municipal que passava no local, apesar de pouco satisfeita por ter de intervir (poderiam eventualmente estar na troca do turno), acabou por dar início ao bloqueio do carro. Mas como sempre acontece, mal chega a Policia o dono aparece também. «Ahhhh, desculpe, peço imensa desculpa, mas foram só 5 minutos...» dizia ao mesmo tempo que ouvia das boas por quem tinha visto a sua viagem parada pelo carro da senhora que há pelo menos 15 minutos estava na referida loja. Da multa não se livrou e aquela ida à loja terá sido certamente o fim do Mundo para aquela senhora.

Retirada a viatura, prosseguimos viagem pela carreira 28E, que continua a encantar quem nos visita. E hoje senti-me uma vez mais em casa nesta que é a minha carreira preferida também por isto mesmo, o contacto com os turistas. Oriundos do Brasil dois casais deram uma volta até aos Prazeres e regressaram ao Martim Moniz em busca de um restaurante para comer um bom bacalhau. Pelo meio uma simpática mas curta conversa sobre os bondes de Santa Teresa, que habitualmente são comparados pelo povo irmão, com os nossos eléctricos de Lisboa. Surpreendidos ficaram quando lhes disse que eles iriam voltar depois de uma intervenção conjunta do estado brasileiro e da Carris. 

O trânsito na zona do Bairro Alto circulava com demora. As compras de última hora para o Natal que está à porta é um habitué português e quem vier atrás que se desenrasque, sobretudo se estiver limitado a uns carris. Encantados com a viagem pelas ruas estreitas e sinuosas por onde passa o 28E, os dois casais lá seguiram depois em busca do restaurante depois de abandonarem o eléctrico no Martim Moniz. 

Foi também nesta praça que logo na viagem seguinte apanhei mais um casal brasileiro, desta feita em busca do Castelo de São Jorge que já estava de portas fechadas. Em vésperas de regresso ao Brasil, não queriam partir sem andar no 28E e de conhecer um pouco mais da cidade e acabei por sugerir então uma viagem até ao Chiado, de onde poderiam através do miradouro de São Pedro de Alcântara, avistar não só o Castelo, mas também a igreja da Graça, e a Sé com os Restauradores e a Baixa a seus pés. O sr. Celso a sua esposa e filha, acabaram por seguir a sugestão e ficaram pelo Chiado onde visitaram a Brasileira, a estátua de Pessoa e Camões, dois dos autores preferidos deste amigo que veio de São Paulo também com a paixão pelos "bondes" que infelizmente já não circulam na sua terra Natal, mas que como fez questão de dizer, «ainda bem que são preservados em Portugal». Dos eléctricos de Lisboa passamos para os do Brasil, os de Praga e até de metro se falou, tenho o turista em questão, feito questão de me oferecer um "ingresso unitário do metrô de São Paulo", para coleccionar, o qual não pude deixar de agradecer.

A viagem passou num instante ou não estivéssemos nós a falar de transportes, a trocar ideias e a fazer comparações. A simpatia do senhor Celso e família acabou por marcar a noite que não se ficaria sem o caricato episódio habitual e desta feita na minha última viagem do dia, com partida dos Prazeres. Uma jovem de auriculares nos ouvidos ouvia descontraidamente a sua música enquanto desfrutava do ar que entrava pela janela que mal entrara terá aberto. Era a única passageira, mas na paragem da conhecida pastelaria «O Canas», duas senhoras entraram e sentaram-se imediatamente atrás da jovem, pedindo que fechasse a janela. A rapariga em questão, até foi educada e disse que não se importaria de fechar e avançar um lugar para a frente para poder abrir a janela. «Desculpe mas é que eu com a janela fechada não posso ir porque sofro de claustrofobia e por isso mesmo só à noite ando de Eléctrico...»

