quarta-feira, 22 de abril de 2009

Na 742 com o adeus do senhor e o "senhor do adeus"...

Não havia certamente melhor forma de começar uma semana de trabalho como esta quarta-feira onde o calor fez-se finalmente sentir e com força na capital. Os termómetros passaram dos 25 graus e por azar o autocarro tinha o ar condicionado avariado. Já a meio da tarde e depois de uma viagem lá entrou um senhor que apesar de não ter dito "boa tarde", ainda foi capaz de dizer «abra mas é o ar condicionado que morremos aqui de calor!!...»

Estaria eu à espera que o referido passageiro chegasse para me aperceber que estava assim tanto calor? Ou gostaria eu de transpirar só para não ligar o ar condicionado?... Bem há sempre quem pense que uma destas hipóteses poderá ser a resposta, mas adiante...

Hoje assisti à maior [como vou eu chamar ao que assisti?!..] peixeirada a bordo de um autocarro. O bairrismo está sempre presente na 742, ora na Madre Deus ora na Ajuda há sempre alguém que grita mais alto que o outro, mas hoje nem teve nada haver com os bairros em si, até porque as marchas são lá para Junho. Recorda-se certamente de um post que aqui escrevi sobre o dia de Carnaval que falava sobre uma senhora que havia entrado mascarada e que se tinha metido com o Polícia da Madre Deus. Pois bem, esta senhora já tem lugar cativo nesta carreira, transportando-se várias vezes, ora de manhã ora de tarde e até já vai conhecendo e cumprimentado alguns motoristas.

Como a 742 até é das carreiras onde marco mais presença, a referida senhora - sempre muito reinadia - já me conhece e lá me cumprimenta sempre que me vê. Hoje lá entrou e sentou-se no primeiro lugar. O autocarro aos poucos foi enchendo e na Morais Soares já entravam com dificuldade. Seguia eu para o Bairro Madre Deus quando ouço esta senhora em jeito de brincadeira perguntar a um senhor que, dado o aperto na coxia, lá deu um encosto no seu braço. «Ouça lá... Veja lá se quer ir no meu colo!?!...» Mas o senhor em questão não a levou muito para a brincadeira e muito menos a senhora que o acompanhava.

«Não preciso minha senhora! A senhora se quer arranjar colo tem de arranjar alguém mais novo...» e esta não perdeu tempo em responder «pois porque para velho já lá tenho um em casa e se quiser também lhe dou...» E lá ia falando mas sem receber troco aparentemente. Pensava eu que a história iria ficar por ali. Chegamos então ao Alto de São João e quer o senhor, quer a sua acompanhante saíram, seguindo o seu rumo, mas não sem antes voltar a provocar a senhora da Madre Deus com um adeus diferente. Acenou com a mão e "soprou" um beijo tal e qual os contos românticos que se lêem por ai nos livros expostos nas prateleiras de Romance de uma Fnac ou Bertrand...

Indignadíssima com tamanha provocação, a senhora da Madre Deus, desata aos gritos insultando e injuriando a atitude do «patife» que aparentava ser um senhor de bem. Confesso que até me deu certa vontade de rir, mas de imediato vi que a revolta de quem tinha seguido a bordo de um autocarro sem lhe poder chegar ao pêlo, era bem maior que eu pensava. Nem o vidro do autocarro escapou a umas valentes palmadas... «Olhem-me um c..... destes ãnnnn. A provocar-me na frente da mulher! Só pode ser arranjinho de certeza porque ela ainda se riu e tudo. Vejam só isto a mandar beijinhos. P..... que a pariu!», gritava já voltada para trás enquanto seguia a marcha e não sem antes lhe pedir um pouco de calma para evitar quebrar o vidro que não tinha culpa alguma.

Pelo espelho via os restantes passageiros a observarem a situação com um riso na face e outros até com palavras de apoio. Chegados á Madre Deus, lá se despediu e pediu desculpa, ao que lhe disse para ter calma e, em jeito de brincadeira [também da minha parte] para se portar bem. De imediato me disse: «Eu porto-me sempre bem, não vê??!! Estas gajas é que se metem comigo. Mas eu sou velha mas não sou gaga, graças a Deus...» E lá foi á vida dela!

Também eu segui para mais uma viagem porque hoje, não sei que se passou, mas havia muito trânsito e nem tempo havia para arrefecer a cadeira. Sigo então para o Casalinho da Ajuda e uma vez mais e perto do El Corte Inglês, lá estava, o então conhecido por "Senhor do Adeus". Sim é aquele que costuma estar no Saldanha ou no Restelo e que há pouco tempo até deu uma entrevista para a rubrica "Cromos de Lisboa" da revista TimeOut. Entrou e mais uma vez... nem água vai nem água vem, mas desta vez, não se livrou de voltar dois passos atrás e validar o seu Lisboa Viva. Sem dúvida um grande cromo da nossa cidade...

Para finalizar o dia ainda transportei o João. Perguntam vocês mas quem é o João?! Pois quem não o conhece da Madre Deus. «Forte e feio» como o próprio faz questão de se apresentar. Entrou em Alcântara e hoje vinha para por a conversa em dia e sem lhe ter perguntado nada tive de ouvir quase toda a história da vida dele. Da colega que favorece o colega ao casamento que ficou em «águas de bacalhau... Até casa tinha, mas não deu certo e tive de a vender», dizia mas sem desviar o olhar da rua onde algumas senhoras mais acaloradas passeavam com trajes de - como se costuma dizer - "fazer parar o trânsito" e quem nem ele resistia «elas a passarem lá fora e eu aqui a sofrer com tanto calor... Ai João, sofre coração... aguenta João...», e lá veio até à Madre Deus contando-me a história da sua vida mas alto e bom som para que os restantes passageiros também a conhecessem.

