domingo, 5 de julho de 2009

As corridas Santa Casa num dia que foi necessária santa paciência

Tudo fazia prever mais um domingo normal entre tantos outros, em que a rotina matinal é a da missa numa visão geral, e a ida á Feira do Relógio se for uma carreira que passe por perto. A 718 não é a carreira que passa mais próximo da feira, mas ainda assim é alternativa a muitos, que aproveitam a passagem do autocarro no Beato, Poço Bispo e Braço de Prata.

Logo pela manhã uma senhora pergunta-me qual a paragem mais próxima de uma igreja com um nome que nunca tinha ouvido falar. Disse-lhe que desconhecia, mas rapidamente alguém que levava o mesmo rumo apaziguou o “stress” da senhora que pensou estar por instantes, enganada. Não estava, até porque também eu já fiquei a saber onde é a referida igreja, não vá alguém numa próxima oportunidade perguntar...

Uma paragem à frente, viagem terminada... viagem iniciada! Desta feita rumo ás Amoreiras, onde também muita gente costuma ir sobretudo ao domingo, dia em que as portas do El Corte Inglês se fecham da parte da tarde. Mas hoje, até pelo facto de estar um tempo que “nem 8 nem 80”, havia menos gente que o habitual...

Chegando à Av.República, avisto um agente da PSP e uma série de pinos bloqueando o cruzamento da referida avenida. Associei logo que deveriam ser corridas da Santa Casa, dado que bem cedo tinha já transportado uns passageiros com t-shirt verde e dorsais. Obrigam-me a virar à direita, mas como não tinha informação do que se ia passar e por onde iam passar, pedi fonia à C.C.T. que lá disse também ter sido apanhada de surpresa.

«Siga pela Av.República até Entrecampos, suba as Forças Armadas até saída Praça de Espanha, e retome o percurso em S.Sebastião…», ouvia-se pela coluna do rádio, para desânimo e até mesmo revolta de alguns dos que iam sentados a bordo do 1806. Já na Av.República encosto à direita, informo os passageiros do desvio, pelo que se alguém fosse para a Av.Miguel Bombarda, teria de sair ali. Portas abertas, mas todos sentados e sinal de que ninguém queria sair.

Retomei a viagem e ao meu lado esquerdo, e em direcção ao Saldanha apareciam os primeiros “atletas” e no interior do autocarro as primeiras palavras de revolta para com a organização da prova e houve mesmo quem chegasse a falar no tempo em que os cravos ainda não tinham saído à rua.

«É uma vergonha, numa das principais avenidas a fazerem estas corridas... Deviam ir para Monsanto ou para Algés que têem muito onde correr. Bendito Salazar que fazes cá muita falta!», dizia uma das passageiras mais inconformada com a situação e talvez a que menos tivesse sido prejudicada, porque havia quem fosse trabalhar e esta tinha apenas ar de quem estava a passear. Mas não tardou a ter resposta.
«A senhora para dizer isso devia andar bem guardada na altura ou então vivia num berço de ouro, porque eu sofri bastante com o Salazar e não tenho saudades nenhumas».

Gerou-se portanto uma guerra política com a referida senhora a dizer que «Para falares mal dele é porque eras dos que levava no rabinho... Tens mesmo ar disso». E entra então em acção a 3.ª interveniente na discussão dizendo que «a senhora deve estar é louca da cabeça e agora temos nós de a gramar e aturar? Esteja mas é caladinha!», remédio santo.

Uns metros á frente e um dos passageiros pede-me para que lhe deixe sair, precisamente na via mais á esquerda. Nego-lhe a saída até porque há direita haviam carros a passar:
“Desculpe, mas aqui não lhe posso abrir. Deixo-o sair ali no Campo pequeno que tem lá paragem...”

E é nestas alturas em que se o motorista abre a porta é um santo e se não abre é um bandido. «Mas eu não quero ir pr’o campo pequeno», podia então ter saído quando avisei e abri as portas!

Lá compreendeu e até chegou á conclusão que era mesmo melhor seguir viagem até porque iria descer onde era retomado o percurso da carreira 718. Foi portanto uma amanhã certamente diferente numa carreira que teve hoje um passeio mais alargado, como chegou a dizer um casal na viagem de regresso.

«Como não temos tempo para passear, hoje este desvio até serve para passar por sítios que nunca vimos...», diziam. O pior disto tudo foi depois a quantidade de passageiros que se juntaram à espera do 718 ali na Rua Dr. José Espírito Santo com o final da missa que promete semanalmente resolver todos os problemas pessoais...

Amanhã há mais, e sem corridas porque amanhã já é segunda-feira!

Boas Viagens!

3 comentários:

||_MiX_|| disse...

Viagens animadas: corridas, Salazar, missas, passeatas! O que mais se quer para animar um domingo em que o tempo está "nem 8 nem 80"?

Grande abraço.

André Bravo Ferreira

Vasco Lopes disse...

Essa do Salazar já é velha. Será que essa gente não vê que tem o disco riscado? Há que inovar...

Iberista disse...

Antes do comentário, dou-lhe os parabéns pelo blog que aqui tem. Dá para que eu (e outros) veja o "outro lado" dos autocarros. Chamo-mo Ricardo Moreira e conhecemo-nos há umas semanas na APAC (por causa do tal DVD dos eléctricos - espero que o tenha conseguido comprar).
E agora o comentário: como disse o Vasco Lopes, essa do Salazar já "tem barbas". Recordo-me de uma situação parecida ocorrida ou num 18 ou num 42, já lá vão uns 20 anos - andava eu, jovem imberbe, na Patrício Prazeres. Quando entrei no autocarro na Afonso III, ia um senhor com essa conversa do "no tempo do Salazar". Quando ele ia a começar uma nova frase, alguém que já devia estar cansado de o ouvir calou-o não o deixando completar o que ia a dizer, mas com um efeito "dramático" tremendo:
- No tempo do Salazar...
- ... você ia calado com medo dos bufos!
A coisa foi eficaz porque até Xabregas, onde eu saí, o homem não voltou a abrir o bico!

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