


Bom Fim-de-Semana e Boas Viagens!
O meu gosto pelos eléctricos tem mais de uma década, diria mesmo que surgiu por volta de 1994, e desde então tenho vindo a seguir mais vincadamente a história destes veículos que circulam sobre carris e que tiveram o seu início no «americano», que era puxado por animais. Mas a verdade é que sempre que entrava na estação de Santo Amaro, havia algo inexplicável. Sentia-me como que em casa. Pois era aquela a estação que havia escolhido no acto da minha inscrição na Carris.
Mas na altura o destino quis que fosse «assentar praça» na Musgueira, e além de uma excelente experiência, foi uma estação onde vesti a camisola desde o primeiro dia. Surgiu então a oportunidade de transferência para Santo Amaro, e lá estou eu, ainda em formação, mas já com um objectivo cumprido, que era nada mais, nada menos que conduzir um eléctrico. O primeiro foi o 543 que serviu de teste ás primeiras frenagens, e de apoio à compreensão sobre os sistemas de travagem do eléctrico que é bem mais complexo que o dos autocarros.
Reostáticos, Manuais, Pneumáticos e Electromagnéticos, são os sistemas de travagem que fazem parte do eléctrico, pelo que há de saber como todos eles funcionam e onde actuam directamente, para que sejam aplicados o mais correcto possível na prática.
Seguiram-se depois as visitas mais técnicas ao Car-Barn desde o tejadilho do eléctrico à fossa que nos permitiu ver os componentes destes sistemas de travagem, assim como os de tracção. E quando se gosta daquilo que se ouve e fala, as horas parecem correr e se ontem já era segunda-feira, amanhã já é quase sexta-feira e o fim-de-semana à porta.
Embora ainda pense ser um sonho, todos estes dias em que tenho aprendido aquilo que ainda não sabia e os nomes mais técnicos, a verdade é que já lá vão perto de duas semanas de formação, que tem sido excelente, sobretudo porque a acompanhar a teoria, há as idas aos veículos e ás oficinas, que deixam no ar uma saudade e que nos fazem recuar no tempo. Pena que não estejam hoje em dia com o movimento de outros anos.
E assim vai a formação de mais uma escola de Guarda-Freios, composta por 6 candidatos no total, todos já com uma vontade enorme de ir para a rua e é já amanhã! Em breve, prometo trazer até aqui o significado de alguns nomes que passarão a ser lidos com alguma regularidade neste blog.
Boas Viagens!
O «passageiro» habitual deste blog, já deve ter reparado que tem havido poucas actualizações, devido ao facto de me encontrar em formação. A primeira semana de formação Guarda-Freio já terminou e a próxima promete estudos mais aprofundados sobre a vertente eléctrica, o que logo á partida aumenta o interesse até porque decorrerá já na estação onde tudo começou para este meio transporte - Santo Amaro.
Começa já esta segunda-feira(dia 18 de Janeiro), uma nova aventura. Depois de (quase) três anos na estação da Musgueira, como motorista de serviço público, vou iniciar a formação, que me permite conduzir aquele que é o transporte mais antigo da capital - o eléctrico. 

Foto: autor desconhecido
Boas viagens a bordo dos veículos da CCFL.
Fotos: Phil Trotter / Pedro Almeida / Autor desconhecido
É algo perfeitamente normal nos tempos que correm, dado o stress com ocupa grande parte do dia dos lisboetas - esquecerem-se que o autocarro é conduzido por um ser humano. Também já se sabe que em 85 % dos casos (e digo 85% porque quero acreditar que este blog já tenha ajudado a inverter a situação) quem entra no autocarro não diz nem «Bom dia», nem «Boa tarde», e muito menos «Boa noite» porque nessa altura já só pensam em entrar na porta de casa e descansar.
Há dias em que por muito que se evite, chegamos a casa ou ao trabalho molhados. É só chover um pouco com mais intensidade e se o vento também fizer das suas, então não há chapéus-de-chuva que resistam. Hoje foi um desses dias. Chuva, muita chuva e se Vasco Santana fosse vivo, hoje poderia muito bem dizer que «chapéus há muitos», fazendo relembrar aquele clássico do cinema dos anos 40. A cada esquina, em cada caixote do lixo, um amontoado de varetas e tecido que outrora compuseram vários chapéus.
A verdade é que a água foi tanta que a Estrada de Chelas, parecia mais um rio e não tivesse o autocarro rodas, e qualquer um diria que a Volvo também já fazia barcos. A velocidade na zona não podia passar do ralenti até porque não se via a berma, quanto mais os buracos e até as próprias tampas dos colectores. Já na viagem de regresso ao Oriente a água continuava em abundância, mas já se encontrava no local uma equipa da EPAL a sinalizar as zonas mais críticas. E não estou a exagerar se aqui disser que em duas entradas de colectores, mais parecia terem instalado repuxos.
A CARRIS inaugurou hoje um projecto, denominado "Arte em Movimento" que se enquadra num programa de Apoio da Arte Contemporânea Portuguesa, e que estará patente ao público até 30 de Junho de 2010. Segundo o site oficial da Carris, «este projecto abrangerá alguns veículos da frota de serviço público da CARRIS, sendo que em 2010 a aposta é feita nos Ascensores e Elevador de Santa Justa, veículos classificados desde 2002 como Monumentos Nacionais».


