sábado, 30 de janeiro de 2010

Imagens de uma Cidade: Lisboa

E porque ás vezes também é bom ser turista, ainda que da própria cidade... com as imagens que se podem obter com a carreira 28E




Bom Fim-de-Semana e Boas Viagens!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A mística de S.Amaro e o primeiro carro...

Enquanto motorista na estação da Musgueira, sempre que tinha uma folga para almoço em Alcântara(742) ou no Calvário(720), optava por ir almoçar a S.Amaro, não só pelo facto de poder descansar um pouco, mas sobretudo, para poder conversar um pouco com alguns colegas (na maioria Guarda-Freios) e claro poder estar mais próximo daquele edifício a que se dá o nome de Car-Barn.


O meu gosto pelos eléctricos tem mais de uma década, diria mesmo que surgiu por volta de 1994, e desde então tenho vindo a seguir mais vincadamente a história destes veículos que circulam sobre carris e que tiveram o seu início no «americano», que era puxado por animais. Mas a verdade é que sempre que entrava na estação de Santo Amaro, havia algo inexplicável. Sentia-me como que em casa. Pois era aquela a estação que havia escolhido no acto da minha inscrição na Carris.


Mas na altura o destino quis que fosse «assentar praça» na Musgueira, e além de uma excelente experiência, foi uma estação onde vesti a camisola desde o primeiro dia. Surgiu então a oportunidade de transferência para Santo Amaro, e lá estou eu, ainda em formação, mas já com um objectivo cumprido, que era nada mais, nada menos que conduzir um eléctrico. O primeiro foi o 543 que serviu de teste ás primeiras frenagens, e de apoio à compreensão sobre os sistemas de travagem do eléctrico que é bem mais complexo que o dos autocarros.


Reostáticos, Manuais, Pneumáticos e Electromagnéticos, são os sistemas de travagem que fazem parte do eléctrico, pelo que há de saber como todos eles funcionam e onde actuam directamente, para que sejam aplicados o mais correcto possível na prática.


Seguiram-se depois as visitas mais técnicas ao Car-Barn desde o tejadilho do eléctrico à fossa que nos permitiu ver os componentes destes sistemas de travagem, assim como os de tracção. E quando se gosta daquilo que se ouve e fala, as horas parecem correr e se ontem já era segunda-feira, amanhã já é quase sexta-feira e o fim-de-semana à porta.


Embora ainda pense ser um sonho, todos estes dias em que tenho aprendido aquilo que ainda não sabia e os nomes mais técnicos, a verdade é que já lá vão perto de duas semanas de formação, que tem sido excelente, sobretudo porque a acompanhar a teoria, há as idas aos veículos e ás oficinas, que deixam no ar uma saudade e que nos fazem recuar no tempo. Pena que não estejam hoje em dia com o movimento de outros anos.


E assim vai a formação de mais uma escola de Guarda-Freios, composta por 6 candidatos no total, todos já com uma vontade enorme de ir para a rua e é já amanhã! Em breve, prometo trazer até aqui o significado de alguns nomes que passarão a ser lidos com alguma regularidade neste blog.


Boas Viagens!


sábado, 23 de janeiro de 2010

De olho na net... e sobre a cidade de Lisboa

O «passageiro» habitual deste blog, já deve ter reparado que tem havido poucas actualizações, devido ao facto de me encontrar em formação. A primeira semana de formação Guarda-Freio já terminou e a próxima promete estudos mais aprofundados sobre a vertente eléctrica, o que logo á partida aumenta o interesse até porque decorrerá já na estação onde tudo começou para este meio transporte - Santo Amaro.

Longe do contacto com o público, ainda que temporariamente, aproveito agora a folga para dar uma olhadela pelo que vai aparecendo na Internet. Como se sabe, Lisboa é uma das cidades mais procuradas pelos turistas, como destino de férias, e a juntar-se a isso há os eléctricos que são também eles um dos pólos de atracção turística.

Numa cidade como Lisboa, com altos e baixos, os eléctricos são uma alternativa fantástica para descobrir a cidade entre ruas e ruelas. Eles compõem um museu vivo que alterou a vida da população desde 1901, quando foi inaugurada a primeira linha eléctrica na capital. Pouco mudou no aspecto visual desde os primeiros carros, mas com o passar dos anos, a Carris tem vindo a melhorar os seus equipamentos, mantendo o seu traçado original, que em muitos casos são os únicos possíveis para certos e determinados arruamentos.

