quarta-feira, 31 de março de 2010

A manual: Se fosse Segunda ou Quinta...

...Era caso para se dizer: «anda à roda!», tal como a Lotaria. Prestes a acabar a 5ª. semana de trabalho nos eléctricos, depois da minha passagem pelos autocarros, lá tinha de surgir a primeira avaria que me fez recolher com o eléctrico a manual. Valeu a experiência feita durante a formação, que foi suficiente para aplicar em prática os procedimentos a ter nestes casos em que o freio manual (ver foto em baixo) passa a ser o recurso único e principal para travar o eléctrico, e para ajudar a aumentar os biceps do guarda-freio e sem recurso ao ginásio.

Para os muitos espanhóis que invadiram Lisboa em vésperas de Páscoa, ver o guarda-freio em pé a dar à roda, ou "à carica" como um colega chegou a apelidar na formação, é sempre motivo para rir e fotografar, até porque eléctricos como os nossos não há em lado nenhum. Para muitos deles a viagem durou apenas uma paragem entre o terminal dos Prazeres e
a Igreja de Santo Condestável, de onde levei o carro «reservado» e a manual até à estação de Santo Amaro, onde tinha já um eléctrico pronto para que não se perdesse mais tempo.

Hoje senti realmente a adrenalina de segurar uma "casinha andante" perante as pessoas que embora vejam algo diferente no eléctrico metem-se de propósito à frente do eléctrico, quase como que pensassem: "deixa lá por este a dar ao braço..." Afinal os carros são como as pessoas. Para avariarem, basta estarem bons!

Avaria à parte, o dia até foi bem diferente do habitual. A carreira 25E já se consegue fazer sem atrasos, mas para tal também convém dizer que não apanhei nenhuma interrupção na Rua de São Paulo, coisa rara nos tempos que correm. Os bancos repletos de turistas obrigam gente a ir de pé chegando mesmo o eléctrico a subir a Lapa tipo "sardinha em lata". Afinal o que os turistas querem é eléctricos, nem que tenham de chegar ao terminal, saírem e voltarem a entrar. A cada curva uma risada, uma foto, um comentário e uma experiência que certamente vão contar no regresso a casa.

Na Rua da Alfândega, um senhor aproxima-se do eléctrico e consigo trazia o seu filho ao qual lhe daria uns 5 ou 6 anos. A criança via pela primeira vez um eléctrico quando tinha passado pela Praça do Comércio e o pai fez-lhe então o favor de parar o carro em frente à Casa dos Bicos e esperar que chegasse um eléctrico. Foi então que depois de me ter contado a história, me pede autorização para tirar uma foto ao rapaz na entrada do eléctrico.

Alegre, o rapaz sobe o estribo do eléctrico 574 e encosta-se à porta, mas como a criança gostou mesmo do eléctrico, até teve direito a uma foto sentado na cadeira do guarda-freio, com a minha ajuda. E retribuiu com um sorriso de orelha a orelha e a prova de que um simples gesto vale muita coisa. Aos pulos lá foi ele de mão dada com o pai para o carro, mas sempre com um olhar de esguelha para o eléctrico e dizendo-me adeus. Será que temos guarda-freio? O futuro o dirá!

Por hoje chega de tranvias, mas amanhã há mais! E para os que ás vezes perguntam para que serve aquela roda ao lado da porta de entrada, aqui está neste post a explicação. Trata-se da roda de freio manual, habitualmente utilizada como travão de parque e que é usada nestas situações pontuais.

Aproveito então para desejar a todos os leitores do blog diariodotripulante.blogspot.com
, uma Páscoa Feliz e votos de boas viagens, seja de eléctrico, tranvia, strassenbahn ou tramway, mas que seja nos nossos porque são únicos!

sexta-feira, 26 de março de 2010

Na 18E afinal, «a tradição ainda é o que era»

Após mais uma semana de trabalho, chego à conclusão que sou um privilegiado. Claro que ficaria mais feliz se me tivesse saído hoje o Euromilhões e não necessitasse de trabalhar, mas como tal não aconteceu, só o facto de ter um trabalho onde faço o que realmente gosto e ainda me pagarem, já me deixa satisfeito. Depois para além do trabalho está o convívio com os colegas e com os passageiros, embora hajam passageiros mais simpáticos que outros.

