terça-feira, 28 de agosto de 2012

Quando o «Camelo» não deixa passar o 25E, tem de ouvir das boas...

Se há dias em que a carreira 25E mais parece um comboio regional, hoje foi desses dias. Sem interrupções, mas com muitas paragens além das estabelecidas originadas por carros mal estacionados, táxis, ambulâncias, polícia, carrinhas do lixo e até de café. Hoje foi daqueles dias em que a certa altura todos pareciam ter combinado uma descarga de mercadoria, ou apanhar um táxi e o resultado foram as diversas paragens em «todas as estações e apeadeiros», esgotando não só a paciência ao guarda-freio, mas também aos passageiros que diariamente se transportam nesta carreira. 

Depois do longo martírio que é a Rua de São Paulo com destino aos Prazeres, nada fazia prever que já em Santos iria encontrar uma carrinha do café a impedir a passagem do eléctrico. Mas o que também não esperava foi o comentário de um dos passageiros que seguia viagem no eléctrico, depois de se ter apercebido que o eléctrico tinha parado por haver algo a impedi-lo de circular. Um toque de campainha para ver se o condutor estava por perto, mas só 3 minutos depois, o senhor lá apareceu e para ouvir das boas. 

É que o passageiro em questão, não teve tento na língua e disse mesmo que «já não bastava em São Paulo o pára-arranca, para agora ainda temos de levar com este camelo à frente...», dizia pela janela, aproveitando-se da publicidade ao café, visível nas laterais da carrinha. O comentário, acabou por provocar um sorriso generalizado em todos os passageiros que por instantes esqueciam os atrasos provocados por quem só conta com o seu umbigo.

E lá prosseguimos viagem até aos Prazeres...

domingo, 26 de agosto de 2012

Ás voltas com a "Volta" na 15E entre Algés e S.Amaro...

Se a semana foi confusa pelos lados da 28E e do circuito das colinas, o mesmo era de esperar nesta tarde de domingo, com muitos turistas na capital e claro está a final da Volta a Portugal em Bicicleta que voltou a cortar a circulação no centro da cidade. Quando vi a escala e vi que iria estar na 15E, temi o pior, mas o certo é que foi um dia bastante tranquilo, com o corte da carreira a Santo Amaro, os eléctricos circularam apenas entre a estação de S.Amaro e Algés e tudo por causa dos ciclistas que vindos de Sintra, terminaram a etapa no Marquês de Pombal. 

Confirmei uma vez mais que a bandeira de destino até podia ser do tamanho da bandeira nacional que está no topo do parque Eduardo VII, porque ter lá a inscrição no destino «R.Junqueira (C.Congressos)», era o mesmo que dizer «Pr.Figueira» e o problema era generalizado entre portugueses e estrangeiros. Se em Algés havia feira de antiguidades, já em Belém, havia pastéis e claro, muitos monumentos que acabam por atrair sempre grandes multidões que enchem por completo o articulado.

O pior mesmo era a aproximação à paragem final, quando através do sistema de áudio, alertava para o fim da viagem... «Boa tarde Srs. passageiros. Devido à realização da última etapa da Volta a Portugal em Bicicleta, que se realiza em Lisboa, esta viagem termina na próxima paragem. Pede-se o favor de abandonarem o eléctrico», porque até estava naqueles dias em que decidi dar um certo ambiente de tripulação aérea ou porque não, do metropolitano, tendo inclusive dito algo mais curto e em inglês até porque a maioria eram estrangeiros. 

Poucos foram os que responderam ao primeiro aviso, mas numa segunda chamada de atenção, lá o eléctrico se esvaziava. Mas um senhor teimou em fazer-se difícil, até que tive de abrir a cabine e dizer-lhe que tinha de sair porque já tinha terminado a viagem. Resposta do senhor: «Mas isto também anda sempre a avariar!» E lá lhe esclareci que não era avaria, mas sim a volta a Portugal em Bicicleta e ele teimava...«Isto precisa é de uma reforma pá!»  Então «se não se importa, saia e aguarde por um autocarro. Obrigado», pedi-lhe.