Com o passar dos anos, as carreiras foram sendo suprimidas e a quantidade de eléctricos em circulação nos dias de hoje é muito menor em relação a anos anteriores. E a própria cidade também sofreu diversas alterações. Enquanto navegava no youtube, deparei-me sobre um documentário inglês, cujo autor (creio), é a TravelVideoStore, sob o título «ON TOUR... Eléctricos de Lisboa».

Um documentário que mostra Lisboa e os seus monumentos, com um pouco de história á mistura e com recurso aos eléctricos remodelados da série 500, que percorrem as colinas da capital. Embora não seja referido no vídeo nem na apresentação respectiva, creio que este vídeo é anterior ao ano de 1999, pelo que logo á partida, vale a pena dispensar 27 minutos para se sentar em frente ao computador e recordar uma Lisboa diferente mas com o mesmo encanto.

São também estas imagens que ajudam a perceber esta minha ligação aos eléctricos e a Lisboa e que me fazem recuar no tempo e recordar as viagens que tinha de casa para a escola e da escola para casa, claro está, nos eléctricos de Lisboa. Mas como as imagens valem sempre mais do que qualquer descrição, não ocupo mais tempo com leituras e sugiro que clique no play e desfrute da Lisboa de outros tempos...



Boa viagem!
Foto: H.Brutzer

domingo, 17 de janeiro de 2010

Da borracha para o ferro...

Começa já esta segunda-feira(dia 18 de Janeiro), uma nova aventura. Depois de (quase) três anos na estação da Musgueira, como motorista de serviço público, vou iniciar a formação, que me permite conduzir aquele que é o transporte mais antigo da capital - o eléctrico.

Como é do conhecimento geral, quer através do blog, que através das entrevistas que fui dando a alguns órgãos de comunicação social, sempre foi um dos meus objectivos e até uma preferência, desde o dia em que entrei na Carris, ser Guarda-Freio.

Num primeiro olhar pode parecer estranho, tendo em conta que normalmente acontece o inverso, ou seja, haver guarda-freios que preferem ser motoristas. Mas o meu gosto por este transporte e a minha ligação ao eléctrico falou mais forte, tendo-se aliado ao factor de proximidade casa-trabalho.

Para trás fica uma excelente experiência nos quase três anos como motorista nas carreiras da Musgueira, uma estação onde o espírito de grupo é visível e onde criei grandes amizades que certamente não serão esquecidas. Neste tempo que estive na Musgueira, houve a possibilidade de conhecer zonas da cidade que ainda não conhecia muito bem, como aliás, o leitor deste blog também teve a oportunidade de ler, através das diversas histórias e factos que até aqui fui trazendo. Nesta altura devo confessar que só mesmo uma ida para Santo Amaro, me fez deixar a estação da Musgueira, onde fui bem recebido desde o primeiro dia, a 4 de Julho de 2007.

Mas como nunca fui apologista de despedidas, embora neste caso nem tempo tivesse para o fazer, uma vez que fui informado à última da hora, o que interessa agora dizer é que para trás fica o alcatrão e a borracha e o futuro será com ferro nos carris. E que mais se pode pedir quando podemos passar a fazer algo que realmente gostamos? (aqui deixo também um agradecimento á Carris)

A formação arranca já esta segunda-feira e a curiosidade para saber como é todo o funcionamento do eléctrico vai crescendo á medida que as horas vão passando. É portanto normal que a actualização deste blog venha a ser mais irregular do que até aqui. Se temporariamente ou não, só o tempo o dirá.

Para finalizar, aproveito ainda para enviar uma palavra de agradecimento pela entreajuda de todos os meus colegas da Estação da Musgueira, até mesmo aqueles que dizem que sou maluco quando deixo os autocarros para pegar nos eléctricos. "Já imaginaram o que seria do azul se todos gostassem do amarelo?" (risos)

Assim começou a aventura nos autocarros da Carris...


Assim vai começar a nova aventura nos eléctricos...


Foto: autor desconhecido

Boas viagens a bordo dos veículos da CCFL.