Uns ignoram-nos, outros desprezam-nos, mas outros há que nos têm já como família. Alguns chegam mesmo a partilhar connosco momentos marcantes das suas vidas, mesmo sem que tenhamos perguntado algo. São desabafos, são confissões, são partilhas de histórias e episódios do presente e do passado.

Se no centro da cidade o trânsito desta sexta-feira era caótico, muito por causa de uma manifestação, na Ajuda a acalmia marcante do terminal da carreira 18E, permitia ouvir o som dos pássaros numa tarde que prometia chuva mas que acabou com sol. Na calçada da Ajuda o sentinela da guarita do quartel da GNR mete-se em sentido. Em direcção ao eléctrico correm os putos que tentam apanhar boleia do eléctrico, mas à pendura. Atentos, os soldados contraria-os.


Na paragem seguinte entra um casal na casa dos 70 anos. Com traje a fazer lembrar esses mesmos anos, dizem «boa tarde sr.guarda-freio» - coisa rara nos tempos que correm em que chamam motorista a tudo e todos.

Sentam-se no lado direito do eléctrico. A senhora no banco mais à frente e o seu marido no banco imediatamente a seguir. Sobre a janela espreitam o jardim botânico e comentam o aspecto crispado que o Rio Tejo, ao fundo apresenta. Rumo à Boa-Hora degustavam rebuçados que após os comentários que ia ouvindo ainda tentei ver através do espelho, de quais teciam grandes elogios.


«Estes de Seiva de Pinheiro, são fantásticos Antonieta!», dizia o senhor à esposa referindo que eram os verdes. Embora concordasse com a opinião do marido, a senhora lá foi dizendo que os azuis também eram saborosos. Contudo, o que a senhora queria mesmo era desfrutar da viagem que lhe fazia «lembrar quando passeávamos aos domingos naqueles eléctricos que ainda eram abertos e tinham cortinas de pano», dizia, ao mesmo tempo que acrescentava que «agora não estou cá. Vais caladinho que eu também vou...»

Até ao Cais Sodré lá foram, mas o desafio ficou-se pelo Calvário quando o marido se lembrou dos tempos em que ali apanhavam o «o 15 até Belém naqueles eléctricos grandes, mas dos antigos, para irmos comer um pastel e beber um chá».

Precisamente no Calvário, outros passageiros vão entrando e acomodando-se no interior do eléctrico que num instante se enche de jovens e velhos com destinos diferentes. A 24 de Julho corre pelas janelas quase à velocidade com que o comboio que vai para Cascais passa, logo ali ao lado.

Chagámos pouco depois ao Cais do Sodré e parecia estarmos noutra cidade. As buzinas, os apitos, a agitação de uma tarde de sexta-feira e uma manifestação que ajudou a entupir as artérias mesmo no centro da cidade, causando atrasos nos transportes.

A viagem terminava na R.Alfândega. Rodo a tela dos destinos e de novo a "Ajuda" a aparecer na bandeira do eléctrico. Era a penúltima viagem do dia, mas ainda a tempo de ouvir uma passageira já com alguma idade dizer-me que estava muito feliz porque no seu tempo «diziam que a 2000 chegarás, mas de 2000 não passarás»
, ouve-se de tudo e quando menos se espera, num transporte público.

Chegava então ao fim mais um dia, mais uma semana, e desta feita com a curiosidade de saber quais seriam os tão falados e gabados rebuçados de Seiva de Pinheiro. Escrevi então num papel para que não me esquecesse e agora após pesquisa na internet, vejo que cabe ao Santo Onofre (passe a publicidade), a responsabilidade de manter tais sabores e aromas há quase 75 anos e sob o slogan que «a tradição ainda é o que era».

Slogan este que também me deixa a pensar na viagem da recolha quando na Rua da Bica do Marquês, uma jovem brasileira após eu ter aberto a porta da frente, começa a gritar reclamando que «estou há 40 minutos à espera de um transporte, está brincando com a minha cara é? Acabei de perder um exame. Nem estou acreditando! Você acabou de arruinar minha vida», o que prova que após longas semanas sem ouvir reclamações nestes tons e sem o mínimo de respeito, a tradição ainda é o que era...

Boas Viagens e bom fim-de-semana!

Imagens: Rafael Santos e Santoonofre.com

terça-feira, 23 de março de 2010

Nunca uma travessa me deixou a falar só...