Mais uma viagem para Algés e na volta um cenário idêntico. Foi assim toda a tarde até ficar o percurso normalizado. Normalizou o percurso, mas lá teria de surgir a interrupção, mesmo na última viagem antes de ser rendido para a pausa do jantar. Quinze minutos parado e foram só quinze porque os turistas que vinham da Torre de Belém vinham inspirados na batalha dos portugueses de outrora, e decidiram pegar no carro. O eléctrico lá passou e a viagem prosseguiu já atrasada até à Praça da Figueira e já com a vitória de David Blanco pela quinta vez consecutiva, na Volta a Portugal em Bicicleta. Amanhã não há Volta, mas há mais voltas e desta feita pelos carris da 28E.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Manhã "bloqueada" na 15E

Regresso à 15E e regresso ao articulado, assim foi nesta manhã de sexta-feira, com Lisboa a acordar muito cedo para receber inúmeras excursões nomeadamente na zona de Belém. «Próxima paragem... Hospital Egas Moniz», ouvia-se no interior do eléctrico minutos antes de um passageiro solicitar paragem ainda do lado de fora do eléctrico. Parado na paragem, dou ordem de abertura das portas, mas das quatro portas que o eléctrico tem, o senhor em questão, tinha de escolher logo a que estava bloqueada. E insistia em querer abrir a única que não abria. Tive portanto de informar pelo sistema de som que teria de optar por uma das portas restantes.

Mas talvez assustado por uma voz pouco radialista ou pouco habituado a ouvir um electrico a "falar", o senhor olhou de esguelha para a paragem e voltou a carregar no botão, apesar do mesmo ter a inscrição «Bloqueada». Tive de insistir, porque ali não podia estar muito mais tempo parado e também porque não queria arrancar com dedo do senhor atrás do botão. «Bom dia, essa porta encontra-se bloqueada, dirija-se à porta do lado. Obrigado!», e lá se fez luz finalmente na mente daquele senhor que ficou finalmente satisfeito por conseguir abrir a porta e seguir viagem até à Praça da Figueira.

Sem bloqueios, a viagem prosseguiu até ao seu destino, mas não sem antes uma chamada da central, fazer prever uma interrupção. «Se estiver ainda a tempo, siga para a Rua da Alfândega», mas já chegava tarde o pedido de desvio, porque estava já a cruzar a Rua da Conceição. A paragem da P.Figueira estava repleta de turistas e ainda sem saber o que se passava, depois da revista habitual ao eléctrico, cheguei o carro à paragem e abri portas. Num instante a lotação ficou quase esgotada e entre os passageiros estava um agente de autoridade, que se dirigiu à cabine, informando que seria melhor informar os passageiros que a viagem não ia ser realizada nos minutos seguintes devido a um acidente na Rua dos Fanqueiros.

E se avisar um eléctrico remodelado cheio de gente já é tarefa complicada, é nestas alturas que damos o real valor ao microfone do eléctrico articulado que permite avisar todos os passageiros que «devido a um acidente na Rua dos Fanqueiros, este eléctrico, não irá iniciar a sua viagem. Como alternativa, devem os senhores passageiros utilizar os autocarros 714 e 760», e aos poucos lá saíram todos os passageiros, mas não sem antes aparecer alguém que tinha de embirrar, só porque sim.

«Acabei de validar o meu sete colinas, e agora não seguimos viagem. Como posso reaver o meu saldo?», questionava-me um senhor antes de sair. Expliquei-lhe que poderia deslocar-se ao seu destino com recurso a um dos autocarros, com a mesma viagem descontada, mas o senhor em questão dizia-me que preferia ir a pé. Perguntei-lhe qual era o destino e disse-me que seria a Avenida Infante Santo. Disse-lhe portanto que poderia apanhar o 760, pelo que não ficaria sem transporte, logo sem razão para pedir o dinheiro de volta, mas ele insistia que ia a pé e quando lhe disse que «então se vai a pé é porque trata-se de uma opção e não uma obrigação devido ao acidente, mas quando reclamar o saldo em causa, refira também isso.» E lá me perguntou então onde poderia apanhar o 760.