Fotos: Phil Trotter / Pedro Almeida / Autor desconhecido

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Lisboa de madrugada com a carreira 12

É algo perfeitamente normal nos tempos que correm, dado o stress com ocupa grande parte do dia dos lisboetas - esquecerem-se que o autocarro é conduzido por um ser humano. Também já se sabe que em 85 % dos casos (e digo 85% porque quero acreditar que este blog já tenha ajudado a inverter a situação) quem entra no autocarro não diz nem «Bom dia», nem «Boa tarde», e muito menos «Boa noite» porque nessa altura já só pensam em entrar na porta de casa e descansar.

Mas o que muita gente também se esquece é que enquanto dormem já há muita gente acordada para que logo pela manhã tenham o seu dispor tudo o que pretendem. Acontece com o padeiro que durante a noite faz o pão, com os tipógrafos, que durante a noite imprimem os jornais para que logo pela manhã saiba as notícias fresquinhas e acontece também com o motorista do autocarro que também durante a noite trabalha para que logo que saia de casa tenha um autocarro para o/a servir.

Pelo meio há uma série de factores a ter em conta e obviamente que as lamentações não entram neste campo, porque quem optou por estas profissões, quer por iniciativa própria ou por alternativa a outras, já sabia à partida, as consequências destas profissões.

Há dias atrás mostrei uma parte de um serviço na carreira 35 e os respectivos percalços que podemos encontrar durante uma viagem a meio da tarde. Agora e através da colaboração de um outro motorista e amigo de outra estação (o Marcel Mazoni, de Miraflores), trago uma amostra do que é Lisboa de madrugada. Uma Lisboa de quem acorda cedo para fazer uma carreira que no que diz respeito a percalços também começa cedo.

Da feira da Ladra ao estacionamento abusivo, passando pelos apertos, que fizeram até há poucos anos, desta carreira como uma das consideradas, de percurso difícil a par da 35, tudo faz parte de mais um vídeo que trago até aqui para vos dar a conhecer como começa o dia de um motorista, como tantos outros.

Começa de noite, como acaba o de tantos outros. Valide o seu título de transporte e carregue no play para viajar em parte do percurso da carreira 12 que liga Santa Apolónia a Alcântara-Mar.

Boa Viagem!




n.d.r.: Vídeo editado por Rafael Santos e gravado por Marcel Mazoni, através de um telemóvel colocado ao lado da chapa da carreira junto ao para-brisas frontal, durante uma viagem na 12, não interferindo com a condução nem com a prestação de um serviço público de qualidade.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Quando a chuva é muita, o autocarro vira bote...

Há dias em que por muito que se evite, chegamos a casa ou ao trabalho molhados. É só chover um pouco com mais intensidade e se o vento também fizer das suas, então não há chapéus-de-chuva que resistam. Hoje foi um desses dias. Chuva, muita chuva e se Vasco Santana fosse vivo, hoje poderia muito bem dizer que «chapéus há muitos», fazendo relembrar aquele clássico do cinema dos anos 40. A cada esquina, em cada caixote do lixo, um amontoado de varetas e tecido que outrora compuseram vários chapéus.

E nem eu escapei a uma valente molha, quando me deslocava para a Estação do Oriente, onde iria iniciar o meu serviço de hoje na 794 que liga esta estação a Santos, via Santa Apolónia. A primeira viagem foi logo uma surpresa, primeiro porque já rendi atrasado e cheguei a Santos ainda a tempo de fazer a hora da partida, o que por norma é complicado numa carreira como a 794, onde o horário é bastante curto. Depois porque a meio da viagem vi tampas de esgoto a saltarem no Largo de Chelas, fazendo lembrar aqueles efeitos especiais que normalmente se vê nos filmes, não dos anos 40, mas dos tempos que correm.

A verdade é que a água foi tanta que a Estrada de Chelas, parecia mais um rio e não tivesse o autocarro rodas, e qualquer um diria que a Volvo também já fazia barcos. A velocidade na zona não podia passar do ralenti até porque não se via a berma, quanto mais os buracos e até as próprias tampas dos colectores. Já na viagem de regresso ao Oriente a água continuava em abundância, mas já se encontrava no local uma equipa da EPAL a sinalizar as zonas mais críticas. E não estou a exagerar se aqui disser que em duas entradas de colectores, mais parecia terem instalado repuxos.