Que as pessoas pensam que nós - funcionários da Carris - devemos conhecer todas as ruas da cidade já não me espanta, mas daí até ficarem chateados quando simplesmente dizemos que não conhecemos uma rua ou travessa, como que se de um mapa da cidade estivesse-mos a falar, então o cenário muda como um filme quando deixa de ser a cores e passa a ser a preto-e-branco. Mas se um filme a preto-e-branco até pode ser um bom filme e com qualidade, o mesmo já não se passa com a atitude do passageiro que teima em não compreender como é que o guarda-freio não conhece por exemplo a Travessa do Fala-Só.

E para não bastar a má vontade de quem não quer aceitar que o senhor ou senhora que conduz o eléctrico ou autocarro não conhece a Travessa do Fala-Só, lá vem sempre a frase da indignação... «Não me diga que não sabe! Então trabalha na Carris e não sabe?»

Num ponto parecíamos estar de acordo: Eu trabalho na Carris... não na Polícia nem na C.M.Lisboa.

Pois sempre houve a ideia de que quem anda pela cidade tem o dever de conhecer bem todas as ruas, mas se nem os taxistas as sabem todas, porque havemos nós de saber todas as ruas quando a larga maioria delas nem fazem parte das nossas rotas diárias? Obviamente que também gosto de esclarecer o passageiro e confesso que até fico contente quando o consigo deixar esclarecido, até porque conheço relativamente bem a cidade de Lisboa, mas que nunca tinha ouvido falar nesta travessa, isso não.


Mas não fui o único. A senhora que havia perguntado por tal travessa, na paragem do Cais do Sodré na carreira 18E, após não ter ficado esclarecida com a minha ajuda, dirigiu-se então a um agente da Polícia Municipal, alguns metros à frente. O tempo que aguardei pela luz verde do semáforo no C.Sodré, com destino à Rua da Alfândega, foi o suficiente para ver o roteiro da cidade sair do bolso do agente e vê-los a procurar por tal Travessa.

Onde era a travessa não sabia, mas que fiquei a falar sozinho, fiquei e tudo por causa da Travessa do Fala-Só que após alguma pesquisa na Internet, já sei que fica ali para os lados da Calçada da Glória e se a senhora em questão for leitora deste blog, posso então ajudar-lhe dizendo que poderá apanhar do Cais do Sodré o autocarro 790 que passa no topo da Calçada ou se preferir, pode apanhar o 732 até aos Restauradores e lá apanhar o ascensor da Glória que ajuda a subir a colina. Agora já eu sei onde fica a Travessa que tem o nome de Fala-Só porque em tempos era frequentada por um cidadão que tinha por hábito... falar sozinho.

Conversas e Travessas à parte, a Páscoa está à porta e os turistas começam a chegar e a encher os eléctricos, fascinados com a Luz que esta capital tem que como dizem os cineastas - é única no Mundo.

Fotomontagem: Rafael Santos Imagem: Rafael Santos e Mário Marzagão


sábado, 20 de março de 2010

Um regresso ao passado em 5 minutos...

Os seus 11,35 metros de comprimento e 2,30 de largura vistos ao longe dão para perceber que ali vem um histórico da Carris e claro está, um exemplar único que também faz parte da história de Lisboa. É depois do americano, o resistente dos carros abertos que compõem a frota do Museu da Carris.

Depois das saídas mensais inseridas nas comemorações do 10º aniversário do Museu da emp
resa de transportes de Lisboa, o característico eléctrico com o número de frota 283, voltou a sair este Sábado, para um aluguer "especial" de um grupo de turistas alemães também eles admiradores dos nossos eléctricos.

Esta viatura histórica, exemplar único dos carros eléctricos abertos da série 283 a 322, entrou
ao serviço em 1902, tendo sido oferecido, em 1961, ao Parque Infantil do Alvito, em Monsanto,onde permaneceu durante 20 anos.

Em 1981, regressou às oficinas de Santo Amaro onde foi totalmente resta
urado e reconstruído,
integrando, actualmente, a exposição permanente do Museu da CARRIS.

A sua presença nas ruas de Lisboa, origina por todas as esquinas e ruas um movimento repetido dos transeuntes que não perdem a oportunidade para registar o momento com a máquina fotográfica ou com o telemóvel. Tudo serve para mais tarde lembrarem o carro que durante anos transportou milhares de pessoas.

