quinta-feira, 29 de abril de 2010

Situações que contadas ninguem acredita...

As situações que vão ocorrendo no nosso dia-a-dia, quer seja num autocarro ou num eléctrico e que tenham Lisboa como pano de fundo, são sempre factos que dariam para escrever mais do que um livro, e muitos desses factos, completamente descabidos ou impensáveis.

No decorrer desta semana presenciei mais uns quantos que tão depressa não me irei esquecer. Não porque tenham sido demasiado importantes, mas pelos actos por exemplo da funcionária da Câmara Municipal de Lisboa que com o seu colega decidiram deixar o veículo, (ao qual não sei o que chamar, porque nem é mota, nem é carro nem carrinha) em cima da linha do eléctrico que fazia mais uma viagem dos Prazeres à Rua da Alfândega.


Como em redor não havia lixo espalhado nos passeios, deduzi logo que estivessem no café ali ao lado. Chego o eléctrico um pouco à frente já depois de ter alertado a minha presença com a campainha e verifico que os mesmos estão encostados ao balcão descontraídos a beber umas imperiais. Faltava mesmo só os tremoços, porque não lhes faltou a lata que tiveram para dizerem que só tinha era de esperar «porque se fosse-mos à casa de banho também tinhas de te aguentar...», dizia a funcionária do município, ao mesmo tempo que transmitia uma imagem que não devia de toda uma classe.

Mas esta não foi a única situação parecida. Já ontem, o serviço que tive não dava um livro, mas sim um filme. Porque a chegada à Rua de São Paulo - claro é sempre nesta rua - com destino à Estrela, uma carrinha mal estacionada ainda antes de chegar ao Ascensor da Bi
ca, deixou-me ali parado cerca de 25 minutos, também depois de já ter tocado a campainha insistentemente durante algum tempo, sem sinais de que o proprietário estivesse por perto.

Mas engana-se - como eu - quem pensa que o proprietário estava longe. Depois de ter informado a central da interrupção e ter pedido o reboque, um carteiro dos CTT informa-me que o dono da carrinha era um homem de t-shirt branca que estava encostado à porta de uma loja e que já nos tinha visto até, desde a altura que ali tinha-mos chegado. Descontraidamente dirige-se para a carrinha e pergunta se «não passa por causa da carrinha? Desculpe mas nem tinha reparado que era eu que estava a estorvar...», escusado será dizer que os passageiros que permaneceram dentro do eléctrico só não lhe chamaram santo.


Mas a semana deu ainda para ver os cavalos da GNR em treinos para as comemorações desta força que se comemora em breve (2ªfeira - 3 de Maio), o que acabou por fazer parar a carreira 18E por alguns minutos, sempre agradáveis para ver a força com que os cavalos vencem a colina da Ajuda, para encanto também dos turistas que se transportam no 18E com ideia que aquele é o eléctrico que os leva ao Castelo de São Jorge ou a Belém.

Outros há que até perguntam qual o destino e seguem viagem, porque o que querem mesmo é conhecer Lisboa com a ajuda do eléctrico.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

HeavyTram com fruta à mistura...

Mais uma semana para o historial desta nova etapa na Carris. Sexta-feira, sempre com muito trânsito à mistura e claro está algumas situações que me deixam a pensar "será que isto está mesmo a acontecer?"...

O certo é que em segundos vejo que a realidade é mesmo o que os meus olhos vêem e se numa tarde onde os turistas eram a nota dominante até na carreira 18E, onde vendi mais de 40 bilhetes (algo também fora do normal, nesta carreira que tem dias que surpreendem mesmo quem queria aca
bar com ela), deixaram de o ser logo depois de, já perto do final da tarde, ter chegado à paragem do Cais do Sodré, com destino à Ajuda, e ter na paragem um passageiro com o seu estilo heavy metal apurado, de phones nos ouvidos e o belo do óculo de sol à aviador. De casaco comprido preto e cruz prateada ao pescoço, lá ia fazendo a vénia a quem entrava no eléctrico, deixando-se ficar para último.