Mas a senhora que havia então entrado, apesar de imediato nada ter dito, não chegou à Estrela sem deixar a sua cházada... «Se sofre de clatrobia, que toma um xarope que há caltrofóbico ou que raio se diz...». A jovem continuou no entanto a curtir a viagem ao som da música e do vento que corria já pela Calçada da Estrela. Já no cimo da Calçada de São Francisco eis o então falado, Fim do Mundo para um WV Polo que apesar de novo terá ficado sem a frente em segundos depois de derrubar uns quantos pilaretes, devido à condutora não ter feito a curva. Desorientada e aparentemente mal disposta, aconselhei juntamente com dois transeuntes a que deixasse o carro estacionado e se acalmasse, mas a senhora preferiu antes ignorar-nos e seguir mesmo com o carro a arrastar peças pela Calçada abaixo. 

Cheguei então à Igreja da Madalena e lá estava de novo com a frente do carro desta feita contra um sinal de trânsito. E a juntar a este, foram muitos os acidentes presenciados até à recolha, porque na verdade ou anda tudo maluco com o Natal ou então, todos quiseram fazer tudo antes do Mundo acabar, o que afinal de contas acabou mesmo por não acontecer. E assim terminou a semana pelos carris do 28. Despeço-me com os votos sinceros de um Feliz Natal para todos.


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Um serão na 15E: Aqui há botas!

Se há algo que não me canso de dizer, é que quem fez serviços acima das oito horas de trabalho de condução num transporte público em Lisboa, devia no mínimo andar lá duas vezes por semana para ver o que custa entrar perto da hora do almoço e sair muito para lá da hora do Jantar sendo obrigado a fazer as duas refeições fora de casa. Mas a vida é assim mesmo e nos tempos que correm o importante é mesmo ter trabalho. Com o final da semana à porta, hoje o serviço marcou o regresso aos serões, a segunda vez esta semana, o que acabou por descontrolar completamente o organismo, algo com que os tripulantes estão já acostumados, nomeadamente os supras como é o meu caso.

Ora de manhã, ora de tarde e até à noite, o certo é que o serviço tem de ser feito por alguém e esta quinta-feira andei pela 15E. Se na primeira parte do serviço só consegui ir uma única vez à Praça da Figueira, das três vezes que estavam previstas e tudo por causa de carros mal estacionados ou avarias, já na segunda parte do serviço as viagens conseguiram ser todas feitas. Mas se há carreira pela qual não morro de amores é mesmo esta carreira 15E que faz perder a paciência a qualquer um, primeiro pela linearidade do seu trajecto quase sempre recto e depois pela quantidade de interrupções que surgem quando menos se espera. 

Mas se a uns faz perder a paciência, outros há que perdem as botas e por se encontrar está o dono de quem as esqueceu penduradas no balaústre do eléctrico 504. Apercebi-me do esquecimento durante uma das interrupções, quando muitos tiveram de optar por seguir o resto da viagem a pé ou de autocarro. Provavelmente aquelas botas seriam um segundo par, pronto para o que desse e viesse. E ali ficaram até ao resto da viagem à espera que o dono as viesse reclamar. Aparentemente seriam de um dos romenos que entrou com a "casa" às costas no Largo da Princesa, mas de princesa as botas tinham muito pouco. 

Já na viagem seguinte uma senhora bateu à porta da cabine e pensando eu que vinha procurar pelas botas, dizia-me: «olhe estão ali umas botas esquecidas...» Agradeci a atenção da senhora e disse-lhe que não as poderia guardar porque não apresentavam condições mínimas de higiene. Dei no entanto, comigo a pensar o porquê das pessoas repararem num par de botas esquecido num transporte e não repararem no destino do eléctrico/autocarro ou no botão que faz abrir as portas ou até mesmo solicitar a paragem. Afinal tudo isto é bem mais importante que um par de botas que, ao que parece nem ao dono faziam tanta falta. O certo é que ao fim de duas viagens as botas já lá não estavam porque ou o dono terá aparecido ou alguém terá dado corda, não aos sapatos mas às botas que só faltavam ter uns óculos e uma boca para virarem botas Botildes a bordo do eléctrico 15E, porque famosas foram durante quase toda a tarde.

