sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Dia impróprio para cardíacos...

A ausência de navios de cruzeiro nos portos de Lisboa, fazia prever que o dia de hoje poderia ser calmo a bordo dos circuitos turísticos, mas o desenrolar da manhã com o sol a convidar ao passeio, acabaria por contrariar as previsões e a resposta chegava pelos autocarros de dois pisos que circulavam bem compostos e com a lotação do eléctrico turístico esgotada em todas as viagens. Cenário semelhante tinham os eléctricos da 12 e da 28 e na primeira viagem que tive com partida da Praça do Comércio, a confusão gerou-se de imediato na Praça da Figueira, quando abri a porta e tive de dizer que já não tinha lugares disponíveis.

Se uns compreendem e acabam por optar por outras linhas, outros há que preferem aguardar o próximo, mesmo que esse seja 40 minutos depois. No Martim Moniz, um casal de turistas corria na minha direcção. Digo-lhes gestualmente que não tenho ali paragem e desatam aos gritos: «Stop the tram! Stop the tram!». Parei, não pelos gritos, mas receando que se colocassem à frente do eléctrico, dado que já acompanhavam o eléctrico de forma bem chegada. Abro a porta e digo-lhes que além de estar completo, não efectuo ali paragem, mas sim na Praça da Figueira. Ainda que descontentes com a explicação, acabam por aceitar.

Chego entretanto às Escolas Gerais onde encontro uma carrinha do Continente a descarregar. Espero uns minutos e como não se decidem a tirar a carrinha da frente, toco a campainha. Chateados dizem «só tens é que esperar porque nós estamos a trabalhar...»

Ao que parece eu ando a brincar! (...)

Mas o pior estaria ainda para vir. Ao chegar ao final da volta, já na Praça do Comércio, vejo um aparato de policia, bombeiros, Inem e um articulado parado na Praça. A chapa da minha frente que já devia ter partido também lá estava. O meu primeiro pensamento foi o de grande parte que ali chegava, ou seja que teria sido um atropelamento, mas na verdade não era. 

No centro daquele amontoado de gente estava um senhor estendido no chão, com os médicos do Inem a tentarem reanimá-lo. De origem alemã, o senhor desfrutava com os seus amigos de uma visita a Lisboa e não se sabe se terá tido alguma tontura, ou se terá tropeçado numa das muitas pedras que embora lisas, estão mal colocadas, tendo diversas fissuras desniveladas. O certo é que caiu junto ao lancil onde terá batido com a cabeça. Durante cerca de 40 minutos foi alvo de massagem respiratória, mas sem sucesso. Coube-lhe o destino de deixar este mundo em Lisboa.

A prova de que não vale a pena tanta preocupação, tanta guerra, tanta inveja, tanta injustiça, estava ali aos olhos de todos, através de um corpo humano que em minutos, ficou dentro de um saco, tal e qual um saco de batatas. O desalento dos amigos, contrastava apenas com a insensibilidade de quem queria a todo o custo seguir viagem no eléctrico das colinas. Turistas que a todo o instante perguntavam, «mas afinal quando vamos partir?» 

Aguardava-se então a autorização da embaixada para remoção do corpo e da chegada do delegado de saúde. Algo que para aqueles turistas que ignoraram aquela morte em público era uma perda de tempo. Previa-se entretanto que demorasse algum tempo a chegar a referida autorização, mas até acabou por ser rápido, acabando assim com o cenário ali instalado em redor de um saco que impedia naturalmente a circulação dos eléctricos. 

mas o dia não ficaria por aqui. Ainda estaria para chegar no final do serviço, após a última viagem um espanhol, também na Praça do Comércio, a reclamar comigo, porque estava desde as 17h00 na Praça da Figueira à espera do eléctrico que não tinha passado. Digo-lhe de imediato que não poderia ser, dado que tinha lá passado perto das 17h35. Criou-se então um diálogo de malucos...

Guarda-freio: Passei lá perto das 17h35...
Espanhol: No passaste!
Guarda-freio: Desculpe, mas não me pode desmentir, pois até aqui tenho a hora de partida da P.Comércio (mostrando-lhe a folha de viagem)
Espanhol: No passaste! Estava aguardando desde las 17h00
Guarda-freio: pode perguntar a estes senhores que acabaram de sair....
Espanhol: No passaste!
Guarda-freio: Já lhe disse que passei e estive inclusive parado atrás de um 15
Espanhol: No passaste!
Guarda-freio: então leva lá a bicicleta que eu fico com os pedais!

Estava custoso chegar ao fim este dia!!!!!!

5 comentários:

CR 35 disse...

Com os pedais não.....mas sim com as manivelas.Quem mandou renovar a P.Comércio pecou numa coisa o pavimento onde passam os transportes públicos e aquela passadeira em frente ao Arco da Rua Augusta ,só ainda não ocorreram acidentes mais graves porque quem circula por ali são profissionais do volante e da manivela .Só o facto de observar a teimosia dos peões que não respeitam os sinais dá que pensar se a passadeira ali situada estará bem colocada por mim nunca passavam ali transportes nenhuns,resta aos responsáveis ponderar e alterar algumas coisas que só prejudicam o belo Terreiro do Paço.

Caminhante oculto disse...

Que dia este! Abraços, Rafael!

Flor disse...

Essa de "leva lá a bicicleta que eu fico com os pedais" é que não percebi rsrsrsrsrsrs.
Não informaste aos turistas que estavam parados porque tinha morrido um transeunte?
Antigamente quando havia cobrador penso que não incomodavam tanto o guarda-freio.

Vou publicar na tua pag. de facebook uma fotografia que vi há pouco e está muito gira.

Um abraço Rafael.

Flor

Rafael Santos disse...

Flor,

É uma expressão, que significa «fica lá com a tua ideologia, que eu fico com a minha...»

Cumprimentos,

Rafael

Flor disse...

Ahhhhhhhhhh!! entendi.

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