Aproveitando o embalo, um casal com a sua neta, queixava-se do mesmo... «Ia-mos para Algés e agora descontou-nos a viagem e não vamos?», e lá expliquei novamente que havia um acidente que impossibilitava a marcha do eléctrico, ao que o senhor me responde de imediato, «mas ouça, viemos de propósito a Lisboa para a miúda andar de eléctrico e agora não anda, não está certo!», dizia-me ao mesmo tempo que a todo o custo saia do eléctrico. «Mas o senhor deverá queixar-se ao indivíduo do Mercedes que bateu na carrinha da Polícia, porque nós Carris, não íamos adivinhar que se ia dar o acidente. Os acidentes são acidentes por isso mesmo, por serem inesperados. E para Algés o senhor tem o 714 até Belém onde poderá apanhar o 729 ou o eléctrico...»

Escusado será dizer que não ficou 100% convicto do que lhe tinha dito, mas acabou por descarregar o resto do seu descontentamento no agente da PSP ali presente. E assim foi o regresso ao 15E, aos articulados numa manhã que aparentava ser calma, mas com alguns bloqueios à mistura.


 

 

sábado, 11 de agosto de 2012

O antagonismo a bordo da 28E

Como era de esperar este verão prometia grande procura pelos eléctricos lisboetas, por parte de quem nos visita, não só porque Lisboa ainda é um destino barato para os estrangeiros, mas porque está também no top de alguns guias turísticos. Contudo, e talvez esquecendo esse facto, a imposição da Troika para a redução da oferta nos transportes públicos, tem originado aquilo a que se poderá chamar um verdadeiro caos nas paragens das carreiras mais turísticas. A imagem que fica para quem nos visita não será certamente a melhor, mas tudo vale para dar uma volta no eléctrico que do Martim Moniz, vai à Graça, passando pelo Castelo, Alfama, Chiado e Estrela, terminando uns metros mais à frente junto ao cemitério dos Prazeres.

Se a fila surpreende os turistas mais afoites, mais surpreendido fica quando chegam aos Prazeres e têm de sair. É assim, sempre foi e sempre será até ao dia em que os nossos eléctricos avisem através de um sistema auditivo que aquela paragem é terminal, porque todos pensam o mesmo, ou seja, que a volta é circular ou que o bilhete é válido para continuar e como tal não têm de sair. Mas confusões à parte, o certo é que quem por cá está todo o ano e a servir-se das nossas casinhas amarelas, acaba por sofrer nestes meses de verão.

Surpreendido com o destino do eléctrico que seguia na minha frente (L.Camões), um senhor que de forma bastante educada me saudou ao entrar na paragem do Chiado, pede-me para fazer uma pergunta à qual de imediato me mostro disponível para responder, se assim fosse capaz. «Sabe-me dizer o porquê  de um carro vir do Martim Moniz com bandeiras de Camões? Não lhe parece antagónico?», questionava-me. Tentei explicar-lhe que dada a procura fora do normal na paragem do Martim Moniz, aquele eléctrico era uma chapa que fazia viagens entre a Estrela e a Graça, tendo sido desviada para o Martim Moniz para ajudar a escoar as pessoas.

Mas o senhor não parecia aceitar a justificação e dizia-me «mas isso é de um antagonismo estremo. Então e as pessoas que vão para os Prazeres?», e lá lhe disse que não deixava de ter razão, mas que a maioria das pessoas queriam ir para o ponto mais turístico da cidade, o Castelo de São Jorge. E da mesma forma educada com que tinha entrado, acrescentava... «sabe, isto tem muito que se lhe diga. Agora ele fica no Camões e vai reparar que as pessoas saem daquele eléctrico e entram para o seu. É uma questão muito antagónica». Não sei se será a palavra preferida daquele senhor, ou se era a sua forma morfológica que o fazia usar insistentemente tal palavra que voltaria a repetir minutos depois... «e mais antagónico ainda é todos se queixarem da crise e nestas alturas em que podemos recuperar um pouco, retiram transportes, deixando de gerar receitas, mas também lhe digo, estamos tramados com isto tudo e quem se trama é o mexilhão...» e com tanto antagonismo num instante chegámos a Campo de Ourique, não tendo o senhor pensado mais no tempo que havia esperado pelo eléctrico.

«Olhe então se não se importa eu saio nessa paragem ai à frente e só não lhe convido para ir ali ao café porque se não estes 50 tipos davam cabo de nós.», e lá seguia o senhor em direcção ao Canas, com cabelo puxado atrás, de camisa às riscas, com o seu blazer acompanhado de um lenço na lapela, apesar do calor que se fazia sentir.