Já prestes a retomar a marcha, acaba mesmo por entrar e o som dos seus phones era de imediato audível em todo o eléctrico. «Boa tarde sr. guarda-freio, quero um bilhete s.f.f.», dizia de forma alegre, ao mesmo tempo que a perna acompanhava a batida da bateria. O bilhete rapidamente sai da máquina e num instante pergunta-me se pode ali permanecer encostado à esquerda do eléctrico: «não se importa que vá aqui, pois nã
o? É para apanhar o fresquinho da janela», dizia ao mesmo tempo que voltava a colocar o phone na orelha esquerda e acrescentando que «é uma loucura andar de eléctrico. Muito obrigado por vocês serem honestos e manterem de pé este meu prazer que é andar de eléctrico».

Atrás de mim ia já um senhor com um sorriso e com um pensamento que nem eu quero imaginar. O homem lá continuava a ouvir o seu heavy metal, obrigando-me também a ter de ouvir os decibéis que, eram perceptíveis mesmo para quem não levava nada nos ouvidos. Já na paragem do Conde Barão diz-me que eu devia ter orgulho na minha profissão ("por acaso até tenho") porque ser guarda-freio sempre foi uma profissão que lhe invejou, garantia.


«Mas quando era mais novo o que eu queria mesmo era ser guarda-freio do 28. Ehehe dava mesmo Graça ter os Prazeres de conduzir estes carros, não sei porquê. Não ligue, talvez por causa da manivela não sei», dizia ao mesmo tempo que curtia a música e a viagem no eléctrico. Já em Santos, talvez pelo facto do final de tarde ter arrefecido, decide sentar-se lá atrás e dar também música aos restantes. Os sorrisos pela figura única que ali se transportava, perdoem-me a redundância, eram trocados entre os restantes passageiros e quando chegou à Boa-Hora, despede-se dizendo boa tarde a todos e gritando que «eu gosto de andar de eléctrico e digo a toda a gente, ao contrário de outros. Desculpem mas eu curto mesmo disto!»


Já do lado de fora do eléctrico segue o seu rumo enquanto que alguém no interior do eléctrico dizia que «o homem deve ser é doido!». A verdade é que o homem não se meteu com ninguém, pagou bilhete e ainda curtiu a viagem à sua maneira.

Quem viajou também à sua maneira e na ultima viagem que fiz para a R. da Alfândega foi uma idosa que já a apanhei várias vezes no Calvário e consigo trás sempre uma caixa de fruta vazia. Pede-me sempre encarecidamente para a deixar entrar por trás com a caixa e promete que não estorva ninguém até sair duas paragens à frente. Como o eléctrico ia praticamente vazio, lá lhe autorizei a transportar-se e já depois de acomodar na retaguarda a caixa de madeira vazia, dirige-se ao validador, passou o título de transporte e «muito obrigado senhor condutor. Fica aqui com quatro peças de fruta para o seu jantar, pelo jeito que me fez», ao mesmo tempo que colocava o saco em cima do controller, e escusado será dizer que a senhora ficaria chateada se eu não tivesse aceite. Pessoas de outras gerações com outros hábitos e outros costumes.

São estas e outras coisas que fazem desta profissão única e como alguém disse esta tarde, ser uma profissão digna de se ter orgulho.


quinta-feira, 22 de abril de 2010

Uma carta passageira

Inesperada ou inconveniente. O remetente era uma agência de viagens já o destinatário era muito provavelmente a senhora que entrou na Rua de São Domingos, na Lapa e com destino à Rua da Alfândega, com uma mão cheia de cartas, que mais parecia o carteiro da minha rua, que agora aprendeu a tocar todos os dias na minha campainha, mesmo não tendo correspondência para me entregar.

Durante a viagem o som do rasgar do papel, ia sendo intervalado com o olhar atento e por vezes desagradado da senhora ao ler o que vinha no interior de cada uma, dando a ideia de estar a ver alguma conta da luz, água, ou gás ou porque não do telefone...

Mas viajar, qualquer um gosta, e das duas, uma: ou a carta apresentava também ela, uma conta por pagar ou então era publicidade enganosa. O certo é que chegados ao terminal da R. Alfândega uma das passageiras alertou-me que ali tinha ficado uma carta. Como não estava à espera que alguém me escrevesse, muito menos para o eléctrico, calculei logo que fosse da senhora que tinha entrado na Lapa e tentei ver para onde tinha ido, mas já sem êxito.