Terá sido hoje o fim do mundo para aquelas botas? É que por enquanto nós vamos por cá andando, quase descalços é certo, mas enfrentando as dificuldades que nos vão surgindo. E esta hein?!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Há dias em que andar em Lisboa é como andar na Selva

Se há alturas em que andar no centro de Lisboa é uma autêntica selva, o Natal é uma delas e todos os anos se repetem as filas, os carros mal parados à espera da "Maria" ou do "Manel" que foi só ali à loja e já volta. A juntar a tudo isto há os carros mal estacionados e alguma má disposição que nesta época contrasta com a simpatia que surge quando menos se espera para desejar uma "boa noite e um Feliz Natal!" Mas de facto esta quarta-feira mais se parecia com a sexta, com muito trânsito, poucos turistas e muita gente em busca dos presentes de última hora. A selva instalou-se mesmo em Lisboa, nos lados do Chiado que hoje acordou com uma zebra a chamar a atenção de quem por ali passava. 

E se na 25E os autocarros substituíram os cansados eléctricos já na 28E, os eléctricos hoje não andaram muito cheios contratando com as avenidas por onde passavam, como por exemplo a Almirante Reis onde se demorava mais de dez minutos para se chegar ao Martim Moniz, a praça que vê de manhã à noite caixas da esquerda para a direita e da direita para a esquerda.  Tempo suficiente para se observarem todos os detalhes do renovado Intendente e das pinturas artísticas que surgiram nos prédios e até para se perder a paciência, como aconteceu com a maioria dos passageiros que pediram para sair.

Mas animação também não faltou pelas ruas de Lisboa nesta tarde de quarta-feira. Com um grupo de romenos que percorreram algumas artérias da cidade dando música da época a fazer lembrar os espectáculos de circo da infância. Enquanto os graúdos tocam os miúdos andam de porta em porta, à coca de uma janela a ver de onde possa cair uma moeda na cesta que transportam na mão. Admirados com o passar do eléctrico trocaram sorrisos com quem nele viajava e até houve tempo para pousarem para a fotografia dos poucos turistas que por lá andavam em busca das sete colinas. 

Amanhã não haverá certamente música pelas ruas, mas a confusão deve mesmo continuar até à noite de 24, por isso será necessária muita paciência para se circular pelas ruas de Lisboa, seja de carro, autocarro ou eléctrico.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Na 25E a viajar para Buenos Aires

«Última chamada para a viagem com destino à R.Alfândega. Senhores passageiros dirijam-se à porta de embarque por favor...» . Poderia ser assim o anuncio da partida da paragem dos Prazeres pelas 14h10 desta quinta-feira, até porque seria aqui que surgia a primeira pergunta do dia na carreira 25E. Sem o "boa tarde!", que já é normal nos tempos que correm, a passageira que vinha do cemitério dos Prazeres, onde calculo não tenha tido prazer algum, surgiu após uma curta corrida e quase sem fôlego perguntou «vai para Buenos Aires?»

Óbvio que a cliente em questão, queria ir para Lapa, mais precisamente para a Rua de Buenos Aires, mas por instantes viajei por completo para todos os lados menos para a Lapa, claro está. Disse-lhe que iria certamente passar na rua em questão, e não deixei no entanto de lhe dizer também que «não me importava nada de ir para Buenos Aires». A senhora sorriu e disse que também não se importaria nada de viajar. O tema acabou por gerar conversa durante a viagem entre os restantes passageiros. Havia opiniões para todos os gostos e os que gostavam de andar de avião e os que nem sequer queriam experimentar.

A viagem ganhou asas e o certo é que chegados à rua em questão a cliente manteve-se sentada, afinal de contas ela de Buenos Aires não devia querer nada. O resto da tarde custou a passar sobretudo porque o eléctrico acabou por não ganhar mais asas para voar para outros destinos que não a Rua de Alfândega e os Prazeres. Depois veio um pouco de chuva que a juntar-se às folhas arrancadas das árvores pelo forte vento que se fazia sentir,  tornaram a linha num autêntico escorrega, suficiente para causar alguns sustos numa carreira onde eles acabam por estar sempre presentes, seja pela porta inesperada de um carro que se abre, ou pelo peão que decide aparecer no meio dos carros da Rua de São Paulo. 

Uma tarde igual a tantas outras nesta carreira que esgota psicologicamente qualquer tripulante, sobretudo quando o serviço é no último dia de trabalho da semana. Seguem-se finalmente as folgas.