O sorriso e olhar nostálgico apodera-se dos rostos dos turistas que aguardam o transporte que os leva até Belém ou até ao lado oriental da cidade e que em 5 minutos apenas centram atenções no eléctrico naquele instante cruzou o Cais do Sodré, conduzido pelo guarda-freio Luís Jesus, com destino a Algés e repleto de passageiros, que também eles vibram com este que é o transporte mais antigo de Lisboa.

Foi um regresso ao passado em 5 minutos mas que deixou saudades por muitos mais dos tempos em que por exemplo, ainda havia eléctricos a passar à porta do Jardim Zoológico, como testemunha esta imagem de arquivo que aqui partilho...


Boas Viagens!

quarta-feira, 17 de março de 2010

Com passageiros assim, quem não sorria?

Quem não gostaria de ser guarda-freio ou motorista da Carris se numa paragem estivessem passageiras como esta jovem que diariamente vai «provocando» que por ali passa não uma, mas várias vezes por dia. A ideia até não seria novidade nenhuma porque se no Metro já existe um dia sem calças e que acontece uma vez por ano, porque não o mesmo acontecer à superfície, provocando alguns olhares mais indiscretos ou até mesmo comentários de uma população que ainda é bastante conservadora.

Certamente que iria ser bastante agradável transportar pessoas com um traje diferente do habitual, mas por enquanto e ao que parece a moda fica-se mesmo pelos abrigos das paragens e nos anúncios de uma marca de roupa interior, porque no dia-a-dia o que vai entrando pela porta do eléctrico e do autocarro são outras modas.

Modas de quem sempre andou de transportes públicos que se cruzam com as modas de quem os usa esporadicamente. Uns por recurso, outros por "obrigação" o certo é que há sempre quem tente dar uma imagem diferente da cidade e com recurso ao transporte público, como aconteceu com a escola do ensino básico do Alto de Santo Amaro que decidiu levar a rapaziada ao Jardim Botânico da Ajuda, mas de eléctrico, talvez influenciados pela recente sugestão deste blog.

A descida da Calçada da Ajuda com o Tejo ao fundo a brilhar, logo me apresentava uma paragem repleta de miúdos, uns dois ou três coletes reflectores, professores e a esperança de que fossem no 729 que seguia à minha frente, mas aquele grupo que pelo seu tamanho me fez pensar que ira estar na carreira 28E e não na 18E, acabaria mesmo por optar pelo eléctrico, até porque como dizia uma das educadoras, «as crianças estão tão excitadas porque nunca tinham andado de eléctrico».

Um a um lá foram entrando e validando os seus títulos de transporte, o que acabou por facilitar a acomodação e entrada de todos no eléctrico. Em 4 minutos o eléctrico ficou tão cheio que mais parecia uma sardinha em lata, tal e qual como acontece diariamente na 28E. A alegria virou gritaria quando o eléctrico arrancou da paragem do Jardim Botânico da Ajuda. Janelas abertas e um ar puro que só este transporte permite nos tempos que correm.

Até ao Alto de Santo Amaro, foram poucas as paragens porque poucos mais cabiam na tal «casinha andante» que algum dia alguém apelidou. De sorriso estampado no rosto lá foram, uns para casa, outros para a escola... Com o mesmo sorriso que eu ou outro colega teria se algum dia, alguém entrasse como a jovem que diariamente nos vai provocando nos mupis das paragens, e se de preferência nos comprasse um bilhete.

Amanhã há mais!

Boas viagens!

segunda-feira, 15 de março de 2010

Carro avariado e o eléctrico não passa.. «está a ver? Sei lá!»

Nem sempre os carros que estão mal estacionados são os principais problemas dos atrasos. Outros há que pelo simples facto de andarem, também empatam, ou porque andam a passear pelas ruas de Lisboa ou porque simplesmente avariam mesmo em cima da linha do eléctrico. Assim foi esta tarde na Lapa quando seguia em direcção aos Prazeres, já depois de na viagem anterior ter abastecido o depósito da areia, que é essencial para ajudar a aderência do eléctrico ao carril.

A tarde de sol estava convidativa a um passeio pelas colinas mas turistas eram só dois os que iam a bordo. Os restantes passageiros já habituados a várias interrupções, de imediato se aperceberam que dali não iríamos sair tão rapidamente e foram abandonando o eléctrico, procurando a paragem mais próxima a apenas alguns metros à frente, para apanharem alternativas aos seus destinos.