Sem dúvida uma tarde algo antagónica na mais emblemática das carreiras de eléctricos, diria mesmo, do Mundo.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Como escreve a TimeOut Lisboa... "Próxima paragem: livrarias"

Esta semana e a convite da TimeOut Lisboa, o "Diário do Tripulante" voltou a marcar presença nas páginas desta revista que lhe diz o que fazer fora de casa e em Lisboa. Se em 2009 a entrevista tinha como fundamento dar a conhecer como tinha surgido afinal este blogue, agora que passaram três anos, a mesma publicação quis continuar esta viagem e mostrar-lhe como surgiu o livro que agora está nas livrarias. A TimeOut Lisboa gosta de pensar que foi um bocadinho por culpa deles, e o Diário do Tripulante, não afasta de todo essa hipótese e como tal, aceitou conversar com  a jornalista Maria José Vilas Boas, sob o olhar atento do fotógrafo Gonçalo F. Santos, e o resultado está na edição 254 desta revista que está nas bancas e que lhe dá então a conhecer um pouco melhor como tem sido esta viagem pela Internet e agora pelas livrarias, com os autocarros e eléctricos de Lisboa como pano de fundo.



Mas além da TimeOut Lisboa, vários têm sido os meios de comunicação, interessados em dar a conhecer esta aventura de quem já esteve atrás das câmaras e que actualmente transporta milhares de pessoas por dia. A oportunidade das melhores histórias e aventuras aqui relatadas serem transcritas para o papel, com a publicação do livro, através da editora Fonte da Palavra, levaram a que este nome e estas histórias chegassem aos jornais diários, semanais e on-line.

Recorde-se que o livro encontra-se já à venda nas livrarias e que pode igualmente ser adquirido on-line, beneficiando de um desconto de 10% sobre o preço de capa, recebendo-o sem qualquer custo adicional, comodamente na sua morada. Para tal, basta o envio de um email com os seus dados para livro.diariotripulante@hotmail.com 





quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Invasão francesa não dá tréguas nem na 25E

"Entrez, entrez! Vite, vite!", assim começava mais uma viagem na carreira 25E, nesta tarde de quinta-feira. Ainda longe de circularem como os eléctricos da carreira 28E, a mais referida nos guias turísticos, o certo é que os turistas, começam já a procurar linhas menos sub-carregadas e a 25E tem sido uma boa opção para um passeio de eléctrico calmo e longe das confusões que caminham para o Castelo, Alfama ou Belém. 

Agora sim, podemos dizer que o verão chegou finalmente à cidade de Lisboa. Caravanas com bicicletas e bicicletas que parecem autênticas caravanas. Matrículas amarelas, outras até, originárias de países como Rússia ou Eslováquia. Enfrentam as fila da Rua do Arsenal porque outra alternativa não há para quem pretende atravessar de carro a cidade junto ao rio. As paragens cheias fazem adivinhar que muitas perguntas vão ser feitas quando o eléctrico parar e abrir a porta da frente.

«Bom Tarde! vais aux tour da ville?», pergunta um jovem talvez descendente de portugueses mas que já quase apenas fala francês. Explico-lhe que termino na próxima paragem - R.Alfândega e ele encolhe-me os ombros como se não tivesse entendido nada do que lhe disse. Pior ainda foi não ter decidido de imediato se entrava ou saía e do lado de dentro alguém cansado de tanto esperar, dizia «ande mas é com isso que tenho de apanhar o barco!», mas o trânsito na Rua da Alfândega não parecia querer ajudar o senhor em questão e quando cheguei ao terminal, a calma com que saiu, só poderia querer dizer que já tinha perdido o barco.

Na paragem mais um grupo de franceses... «Vous allez aux chateau?», perguntavam ao mesmo tempo que apontavam para as torres da Sé de Lisboa, porque talvez lhes parecesse serem aquelas as muralhas de um castelo. Digo-lhes que é o 28E que lá passa e eles respondem: «voila!» e entram no 25E. A vontade deles em ir até ao Castelo era tanta como a de irem até ao cemitério dos Prazeres, onde à falta da areia da praia escolheram o relvado do jardim para relaxar após uma viagem no «tramway».