A carta estava ainda fechada e assim ficou. Entreguei-a na expedição da estação quando recolhi, mas dispensei o tradicional apregoado "é o correio!", e o mais provável é esta carta "viajar" de novo até aos correios e posteriormente para a morada da senhora.

Depois de uma prótese dentária (ver aqui) esquecida no autocarro que deixou muita gente sem palavras, hoje foi uma carta esquecida no eléctrico, que deixou alguém a falar para o boneco, a menos que a senhora ainda não se tenha apercebido que perdeu aquela carta.


terça-feira, 20 de abril de 2010

«Afinal de contas» este é o lugar mais apetecido do eléctrico!

É o lugar mais apetecido. Faça chuva ou sol, é o primeiro lugar a ser ocupado. Aberta ou fechada, por ela cruzam-se olhares, por elas espreitam-se as colinas, nelas debruçam-se braços de quem quer desfrutar ao máximo a viagem a bordo de um eléctrico de Lisboa. Trocam-se palavras, tiram-se fotos e fala-se até em queijo! Mas o "cheese!!!" é só para mais uma foto que um dos elementos do grupo brasileiro que esta tarde entrou no Corpo Santo, tirava com a sua polaroid.

Modernices a bordo de um transporte que ainda é do tempo em que se dizia para a máquina fotográfica "batata frita", só para se tentar dar um ar mais natural a uma fotografia que serve para mais tarde recordar. E se os amigos dos bondes, ficaram encantados por andar de eléctrico ainda que numa viagem curta até à Rua da Alfândega, onde apanharam o 35 rumo ao Areeiro, outros (alemães) houve que quiseram repetir a dose no sentido inverso.

Mais uma viagem para a Ajuda e com o regresso a casa de quem tinha cumprido mais um dia de trabalho ou de estudos. O rapaz que ia sentado no primeiro banco da esquerda respondia com entusiasmo às perguntas que a mãe lhe ia fazendo pelo caminho. Se tinha comido a sopa, se tinha trabalhos de casa, se já sabia a tabuada, enfim quase um daqueles interrogatórios que quando somos pequenos temos de enfrentar diariamente. E quando menos esperava... «então e 6 vezes 10 a dividir por 2?», perguntava a mãe ao que o rapaz respondeu «ó mãe essa é fácil... 30!»

Contas à parte num instante chegámos à Ajuda e o relógio dizia que até iniciar nova viagem com destino ao centro da cidade faltavam ainda 6 minutos. O sol que durante a tarde entrou sem pagar bilhete pelas janelas do eléctrico, partia ainda antes do eléctrico, dando lugar a alguns aguaceiros inesperados para quem tinha deixado o chapéu-de-chuva em casa. Uma jovem pergunta-me se passo no pavilhão da Ajuda e após saber que o 18E lá tinha uma paragem próxima, compra-me um bilhete e pede-me encarecidamente que lhe avise «porque não percebo nada disto e não sei sequer onde estou», dizia.

Chegado ao Pavilhão, avisei-lhe que tinha de descer. Na mesma paragem e do lado de fora, uma senhora pergunta-me se passava na Praça da Figueira. Digo-lhe que não e que ali, tinha o 60. «Mas passa lá perto então!?!», dizia-me com tanta certeza quanto a incerteza que tinha, quando perguntou. Ao mesmo tempo entra e impede a passagem dos restantes passageiros por instantes. Parecia que alguém tinha carregado no botão do "Pause" da "box amarela" a 3D.

Senta-se e duas paragens à frente levanta-se e pergunta-me, «onde termina este eléctrico afinal de contas?»,e digo-lhe que "este é o 18E e termina na Rua da Alfândega", que normalmente ninguém conhece, porque ou dizem que é na casa dos Bicos ou no Campo das Cebolas.

A viagem prossegue já com alguns pingos, mas ainda vejo pelo espelho exterior, alguém que decide levar cabelos ao vento na janela que continua aberta. Indiferente aos pingos de água que vão caindo, chega ao terminal como se nada fosse e quando lhe digo que terminou a viagem... «Desculpe. Estava a saber-me tão bem a viagem de eléctrico que voltava novamente, mas não para o trabalho... só mesmo em passeio, mas tenho de apanhar o barco», mostrando que estava prestes a ser vencida pelo cansaço de mais um dia de trabalho.