[n.d.r.: Imagem de TimeOut Lisboa]

domingo, 9 de dezembro de 2012

Da impaciência portuguesa à incompreensão castelhana à distância de um click

Cada dia que passa, entendo menos as atitudes de alguns passageiros. O meu dia de trabalho começava em Algés, pelo que antes teria de travessar toda a cidade para chegar ao local de rendição. Sábado, dia de feriado e o que me esperava seria certamente uma enchente como a verificada hoje por toda a cidade. A juntar-se aos inúmeros portugueses que aproveitam uma tarde de sol para o passeio, estavam os espanhóis que em peso se deslocaram até Portugal. Uma lufada de ar fresco para a economia portuguesa que tanto precisa. Mas ar fresco era algo que não se respirava nas carreiras que ligavam a zona de Belém ao centro da cidade.

Mas se os que vinham do centro da cidade vinham cheios, já o 729 que apanhei em Belém com destino a Algés, vinha com bastantes lugares disponíveis apesar de alguns passageiros circularem de pé, talvez impacientes com a chegada ao terminal. Do fundo do autocarro ouve-se a certa altura que «o motorista vai a pisar ovos. Mexa esses braços». Achei demasiada falta de respeito por parte da passageira para com o meu colega, que de forma profissional e, dada a irregularidade do piso entre o Largo da Princesa e a Rua Damião de Góis, procurava com todo o cuidado, realizar uma condução segura e confortável, poupando igualmente a própria máquina ao desgaste que o asfalto lhe provoca.

A pressa da passageira era enorme. Talvez a mesma com que tinha entrado quando procurou o lugar mais longe do validador. A mesma de quem entra às 9h00 no serviço e mete o despertador para as 9h05. Sentado no primeiro banco junto à porta da frente, olhei de forma repugnante para trás, mas como não era comigo, preferi não dizer nada. O mesmo fez e bem o colega que seguia ao volante da carreira que terminaria minutos depois em Algés. Ali saímos todos, cada um seguindo o seu caminho e a referida passageira que estava com tanta pressa, saía do autocarro num passo normal próprio de quem teria uma tarde livre pela frente. De fato treino vestido, mochila às costas, não terá tido certamente a tarde igual à de quem a transportou. Afinal de contas o melhor mesmo é decidirem-se porque se o autocarro vai rápido, o motorista é bruto. Já se vai com cuidado, o motorista é pastelão. 
 Mas autocarros à parte e já sobre os carris na carreira 15E lá andei a "abrir o sorriso" com o 506 aos espanhóis que não só "enchem" uma casa como também eléctricos. Creio mesmo que, mesmo estando fechado na cabine, o meu cérebro já pensava até em castelhano de tanto os ouvir falar... «Para ir à Torre de Belém?».... «Vás à Jerónimos?»... «Vás al centro?»...
Mas afinal para que servem os mapas nas paragens, as bandeiras de destino e os avisos de paragem? Afinal para que servem os botões existentes nas portas? Será preciso tirar um curso para andar num transporte público que até nem é de última geração? Tudo me leva a crer que quem nos visita tem certas e determinadas atitudes, como bater nos vidros para fazerem perguntas, fazer gestos como se fossem tradutores de língua gestual ou até mesmo encolher os ombros porque as portas não abrem quando não carregam no botão, só podem andar de carro nos seus países de origem. 
E escusado será dizer através do microfone para exterior "pressione o botão", que ainda se assustam, pensando que em Portugal os transportes são assustadores porque falam. Assim foi esta tarde na paragem do Museu dos Coches com destino à Praça da Figueira. Depois de um casal com dois filhos ter solicitado a paragem, ficaram durante uns segundos a olhar para a porta. O pai de família dirigiu-se de imediato ao vidro da cabine dizendo que a porta estava «cerrada!», tentei explicar que tinha de carregar, através de um gesto com o meu dedo indicador direito e a reacção do senhor foi qual?.... olhar para a parede seguindo o meu dedo.  Informo pelo micro que tem de "pressionar o botão!" e de imediato os quatro que estavam junto ao eléctrico deram um passo atrás. A cena, digna de uns apanhados televisivos, só terminaria porque alguém no interior do veículo se apercebeu e abriu a porta. E estava tudo à distância de um click!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Nós por cá... temos disto em plena luz do dia.

