domingo, 8 de março de 2009

79: Do "papa-bolos" aos flintstones, passando pela guerra, num domingo diferente do habitual...

Já dizia Luís Vaz de Camões que...

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades."

Ora quem como eu está mais habituado ás carreiras de grande movimento, sobretudo tendo em conta os últimos serviços que tenho tido na 742 - uma das maiores carreiras da rede da Carris -, também sente uma mudança - quer de passageiros, quer de hábitos - quando o serviço recai sobre uma carreira mais calma como a 79 e sobretudo se for numa manhã de domingo como a de hoje em que o sol convidava ao passeio...

A manhã começou cedo e se tudo apontava para ser um dia muito "zen" eis que uma avaria no autocarro logo após a saída da estação, levou a que tivesse de efectuar troca do autocarro para poder continuar o serviço. Também eles se queixam ás vezes, tal como as pessoas...

Passado cerca de um ano, lá regressei á circulação dos Olivais e como ao fim-de-semana é de 30 em 30 minutos, apenas uma chapa chega para fazer o serviço, o mesmo quer dizer que eu era o único que lá andava, ou seja acabei por ver as mesmas pessoas várias vezes na mesma manhã.

Na primeira viagem, apenas um passageiro, que diria eu, já tem lugar cativo na 79. Entra sempre após os Bombeiros de Cabo Ruivo e dá uma volta completa pela carreira, sobretudo se o lugar da frente for livre, que é onde gosta de viajar. Na segunda viagem já tinha mais passageiros e foi precisamente nesta viagem que fiquei a saber a alcunha daquele que havia sido uma vez mais o meu primeiro passageiro do dia na 79. O «Papa-Bolos»...

Também eu me questionei o porquê de tal alcunha, dada pelos restantes residentes da zona e habituais utilizadores daquela carreira, mas rapidamente me esclareceram... Tal nome deve-se ao facto do indivíduo ir todos os dias á Igreja para comer a Hóstia. E realmente lá estava ele á porta da igreja a aguardar a missa das 9h00.

A manhã estava, como já referi anteriormente, a convidar ao passeio ou á prática do desporto, mas apesar da 79 ser conhecida pela «carreira da equipa de hóquei», pelo facto de grande parte dos passageiros habituais terem muletas, o certo é que grande parte deles preferiram antes ir ao Pingo Doce no SpacioShopping ou ir até à feira do relógio.

Mais uma viagem e a acalmia do bairro da encarnação, levou-me por instantes a pensar que não estaria em Lisboa. Um agrupamento de vivendas na rua dos lojistas, fez-me lembrar as férias que costumo passar no campo, mas rapidamente vi que estava mesmo em Lisboa, quando um ligeiro ao ver-me sair da paragem, acelera para não permitir que eu saísse na frente dele...

No terminal da carreira uma discussão acesa sobre os tempos que correm. A crise, os assaltos e o Estado eram tema de uma conversa que rapidamente entrou a bordo do 1820. «Vejam só que deu há dias na televisão que eles até abrem as portas com um cartão multibanco... E isto são ideias lá de fora, mas o nosso país está muito mal, muito mal mesmo», lamenta uma das senhoras.

«Eu tinha uma arma em casa, porque o meu pai ensinou-me desde pequenina a defender-me, mas entreguei-a há uns anos à Polícia. Se soubesse o que sei hoje, não tinha entregue. Estou tão arrependida!!! É que hoje tinha uma defesa às primeiras impressões», esclarece uma outra sentada no lugar mais atrás, acrescentando que nasceu «numa época muito ruim... mil nove e dezanove (1919) com as consequências da guerra de 14 a 18...», referindo-se à primeira guerra mundial onde calcula-se que terão perdido a vida pelo menos 9.000 portugueses, e só na Batalha de La Lys em Abril de 1918 terão morrido mais de metade.

Mas guerras à parte, o melhor estava ainda para vir quando iniciei a viagem para mais uma volta. Junto ao metro dos Olivais, um aglomerado de carros fazia prever que algo estaria para aparecer até porque a polícia estava presente nos cruzamentos envolventes. Ao primeiro instante pensei ser a corrida dos 52 anos da RTP porque havia lido o anúncio em algum lado, e era mesmo. Foi o suficiente para atrasar a chapa e para ouvir alguns dos passageiros que depois apanhei nas paragens, devido ao atraso.

Já os que estavam no interior do autocarro limitaram-se como eu a assistir à prova que passou mesmo ao nosso lado, com alguns a darem algumas gargalhadas causadas pelos trajes de alguns "atletas". Na frente da corrida iam os verdadeiros atletas, já na retaguarda iam ficando aqueles que aproveitaram o corte do trânsito para fazer uma longa caminhada entre a Marechal Gomes da Costa e o Parque das Nações. Uns de calções, outros com fatos-de-treino e outros com máscaras. Tudo servia para chamar a atenção, como foi o caso de uma mulher que passou trajada de primitiva, onde nem o carro dos flintstones faltou.

Como vêem esta manhã de domingo foi realmente diferente do habitual e até deu para descontrair um pouco e fugir á rotina habitual das carreiras que correm a cidade de uma ponta à outra. As carreiras de bairro requerem por vezes uma paciência redobrada, mas apesar de tudo eu não me importo de as fazer. Amanhã tenho outra carreira de bairro mas não a 79 e a folga, essa também se aproxima a passos largos.

Boas Viagens!
Fotos: De Pedro Almeida que não perdeu a oportunidade de revistiar os Olivais... A segunda é da minha autoria enquanto aguardava o final da corrida...

4 comentários:

||_MiX_|| disse...

Grande domingo este hein Rafael? Deu para tudo.
Na 6ª à tarde tenho que a impressão que eras tu numa 742.

Grande abraço.

André João Bravo Ferreira

Pedro Almeida disse...

Eu ia jurar que tinha ido fazer uma visita ao meu amigo Rafael Santos, mas pelos vistos fui só revisitar os Olivais.
Não tá mau pá, por acaso...
É que eu nem sabia que tinha ido revisitar os Olivais, estamos sempre a aprender contigo, é um espectáculo lool.
Já em relação ao Rui ("Papa-Bolos" (para alguns daqueles passageiros), tirando a parte das hóstias, ninguém me tira da cabeça que ganhou aquele apelido por causa do tique um pedaço incomodativo (para quem vê) que o homem tinha na boca, enfim...
Tristezas á parte, confesso que achei interessante o significado que ALGUMAS das pessoas que se inscreveram na CORRIDA da RTP deram a esta palavra.
Digo isto porque a dada altura eu já não sabia que estava a ver uma Corrida ou uma CAMINHADA, mas pronto, o que interessa é a boa disposição e o saudável convívio.

Meu amigo, um abraço e boas viagens!!

Sónia e MI disse...

Primo,lêr as tuas crónicas diárias é um fartote :D

Carlos Correia disse...

Achei piada à parte da senhora a falar da pistola. Qual seria a real probabilidade de uma senhora de idade de ao disparar acertar num eventual assaltante que provavelmente teria idade para ser filho ou mesmo neto dela? Cada vez mais fico com ideia que as pessoas dizem as coisas sem pensar.
De resto, um dia destes tenho de dar novamento um salto à carreira 79. Já há muito tempo que não vou para esses lados.

Cumprimentos

Carlos Correia

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