A água chegou mesmo a entrar pelas portas e diria que foi uma manhã bastante complicada no que diz respeito ao trânsito na capital.


Já da parte da tarde a chuva abrandou e o serviço decorreu dentro da normalidade. E digo normalidade porque já se sabe que a hora da saída dos meninos do Valsassina causa sempre um caos na paragem do autocarro. É ver aqueles carros topo de gama parados de qualquer maneira, até porque eles pensam mesmo que aquilo é tudo deles. Hoje foram necessários 4 minutos para que uma senhora que descontraidamente estava ao telemóvel aguardando o seu filhote, desse conta que a buzina do autocarro era mesmo para ela tirar o carro, para que pudesse-mos passar, porque há esquerda estava um passeio e sinalização vertical.


É caso para pensar... "Um colégio tão bom (como dizem) e não têem educação nenhuma!?!"

Amanha termino a semana. Haver vamos se, com menos chuva. Boas Viagens!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

[Off-Topic]: A Arte em Movimento no Ascensor da Bica

A CARRIS inaugurou hoje um projecto, denominado "Arte em Movimento" que se enquadra num programa de Apoio da Arte Contemporânea Portuguesa, e que estará patente ao público até 30 de Junho de 2010. Segundo o site oficial da Carris, «este projecto abrangerá alguns veículos da frota de serviço público da CARRIS, sendo que em 2010 a aposta é feita nos Ascensores e Elevador de Santa Justa, veículos classificados desde 2002 como Monumentos Nacionais».
Esta tarde passei na Bica e vi o trabalho de Alexandre Farto exposto nas duas cabines do Ascensor da Bica. Sob o tema “ESPECTRO", este projecto baseia-se numa intervenção na superfície exterior das cabinas do Ascensor da Bica, tornando-as reflectoras de todo o espaço envolvente e o resultado só podem ser imagens diferentes das que estamos habituados a ver naquelas ruas.

Aqui vos deixo algumas imagens que captei esta tarde:




Mais informações sobre esta iniciativa no site da Carris .
Ainda sobre este projecto destaco também um blog sobre o Elevador de Santa Justa e as suas memórias da uma das participantes nesta iniciativa da Arte em Movimento, Susana Mendes Silva, que apela à participação de todos com o envio de fotos, vídeos, textos, ou os seus desenhos sobre a sua experiência no Elevador de Santa Justa.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A blogosfera recorda: Proibido Parar e Estacionar, Excepto CARRIS

Falta de civismo, desrespeito, rebaldaria. Estas podem ser três palavras que caracterizam o que se vai vendo por esta cidade, nomeadamente no que diz respeito ao trânsito e ao mau estacionamento, sobretudo nas paragens dos autocarros. Na maioria dos casos, são apenas os passageiros que reparam nestas situações, até porque são eles que pretendem aceder a um transporte que se vê obrigado a parar alguns metros distante do abrigo.

Estas situações, que em alguns casos já foram aqui referidas por mim, seja através dos textos que vou escrevendo, seja através dos recentes vídeos que produzi a bordo de algumas carreiras, mostram a educação - ou falta dela - dos automobilistas que andam pela nosso país. Se necessitam de fazer um pagamento no multibanco, estacionam na paragem. Se precisam comprar um perfume na perfumaria que fica dentro do centro comercial que não tem parque de estacionamento, lá estão eles a deixar o carro no recorte da paragem. Se há mercadorias para entregar, lá deixam as carrinhas... na paragem.

Então e nós que queremos apanhar as pessoas que estão á nossa espera na paragem, paramos onde? A pergunta só pode ter como resposta, a faixa de rodagem, estorvando os restantes utentes da via. Tudo graças aos senhores e senhoras que se julgam donos de tudo e de todos e que quem vier atrás se desenrasque. Já nem a buzinas ligam, quanto mais a sinais de luzes.

Outros há que podem pensar que tudo isto não passa de uma implicância da parte dos motoristas, mas o certo é que o principal prejudicado é o utente dos transportes, numa altura em que se incentiva cada vez mais ao uso do transporte público. Já imaginou um idoso ter de subir um degrau do autocarro quando este poderia estar mais baixo se tivesse parado junto ao lancil do passeio?