Até chegar outro eléctrico não foi preciso esperar muito ao contrário do tempo que se esperou que chegasse o reboque para tirar o BMW que havia partido uma Polie da cambota, o que prova que os BMW's também avariam. E de estranhar seria se não chegasse alguém a dizer que a culpa era da Carris, claro está.

Ironia ou talvez não, duas senhoras no seu perfeito estilo - permitam-me e sem ofensa - Tias da Lapa, ao passarem por mim após terem deixado o eléctrico que logo se tinha juntado ao meu, lá iam soltando frases de provocação olhando para mim como se fosse eu o culpado de toda a situação. «Já lá têm o dinheiro dos passes nem querem saber.... Agora temos de ir a pé a subir isto tudo está a ver!?...»

Mas também aqui não precisei tempo para explicar à senhora que o eléctrico não se poderia desviar, porque a dona do BMW era vizinha da tal protestante que insistia em dizer que era «inadmissível», tendo ouvido da boca da sua amiga e vizinha que não estariam ali «o carro e dois eléctricos parados por gosto. O carro avariou e nem anda para trás nem para a frente percebe?!»

De imediato o diálogo tornou-se chique de mais para quem habitualmente está habituado a lidar com um vocabulário menos carregado no «sei lá» e no «está a ver»...

Uma hora e dez minutos depois o reboque lá apareceu e a carreira 25E pôde finalmente regressar à sua normalidade. Amanha há mais.

Boas viagens!

Foto gentilmente cedida por Pedro Almeida, que esta tarde deu umas voltas na 25E

sábado, 13 de março de 2010

Sugestão do Tripulante (6): Na 18E a caminho do Jardim Botânico da Ajuda

Mais uma sugestão de quem anda pela cidade todos os dias e desta feita com as honras da casa, o eléctrico.

Sabia que...


Ainda o trânsito na cidade circulava pela esquerda quando a carreira 18 de eléctricos - agora designada de 18E - foi inaugurada. Decorria o ano de 1927 quando esta carreira passou a fazer parte da planta da rede de eléctricos, mas rapidamente se tornou numa das grandes carreiras, ligando então a Ajuda ao centro da cidade com o seu terminal no Rossio. Nos anos seguintes a procura "obrigou" a Carris a realizar desdobramentos desta carreira. Em 1950 a carreira deixa o Rossio e passa a terminar na Praça do Comércio. Actualmente termina na R. Alfândega e a procura é maior apenas nas horas de ponta. Ainda assim a população da Ajuda não quer perder o seu eléctrico e prova disso foi a grande manifestação e assinaturas que recolheram quando em 2000 a Carris anunciava a decisão de suspender esta carreira.

A cidade através da carreira...

O que seria da Ajuda sem o seu eléctrico? Seria um vazio na história de um bairro tão popular que ainda mantém nos dias de hoje as suas características rurais que contrastam com história que se pode presenciar através do Palácio Nacional da Ajuda, pela Torre do Galo ou até mesmo pela Igreja da Memória, local onde se deu a tentativa de assassínio de sua majestade, El-Rei D.José I.

Nele transportam-se diariamente centenas de pessoas, cruzam-se dezenas de profissões e trocam-se milhares de olhares. O 18E é uma grande ajuda para vencer a colina que lá no topo guarda uma riqueza inconfundível. A meio da subida o Instituto Superior de Agronomia aposta no conhecimento e na inovação desde as suas raízes remotas em 1852, com a criação do Instituto Agrícola e Escola Regional de Lisboa, no reinado de D. Maria II, durante a REGENERAÇÃO, dirigida por Fontes Pereira de Melo.

