Quando entrei para a Carris e nos primeiros meses de trabalho, sempre que me calhava na escala um serviço em carreiras como a 36 e 745 por exemplo, ficava sempre muito satisfeito, porque ao serem carreiras suburbanas, automaticamente são mais longas - o que ajuda a passar o tempo. Contudo o passar do tempo e a regularidade com que as tenho feito, têm vindo a esclarecer-me que estava profundamente enganado e mesmo correndo um grande risco (porque se o escalador sabe que não gosto destas duas carreiras, coloca-me sempre lá), a verdade é que cada vez gosto menos de andar pelos subúrbios.
Contudo, um motorista «supra», que é o meu caso, não tem direito a escolha a não ser que faça troca com um colega o que por vezes já é complicado também. Hoje lá me calhou novamente uma quantidade de viagens para Odivelas. Confesso que não é o facto de vender mais bilhetes que me satura, mas sim a má disposição daqueles que ali se transportam. Obviamente que há excepções, mas talvez por morarem longe do trabalho, o cansaço seja maior e acabam por descarregar em quem lhes aparece á frente - o motorista, logo que abre a porta.
Uns é porque o autocarro está atrasado, outro é porque só passam uns para o Sr.Roubado, outros é porque está muito calor, outros porque têm frio e hoje até da luminosidade se queixaram. Não é que o autocarro fosse ás escuras como é óbvio, até porque a noite já começava a cair, mas um toque sistemático na campainha "Stop" e ninguém a sair pela porta da retaguarda é no mínimo suspeito e só há três hipóteses:
1) O passageiro honesto que se engana e pede
desculpa...
2) Alguém que não tem nada para fazer e decide
brincar com quem está a trabalhar e com os restantes passageiros...
3) A passageira que vai tocando até ver que é
realmente o local indicado para sair... porque tá escura a rua.
Pode parecer irónico e até anedótico mas não é. Hoje foi mesmo a 3ª hipótese a vencedora e á terceira paragem sem ninguém sair, aguardei mais uns instantes a ver se alguém se acusava, até que lá se ouviu o «desculpe sr.motorista. Enganei-me. É para a próxima... É que a rua está escura e não sei bem onde estou!»
Também por ser fim-de-semana há sempre quem não tenha nada para fazer e decida entrar num autocarro sem destino. Assim foi com o senhor que ao chegar ao terminal de Odivelas, me questionou se era ali o final da linha.
Passageiro: «Desculpe, mas é aqui que acaba?»
Motorista: «É isso mesmo. Termina aqui!»
Passageiro: «Muito bem. Então e não sabe onde se pode beber aqui uma imperial?»
Motorista: «Experimente ali no Café em frente»
Passageiro: «E acha que tenho tempo de o voltar a apanhar para regressar? É que eu estou em passeio para me distrair sabe!?...»
Motorista: «Se conseguir beber a imperial em 9 minutos ainda apanha este, se não vai no próximo que também não tem pressa não é verdade...»
Passageiro: «É verdade amigo. Então e não vai uma imperial ou um cafézinho?»
Motorista: «Não, muito obrigado, mas quando conduzo não bebo»
E entretanto lá foi o senhor ao café onde entrou com um pé e saiu logo de seguida com o outro, talvez com receio de perder o autocarro. Abriu o chapéu de chuva e lá correu a atravessar a rua para se dirigir á paragem onde voltou a entrar dizendo que «afinal nem bebi a imperial. Depois estaria aqui muito tempo á espera do próximo e assim vou já consigo...», e lá veio o senhor de novo até ao Cais do Sodré, numa viagem onde voltei a ver uma vez mais que.
E assim foi a manhã, a tarde e quase a noite, dada a extensão do serviço, num dia onde uma vez mais alguns taxistas decidem deixar mais uma nódoa em todo um sector, ou porque não facilitam a saída da paragem ao autocarro ou porque aceleram para depois travar á frente do autocarro só para apanhar um passageiro e como prova a foto deste post, para estorvar a paragem do autocarro como acontece habitualmente nesta paragem em Odivelas na Rua D.Diniz e no centro de Lisboa, no Rossio. Haja paciência!
Boas Viagens!