Mas nem sempre são apenas os motoristas e os passageiros que dão conta destes problemas. Na blogosfera encontram-se posts que abordam estes problemas, que em alguns dos casos, se forem multados «cai o Carmo e a Trindade», e é precisamente num blog com este título que encontrei uma larga referência ás paragens dos autocarros em Lisboa e ao estacionamento abusivo por parte dos automobilistas. A pergunta que se coloca é: Qual a solução?

Em OCarmoeaTrindade.blogspot.com são apresentadas imagens de paragens que se situam bem no centro da cidade, na Avenida de Roma e que são constantemente utilizadas como estacionamento para quem ali vai ás compras. O autor do blog chega mesmo a publicar imagens das viaturas mal estacionadas e com a policia a passar por perto sem nada fazer, como refere o post intitulado Carris - I

Mas a tentativa por parte de alguns motoristas em fazer ver a estes senhores que estão a estorvar também foi provada pelo «Carmo e a Trindade» no post Carris - II, mas nem sempre as coisas correm de feição. Se uns até pedem desculpa, outros há que se estão nas tintas para o que diz quem vai ao volante do autocarro ou até mesmo os passageiros como se pode comprovar através das imagens que são publicadas num outro texto do autor do blog, em Carris - III.

Carlos Medina Ribeiro é um dos que contribui para o blog que mostra estas situações com que nós motoristas nos deparamos diariamente e até pergunta a certa altura, quantas são as viaturas de vigilância Bus, dando a querer entender que ainda há muito para fazer neste campo, como provam as imagens que acompanham este texto.


Mas quem também não deixa passar esta questão em branco é o blog de quem quer andar a pé. O blog PasseioLivre.blogspot.com diz que surgiu para «clamar pela consciência cívica dos condutores e dar aos indignados uma ferramenta para expressarem legalmente a sua indignação, não pretendendo de forma alguma apelar a qualquer tipo de dano nos veículos infractores», e se em grande parte dos assuntos aqui debatidos são a ocupação indevida dos passeios, o certo é que quem anda a pé utiliza também o transporte público e como tal sente-se lesado pelos senhores que estacionam nas paragens.

O «PasseioLivre» mostra através de um post recente «um novo paradigma no apoio aos transportes públicos» e nele estão contidas também imagens desse mesmo problema - a ocupação das paragens por outros veículos que não, os transportes públicos.
n.d.r.: As imagens apresentadas foram retiradas dos blogs referidos no texto e são da respectiva responsabilidade dos seus autores.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Quando as dores afectam a audição, a explicação torna-se complicação

Quem ainda acredita que esta profissão de motorista não tem interesse nenhum, está profundamente enganado. Quais são as profissões que permitem que durante o seu período de trabalho se veja e aprenda uma eternidade de coisas? Poucas ou quase nenhumas! Mas ser motorista de um autocarro, numa cidade como Lisboa, permite-nos ouvir histórias do arco da velha, constatar através de alguns passageiros, as consequências que faz uma solidão e em alguns casos ser o muro de lamentações de muitos que não têem com quem desabafar.

Por muito que por vezes se tente manter uma certa distância, a porta da banqueta serve de apoio a uma conversa, que em alguns dos casos é "arrancada a ferros" pelo passageiro. Outros há que ocupam as cadeiras até ao terminal, para ali saírem e voltarem a entrar para regressar ao ponto de partida. São viagens que servem para passar o tempo, nem que seja, apenas para sair de casa.

Mas engraçado nesta profissão, é também o facto de passado algum tempo, adivinhar-mos algumas das reacções e objectivos dos passageiros que vamos transportando. A certa altura entramos num estilo «piloto automático» e já sabemos que aqueles que dão passagem aos restantes passageiros, na paragem de Alcântara, por exemplo, tem apenas como objectivo, criar uma barreira para que entrem à borla, como se o motorista nada percebesse. Sentem-se naqueles momentos, como os grandes artistas se sentem quando cativam o público nos seus espectáculos, mas com uma diferença: o olhar de esguelha, para ver se o motorista é assim tão distraído.

Hoje por exemplo, quem parecia estar algo distraído, era o senhor que entrou na paragem da Casa Pia, com destino ao Bairro Madre Deus e que originou mais um daqueles diálogos que parecem por á prova o motorista, se não vejamos...