Do ISA faz parte o Jardim Botânico da Ajuda desde 1918, integrado como infra-estrutura de ensino e investigação. É sobre ele que recai esta sugestão de fim-de-semana. O jardim foi fundado em 1768, tendo sido projectado por um botânico italiano, Domingos Vandelli, vindo de Pádua e chamado pelo rei D. José para ensinar os seus príncipes. Apesar de Lisboa ter sido lugar de muitos hortos que albergaram as colecções de plantas vindas de África, Ásia e América, o JBA é o primeiro Jardim Botânico de Portugal desenhado com o fim de manter, estudar e coleccionar o máximo de espécies do mundo vegetal. Chegou a ter 5000 espécies dispostas segundo o sistema sexual proposto por Lineu, mestre de Vandelli.
Possui uma área de 3,5 ha, divididos por dois tabuleiros com um desnível de 6,8 m entre eles. A arquitectura do Jardim segue os modelos renascentistas em terraços talhados na encosta, tendo três elementos fundamentais, pedra esculpida, plantas e água em fontes e lagos. No entanto, os ornamentos existentes no jardim têm influências marcadamente barrocas (nomeadamente a fonte central e as escadarias (laterais e central). O jardim tem dois tipos de uso: no tabuleiro superior a colecção botânica e no tabuleiro inferior o jardim de passeio ornamental com buxo e traçado conforme as regras do jardim de recreio. Existe ainda, «o jardim dos aromas» com plantas aromáticas e medicinais, desenhado para invisuais e o arborinho.
Na sua área envolvente encontra-se o Palácio da Ajuda, o Jardim-Museu Agrícola Tropical, o Mosteiro do Jerónimos, o Centro Cultural de Belém e a Torre de Belém.

Sem dúvida um espaço onde pode aproveitar uma bela tarde de sol para ter um contacto mais profundo com a natureza. A entrada no Jardim custa 2 euros e as crianças até aos 7 anos têm entrada livre. A paragem do 18E fica mesmo à porta do jardim na Calçada da Ajuda e além do eléctrico tem também como alternativas, os autocarros 727 (no lado oposto), 729 e 732.

De portas abertas das 10h ás 17h, o jardim só não recebe visitas às quartas-feiras e encerra também nos dias 25 de Dezembro e 1 de Janeiro. Se ainda tiver tempo, ou se simplesmente não liga muito a estas temáticas de biologia, o melhor é prosseguir viagem no 18E até à paragem seguinte e aproveitar para se inteirar da história do Palácio Nacional da Ajuda.
Boas visitas e Boas viagens!
Fonte: «A minha página Carris»; livro «Lisboa, 125 anos sobre carris»; «jardimbotanicodajuda.com» e «isa.utl.pt»

quarta-feira, 10 de março de 2010

A primeira vez... de quem nunca tinha andado de eléctrico

É quarta-feira. O sol da um ar de sua graça e "traz" para a rua a gente que durante dias se abrigou em casa do frio e da chuva que tem feito deste inverno um dos mais rigorosos dos últimos anos. Ao fundo ouve-se a campainha de mais um eléctrico que cruza a Estrela e com ele chega a hora de iniciar o meu serviço. Rendo a colega com destino aos Prazeres e até lá foi um instante. Do terminal ao Canas, um grupo de idosas vai tomar o café após a refeição... «é servido senhor guarda-freio? Pare aí o eléctrico e venha beber um cafezinho», diziam de forma simpática e alegre.

A viagem prossegue, porque não há tempo para cafés e num instante estou de novo na Estrela. Um grupo de turistas entra no eléctrico e perguntam se este fazia um trajecto diferente do 28E. Queriam conhecer outros cantos da cidade e diziam-se fascinados com o sinuoso percurso da mítica carreira que liga o Martim Moniz aos Prazeres. Observando o casario da Lapa lá prosseguem «colados» ás janelas do eléctrico 573.

A descida da Rua de São Domingos, mostra-lhes o Tejo como pano de fundo, motivo mais que suficiente para os fazer levantar e virem até à plataforma da frente do eléctrico para tirarem mais uma fotografia para recordação da passagem por Lisboa. Do lado de fora esta a tal senhora dos gatos já aqui referida anteriormente. Hoje não quis entrar no 25E, para sorte de quem ali se transportava.

No largo de Santos a agitação de quem chega no comboio contrasta com a calma de quem vai sentado no último lugar do eléctrico e de forma descontraída, a ouvir música no seu mp3. Do lado de fora, os putos que acabam de sair da escola tentam ganhar boleia da pendura do eléctrico, mas sem êxito porque os dois agentes da PSP que circulavam no Largo Vitorino Damásio de imediato os fez irem a pé.

A tarde passa com grande normalidade e poucos atrasos, o que já me deixa mais satisfeito. Poucas paragens na Rua de São Paulo e a diferença notória de quem consegue esticar as pernas no terminal. Devia ser sempre assim esta rua.