Amanhã há mais! Boas Viagens!

domingo, 18 de abril de 2010

Sugestão do Tripulante (7): Moinhos de Santana à boleia da carreira 28

"Amplos relvados e inúmeras árvores e arbustos, bem como a presença de um lago e cascata, convidam a um passeio pela rede de caminhos que percorre toda a área, encontrando na zona mais elevada uma ampla vista sobre a cidade", esta é a descrição perfeita para a sugestão desta semana do blogue «Diário do Tripulante», e para lá chegar basta apanhar o autocarro 28 que liga a Portela ao Restelo.

Sabia que...

A 27 de Fevereiro de 1956 entrava ao serviço mais uma carreira de autocarros da carris, com vista a servir a zona industrial de Cabo Ruivo, partindo da Praça do Comércio. Mas um ano bastou para esta carreira ver o seu percurso prolongado até Moscavide e o seu serviço a funcionar também aos Domingos e Feriados.

Mas depois de servir a população de Moscavide, chegou a altura de, em 1964 a carreira 28, vir servir também as nova urbanização do Restelo, tendo assim visto o seu prolongamento da Praça do Comércio ao Restelo.

Em 1999, um ano após a exposição mundial dos oceanos que decorreu em Lisboa e devido à reestruturação do serviço da Carris na Portela de Sacavém, a carreira 28 chega então à Avenida dos Descobrimentos onde ainda hoje efectua terminal, mantendo o terminal da Avenida das Descobertas, no Restelo, provando que esta carreira é mesmo das melhores para se descobrir Lisboa, dado que a percorre de uma ponta à outra.

A cidade através da carreira...

Foi das primeiras carreiras a receber os novos autocarros articulados recentemente adquiridos pela Carris, e logo por ai é uma boa razão para se viajar confortavelmente nesta carreira que liga a zona nobre de Belém à rica freguesia que fica à porta de Lisboa e que dá pelo nome de Portela que tem como vizinho principal, o Parque das Nações.

A carreira 28 tem portanto vários pontos de interesse ao longo do seu percurso e muito há para se visitar, desde o Mosteiro dos Jerónimos, ao Panteão Nacional que se avista da sua paragem em Santa Apolónia, passando pelo recinto que foi construído propositadamente para a Expo98 e que veio dinamizar toda a zona oriental da cidade.

Mas a sugestão desta semana do «Diário do Tripulante», recai uma vez mais sobre espaços verdes e ao ar livre. Um espaço de 5 hectares onde pode desfrutar de uma vista fantástica sobre o Tejo e a margem sul,no seu ponto mais alto que comporta dois moinhos e um miradouro.

Refiro-me então ao Parque Recreativo dos Moinhos de Santana. E se em Santana, na Madeira são as casas que caracterizam a região, aqui são mesmo os dois moinhos que "foram edificados para as freiras Dominicanas Irlandesas do Convento do Bom Sucesso, na Serra do Monsanto, em meados do século XVIII, numa altura em que cerca de cem moinhos eram responsáveis por moerem a farinha que abastecia a cidade. Os moinhos foram depois adquiridos pela Câmara em 1942 e reconstruídos entre 1964-1965".

"Em 1997, este parque é aberto ao público, como grande área de lazer e recreio, enquadrando os moinhos numa ampla zona verdejante com relvados, muitas árvores e arbustos, onde se destacam alguns exemplos da flora, como: o cipreste-da-Califórnia, a alfarrobeira, a amendoeira, a oliveira e o pinheiro manso"
, diz o guia Lifecooler.

Este Parque Recreativo dos Moinhos de Santana, dispõe de um conjunto de equipamentos lúdicos e desportivos destinados a várias faixas etárias da população, como restaurante, parque de merendas, parque infantil, pista de skate, ringue de patinagem e circuito de manutenção.

Conta ainda com um anfiteatro ao ar livre com capacidade para 180 pessoas. Para os mais pequenos o restaurante local tem também um equipamento de diversão sob a forma de um eléctrico que acaba também por se integrar no contexto do blogue. O parque localiza-se entre a Rua Tristão Vaz (onde deve sair do autocarro da carreira 28) e a estrada de Caselas, na Freguesia de S. Francisco Xavier, no Restelo.