De regresso à Rua da Alfândega e já depois de enfrentar de novo aquela fila de trânsito que então, já rolava com mais velocidade graças ao agente da autoridade que decidiu dar aos braços por instantes, eis que na paragem estavam duas passageiras a aguardar a minha chegada. Uma falava claro está, francês e a outra.... migrantês, mas lá nos entendemos. Dizia-me uma delas que achava estranho estarem ali há 20 minutos à espera do 18E. E lá tive de lhes explicar que o 18E, há muito não fazia ali terminal, algo que custava a ser entendido, porque insistiam-me em mostrar um guia turístico onde estava inclusive, uma fotografia do 18E naquela paragem com a casa dos bicos ao fundo.

Queriam ir para o Cais do Sodré, e apesar de eu lhes ter dito que o bilhete custava 2.85€ e que tinham também a hipótese de apanhar um autocarro directo para o local pretendido, eis que se decidem a seguir viagem comigo até à praça de São Paulo. Na Praça do comércio, enchi pela primeira vez um eléctrico na 25E e claro está com franceses, e ao final do dia depois desta invasão francesa que não deu tréguas nem na 25E, houve aquele momento que era desnecessário e que causou uma gargalhada, por simplesmente ter respondido em francês a uma senhora portuguesa que queria ir para a Av.República.

E assim foi esta "batalha" luso-francesa, desta feita pelos carris da carreira 25E.

 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

[Foto-Reportagem]: Meu querido mês de Agosto...

Longe vão os tempos em que Agosto em Lisboa era sinónimo de calma e ruas vazias. Em que os turistas, pareciam ser os únicos habitantes de uma cidade que via seus habitantes rumar para outras freguesias. Os transportes também eles em número mais reduzido, limitavam-se a estabelecer ligações a quem não tinha hipóteses de gozar férias ou a quem não tinha outro remédio se não passear em Lisboa num transporte público. Os tempos mudaram, assim como os hábitos de quem vive uma crise da qual não se avista fim. Não se vai para outra freguesia e as férias são passadas em Lisboa com idas à praia ou ao parque. Com idas ao cinema ou ao teatro, ao museu ou ao centro comercial e num instante estamos transformados em turistas de pé descalço. 

Hoje e porque às vezes também é bom ser turista ainda que da própria cidade, passei na Baixa, subi ao Marquês de Pombal, fui a São Sebastião, desci ao Chiado e passei pela Bica. Vi turistas, portugueses, Lisboetas, nortenhos, novos, velhos, e para casa trouxe algumas imagens que provam que Agosto em Lisboa já não é como era...

Ascensor da Glória - Monumento Nacional

A procura é muita neste Ascensor que liga os Restauradores ao Miradouro S.Pedro de Alcântara

A descer a Calçada da Glória

O sub-carregado 736 após encurtamento do 744 ao Marquês Pombal

E mais turistas continuam a chegar a Lisboa com o AeroBus

Enquanto outros se passeiam no circuito Olissipo da CarrisTur

E outros viajam alegremente no eléctrico 28

No Chiado com o eléctrico mais emblemático de Lisboa

Sempre com os taxistas a fazerem de qualquer espaço uma praça

No Calhariz com o 28 em direcção à Graça


E de volta aos carris, o Ascensor da Bica...

... para dar cor a esta rua da Bica

Com lotação esgotada
No meio do caótico trânsito da Rua da Conceição

E com a sempre procurada carreira 28E

A contrastar com a sempre congestionada Rua do Arsenal

E assim é o actual mês de Agosto em Lisboa.

[Off Topic]: Na Bica há um «car-barn» da fotografia sobre carris...


Lisboa está repleta de turistas e hoje peguei na máquina fotográfica e fui em busca dos locais mais procurados por quem nos visita. Senti-me turista da minha própria cidade e dei de caras com uma loja onde se pode viajar sem sair do sítio e tudo graças às inúmeras fotografias e postais ali disponíveis com os “amarelos” e “vermelhos” em destaque.

