domingo, 1 de agosto de 2010

Leituras sobre carris (I): O amigo 28 das Escolas Gerais

«...O eléctrico escorrega devagar para as Escolas Gerais. Não há que ter medo, as calhas estão afinadas, o guarda-freio é experiente. Desta vez paramos. O sinal está vermelho, da cor do silêncio. Escutam-se a respiração da senhora do lado, as contracções do estômago da sua amiga, o cochichar das jovens atrás, o ranger dos dentes do velho. (...) O verde acende, o eléctrico soluça. Os semáforos substituíram os homens das placas de stop, sentados nas esquinas traiçoeiras a comandar o trânsito, a evitar o frente a frente de manobras perigosas nestas ruas onde mal cabe um veículo sozinho. A garota de penteado exótico levanta-se para sair depois do estreito das Escolas Gerais, com via única. Leva um saco recheado para vender na Feira da Ladra, logo ao virar da esquina da Igreja de São Vicente de Fora...»

In "Eléctricos de Lisboa - Aventuras sobre Carris", Gradiva - Nov.1994 .

Um retrato do bairro onde cresci, do bairro onde aprendi e onde brinquei. Um relato escrito dos tempos em que ainda eram os carros da série 700 que me levavam à escola, ou ao chiado. Na Graça apanhava o 28 de volta para casa depois de mais um dia de escola, e quando os amigos não estavam para me acompanhar nas brincadeiras pelas ruas de Alfama, nos tempos em que ainda eram outras as brincadeiras, lá ia de novo ter com os outros amigos - os sinaleiros e guarda-freios.

Muitas tardes passei junto daqueles que vieram a desaparecer, substituídos por semáforos. E quando aparecia um guarda-freio conhecido lá ia até aos Prazeres ou ao Camões, sem nunca pensar que um dia viria a ser guarda-freio, embora o gosto pelos eléctricos viesse já desde estes tempos. Hoje sou eu que levo o eléctrico e ao passar por estas mesmas ruas, agora que já cheguei à 28, tudo me vem à memória. Os amigos, os hábitos e costumes, as tardes de verão em Alfama.

O lugar que ocupava ao lado do guarda-freio é agora ocupado por outros e agora sou eu que, ao centro do eléctrico e ao chegar ao Largo das Portas do Sol digo «Castelo, Castle, Castillo, Château....»

4 comentários:

CR 35 disse...

Rafael ,o primeiro texto seria a tua interpretação em hieróglifos,das aventuras passada a bordo dos 700 da carreira 28 quando eras miúdo ,e hoje ao tripulares carros 500 na carreira 28 e mostrares aos camones todo o teu saber de convivência com os GF e Sinaleiros nessa linha fazendo aquilo que gostas é um continuar das tuas memórias de miúdo para adulto e fazendo aquilo que gostas melhor ainda ,continua no sobe e desce ,mostra aos camones o bairro onde nasceste e foste criado que a gerência agradece!!!!Boas viagens a bordo dosveículos da CCFL.

Liège disse...

Rafael, cheguei aqui por acaso e gostei de ler suas histórias.
Um abraço.

Carlos Andrade disse...

«...O eléctrico escorrega devagar para as Escolas Gerais. Não há que ter medo, as calhas estão afinadas, o guarda-freio é experiente. Desta vez paramos. O sinal está vermelho, da cor do silêncio. Escutam-se a respiração da senhora do lado, as contracções do estômago da sua amiga, o cochichar das jovens atrás, o ranger dos dentes do velho. (...) O verde acende, o eléctrico soluça. Os semáforos substituíram os homens das placas de stop, sentados nas esquinas traiçoeiras a comandar o trânsito, a evitar o frente a frente de manobras perigosas nestas ruas onde mal cabe um veículo sozinho. A garota de penteado exótico levanta-se para sair depois do estreito das Escolas Gerais, com via única. Leva um saco recheado para vender na Feira da Ladra, logo ao virar da esquina da Igreja de São Vicente de Fora...»

Andre Bravo Ferreira disse...

Fantástica essas memórias de infância. Obrigado por partilhares.

Abraço.

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