As razões, são portanto, mais que muitas para respirar um pouco de ar puro neste recanto da cidade que fica na encosta de Monsanto e que é um local ideal também para os miúdos libertarem as energias de uma semana inteira de escola.
Se a tarde estiver agradável e tiver tempo pode ainda descer a Rua dos Jerónimos até Belém e lanchar na mais antiga fábrica dos Pastéis de Belém.

Informações Úteis...
O parque tem o seguinte horário:
Outono/Inverno - 1de Outubro a 31 de Março:- 8.30 às 18.00 Horas

Primavera/Verão - 1 de Abril a 30 de Setembro
- 9.00 às 19.30 Horas
Autocarros e eléctricos mais próximos do Parque, além da carreira 28:
18E, 714, 727, 732 e 751

Fonte: A minha página carris, de Luís Cruz-Filipe / Carris.pt / CM-Lisboa.pt / Lifecooler.com

quarta-feira, 14 de abril de 2010

[Off Topic]: É triste mas é verdade!

É uma realidade cada vez mais visível e recorrente. O vandalismo continua a escolher símbolos nacionais para se mostrar ao público, através de actos de difíceis soluções a nível de resolução deste problema. Depois de reparado recentemente o Ascensor do Lavra voltou a ser vandalizado, o que não deixou indiferente o blog Cidadania LX que lhe dedicou um post.

Se é este o conceito de arte, aceito ofertas de um novo dicionário porque então o meu está desactualizado! As imagens falam por si aqui.

Ainda sobre a temática dos transportes e da cidade de Lisboa, este mesmo blog, refere um estudo da EuroTest que define a rede de transportes de Lisboa como «aceitável», para ler-se aqui.

terça-feira, 13 de abril de 2010

"Duas em um"...na carreira 25E! Aqui há gato

E se este fosse um relato de um jogo de futebol, como seria o texto que contava a história deste dia de trabalho? Talvez algo parecido com... "Tarde cinzenta na capital, com a chuva a dar sinais de um regresso indesejado, depois de alguns dias quentes na cidade de Lisboa. Poucos passageiros a meio da tarde na carreira 25E onde a presença de uma única pessoa acaba por estragar o dia a várias que tentam a todo o custo chegar a casa depois de mais um dia de trabalho..."

Mas relatos à parte, o certo é que a velha dos gatos voltou a dar sinais de vida bem ao estilo de uma qualquer promoção numa superfície comercial "Duas (vezes) em um (dia)". Já por aqui escrevi sobre esta senhora que mora na Lapa, mas hoje volto a escrever porque, se transportá-la uma vez num dia como tinha acontecido até então é mau, imagine agora o leitor o que é levar com um cheiro enfadonho a mijo de gato retardado que aliado à falta de asseio da própria pessoa, se entranha nos bancos, nas madeiras e em todas as partes do eléctrico, duas vezes no mesmo dia. Primeiro foi da Rua São domingos até ao Corpo Santo e confesso que nunca vi o Corpo Santo tão longe como hoje. E numa segunda vez, foi da Estrela até à Rua de Buenos Aires.

«Ó chefe, se fizer favor pare na próxima para me deixar sair, se não se importa?!», pedia a senhora já na segunda visita do dia. Até foi um favor que me fez confesso. Talvez tenha sido a viagem mais rápida entre a Estrela e esta paragem, de quem há pouco tempo anda na linha. Mas afinal como agir perante estas situações? Já nos autocarros sofria com os odores e se aqui também se sofre, com um transporte bem mais arejado imaginem a intensidade do cheiro (que pena a Internet não permitir a transferência dos cheiros). Se uma vez pedi a um senhor na carreira 745 que saísse porque além de me incomodar, não tinha condições para se transportar num transporte público, causou alguma repulsa por parte dos passageiros, hoje decidi ver se alguém abria a boca.

Olho pelo espelho e os rostos anunciavam pessoas à beira de um vómito, outras pressionavam as narinas, uns sussurravam com o vizinho do lado, outros até se dirigiam para a retaguarda do eléctrico, mas enquanto aquela senhora lá seguia dentro sentada ninguém abriu a boca para dizer o que fosse até porque parecia que no eléctrico iam era gatos em vez de passageiros. Já depois de ter saído, todos os passageiros comentavam alto e em bom som que é cada vez pior aquela situação, tal e qual como os debates quinzenais na Assembleia da República, onde todos querem a palavra para dar a sua opinião.