Situada em plena Rua da Bica de Duarte Belo (nº. 64), onde se encontra o centenário Ascensor da Bica, a loja de Sidnei Almeida convida turistas e Lisboetas a viajar por Lisboa através dos postais, fotografias e até do artesanato que ali próprio se faz, aos olhos dos curiosos que vão entrando e saindo, sejam portugueses, espanhóis, italianos ou alemães, entre outros.

Os lápis ganham asas e transforam-se em andorinhas, os fios de ligação à terra viram antenas de joaninhas sorridentes e uma fita métrica rapidamente fica bem no pulso dos clientes, e sempre sob o olhar atento do divertido Santo António e dos “amarelos” de Lisboa, pelo olhar do fotógrafo Ricardo Vicente, que aqui tem exposto grande parte da sua obra.

Há quem lhe chame a loja do Ascensor porque de facto o Ascensor da Bica, que recentemente esteve ausente para reparação geral, aqui continuou representado na montra desta loja que poder-se-á dizer que é um verdadeiro car-barn da fotografia sobre carris. Postais, agendas, fotografias, blocos de notas, quadros, ímanes, porta-chaves, há um pouco de tudo e sempre com muita cor, alegria e simpatia. Esta é portanto uma loja a não perder quando visitar o Ascensor da Bica que já está de volta à rua que o viu nascer a 28 de Junho de 1892, resultado do trabalho do engenheiro português Raoul Mesnier du Ponsard, responsável também por numerosos projectos similares.

Com o percurso mais pitoresco dos Ascensores de Lisboa, o da Bica é o mais típico e o que possui 9 lugares sentados e 14 de pé, ligando a Rua de São Paulo ao Largo do Calhariz. A viagem custa 3.50€ e o bilhete é válido para subir e descer a colina que permite avistar o Tejo entre o emaranhado de casas e roupa estendida. Os cartões “7colinas” e “Viva Viagem”, juntam-se ao “Lisboa Viva”, nos títulos aceites para se transportar, por isso não tem razões para não subir ou descer a Bica de Duarte Belo com o Ascensor e claro está visitar a loja do Sidnei onde poderá levar para casa uma bonita recordação da sua passagem pelo bairro da Bica.

A loja de Sidnei Almeida, fica na Rua da Bica de Duarte Belo, 64. 1200-057 Lisboa e poderá ser contactada através do telefone: +351 918 321 320.


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Na 25E também se "carimbam selos" como nos CTT

Já escrevia o grande Luís Vaz de Camões...

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.  

De facto, quando já grande parte dos tripulantes da Carris, aguardava ansiosamente pelo mês de Agosto, uns para irem de férias, outros para poderem circular mais calmamente na cidade, eis que surgem mais obras no centro da cidade de Lisboa, para mudarem-se as vontades. As filas provam que muitas mudanças ocorreram nas férias dos portugueses que este ano ficaram por cá. O resultado só podia ser um. Filas intermináveis, autocarros e eléctricos cheios e um esgotar da paciência, não só pelo congestionamento, mas também pela falta de paciência das pessoas que entram a barafustar por tudo e por nada.

Na carreira 25E o dia de hoje começava com um português a perguntar-me num profundo sotaque francês para onde ia o eléctrico. Acho muito interessante não só este senhor em questão, como grande parte dos turistas perguntarem para onde vai o eléctrico. Na verdade, o destino está bem explícito na bandeira de destino, mas mesmo que leiam a maioria não sabe onde fica os Prazeres ou a R.Alfândega, e claro que depois de uma resposta minha dizendo o destino surge logo a contra-pergunta «mas onde é isso?»

Lá expliquei através do mapa afixado na paragem, mas até acredito que o senhor em questão, tenha ficado sem saber afinal onde era os Prazeres. Na verdade ele procurava um eléctrico para Almáfa. Disse-lhe que não conhecia tal rua ou local e perguntei se não seria Almada, mas ele insistia comigo que era Almáfa. Como não quis ser mais teimoso que o senhor, pedi então desculpas, dizendo que só conhecia Almada. Iniciei então a  viagem, mas como o trânsito era intenso, à saída da raquete da R.Alfândega lá surge de novo o senhor. «Desculpe mas disserram-me que parra Almáfa era o 28. Este não é o 28?...». Percebi então finalmente que o que ele queria era ir para Alfama e lá lhe indiquei o caminho até ao 28E.