Passageiro com o seu sotaque alentejano e já na casa dos 70 anos entra no autocarro, dando as boas tardes, mostrando que ainda é de outras gerações e diz que pretende ir para o Bairro Madre Deus.

Motorista: «Então, acertou em cheio no autocarro. É só sentar-se (dado que já tinha validado o título de transporte) e esperar pela última paragem...
Passageiro: «Não senhorii. Eu quero a penúltima, porque moro no Largo da Madre Deus há pouco tempo, sabi?»
Motorista: «Ah então é da zona...»
Passageiro: «Mas o que eu queria, era que o meu amigo me disséssi era qual a camioneta que devo apanhari p'ra ir jantariá Rua de São Paulo, na volta do regresso.»
Motorista: «Então apanha o primeiro que aparecer. Se for o 742, desce aqui no Museu do Azulejo e apanha o 794. Se for o 759 a aparecer primeiro, pode descer na P.Comércio, ali perto da estação dos barcos e apanhar o 794 que é o que lá passa...»
Passageiro: «Mas não ta compreendendo? Eu só quero apanhar quando for jantar, mas não sei é qual é que vai daqui para lá.»
Motorista: «Directo, o senhor não tem nenhum. Tem sempre de apanhar dois e é os que já lhe disse».
Passageiro: «Então é o 742 que me leva até lá né verdadi?»
Motorista: «Ou o senhor não ouve bem o que lhe digo, ou então expliquei-me mal...»
Passageiro: Não. Sabe é que eu tenho uns problemas... Vou ser operado a uma hérnia e amanhã vou ao hospital... Mas então é o 794, é isso?»

E lá lhe tive de explicar de novo como haveria de fazer para chegar onde pretendia. Lá entendeu e pediu desculpas, mas como fez questão de repetir, estava com uns problemas porque ia ser operado a uma hérnia.
Como se não bastasse este discurso, com o qual até eu fiquei baralhado, com o facto como umas dores de uma hérnia tiram qualquer um do seu estado normal, ainda tive de levar na viagem imediatamente a seguir com um grupo de jovens que entraram no Calvário e decidiram por-se aos berros uns a favor do Benfica e outros do Sporting. E como berros é algo que já vai sendo hábito na 742, o resultado só poderia ser acabado o serviço completamente cansado e com uma forte dor de cabeça.

Foi mais um dia e amanhã logo se verá como será. Boas Viagens!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O primeiro dia do ano com «ídolo» da carreira 12

De Miraflores, mais precisamente do colega e amigo, Marcel Mazoni chega-me o relato do primeiro dia de 2010 na carreira 12. Como é habitual nestes dias de Feriado, encontra-se um pouco de tudo e de tudo, encontra-se nada. As superfícies comerciais fecham portas, cafés e lojas apresentam-se de grades corridas. As famílias juntam-se em casa para o almoço ou para o jantar e nas ruas, restam os que têem de se deslocar para o trabalho, ou os que não têem família e que procuram alguma companhia e distracção.

Em certa altura da conversa que mantive com o Marcel, percebi que este seu relato do primeiro dia de trabalho na carreira 12, em 2010, merecia aqui referência, porque este blog, não só retrata o meu dia-a-dia, mas como o de todos os tripulantes da Carris. Á semelhança do que acontece comigo com a carreira 35, também o Marcel tem a sua preferida e é nada mais nada menos que a carreira 12 que liga Santa Apolónia a Alcântara-Mar (Museu Oriente).

Entre estes dois pontos, já vão havendo caras conhecidas. Umas mais simpáticas que outras, mas umas sem dúvida, mais marcantes, seja pela simpatia ou pela boa disposição. Entre os passageiros habituais desta carreira está o «velho do rádio» e que foi o seu primeiro passageiro deste ano de 2010.

Frequentador assíduo das carreiras 12, 794, 28 e 750 («que eu saiba», diz o Marcel), é célebre por trazer sempre consigo uma cadeira para esperar pelo autocarro, não vá estar a paragem ocupada. Mas com ele vem também o seu rádio a pilhas, através do qual insiste em ouvir sua música em "alto e bom som". Não gosta de se sentar noutro lugar do autocarro, que não seja a "cadeira do co-piloto".