Na Rua da Alfândega preparo-me para iniciar mais uma viagem, e enquanto troco dois dedos de conversa com o colega Marcel que costuma andar na carreira 12 de autocarros e que até já contribuiu para o blog com um vídeo, surgem duas raparigas que perguntam se podem entrar. «Boa tarde. Era um bilhete para a minha amiga por favor. Eu tenho passe», dizia a que entrava em primeiro lugar, acrescentando que «é a primeira vez que ela vai andar de eléctrico... Como é possível?» (questionava sorrindo)

Na vida, há sempre uma primeira vez para tudo e normalmente é sempre a mais difícil, mas a amiga não quis ficar mal vista e lá se defendia como podia. «Mas eu também não sou de cá. Tenho desculpa!», dizia-me sorridente e curiosa por ver como era andar de eléctrico. Sentadas mais ou menos a meio do eléctrico lá sussurravam que «é muito fixe andar de eléctrico, vais ver.»... «mas parece ser bastante antigo...»
, e tinha razão... é da idade do ferro!

A viagem inicia-se, mas num abrir e fechar de olhos, que só deu tempo para observar o andamento das obras no Terreiro do Paço, chegamos ao Corpo Santo. A campainha interior toca e a palavra «Parar» começa a piscar insistentemente. Chegava ao fim a primeira vez da jovem que hoje se estreou a andar de eléctrico. Foi rápida a viagem, mas suficiente para ver que era realmente diferente, andar de eléctrico. Pois lá foi em direcção ao Cais Sodré com mais uma experiência no bolso, desta sua passagem por Lisboa.

Boas Viagens!

sexta-feira, 5 de março de 2010

O reflexo "eléctrico" da cidade em dois tempos...

São diferentes. Agem de forma semelhante, mas a simpatia é em grande parte superior à encontrada nos autocarros. Uns mais velhos, outros de passagem. De casa para o trabalho, ou apenas em turismo, todos têm uma coisa em comum - são passageiros. Pela manhã, acompanhado de uma simpática saudação, transporta-se um perfume apetecível e que nos deixa a pensar no apetecível banho que tomámos antes de sair de casa. Mas o pior é quando depois deste momento de - diria - prazer, se desmancha com o entrar de um odor insuportável pela porta onde entram diariamente, estudantes, idosos, doutores, engenheiros, sapateiros, costureiras, turistas, entre outros...

«Ó riqueza, deixa-me sair aqui pela porta da frente que vou muito carregada», diz uma senhora que acaba de vir do supermercado com uma quantidade de sacos, que nos leva a pensar
que o mundo acaba já amanhã. É assim quando se passa na Boa-Hora com destino à Ajuda, onde o eléctrico é realmente uma grande ajuda para subir a colina.

Ao virar da esquina, automóveis que circulam no sentido oposto, teimam em não facilitar a passagem do eléctrico que tem de ocupar a via contrária. Resta-nos esperar até que alguém decide realmente ceder passagem ao transporte mais antigo da capital. Ponto a ponto lá vai o 18E subindo rumo ao Cemitério da Ajuda, onde termina mais uma viagem no meu primeiro dia de trabalho nesta carreira.

Os dias seguintes são na 25E e aos poucos vou retendo as principais dicas que me vão sendo transmitidas pelos colegas que nos acompanham nos primeiros dias. Mais experientes e conhecedores das zonas a ter em atenção, sobretudo pelo desrespeito que ainda persiste pelo eléctrico, vão-nos dizendo como agir perante determinado cruzamento ou arruamento. Mas ao final da tarde uma senhora já com alguma idade, agradece-me por ter parado na paragem - coisas de antigamente - e com ela vem o tal cheiro que se entranha durante algum tempo a bordo de um transporte que é por sinal arejado.

Trata-me por chefe. Parece que é da praxe, segundo outros guarda-freios e despede-se dizendo «ó chefe pare aí nessa paragem e se não se importa deixa-me sair pela porta da frente...» Se nos autocarros já se ouvia este pedido com alguma regularidade, aqui repete-se em todas as viagens. As dificuldades na locomoção aliadas ao receio de não serem vistas pelo guarda-freio na porta traseira, leva-as a sentarem-se logo no primeiro lugar que encontram ao entrar, o que nem sempre é a melhor ideia, porque nem a janela da frente aberta ajuda.