Falta de civismo, desrespeito, rebaldaria. Estas podem ser três palavras que caracterizam o que se vai vendo por esta cidade, nomeadamente no que diz respeito ao trânsito e ao mau estacionamento, sobretudo nas paragens dos autocarros. Na maioria dos casos, são apenas os passageiros que reparam nestas situações, até porque são eles que pretendem aceder a um transporte que se vê obrigado a parar alguns metros distante do abrigo.
Mas quem também não deixa passar esta questão em branco é o blog de quem quer andar a pé. O blog PasseioLivre.blogspot.com diz que surgiu para «clamar pela consciência cívica dos condutores e dar aos indignados uma ferramenta para expressarem legalmente a sua indignação, não pretendendo de forma alguma apelar a qualquer tipo de dano nos veículos infractores», e se em grande parte dos assuntos aqui debatidos são a ocupação indevida dos passeios, o certo é que quem anda a pé utiliza também o transporte público e como tal sente-se lesado pelos senhores que estacionam nas paragens.
Quem ainda acredita que esta profissão de motorista não tem interesse nenhum, está profundamente enganado. Quais são as profissões que permitem que durante o seu período de trabalho se veja e aprenda uma eternidade de coisas? Poucas ou quase nenhumas! Mas ser motorista de um autocarro, numa cidade como Lisboa, permite-nos ouvir histórias do arco da velha, constatar através de alguns passageiros, as consequências que faz uma solidão e em alguns casos ser o muro de lamentações de muitos que não têem com quem desabafar.
De Miraflores, mais precisamente do colega e amigo, Marcel Mazoni chega-me o relato do primeiro dia de 2010 na carreira 12. Como é habitual nestes dias de Feriado, encontra-se um pouco de tudo e de tudo, encontra-se nada. As superfícies comerciais fecham portas, cafés e lojas apresentam-se de grades corridas. As famílias juntam-se em casa para o almoço ou para o jantar e nas ruas, restam os que têem de se deslocar para o trabalho, ou os que não têem família e que procuram alguma companhia e distracção.
Frequentador assíduo das carreiras 12, 794, 28 e 750 («que eu saiba», diz o Marcel), é célebre por trazer sempre consigo uma cadeira para esperar pelo autocarro, não vá estar a paragem ocupada. Mas com ele vem também o seu rádio a pilhas, através do qual insiste em ouvir sua música em "alto e bom som". Não gosta de se sentar noutro lugar do autocarro, que não seja a "cadeira do co-piloto".
2009 já lá vai e é tempo para o habitual balanço do ano. A título pessoal, este ano que ontem terminou, depois de mais um serviço na carreira 5, ficou marcado pelas entrevistas inesperadas, que dei a Revistas, Jornais e Rádio e que foram as principais fontes de divulgação de um blog que começou por mera brincadeira, mas com um objectivo sério e estudado - dar a conhecer o dia-a-dia de um motorista e/ou guarda-freio da Carris. As dificuldades que se encontram diariamente, o contacto com o público e um serviço que embora possa parecer fácil, tem muito que se lhe diga.
Uma pergunta tão irónica, como o passageiro que já perto do início da tarde tinha entrado no autocarro, para ir até ao Cemitério. Dizia-me que ia acender uma vela pela sua falecida esposa, e que aproveitava para ir á cantina dos coveiros, a ver se poderia beber um café, porque na bomba da Galp era em copos de plástico... Entre beber um café num copo de plástico e ir beber a um cemitério, venha o diabo e escolha, mas eu escolheria certamente o copo de plástico.