«Nós por cá» era um programa da SIC que passava antes do Jornal da Noite, mas não quero de todo plagiar a autoria do programa que era apresentado por Conceição Lino. O certo é que nós por cá, continuamos diariamente a presenciar situações que não ajudam em nada quem anda de transportes. As cargas e descargas são uma dessas situações e a Rua de São Paulo está no topo da lista das interrupções dos eléctricos por causa de quem trabalha a carregar e descarregar mercadoria. É certo que todos têm de trabalhar, mas não consigo entender é o porquê de certos trabalhos serem feitos em plena hora de ponta, pois assim não há um transporte de superfície que consiga cumprir o horário previamente estabelecido.

O eléctrico é claro está, o transporte que mais sofre com este tipo de pára-arranca. Se ontem entre as 16h00 e as 20h30 não consegui fazer uma única viagem sem encontrar um carro com os "quatro piscas" ligados a impedir a passagem do eléctrico na carreira 25, já hoje na 28 a história foi idêntica. E a meio da tarde apanhei uma vez mais a recolha do papelão que com este veículo "minúsculo" vai recolhendo o papelão das lojas da Baixa e do Chiado. Rara é a semana que não o apanho. Não sei se é coincidência ou mesmo azar. O que sei é que os cantoneiros afectos a este serviço, não querem sequer saber se o eléctrico está atrás. Ele que espere!

Na situação da fotografia e já depois de ter arrancado do restaurante situado também nesta rua de sentido único no Chiado, a paragem foi à porta da loja Bairro Arte onde os funcionários da CML, de forma descontraída tiraram cartão a cartão do contentor para os acondicionar numa caixa já lotada da viatura e escusado será dizer que como em todas as outras vezes que os apanhei pela frente, ao arrancarem, as caixas de cima caíram o que originou mais uma paragem para reorganizar a mercadoria.

Atrás do eléctrico estava uma fila de carros que não me permitia sequer ver o seu fim e buzinadelas não faltavam. Já no interior do eléctrico, os turistas aproveitavam para tirar fotos a um serviço que devia ser feito de noite ou pela manhã cedo, à semelhança do que se passa lá fora em Madrid, Basileia ou Praga, cidades onde já presenciei precisamente o contrário do que aqui se faz. Os que vão de eléctrico para o trabalho são os prejudicados, mas também como sempre, só sabem reclamar com quem os transporta e o pior disto tudo é que, quando iniciar a próxima semana de trabalho vou novamente apanhá-los e novamente eles irão de forma descontraída fazer o seu trabalho porque quem vier atrás que se desenrasque. 

E a chegada à paragem seguinte será certamente brindada com a frase da praxe... «há 40 minutos que está à espera do carro eléctrico. É todos os dias a mesma coisa....», e esta ein?!

Quando a máquina nos prega uma partida...

E chegou ao fim mais uma semana de serviço e que semana... Além do frio e da chuva, esta semana teria ainda de ficar marcada por algo que não esperava. Passados dois anos desde a minha passagem dos autocarros para os eléctricos, voltei a andar fora da linha e não por vontade própria. E tudo devido a um pequeno descarrilamento e digo pequeno porque não deve sequer ter atingido um metro de distância fora dos carris. Na verdade este pequeno incidente veio só provar que nem sempre tudo parece estar bem, mesmo que tudo nos indique isso mesmo. Também o ser humano pode nunca ter problemas de saúde e de um momento para o outro, sentir-se mal. O mesmo parece ter acontecido com o T5, que após iniciar uma manobra de recuo na Praça do Comércio em conjunto com o T9, decidiu mostrar que não tinha vontade em iniciar mais uma viagem pelas colinas de Lisboa.

Confesso que apesar de me ter assustado, consegui parar o veículo num curto espaço de tempo, mas não o suficiente para juntar alguns curiosos que por ali passavam e que quiseram levar uma recordação fotográfica de um eléctrico de Lisboa numa posição diferente da habitual. Valeu depois a preciosa ajuda da equipa de Manutenção da estação de Santo Amaro, que depois de informada via Central de Comando de Tráfego, deslocou-se ao local para encarrilar o eléctrico podendo depois seguir viagem para Santo Amaro pelos seus próprios meios. 

