sexta-feira, 22 de julho de 2011

Uma viagem à reflexão...


De mochila nas costas um grupo de turistas entra logo cedo junto a Santo Amaro, quando ainda o eléctrico tinha acabado de sair da estação para mais um dia na carreira 28E. Mal os vi pensei: “Já só faltam 4 dias para também ir de férias”. Certo de que, nestas e como em todas as férias que já tive, não vou andar a correr feito maluco, como andam muitos dos turistas que nos visitam, até porque para correrias já basta quando se trabalha, mas é sempre bom saber que já só faltam quatro dias.

Engana-se o leitor, se pensa que nada de anormal tem ocorrido a bordo dos transportes públicos desta cidade de Lisboa que viu no primeiro semestre de 2011, um aumento no número de utilizadores dos transportes públicos. E o facto de não terem surgidos novas histórias recentemente não se deve igualmente a nenhuma medida da Troika ou do novo governo. Não se deve igualmente a uma desistência da minha parte no que toca à observação, porque isso já está no sangue que corre pelas veias.

Contudo, há situações que merecem mais destaque que outras, e que por ocorrerem quase todos os dias tornam-se já banais ou repetitivas se tivermos em conta que fazem também elas parte, das histórias que os mais velhos contavam ás novas gerações. Mas a passagem da oralidade à escrita foi um passo importantíssimo na história do homem e por isso mesmo este blogue continua no meu ver, e creio que no ponto de vista de quem o segue, a ter razão de existir.

Quer seja pelo relatar de histórias impensáveis mas que acabam por se passar quase todos os dias, quer seja pelo cómico de uma situação como é, a de ver alguém perguntar meio aflito se «esta paragem é para o Castelo?», quando acabamos de anunciar em tom alto “Castelo de São Jorge!”.

Não deixa igualmente de ser irónica, a “aflição” do povo estrangeiro que ao ver dois eléctricos a aproximarem-se de uma paragem, correm de imediato para o segundo na esperança de conseguirem um lugar sentado. Uma esperança que acaba por cair como caiu o muro de Berlim, quando o tripulante, diz que a porta só se abre na paragem, porque apesar de nos considerarem lixo, ainda conseguimos ter algumas – poucas é certo – regras.

E nuestros hermanos que teimam em querer entrar pelas portas de trás, quando todos os passageiros estão em fila a caminho da porta da frente que tem inscrita por cima ENTRADA, ao contrário da porta da retaguarda que tem a inscrição SAÍDA. Será a palavra “Saída” tão diferente de “Salida”?

Curioso é também ver que muitos continuam a querer utilizar o “passe saudação” pensando que o «Boa tarde senhor guarda-freio» é meio caminho andado para uma viagem à borliu, assim como os que optam pelo “passe doloroso”, que é usado por aqueles que entram a queixar-se das dores e das operações às articulações que lhes tem tirado o sono, querendo fazer-nos esquecer o sinal sonoro do validador.

Mas nem só os nossos queridos passageiros nos causam estas histórias por vezes hilariantes, ao ponto de inseri-los todos no mesmo saco e apelidando-os de “queridos passageiros”, até porque também eles nos tomam quase sempre como maus, bastando para tal, uma paragem que não é feita por a lotação estar completa. «Os senhores são péssimos! O seu colega da frente nem abriu a porta. Vem uma pessoa do trabalho... Nem consegue chegar rápido a casa...» “Então e nós? Andamos a brincar?”... Ou a passear, como dizem outros!?

Também, os outros utentes da via causam-nos motivo para ter de contar, quer seja pela inteligência ou “xico-espertice”, se é que existe este termo. Se não existe, passa então a existir para aquele senhor que depois de ver uma fila de trânsito à espera que a luz verde do sinal desse ordem de marcha, decidiu ultrapassar todos e enfrentar de frente o eléctrico, tal como o touro enfrenta o toureiro. Digno de registo por parte dos turistas espanhóis também eles fãs das touradas. «usted es más inteligente que los demás, non?!», grita um espanhol pela janela do eléctrico.

Mas peritos em fazer perder a paciência de qualquer um estão os “nodys, fugareiros, micro-ondas”, ou como lhes queiram chamar. Prefiro chamá-los de táxistas, porque também como em todas as profissões há bons profissionais que não devem ser confundidos com uma amostra da classe, por muito grande que seja a amostra. Eles são os réis das ultrapassagens para logo que acabam de retomar a via, já a frente do eléctrico, pararem para largar o passageiro. São também eles que nos fazem relembrar aqueles motores a diesel dos anos 80, quando nos tentam a todo o custo ultrapassar na subida da Calçada da Estrela, acabando muitos deles por desistirem de tal aventura, já depois de terem queimado parte do combustível e sem resultados à vista, porque os 600 volts da corrente acabam por vencer.

Por estas e por muito mais razões já aqui relatadas, continuarei diariamente em contacto com as pessoas como até então, até porque são elas a razão da nossa existência na Carris, nem que seja para receber as reclamações do preço do bilhete, ou do atraso do transporte, o que acaba por ser perfeitamente normal quando somos o rosto  de uma empresa. E assim vai o dia-a-dia de quem transporta diariamente milhares de pessoas entre vários pontos da cidade e de vários pontos do Mundo.

Boas viagens!

3 comentários:

Angelo disse...

E eu continuarei a ler.

Uma óptima súmula!

E boas férias!

Jaime A. disse...

Boas viagens e "boas postagens" para si, meu caro motorista/guarda-freio.

ZéBonéOaparvalhado disse...

Calç. da Estrela? ... até cança só de falar dela. Nasci naquela

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