O certo é que até os passageiros já vão conhecendo a senhora dos gatos, senhora esta que todos os guarda-freios não desejam certamente ver na paragem ao virar da esquina e se muitos ainda dizem com alguma sorte que nunca a apanharam outros há que a apanham diariamente, é caso para dizer que aqui há gato!

Fotomontagem: Rafael Santos

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Afinal... «De que lado está o Sol ?»

Nova semana de trabalho pela frente e quando menos se espera... eis que surge a pergunta da tarde! Depois de dada a saudação e ter validado o seu título de transporte, ainda no terminal da Rua da Alfândega, uma senhora hesita na escolha do lugar que vai ocupar, talvez pelo facto da fartura ser muita. Pois ainda estava vazio o eléctrico.

Mas para que a escolha fosse acertada à primeira, nada melhor que perguntar ao guarda-freio a opinião. «Desculpe, mas de que lado é que está o sol? É que já que não posso ir à praia, aproveito até aos Prazeres para me bronzear um pouco...», num primeiro impacto à questão colocada até pensei que a senhora estivesse na brincadeira comigo, mas um olhar pelo retrovisor mostrou-me a senhora em causa, à espera da minha resposta, para que se pudesse sentar.


É que agora além de termos de saber todas as ruas da cidade e farmácias como muita gente pensa, ainda temos de saber a posição do Sol e embora este estivesse em cima e não de lado, lá lhe disse que talvez estaria a bater no sítio oposto ao actual dado que iria inverter a marcha do eléctrico na raquete da Rua da Alfândega. A senhora agradeceu e sentou-se do lado esquerdo do eléctrico e deixou-me a pensar durante alguns minutos, no tipo de perguntas que as pessoas são capazes de nos fazer... Há de tudo e para todos os gostos. Amanhã há mais e esta não vale porque o Instituto de Meteorologia prevê para esta terça-feira céu nublado e descida da temperatura.

Boas Viagens!


sábado, 10 de abril de 2010

O «abrir da loja» na 25E e o fechar da semana na 18E...

Depois de ter estado grande parte da semana a «abrir a loja» na 25E, com um serviço de madrugada, com o primeiro eléctrico da carreira a sair ás 6h30 da R. Alfândega, acabei a semana na carreira 18E, e da parte da tarde, que é a altura em que mais gosto de trabalhar, já com o sol a dar sinais de um Verão que se aproxima.

As manhãs mostraram a rotina habitual dos lisboetas. Apressados em chegar ao trabalho ou à escola, mas sempre com a certeza que a viagem não ia ser feita sem interrupções, nem que fossem causadas apenas pelas cargas e descargas que ocorrem a qualquer hora na Rua de São Paulo. Há quem tente esquecer o tempo perdido a ler as notícias frescas que trazem os jornais, mas outros há que não deixam se soltar um desabafo em jeito de reprovação para o que diariamente assistem.


Na segunda-feira uma senhora pergunta-me na paragem de Santos se o eléctrico ali passaria sempre à mesma hora. Digo-lhe que "se tudo correr bem, sim. Mais minuto menos minuto, por volta das 6h40 costuma cruzar este largo...", agradece-me a informação, mas não sem antes dizer que espera que não haja adiantamentos. Talvez queira aproveitar o tempo ao máximo logo ao começar o dia.

No dia seguinte lá está na paragem e à mesma hora. Reconheço-a de imediato, porque a minha memória visual ainda está apurada. Na paragem seguinte também a passageira que na véspera tal como nessa manhã trazia consigo o bebé ao colo, que parece ainda não estar habituado ao ranger das calhas a cada curva do eléctrico.


Num instante subimos a colina e com o carro quase cheio chegamos à Estrela. Ali saem grande parte dos passageiros. Mas pela porta da entrada entram dois idosos que aproveitam a boleia do 25E para irem tomar o pequeno almoço ao Canas.

Ao terceiro dia de 25E a primeira interrupção. Na Rua de São Domingos, um camião carrega uma grua para uma obra nas ruas vizinhas. Mas um carro mal estacionado impossibilita-o de entrar nessas ruas. Sem qualquer tipo de policiamento, descarregam ali mesmo a grua, para descontentamento dos passageiros que tinham horas certas para entrarem ao serviço. À minha frente está o eléctrico do turismo, repleto de turistas que se levantam para registar o momento, também eles incrédulos com o que se faz por cá.