O dia seguinte é de manhã e pelo movimento na Avenida 24 de Julho, a noite foi longa e com muito álcool à mistura. A saída da estação é rumo à Rua da Alfândega e enquanto uns acordam para mais um dia de trabalho, outros estão a caminho da cama. Em Santos, mandam parar o eléctrico. A porta abre-se e do lado de fora apenas dizem «Bom Dia!». Só queriam mesmo "brincar" sendo "simpáticos" com quem já estava a trabalhar. Diferentes maneiras de distracção.

A bordo ia já um senhor que se inteirava das últimas notícias que publicava o Diário de Notícias. Chegamos ao Cais do Sodré e uma outra Lisboa. Do lado direito saem pessoas apressadas, outras distraídas. Bem dizia o formador que o guarda-freio tem de ter sete olhos! A campainha do eléctrico raramente é respeitada, mas serve de alerta. Do lado oposto um jovem cambaleia entre o passeio e o corredor BUS. Descanse que não houve nenhum sismo com epicentro no Cais do Sodré! É apenas mais uma das vítimas de um descontrole provocado pelo álcool e que obriga a quem ali circula a passar com velocidade reduzida.

Já a meio da manhã e com alguns pingos de chuva à mistura, alguns turistas no terminal da Rua da Alfândega entram no eléctrico rumo aos Prazeres. Nos olhos, o brilho de uma alegria imensa de entrarem num transporte único. O lugar à janela é o mais apetecido e por norma cedido às senhoras. Assim foi. Durante a viagem, tiram fotografias, comentam a riqueza das arcadas da Praça do Comércio, que contrastam com as obras que persistem, ou a acalmia da Lapa. A chegada aos Prazeres traz um misto de satisfação e de tristeza. Chegava ao fim a viagem.

Regressam na viagem seguinte ao ponto de partida, porque soube a pouco e lá fora está a chover. Chega também ao fim o meu dia de trabalho e termina a primeira semana que mostrou uma Lisboa em tudo diferente, em tudo igual. Uma Lisboa em dois tempos, em duas carreiras. Uma cidade onde acima de tudo adoro viver e onde gosto de trabalhar. Valeu a pena esperar três anos, porque o futuro começa agora...

Boas Viagens!

terça-feira, 2 de março de 2010

[Nota de Redacção] Estreia na 25E e com direito a interrupção...

Um mês e duas semanas depois, eis o regresso ao contacto com o público. A carreira 25E deu-me então as boas-vindas à rede de eléctricos da cidade de Lisboa e à partida um misto de tranquilidade e apreensão. O veículo é diferente, mas não é estranho. Ao contrário do que conduzia anteriormente, não se desvia, pelo que era melhor ter em conta à partida que sabia a hora que tinha de entrar, mas que começava também sem saber a hora a que ia sair.

Tudo correu bem. Como dizia na véspera o Sr.Presidente da Carris, Dr.José Silva Rodrigues, na recepção aos novos tripulantes guarda-freios, «para a Carris é importante que todos se sintam bem, e de preferência, que gostem daquilo que fazem», e após o primeiro dia de trabalho em exploração real, posso desde já dizer que cheguei à melhor «praia» da Carris, porque faço algo que gosto e que está ligado a mim e aos lisboetas em geral.


Se esta é mesmo a melhor «praia» da Carris? Não o posso dizer com tanta convicção, mas para mim, é até esta data a melhor, porque também ainda não frequentei todas. Também não estive em nenhuma que me sentisse mal, é certo, mas nesta sinto-me como em casa.


Para trás (ou talvez não) fica a indignação de muitos por esta opção. Mas foi a minha opção, ou seja, a melhor opção. Também eu posso ficar bastante indignado com os que pretenderam deixar o ferro e agarrar a borracha, mas foi a opção deles.


Gostos à parte, começa aqui uma nova etapa, começam aqui novas aventuras, novas histórias, mas nunca esquecendo o passado que foi excelente, durante a minha estadia na estação da Musgueira. Começa hoje um novo capítulo no «Diário do Tripulante», mas os protagonistas são os mesmos. Os tripulantes, os passageiros,a cidade, e claro está, quando se fala da cidade, fala-se também da Carris que há 137 anos faz parte da história da capital.


Hoje tive a primeira interrupção oficial. Foi na Estrela, bem perto das 20h00 quando alguém decidiu ir jantar descansado da vida, deixando impaciente quem tentava chegar a casa num transporte público. Mas como estas situações vão acontecer várias vezes, hoje fico-me por aqui.


Obrigado!


Boas Viagens!

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