Curioso não deixou de ser a reacção dos 6 passageiros que iam iniciar comigo a viagem. 4 portugueses e 2 turistas de leste. Se os de cá levantaram-se de imediato para abandonar o eléctrico, já as de leste, nem se aperceberam sequer que o eléctrico tinha tomado outra trajectória que não a desejada. Não sei se estarão já habituadas a estas situações, mas por cá não é coisa vulgar e poucas são as vezes que o eléctrico sai da linha, apesar de nos ir causando de vez em quando alguns sustos e em muitos dos casos, provocados pelos outros utentes da via que respeitam cada vez menos este transporte antigo da cidade de Lisboa. 

Uma história que certamente não irei esquecer, mas na qual não quero mais pensar porque o dia-a-dia nos carris de Lisboa continua de amarelo ou vermelho com o objectivo de transportar pessoas e mostrar o que de bom há numa capital como a nossa que é das mais bonitas da Europa e que tem os eléctricos mais bonitos do mundo. Não podia, no entanto, deixar de partilhar convosco esta situação, porque também ela faz parte do quotidiano dos eléctricos e também ela passa a fazer parte do meu historial na Carris, mas não queria terminar este texto sem uma vez mais mencionar a perspicácia e agilidade com que a equipa de manutenção conseguiu com calma, paciência e eficácia, voltar a colocar o eléctrico no seu caminho sem nenhum estrago quer na renovada Praça do Comércio, quer no próprio T5 que prosseguiu viagem até Santo Amaro pelos seus próprios meios. 

 A partir de agora, passará então a fazer sentido a pergunta que muitos colegas motoristas têm vindo a fazer ao longo destes, quase dois anos, quando entro num autocarro após mais um dia de trabalho. «Então, estás a dar-te bem por Santo Amaro ou já saíste da Linha?», era a pergunta mais frequente e agora a resposta, infelizmente passa a ser positiva. 

  

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Pelo 32º. ano o Pai Natal volta às ruas de Eléctrico, para espalhar alegria e distribuir sorrisos

O sino que se ouve tocar ao fundo da rua anuncia a chegada do eléctrico de Natal. Pelo 32.º ano, os tradicionais eléctricos de Lisboa ganham cor e luz, e espalham sorrisos e alegria aos pequenos que nele viajam conduzidos pelo guarda-freio que nestes dias veste-se de pai natal e aos que vão pelas ruas, surpreendidos por ver um pai natal a conduzir um eléctrico e não umas renas. A música que acompanha o cortejo é de natal claro está e a bordo vão também animadores que arrancam gargalhadas durante a viagem. No final há os que não deixam o eléctrico sem a carta para o pai natal e outros querem registar o momento com uma fotografia.

Durante a semana o eléctrico do Natal passeia os grupos provenientes de escolas e associações, mas aos sábados é para o público em geral com partidas da Praça da Figueira às 10h00 e às 11h00 e as informações podem ser obtidas através dos contactos disponíveis no site da Carris.

Hoje para além das crianças, também a equipa de reportagem da SIC andou com o pai natal pelos carris de Lisboa entre Santo Amaro e a Praça da Figueira...


domingo, 2 de dezembro de 2012

Das luzes de Natal da Baixa às luzes das sirenes na Lapa

Este fim-de-semana nem o frio afastou as pessoas das ruas de Lisboa, nomeadamente do centro da cidade. O programa de eventos foi recheado e começou ainda na sexta-feira com a Feira das Casas Regionais que assentou arraiais no início da Rua Augusta junto ao arco triunfal. Mel, chouriços, broas, doces e até música popular animaram quem por ali passou até domingo. Já pela carreira 12E a manhã de sábado até foi calma, mas com muito frio. As voltas naquela carreira fazem-me ainda lembrar os carrosséis que agora estão também de volta ao recinto de Entrecampos onde se realizava a Feira Popular até 2003, ano em que foi extinta para dar lugar a um terreno baldio que é agora recuperado para alegrar aqueles que têm agora menos euros nas carteiras.