O que parecia ser rápido demora mais de 20 minutos, o suficiente para atrasar a carreira e a vida de muita gente. Depois de feitos os trabalhos, os carris ficam de novo livres e lá prosseguimos a descida com o Tejo ao fundo a fazer esquecer tempo perdido. A chegada ao Corpo Santo trás novas paragens e desabafos de quem está saturado daquele caos matinal que se repete ao fim da tarde. «Isto cada vez está pior! Não há quem meta mão nisto e o zé povinho é que paga», diz uma senhora.

A semana termina então na carreira 18E. Diferentes caminhos, pessoas diferentes. Para a Ajuda transporta-se quem vai trabalhar ou estudar e no sentido inverso o eléctrico é a ajuda para vencer a descida inclinada até ao Mercado. As manhãs são rotineiras. As caras são as mesmas todos os dias, os gestos repetem-se a cada viagem. A eleição de Lisboa como melhor destino de férias para 2010, parece já colher frutos e embora o verão ainda não tenha chegado, o certo é que Lisboa já está repleta de turistas.

No Cais do Sodré, e com um português "arranhado" dizem-me... «querro dôs bilhetes parra Ajuda Palace , porre favorre», são dois euros e oitenta! Sentam-se contentes e com o mapa de Lisboa na mão. Atrás um senhor que se esqueceu do passe em casa, pede-me «um bilhete para quem não se devia ter esquecido do passe, se faz favor...» , Um euro e quarenta cêntimos é o custo do esquecimento. E em jeito de brincadeira ao entregar-lhe o bilhete ainda me pergunta se não acho «caro 1,40€ por um pedaço tão pequeno de papel que já não tem o encanto dos bilhetes de outros tempos?»

A paragem esvazia-se à medida que o eléctrico enche e passado algum tempo lá prosseguimos viagem rasgando o horizonte da avenida 24 de Julho que apenas nos deixa ver o eléctrico da carreira 15E que já dobra a curva de Santos. Subimos a colina para gáudio dos turistas que ficam impressionados com a força do eléctrico a vencer as inclinações acentuadas da cidade.

É finalmente sexta-feira. O serviço é de tarde e que tarde... Parece Verão autêntico. Os decotes assim anunciam. A brasa visível junto ao alcatrão comprova. A Praça do Comércio ainda em obras já permite que se veja o rio através das janelas do eléctrico. E do lado oposto, mal se vê a calçada da Rua Augusta que mais parece um formigueiro. O silêncio à porta do cemitério da Ajuda deixa-nos ouvir o rádio da florista que se prepara para fechar o quiosque. São quase 16h30 e o cemitério fecha também as suas portas.

Do terminal parte apenas um passageiro que me diz, «vou dar uma volta para me distrair...» E só mesmo a confusão do trânsito numa sexta-feira em Lisboa, me faz chegar atrasado à R. Alfândega. Aos poucos os carros lá vão fluindo pelo Cais do Sodré e pouco depois estou de novo na Ajuda. Aproveito o tempo disponível até ao início de uma nova descida para beber um café e aconchegar o estômago. No regresso lá está à volta do eléctrico uma senhora que habitualmente segue naquela viagem. Faz sempre as mesmas perguntas, mesmo que todos os dias utilize aquele eléctrico e naquela hora.

«Ó senhor motorista este eléctrico abala a que horas?»... "ás 19h29 minha senhora!", «puxa ainda faltam 6 minutos», espanta-se, como se fosse a primeira vez que soubesse que aquele só dali partia ás 19h29. Pergunta se pode entrar, e digo-lhe que sim. Senta-se sempre no primeiro lugar à esquerda. A paragem onde desce é a primeira da Rua da Bica do Marquês e até lá faz sempre a mesma conversa. «Era para apanhar o 60, mas dá uma volta muito grande. Mas também espero tanto pelo eléctrico que é quase igual. Lá vai outro para cima está a ver?...» Despede-se sempre com o até logo, na esperança de me apanhar no regresso. Mas o regresso é já tardio. Segue-se depois a recolha a Santo Amaro já com o Sol posto e o desejo de que o bom tempo que esteve toda a semana se repita agora também no fim-de-semana.