Mas com o «velho do rádio», os motoristas da carreira 12 já sabem que têem conselhos a seguir do então co-piloto. Frases como "cuidado com a direita!", ou quando está de chuva: "devagarinho, que isso tá de chuva e a pedra é quadrada...", já vão sendo conhecidas. E esta manhã quando o Marcel, preparava-se para tirar uma foto ao autocarro que conduzia neste primeiro dia de 2010, eis que o senhor do rádio, pedia que lhe tirasse também uma fotografia. O resultado é a fotografia simpática que anexo e que é da autoria do Marcel, que gentilmente cedeu para o «Diário do Tripulante».


Ao Marcel Mazoni e ao Sr.Carlos ("velho do rádio"), aqui ficam os votos de um excelente 2010!

n.d.r.: História e Fotos, gentilmente cedidas por Marcel Mazoni (motorista afecto á estação de Miraflores). Texto de Rafael Santos

Bem-vindo 2010: Da cantina dos coveiros na 79, aos "Ferrero rocher" na 35!

2009 já lá vai e é tempo para o habitual balanço do ano. A título pessoal, este ano que ontem terminou, depois de mais um serviço na carreira 5, ficou marcado pelas entrevistas inesperadas, que dei a Revistas, Jornais e Rádio e que foram as principais fontes de divulgação de um blog que começou por mera brincadeira, mas com um objectivo sério e estudado - dar a conhecer o dia-a-dia de um motorista e/ou guarda-freio da Carris. As dificuldades que se encontram diariamente, o contacto com o público e um serviço que embora possa parecer fácil, tem muito que se lhe diga.

Ao todo, o blog «diário do tripulante», contou em 2009, com 206 post's com histórias, sugestões, vídeos, reportagens, e alguns desabafos. Em 2010 poderão ser mais ou menos, tudo dependerá da disposição, do interesse de quem o lê, mas claro tudo dependerá ou não, das histórias que poderão surgir, quer seja a bordo de um autocarro ou de um eléctrico, mas todas elas com Lisboa, como pano de fundo.

Quanto ao final do ano, lá me safei de um serviço na passagem do ano e celebrei junto da família, a chegada de 2010. A tarde foi passada a levar para casa os restantes passageiros que aos poucos iam deixando os seus empregos. Mas já depois das 18 horas, Lisboa ficou quase deserta, à semelhança da noite de Natal. Quanto à meia-noite propriamente dita, não deu para grandes festarolas, até porque o serviço deste primeiro dia de 2010, tinha início marcado para as 7h15.

Carreira 79 em dia 1 de Janeiro, já se previa que ia ser bastante calma, sobretudo porque não havia Junta de Freguesia aberta, nem Posto Médico, nem tão pouco o Spácio Shopping, embora este último tivesse clientela, se estivesse de portas abertas. Entre a viagem das 7h30 e das 10h00 não transportei um único passageiro, embora tivesse feito uma paragem pelo meio, mas haviam mandado parar apenas para saber se já tinha visto algum café aberto.

Uma pergunta tão irónica, como o passageiro que já perto do início da tarde tinha entrado no autocarro, para ir até ao Cemitério. Dizia-me que ia acender uma vela pela sua falecida esposa, e que aproveitava para ir á cantina dos coveiros, a ver se poderia beber um café, porque na bomba da Galp era em copos de plástico... Entre beber um café num copo de plástico e ir beber a um cemitério, venha o diabo e escolha, mas eu escolheria certamente o copo de plástico.

Bem e terminado o serviço na 79, rumei até ao Areeiro, para fazer um extra na "minha" 35, dando assim as boas vindas a 2010, com 6 viagens naquela que para mim é a carreira mais "porreira" da minha estação. Entre votos de um bom ano e rever alguns passageiros que há muito não via, em cinco horas tive ainda direito a uma oferta. Se no ano passado, neste mesmo dia, me tinham oferecido um relógio, já hoje a oferta, foi mais doce, com um pack de três «Ferrero Rocher». Terei sido eu um Ambrósio? (risos)

Ofertas à parte, o primeiro dia do ano já está passado, e ao que parece nem foi nada fácil para os colegas que estiveram de serviço na Rede da Madrugada, com os habituais excessos de passageiros mais irresponsáveis. Por estas e por outras razões, esta continua a ser a noite mais problemática do ano para se trabalhar.

Amanhã há mais. Boas Viagens!


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