Mas quem não se cansa da 12E são os idosos que fazem daquele eléctrico a sua distracção diária. Ali encontram a sua companhia do dia-a-dia, aquela que não têm em casa. Trocam dois dedos de conversa, questionam o estado de saúde do vizinho e ali passam o tempo entre a Mouraria, o Castelo, a Sé e a Baixa da cidade que volta a ver as suas ruas cheias de gente porque as luzes anunciam a chegada do Natal.

Este ano a autarquia de Lisboa em parceria com a UACS decidiu voltar a apostar na decoração da cidade, atraindo assim gente para as ruas e para o comércio tradicional, o que causou diversas críticas, dada a crise instalada, mas o certo é que as ruas ganharam vida desde o final de tarde de sábado o dia em que o presidente da câmara e os representantes da UACS e dos Castros - a empresa responsável por dar mais luz à cidade nesta época - ligaram o disjuntor das Luzes de Natal. Digam o que disseram, o "Diário do Tripulante" esteve na inauguração e percorreu de seguida algumas das artérias da Baixa e não só viu gente a passear, mas também bastantes sacos de compras, um sinal positivo para a economia nacional, nomeadamente para o comércio tradicional.

Mas já este domingo, o serviço foi no eléctrico dos turistas, como muitos dizem quando vêm o vermelho a rasgar as ruas numa manhã calma e silenciosa como a de hoje, facto que seria contrariado com a chegada do sol que deu um ar de sua graça e convidou ao passeio não só dos 6000 turistas provenientes dos paquetes atracados em Santa Apolónia, mas também daqueles que costumavam viajar para o estrangeiro e que agora decidem passear cá dentro. Hoje os clientes no eléctrico turístico, não foram portanto apenas os estrangeiros que ocuparam os lugares disponíveis. 

Se uns procuravam já pelo eléctrico do Natal, outros queriam mesmo dar uma volta por Lisboa de eléctrico, mas longe da confusão habitual do eléctrico 28. E ao final da manhã ainda tive uma interrupção na Lapa com esta viatura que impedia a circulação do eléctrico. Confesso que até pensei que era mais um dos que costuma deixar o carro para ir ao café conhecido na zona pelos seus premiados pastéis de nata, mas o certo é que ninguém aparecia ao toque da campainha.

10 minutos passaram e surge uma carrinha do Corpo de Intervenção da PSP, que costuma andar ali na zona da Lapa, em serviço de vigia às embaixadas ali residentes. Um dos agentes aborda-me quanto ao tempo ali parado e tenta fazer aparecer o dono do carro, ora através das sirenes, ora através do altifalante, pedindo ao «proprietário do veículo Volkswagen, que retire o carro que obstruí a passagem do eléctrico...», mas nem assim o dono do carro aparecia. Os agentes decidiram então, intervir. Foi a primeira vez que tive uma interrupção em que a polícia apareceu e em peso, o que deixou iludido naquele instante quem se transportava no eléctrico, que devem ter pensado "como são eficazes estes tipos em Portugal"...

Com a caneta do agente a deixar já um rasto de tinta na multa, enquanto se solicitava o reboque, lá surge o automobilista a correr com os sacos do supermercado que fica na rua de baixo. «Desculpe lá mas fui só ali fazer umas compras...», justificava-se. Mas o agente não estava mesmo para justificações e depois de solicitar que tirasse o carro para o eléctrico passar, pediu os documentos da viatura e por ali ficaram algum tempo, para alegria dos que à janela assistiam como se estivessem na primeira fila do cinema.

Prossegui depois viagem até à Praça do Comércio, onde tinha já alguns turistas prontos para a viagem seguinte. E assim se passou o fim-de-semana numa capital europeia que vive uma crise onde as pessoas tentam a todo o custo e através dos meios disponíveis esquecer as tristes notícias que no dia-a-dia vão chegando a casa através da televisão. Boa semana para todos, seja a ver as luzes de Natal, seja a bordo dos veículos da CCFL, ou até mesmo do eléctrico de Natal que volta já esta segunda-feira às ruas para alegrar o Natal dos mais pequenos.


 

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