Foi assim a minha semana e que termina também com uma notícia vinda dos Estados Unidos, através do site menosumcarro.pt que nos dá a conhecer que o eléctrico 28E,
foi um dos sítios escolhidos pelo reality show “The Bachelorette”, transmitido por uma das maiores cadeias de televisão norte-americanas, a ABC, para gravar um dos seus próximos episódios. A notícia pode ser lida na íntegra no site menosumcarro.pt

terça-feira, 6 de abril de 2010

«O que mudava em Lisboa?» no Público

Desde que este blogue entrou na blogosfera, tenho dado a conhecer um pouco do que é a profissão de um motorista (numa primeira fase) e mais recentemente a de Guarda-Freio, numa cidade como Lisboa. Muitas foram também as sugestões culturais e turísticas aqui referidas, não a pedido de ninguém, mas apenas porque gosto de Lisboa e porque quero mostrar que há muito para se ver numa cidade cujos próprios habitantes ainda vão desconhecendo, mesmo sem recebendo nada em troca.

Para quê uma tarde de domingo num centro comercial quando há jardins,
museus e espaços públicos bem mais agradáveis do que estar fechado num edifício? Para quê andar a perder tempo com a procura de um lugar para estacionar quando temos uma vasta rede de transportes públicos? É precisamente para responder a algumas destas questões que aqui têm aparecido algumas sugestões.

Mas na semana passada foi-me lançado um desafio, por parte do jornal Público que através do blogue, reparou que o meu gosto por Lisboa e a função que desempenho nos transportes da cidade, poderia ser o ponto de partida para escrever um texto respondendo a uma simples pergunta... «O que mudava em Lisboa?», inserida no suplemento Cidades, que é publicado aos Domingos no jornal Público.

Longe de querer alguma vez candidatar-me à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, o certo é que lá aceitei o desafio e disse de minha justiça. Disse o que pensei no momento e "mostrei" a Lisboa onde gostaria ainda mais de viver. Mais eléctricos, uma Lisboa mais limpa e reabitada, um trânsito mais ordeiro e o Tejo foram alguns dos pontos que foquei, num texto, onde no fundo digo o que mudava na cidade de Lisboa.

O texto foi publicado no passado Domingo, no jornal Público a quem desde já agradeço uma vez mais pelo convite feito.

"Lisboa tem sofrido muitas alterações nos últimos tempos, mas quem vive nesta cidade, sabe que muito mais há para mudar. Longe vão os tempos em que a capital tinha outro encanto. Recentemente premiada, como sendo «o melhor destino de férias de 2010», Lisboa necessita sobretudo de acompanhar as grandes cidades europeias.
Uma das grandes mudanças na cidade seria a aposta numa recuperação da rede de eléctricos da cidade, que só poderia avançar depois de se criarem condições à circulação daqueles que durante décadas marcaram ritmo na vida dos lisboetas.
Os eléctricos viriam devolver à cidade um encanto de outros tempos, aliado ao turismo da cidade que ficaria também mais rico, com um transporte que além de cómodo, é amigo do ambiente, ajudando assim a tornar Lisboa mais sustentável.
Outra das grandes mudanças seria a limpeza das ruas, edifícios e recuperação de habitações abandonadas e degradadas no centro da cidade, que por vezes até nos faz esquecer a riqueza e monumentos que a cidade ainda preserva, como tenho vindo a mostrar no blogue diariodotripulante.blogspot.com e claro está, com recurso aos transportes públicos, porque de carros está Lisboa saturada.
O trânsito era vedado em algumas zonas e condicionado a moradores noutras. Mas muito mais poderia dizer de uma cidade que até tem um rio que também é esquecido. Porque não a criação de circuitos turísticos no Tejo? A aposta na animação e na cultura seria algo também a apostar numa cidade que ainda não aproveita verdadeiro valor que tem."




sexta-feira, 2 de abril de 2010

Boa Páscoa!


A todos os leitores do blog "diariodotripulante.blogspot.com" , colegas guarda-freios, motoristas, colegas da manutenção, expedição e amigos, os votos de uma santa e feliz Páscoa!

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