Mas o dia de hoje na 25E não se ficaria pelo português de Almáfa. Em Santos e com destino à Estrela, entra um individuo que por sinal, já o tenho transportado algumas vezes e sempre na carreira 25E. Aparentemente com alguma perturbação mental, entra cumprimentando-me como colega, mas aquela cara além de muito mais velha que eu, não me faz recordar nem colegas de escola quanto mais da Carris. Digamos que é um dos tais tipos de passe para se transportar. Se em viagens anteriores tinha causado alguma confusão junto dos restantes passageiros, hoje, decidi ficar atento ao indivíduo para que todos pudessem ter uma viagem tranquila. 

Aparentemente viajava calmo, com o seu jornal dobrado, livro, charuto - que deve ser sempre o mesmo e apenas para o estilo - e um perfume daquele tipo patchouli. De vez em quando lá dizia algo sem sentido, até que numa paragem na Garcia de Horta, dois turistas decidem sair e ele decide pregar uma rasteira. Os turistas atentos, aperceberam-se de imediato que não valia sequer arranjar problemas e seguiram caminho. Mas como malucos há muitos, já na paragem da Rua de São Domingos, à Lapa, um senhor com idade perto dos 65/70 anos, vai para sair, mas ao ver que o tal indivíduo ia também abandonar o veículo, decide dar a vez para a saída. O tal indivíduo a que todos chamam maluco, soltou um berro ao senhor que também ia sair dizendo: «Sai lá pá!»

Mas desta vez teve azar, ou saiu-lhe o prémio ao qual há muito se candidatava. O senhor não pensou duas vezes e ao mesmo tempo que dizia «mas tas a falar com quem pá?», fechou o punho, e deu-lhe um valente "selo" e com "carimbo", como se pôde depois comprovar com o sangue que escorria do nariz já do lado de fora do eléctrico, do tal maluco que desta vez apanhou um ainda mais maluco que ele e sem meias palavras, talvez inspirado no antigo seleccionador nacional Scolari. Limitando-se a assoar o sangue e de cabeça para o ar lá subiu o resto da rua, enquanto que o outro senhor se tornou o herói da tarde na 25E. Quem se transportava aplaudia a perspicácia do punho de 65/70 anos dizendo que «há muito que ele já estava a precisar de levar uma valente», enquanto que outros diziam pela janela «Bem feito!», tinha-se encontrado um herói na carreira 25E. O eléctrico seguiu então a sua viagem com aquele soco como tema de conversa, e sem reacção nenhuma de quem levou um selo que deve ter permitido viajar até ao outro lado do mundo, e até ver estrelas, sem chegar ao largo da Estrela.

E como se não bastasse toda esta situação, estava ainda para vir na viagem da recolha uma senhora com alguma idade, mas de língua bem afiada, que dizia perante o espanto de quem era surpreendido com o preço da tarifa de bordo (2.85€), que a razão era os guarda-freios ganharem mais que os motoristas, porque ela sabia bem do que falava, dizia. Confesso que esta nunca tinha ouvido. Mas como hoje parece que tinha saído na rifa, lá tive de gramar aquela conversa do bilhete, dos passes, dos cortes e até das reclamações feitas nas relações públicas da Carris, até Alcântara, onde a senhora abandonou o eléctrico, depois de ter propagandeado que «já nem prémios tínhamos por serem ruíns», e que já foi «a Miraflores de propósito às relações públicas, falar por causa dos cortes de Março que é uma vergonha», e ainda «que fazem o que querem e cada vez pagamos mais», não esquecendo que «eles ganham bem e vieram para a Carris porque não quiseram estudar, pois nem precisam de carta que a Carris dá-lhes». 

Na verdade esta senhora não merecia mesmo resposta nem tão pouco conversa, porque além de estar bastante desactualizada, parecia mesmo ter alguma inveja de não trabalhar na Carris, apesar de nem um terço da propaganda que fez ser verdade, mas contive-me nas palavras, até porque já era a última viagem e não me apetecia mesmo nada indicar-lhe como havia de fazer para se candidatar a tripulante desta grande casa que é a Carris, como dizia o outro.

[n.d.r.]: Imagens de Arquivo

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