Amanhã há mais, mas espero que seja um pouco mais calmo que hoje porque até parece que me saiu a rifa porque não bastando a gritaria no alto de São João e o calor que se fazia sentir ainda houve quem entrasse com camisolas de lã e gola alta fazendo-me ainda mais calor...

Boas Viagens!

Fotos:
Senhor do adeus - retirada algures na Internet
Autocarro na 742 - Gentilmente cedida por Pedro Almeida


15 comentários:

Vasco Lopes disse...

Parabéns, Rafael! Para mim, o melhor post até agora. Fez-me rir a bom som! Não só na parte em que os teus passageiros trocaram piropos, mas sobretudo na parte em que o senhor acenou e soprou com um beijo à senhora. Cereja no topo do bolo quando a mesma responde: "Olhem-me um c..... destes ãnnnn. A provocar-me na frente da mulher! Só pode ser arranjinho de certeza porque ela ainda se riu e tudo.". Simplesmente brutal! Realmente vê-se de tudo e até há tempo para aturar uns cromos que de vez em quando vão aparecendo.
Quanto ao Senhor do Adeus, ele é um ícone da nossa capital. Falar de Lisboa sem falar desse homem é o mesmo que falar do Vaticano sem falar do Papa. Conheço-o há mais de 10 anos, seguramente. Como ando na carreira 751 com frequência já não me faz confusão a sua presença diária na Av. do Restelo a partir das 18 horas. Sei que por volta das 23 horas vai para o Saldanha, onde fica até às 2 horas. Na 751, para além dos muitos passageiros que lhe dizem adeus, por vezes nem o motorista se esquece de buzinar ao nosso amigo, que prontamente lhe retribui com um enorme aceno. É sem dúvida um cromo raro da cidade de Lisboa.

Um abraço e boas viagens!

Pedro Almeida disse...

Amigo, sem dúvida o post que mais gostei até hoje....
Desde o trocadilho do título, á tua opinião sobre a senhora da Madre Deus "sempre muito reinadia" ehehe.
Já diz o ditado que "quem anda á chuva molha-se", e realmente nem toda a gente tem a disposição de receber provocações, só porque alguém achou que era mais útil a falar do que calado.
Bem, mas nem faço mais comentários, até porque ADOREI mesmo este post, muito bom mesmo!!

Grande abraço do madeirense!! fica bem amigo!!

Condutor do TXXI disse...

Tambem já o vi na 742 no 4078, noutro dia vi-o num sitio diferente, Estrada das Laranjeiras. Ele anda a mudar de sitios LOL

Condutor do TXXI disse...

O transito anormal de hoje não será por causa da cratera que se abriu na Av. de Berna? Se sim conta com ele mais um mês e evita a 56. LOL

Duende disse...

:D

Condutor da Carris sofreeee, eu ainda me lembro de algumas, mas no meu tempo era só 42.

||_MiX_|| disse...

Ai o bairrismo, o bairrismo...

Parabéns pelo post Rafael, sem dúvida o melhor que li.

O senhor do Adeus encontrei-o a semana passada no 718, à muito tempo que não o via mas desta vez validou o Lisboa viva???? Estranho, nunca o faz...

Grande abraço.

André João Ferreira

APS disse...

Olá Rafael

Gostei muito deste "post", embora

lamente a atitude de gente do meu

Bairro.

Um abraço
APS

Carlos Correia disse...

Muito interessante. Parabéns.

Cumprimentos
Carlos Correia

Bruno Pedroso disse...

Nunca vi esse senhor.. a foto tem um aspecto algo fantasmagórico...

Bruno Pedroso disse...

Descobri o porquê desse senhor dizer adeus! Ele não é nenhum maluco, acho que vive sozinho e há três morreu-lhe a mãe, e segundo ele, c incomodava-o estar sozinho em casa sem nada para fazer e decidiu começar com esta brincadeira...

Aos interessados que vejam isto:

http://e-se-tentarmos.blogspot.com/2005/03/o-homem-que-diz-adeus.html

Condutor do Txxi disse...

Ele já está de dia no Restelo e à noite no Saldanha há pelo menos 10 anos!

Bruno Pedroso disse...

Então o texto é antigo...

aras disse...

Adorei este !
Continua
Abraço de quem circula sobre carris

ARAS

Pereira disse...

Esse "senhor do adeus" costumava estar na Av. do Restelo onde costumava entrar na carreira 51, mas deixa-me que te diga que tinha um certo receio dele pois tinha um ar um pouco....como ei de dizer? Esquesito, sim é isso, pois o estranho de todo é que quando entrava no carro fica sempre encostado aos motoristas, isto com o carro vazia,isto provalmente porque o motorista era o unico que não podia mudar de lugar para fugir de ao pé dele
Abraços da 750

Rafael Santos disse...

Bem vindo Pereira!

Sem dúvida que este senhor é dos maiores cromos que conheço na capital :=)

Abraço

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